30 de setembro de 2012

Mário Cesariny - dois poemas e um texto sobre imaginação do seu "Manual de prestidigitação"

história de cão

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós nào há memória

dos lados não ficou nada

Só a imaginação transforma. Só a imaginação transforma. É imaginação o livre exercício do espírito que servindo-se de um ou mais aspectos do "real" passa lenta ou rapidamente ao extremo limite deste para alcançar, pouco importa em que margens, o objecto real de um irreal conquistado no espírito. Acelerar este processo levando-o a um ponto em que se torne impossível falar de real e irreal (negação da negação anterior), produzir um objecto onde tudo, simultaneamente, tem as propriedades da verdade e do erro, da razão e da loucura, do que foi encontrado e do que foi perdido, é transformar a realidade depois de a haver transtornado - é fixar, violentando a realidade "presente", um novo real poético (uno). Esse real poético dá-o o surrealismo, reunindo, até hoje insuperavelmente, Apolo e Dionisos, Vênus Urânia e Vênus Anadiômena, Ocultismo e Magia.
***
mágica
É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leite
São edênicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegância
São velhos demônios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destróem todo o pensamento
É o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sozinho
é a veia que é coração
São aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalar
São espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comuns
É uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procurada
É uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer cor-de-rosa
um ar inocente, ácido

10 de setembro de 2012

"Da arte das armadilhas", poemas de Ana Martins Marques

Esta foi uma poeta que descobri há pouco. Uma mineira que nasceu em 1977.
Ela tem algo a ver com a Fernanda Takai, do Pato Fú.
Faz uma poesia sussurrada, no limite do silêncio.

Lado a lado
d'après Anna Akhmátova

Andamos juntos
lado a lado
mas sem nos tocar

os passos repetiam
os círculos
do jardim público

as coisas nas vitrines
as coisas que dissemos

naviforme
a lua
por cima

tantas vezes
ensaiamos a partida

mas nunca fomos bons
de despedida

***
Teatro

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho

 ***
Cinema

Encontramos na rua
uma fileira de cadeias
de um velho cinema
levamos pra casa
colocamos na varanda
passamos toda a tarde
bebendo e fumando
assistindo passar
um dia qualquer

 Ana Martins Marques