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4 de agosto de 2014

PAI


Daniel Willmer
A cena é tocante,  quase grotesca, irreal: ver o homem tão envelhecido. Choca ver só pele e osso sob a camisola de hospital aberta nas costas. Em seu leito, tenta levantar o tronco, estica para fora os braços, para tentar aferrar-se às grades, com seus dedos longos e agora finos, quase transparentes, que deixam ver sob a pele as veias e capilares como se fossem pequenas enguias serpenteando. Com as mãos fechadas em volta das grades, puxa-as para si, quer se levantar, mas parece mudar de ideia, solta-as e volta a ficar deitado, exausto, exangue, tentando aferrar-se à vida.
Uma vez deitado, geme o esforço a cada expiração, sem dor física aparente, um pranto por perder seu viver. Apenas refeito, refaz o movimento, sua vida se resume a isso: deitar, levantar o tronco, abrir os braços e agarrar as grades para, mais uma vez, perplexo, soltar-se e tombar sobre o leito e gemer. Essa repetição é quase maquinal, cronometrada. Perceber que não há salvação não altera a sua ação. Ele sempre recomeça os movimentos como uma máquina extraviada de sua função.
Soltas das grades, quando o tronco se deita e enfim descansa, as mãos voltam a ficar uma sobre a outra, apertando-se mutuamente, como a se dar força para uma nova tentativa. São dias e noites que se escorrem desse jeito. Neste embate surdo, profundo, solitário – isolado do mundo – se isolando do mundo, se afastando cada dia mais um pouquinho.
Quando ele para de tentar se levantar e se entrega ao futuro, resta apenas a respiração ritmada e curta que expande e retrai o peito como de um boneco de molas, que ergue a cabeça do travesseiro num ímpeto para cair logo depois. O corpo não se mexe, não reage, não se sabe se ele nos escuta ou não, se há algum registro, ou se é apenas vida que late.
Parece que uma manhã ele quis voltar, mas tropeçou no caminho de volta e perdeu as forças que restavam.
Terá sido paz o fim da agonia? 
5.5.2014
Em 1947, Flavio de Carvalho (1899-1973) desenhou a "Série Trágica" ou "Minha Mãe Morrendo", composta por nove esquetes. Exposta no MASP em 1948, a série foi alardeada pela imprensa e execrada pela sociedade.
http://www.macvirtual.usp.br


***
Você acha que eu iria fazer uma coisa que não fosse bonita? Ele era um artista e isto é bonito. É uma coisa certa. Não estou fazendo isto para ninguém. É para mim, que gostava tanto dele.
 Glauber Rocha

A tarde nublada e o salão vazio retratavam uma tristeza sem fim ao velório de Di Cavalcanti, no Museu de Arte Moderna [1976]. Eis que surge Glauber Rocha: "Um, dois, três, ..., dez, onze, doze... Corta! Agora, dá um close na cara dele". [...] Surpreendidos pela excêntrica cena, num ambiente de sofrimento, familiares e amigos, espantados, reprovaram a iniciativa de Glauber, que recebeu um compreensível pedido da filha adotiva do pintor, Elizabeth, para interromper aquele mórbido espetáculo. "Não se preocupe. Esta é a minha homenagem a um amigo que morreu. Estou aqui filmando a minha homenagem ao amigo Di Cavalcanti. Agora, dá licença que preciso trabalhar". [...] Finalizou seu filme e, no ano seguinte, lançou o documentário "Ninguém Assistirá Ao Enterro Da Tua Última Quimera, Somente A Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável!, - Di Cavalcanti di Glauber", uma homenagem cinematográfica póstuma.

A exibição do filme foi interditada pela justiça no mesmo dia, quando da concessão de uma liminar pela 7a. Vara Cível, ao mandado de segurança impetrado pela filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti. O documentário recebeu o Prêmio Especial do Júri durante o Festival de Cannes em 1977. (Jornal do Brasil)
***
Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, ir para o trabalho, quatro horas no escritório ou fábrica, almoço, trabalho, jantar, sono, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado. Um dia surge o "por quê?" e somos tomados por uma fadiga assombrosa. A fadiga de uma vida maquinal inaugura um movimento da consciência.

17 de abril de 2014

Bichos


Maria Tereza Albernaz
Eram dois jacarés grandes e dois menores. Em fila indiana, corpos esverdeados, desciam um morro lamacento. Embaixo, no mesmo morro, eu tentava subir. Apressada, fugia de um perigo maior. Escorregava, levantava, mas prosseguia, com os olhos fixos e atemorizados em direção aos jacarés. Acordei angustiada.  
Gravura da série "Cotidiano" de Wilma Martins
         Pela manhã, a lembrança de outros pedaços de sonhos que agitaram a minha noite foi logo dissipada, mas não esqueci os bichos rastejantes e a sensação assustadora da ameaça.
         Esta cena com bichos e eu tomada pelo medo me fez lembrar um episódio ocorrido no tempo em que, menina de sete, oito anos, morava no interior, em uma casa grande, cercada de jardim, pomar e quintal. Galinhas, patos, perus andavam soltos pelo terreno e porcos, presos em baias nos chiqueiros, precariamente trancados, muitas vezes escapuliam para passear. Eu convivia e transitava entre os animais domésticos sempre que brincava ao ar livre ou corria para pegar frutas.
         Por mais incomum que pudesse parecer, não existia animal de estimação na minha família. Tantas crianças e nenhum cachorro ou gato, nem mesmo um filhote. Talvez, por poucos dias, um porquinho da índia ou um pintinho, logo afastados de seu dono. Meus pais não gostavam de bichos em casa.
         Passamos a ter um animal quando um amigo de meu pai deu de presente para meu único irmão um cavalo e para nós, meninas, uma charrete puxada por uma mula. Não me recordo se escolhemos ou se os animais já vieram com seus nomes – Russinho e Margarida. São os únicos nomes de bichos que vêm de minha infância.
         Margarida tinha sua graça e gostávamos dela, mas nenhuma das meninas se apegou à mula. Não demorou muito e deixei meu lugar na charrete para as irmãs menores. Também já queria montar um cavalo. Mas eu não escolhia nada, o cavalo já chegava para mim selado e pronto para sair. Vários me serviram de montaria nestes tempos. Não gravei nenhum deles em especial, muito menos qualquer nome.

        Por conta do sonho angustiante dos jacarés, me lembrei de um episódio inesquecível passado na infância. Em uma manhã, com minha irmã mais próxima de idade, me  afastei um pouco da casa pelo quintal dos fundos, não sei para onde, nem porquê. Esse tipo de saída, quando estávamos sozinhas, não era permitida e andávamos com cautela e contido entusiasmo. Porém, não fomos longe. Me recordo com nitidez de nós duas correndo  desesperadamente de volta, perseguidas por um cachorro que latia alto. Não esqueço do vira-lata branco com manchas pretas, de uma sandália caída no caminho e dos vestidos levantados pela correria. Que susto. Que medo de ser apanhada por aquele cachorro. 
Ilustração de Rui de Oliveira para "Chapeuzinho vermelho" de Charles Perrault
         Hoje não tenho preferência, nem sou atraída por animal nenhum. E mais, sinto desconforto com a proximidade de qualquer bicho.
         Todavia, como lembranças do passado não produzem somente traumas, já adulta, em uma viagem a longíquo país, me senti tranquila e contente ao utilizar como transporte um elefante e um camelo – graças talvez à boa experiência com a Margarida, a mula que puxava a charrete, e aos cavalos montados na infância.
Ilustração de Poty para "Sagarana" de Guimarães Rosa

14 de janeiro de 2014

História do primo Lobinho

Extraída da crônica "Livros, leitores e antileitores" de Roberto da Matta,
em O Globo de 09 de novembro de 2011

Meu colega e amigo, o cientista político Eduardo Raposo, ouviu de seu primo Lobinho a seguinte história: um sujeito chega numa biblioteca e pede um livro de botânica. O funcionário prontamente lhe apresenta, com um sorriso alvar, "Raízes do Brasil".

Na tal biblioteca, encontram-se nas estantes:
"O idiota", em psicologia
"A interpretação dos sonhos", na de esoterismo
"Sobrados e mocambos", catalogado como engenharia
"A montanha mágica", astrologia
"Memórias póstumas de Brás Cubas", kardecismo
"Lolita", na lista de livros para moças
"A guerra das salamandras", em história militar
"Cem anos de solidão", prateleira de geriatria
"O cru e o cozido", culinária
"Hamlet", receitas inglesas
"Madame Bovary", pornografia
"Os Maias", etnologia centro-americana
"A neves de Kilimanjaro", setor de clima e ecologia
"As viagens de Gulliver", turismo
"O poder e a glória", política
"Carnavais, malandros e herois", listado tanto nas obras devotadas às escolas de samba quanto na prateleira de fraudes e contravenções
Fonte: Vida e Estilo

21 de agosto de 2013

Crônica civilista

Bia Albernaz
para Iloni Seibel, in memoriam
          Tudo começou em Santa Teresa. Esperei cerca de 40 minutos no ponto. Assim que cheguei, notei o gatinho. Estava na soleira da porta de uma mulher que ali, todos os dias, lhe deixava o que comer. Era uma gata quase preta como a minha, também da rua. Essa estava triste, aproximou-se de mim e disse uma mulher com uma trança escura pendente de um dos lados. De brincos dourados e fala solta, ela me contou: se fosse meu marido, ele apanhava o gato. A conversa estendeu-se e os olhos também. Cadê esse ônibus que não vem? Consegui um lugar mas no Guimarães me levantei: uma fila de cabeças brancas subia, degrau a degrau. E, a cada um, o motorista cobrava, esperava, cobrava, esperava, cobrava.
          Fui para a parte de trás no recuo do ônibus com a mochila pesada num ombro só. Pensei na mulher que se gabava de dançar "pole dance" enquanto me equilibrava com um bráço no alto, seguro na haste de metal. Depois mudei de posição e passei a me equilibrar com o corpo encostado na haste vertical e, junto com todo mundo, desci a sacudir pelos paralelepípedos ladeira abaixo até o largo da Carioca. Ali o motorista impacientou-se: para ele o ponto final devia ser antes do ponto final e quando eu pedi para ele parar... no ponto final, me olhou com cara de nojo. Fui saltar, mas uma velhinha se aproveitou: vou saltar também. Deixei que fosse no seu passo lento à minha frente e, antes que eu colocasse inteiramente os meus dois pés no asfalto, o ônibus já se mexia, partia.
          Ufa, agora o metrô, sempre mais civilizado, mesmo que primeiro em pé, depois sentada. No caminho até o Estácio deu para puxar um livro - gatilho para se distrair no gozo de um assento vago. E foi até o Estácio porque a estação da Prefeitura, para onde eu ia - a Cidade Nova - ficava na linha 2. E descobri, com cem anos de atraso: há uma linha 2 no metrô!
          Então, a surpresa - a Cidade Nova também existe. E como! Para se ter uma ideia do cenário com prédios de convenções, vidros nas janelas, capacetes, operários, cheiro de poeira misturado ao pó de cimento, o nome da rua onde passei é Beatriz Lucas Goidorotti (ou algo assim), pessoa que morreu em 2004, e era, explicava a placa, um empresário do ramo dos seguros. Grande mistério, um homem chamado Beatriz Lucas e, ainda por cima, homenageado com o batismo de uma rua. Ao fundo vi. Era um prédio azul-prata com vidros cegantes onde, em letras descomunais, reinava o nome de uma grande companhia de seguros, e pressenti o conluio.
          Na Prefeitura, a cidade vira uma espécie de circo ou de feira, uma gincana sem graça em todo o caso, até se acertar a fila em que se devia estar. E ali ficar a ruminar uma raiva cidadã. Mas a indignação era pouca, muda. Ainda bem que eu tinha ali o meu gatilho logo devidamente disparado. Ah, os assuntos do século XIX, iguaizinhos aos nossos. Só que agora o ócio da discussão pela manhã entrega-se às apresentadoras no monitor de uma tevê ao fundo, ai que monotonia!
          Sua vez! Um guarda na porta indica que agora cabe a mim a vez de mostrar meus metais para  passar a roleta e entrar na agência do banco e esperar lá dentro, ainda que sem lugar para sentar. Depois de deixar ali um pouco do meu sangue, do meu suor e da dureza do meu dever em forma de imposto, fiz o caminho de volta.
          À frente da Prefeitura, um protesto de guardas municipais, que gritavam vergonha, vergonha, salário de fome e o prefeito que só negocia com o povo nas ruas mas com eles não. Ai, ai! Passo pela Beatriz Lucas e desço novamente na estação das catacumbas do Estácio mas nada aqui parece sagrado ou histórico ou pitoresco por isso espero poder sentar e poder ler mais um pouco.
          Mas esqueci de dizer: o céu nesse dia estava azul. Muito. Desci na São Clemente e entrei no jardim do Rui Barbosa. É um espaço mais republicano. Aqui estamos, aqui nos deixamos ficar em um banco de madeira, entre bebês, aposentados e babás.
          Estamos fazendo a digestão, nós, os do ócio. As babás e as mamães, não. Essas sumiram enquanto eu revia meus passos e as caras das pessoas, antes delas se afastarem para sempre. Os bebês se foram. É hora dos que tem casa e comida ou dos que têm de se arranjar sem um ou outro. Então, boa tarde, digo eu. Falo para dentro mas miro o meu olhar ao redor - funcionários contratados divertem-se nessa meia-hora entre um ir e um vir. Como não se fura a fila nem se adianta a hora, cada um, a seu modo, espera, se esprai ou se espanta, que a vida é de se espantar.

8 de abril de 2013

Wlademir Dias-Pino




Brasília e a Poesia Concreta
Wlademir Dias-Pino [1958]



    •     a arquitetura
    Um homem americano parado em sua roupa de linhas retas – calças e paletó e até mesmo com cartola – muito se assemelha a um arranha-céu. O indígena escolhe para tanga a palha que cobre a taba. O árabe, esse, se veste com a forma de uma tenda. A japonesa carrega nas mangas do vestido formas semelhantes a beirais de seus telhados. É que o homem, na rua, psicologicamente, quer se sentir protegido. É, também, que a arquitetura sempre foi um marco – monumento vivo – ao tempo que o homem habita.

    •     os tempos
    Um Hitler porque estava no poder apoiando-se na tradição militarista alemã era contra a renovação. Já Mussolini – embora fosse um homem que concordasse com o ditador alemão – estava tomando o lugar do rei, então, não podia, de forma alguma, firmar uma tradição e era pela renovação.
Aqui no Brasil o modernismo de 22 estava cercado por uma série de acontecimentos políticos. A geração de 30 ajudada por Getúlio Vargas fez a literatura social-econômica do nordeste. Uma literatura abrasante. Era um estado novo para o Brasil.
    A leda e pálida geração de 45 anunciava o enfraquecimento dos partidos políticos. Agora surge o Concretismo 1956 justamente na época do nascimento de Brasília. É que o Brasil começa a se industrializar. Há uma renovação constante de técnica na procura de uma técnica toda nossa e isso é também o Concretismo.
    A poesia concreta quer resolver o espaço branco do papel pela maneira mais funcional. Poesia concreta é espaço e luz. Nem é à-toa que um poema concreto se assemelha a uma sadia planta arquitetônica.
    É que Brasília e Poesia concreta são um marco ao tempo que o homem habita.

    •     um poema
    Se fossemos fazer um poema concreto em homenagem ao Sr. Juscelino, por ex., teríamos conscientemente de dividir o trinômio.

    escola
    energia
    transporte

    escola - seria o abc.
    energia – seria a existência de cada palavra habitando um tempo, isto é, revelando um espaço.
    transporte – a movimentação pela própria ordem alfabética então, reunindo as “sínteses” teríamos o poema:

        a b c d e f g h i JK

29 de agosto de 2012

DEPOIMENTO: DESPEDIDA DO CONDOMÍNIO SANTA LEOCÁDIA

ANGELA BRANCANTE CARRAZEDO 
psicanalista / arte terapeuta
STA. LEOCÁDIA – AP.17

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Moro no Condomínio Santa Leocádia desde 1983 – morei em vários apartamentos – 11, 17, 23 e 17 novamente. Era permitido aos moradores trocar de apartamento de acordo com a necessidade – de um menor para um maior, ou de um maior para um menor.

Pensei que minha morada em Santa Leocádia seria eterna, mas com grande tristeza, fui surpreendida pelos últimos acontecimentos e me dou conta de que tenho de começar a me despedir deste lugar que amo tanto.  

Me despeço do bondinho que nos transporta para este espaço mágico e encantado casulo verdejante, longe do asfalto de Copacabana.
  
Me despeço  do cheiro desta floresta, dos pássaros, das borboletas azuis, dos macaquinhos que nos visitam todos os dias, das dezenas de gatos que criei, do silêncio, e da paz deste lugar onde posso hibernar do mundo.

Me despeço de todas as lembranças pitorescas que vivi "neste lugar fora do mundo" uma gambá entrou em minha casa e seus filhotes vieram atrás, estavam todos embaixo da mesa da televisão; coloquei uma ponte de madeira entre minha janela e uma árvore para os gatos poderem entrar e sair, um dia um gato trouxe um filhote de macaco na boca, ele caiu da árvore, consegui devolve lo para sua mãe – macaca... e muitos outras lembranças!

Me despeço de minha casa colorida, onde por amor aos gatos criei o “Atelier do Gato: A Casa do Gato” – objetos para quem ama gatos!

Me despeço deste lugar mágico que me acolheu nos melhores e piores momentos de minha vida.

Me despeço deste lugar e de minha casa, como quem se despede de uma pessoa muito querida!

De repente, não mais que de repente eu e mais 29 pessoas recebemos uma carta - Santa Leocádia foi vendida... terão 30 dias para deixarem seus imóveis.... expulsos do paraíso!
http://www.facebook.com/condominiosantaleocadia?filter=1

Como psicanalista, trabalhando com afetos e desafetos ...não compreendi bem este “tratamento”! Quem somos? Peças de um jogo de xadrez? Vendeu – comprou – saiam!
 
Para além do que possa acontecer em nossas vidas humanas, temos enorme preocupação quanto ao que será feito deste lugar – “ jóia histórica preciosa” construída na década de 20.

Qual será o destino do Condomínio Santa Leocádia?

Em junho, com as fortes chuvas muitas árvores desabaram – seria o prenúncio de um acontecimento eminente? Será Santa Leocádia “sacrificada” em nome da Copa 2014????

Estaremos diante do início da construção de CIDADESHUMANAS???

28 de maio de 2012

Este mundo em que vivemos 2

Gainsborough, um detalhe
          Maria Tereza Albernaz
          Entrando no grande apartamento, logo percebi que não havia nada fora do lugar, nada fora de ordem. Salas sóbrias, cores neutras e perfeita arrumação dos móveis, quadros e objetos decorativos. Não era necessário ser conhecedora de reformas e decoração para saber que boa qualidade era uma exigência da dona da casa. 
          No apartamento, dez mulheres se encontravam para festejar o aniversário de M. 
      Os janelões abertos refrescavam o ambiente e mostravam a linda paisagem do mar e das montanhas que acolhiam o Alto Leblon. Brancas flores delicadas, combinando com a toalha, enfeitavam a mesa. Três empregadas uniformizadas, entre uma e outra convidada, ofereciam canapés e sucos naturais. No almoço, a comida frugal e sofisticada descansava sobre os aparadores. Um vinho leve foi oferecido. Bolo, velinhas, nem pensar. Depois do café, servido em frágeis xicrinhas de porcelana, algumas amigas, tranquilamente, foram fumar em uma das salas. 
        Todas nós, mulheres, tínhamos aproximadamente a mesma idade – um pouco mais, um pouco menos de 60 anos. Jóias discretas, roupas clássicas, básicas, pouco coloridas, algumas rejuvenescidas por uma peça ou um detalhe mais moderno. Extravagante, original, sexy? Nenhuma. Vulgar, muito feia ou muito gorda? Também ninguém. Todas bem cuidadas, tratadas. 
         A conversa girava sobre temas gerais. Quando o assunto referia-se à família, o foco estava nos filhos, seguidos por noras e netos. Sobre os genros, pouco se comentava. Muito se falava sobre viagens, países visitados, férias. Bons restaurantes contrapunham-se a dietas e atividades físicas praticadas pela maioria. Depois da troca de recomendação de filmes e livros, debatemos planos de fim de semana. Nada de temas polêmicos, discussão. Nada de exposição de problemas ou demonstração de excitação. 
      Eu era parte do conjunto. Monótonas, umas parecíamos com as outras. A falta de ardor exasperava. Tive de sair.
Gainsborough, outro detalhe (do blog da Duquesa Devonshire)

24 de abril de 2012

Este mundo em que vivemos 1


Maria Tereza Albernaz
Ilsutração a partir de foto (Voluvia)
          O cheiro forte de peixe e flores velhas provoca náusea quando se entra na Rocinha pela ladeira de cima. As ruas estreitas sujas, pontilhadas de detritos intensificam o cheiro, e caminhar pelos calçamentos irregulares e degraus desalinhados exige atenção redobrada. Por algumas paredes e por pequenos buracos, faça sol ou chuva, escorre uma água escurecida. O emaranhado de fios elétricos sugere que a qualquer momento um forte curto circuito vai acontecer.  
          Entre portas fechadas ou entreabertas, na rua principal, lojinhas de todo o tipo oferecem comida, bebidas, roupas, material de construção e serviços, principalmente de consertos de televisão. Barulho e música alta. Dividindo a rua com passantes, em tabuleiros improvisados, multiplica-se o comércio de DVDs e CDs piratas, picolés, balas, biscoitos e muito mais.
          O trânsito de gente e cachorros é intenso. Mercadorias e sacolas são levadas de um lado para o outro e os carregadores pedem prioridade anunciando a carga pesada. Algumas crianças encontram espaço para brincar e jogar bola. De cócoras, alguns velhos quietos lembram figuras em paisagem rural. Inusitados no ambiente, os grupos de estrangeiros, jovens em sua maioria,  anotam, fotografam e reúnem-se em cantos para escutar o instrutor ou guia.
          Ritmo frenético, quente demais no calor, úmido e frio nos tempos chuvosos. Esta é a primeira impressão que tive da Rocinha e que persiste a cada dia que entro lá. O mesmo espanto, o mesmo mal estar, a mesma tristeza e tantas dúvidas.

2 de abril de 2012

Comissão da verdade

Renata Figueiredo
          Era uma loja de luxo, de grife, no Rio de Janeiro, num shopping de bacanas no bairro de São Conrado. O motivo de ter entrado na loja era um só, comprar uma roupa bem bonita para a festa de aniversário do meu filho que estava fazendo 4 anos. A proposta era comprar algo neutro, básico, porém colorido, sexy e original. Querendo ou não, eu era a mãe do aniversariante, e queria estar bem bonita para comemorar mais um ano de vida de meu filho tão amado.
          Assim que entrei na loja fui abordada pela vendedora que, muito simpática, tentou me ajudar a escolher uma roupa para a ocasião. Ela era jovem, magra, falante. Tinha um jeito bem parecido com o meu. Não demorou muito, e já estávamos nos tratando como se fossemos amigas de longa data. Escolhemos juntas exatamente aquilo que eu procurava. Uma calça rosa básica, discreta, que se destacava pela sua cor e corte alinhado, e uma blusa de tricô, da cor vinho, de manga três quartos, com uma ligeira abertura nas laterais dando um ar levemente ousado e jovem à roupa. Essa foi a primeira compra de muitas outras.
          A loja cresceu e abriu uma filial em Ipanema.  A vendedora que, para mim, já era uma amiga, foi ser gerente da nova loja. Eu, cliente assídua, não tinha uma vez que não fosse recebida de forma amável e carinhosa. Consumidora assumida, sabia que ali existia, além da troca comercial, uma amizade que a cada encontro ia crescendo.
          Vida dura, de ralação, horas e horas de venda e ela me mostrava tudo e mais um pouco. E eu por gostar e poder dispor de horas dentro de uma loja e ter dinheiro mais que o suficiente, acabava comprando tudo o que via na minha frente. Ganhava em roupas e em momentos agradáveis ao seu lado, e ela ganhava em comissão, e também em momentos agradáveis ao meu lado. Plena consciência do que era a nossa relação.
          Passados uns tempos, fui cansando desse consumismo, não precisava mais e, financeiramente, não podia mais. Por isso, deixamos de nos ver com tanta freqüência. Passava rapidamente pela loja e apenas conversávamos sobre amenidades. Até que um dia ela me falou que estava saindo da loja para abrir a sua própria marca.
          Chegada a hora da inauguração, lá estava eu, prestigiando e comprando. Bem menos do que antes. Queria mesmo era poder ter alguma coisa dela, como lembrança, como prestígio e ter uma peça como parte da nossa história, dessa nova história. Literalmente, incorporei o nome  da marca. É coisa delas. Nos entendíamos e isso bastava.
          Depois disso, na grande montanha-russa da vida, aconteceram tombos e vitórias. Mudanças daqui e dali, de endereços, de sócios... mas lá estava ela, sempre dando seu jeito, mexendo seus pauzinhos, na luta. Hoje, o forte da sua loja é a malha, o básico, o confortável, o bom gosto e a beleza. Ela é a modelo que veste e vende seus produtos. Com a mesma simpatia, sorriso, brilho, força e garra de uma boa libriana. Isso mesmo, libriana de carteirinha. Aí deve estar o segredo, o mistério que transformou uma relação entre cliente e vendedora numa de amiga para amiga. O empurra-empurra acabou virando comissão da verdade, e ainda pago da melhor forma possível, com direito a desconto e tudo. E assim continuamos, trocando de roupa a cada encontro, sem deixar de lado a beleza que é o nosso presente, e que nos faz enxergar as verdadeiras e boas aquisições.

21 de dezembro de 2011

Atropelamentos

          Na semana passada, fui chamada para falar sobre a obra infantil de Clarice Lispector na Biblioteca Municipal de Botafogo. Uma das pessoas que convidei para me dar uma força na platéia foi uma aluna, agora uma amiga. Mas infelizmente ela não pôde comparecer. No dia seguinte, justificando-se, me enviou a seguinte mensagem: “não consegui ir. Fui atropelada na ciclovia por um menininho de skate. Caí da minha bicicleta e fiquei toda machucada. Uma pena... Espero que tenha sido ótimo.”
          Na mesma hora, respondi a ela. Precisava responder a ela:
          Puxa, que susto! Espero que tudo esteja bem agora. Lá na biblioteca deu tudo certo. Mas também fui "atropelada" por uma menininha na praça, enquanto esperava para falar. Cheguei cedo. Dava tempo de descansar sentada num banco do lado de fora, tranquilamente tomando um suco de laranja. Foi então que se aproximou uma menininha pretinha de cabelos cortados rentes como os de um menino, blusa cor de rosa com estampa prateada e calças azul celeste. Ela era um vulto sujinho, sorridente e aberto. Chegou, sentou ao meu lado e de imediato pediu o meu suco de laranja, praticamente o meu último gole. Olhei pra ela, já sentada do meu lado: "você quer meu último gole de suco de laranja?" "Quero. Eu tô com sede." Então começamos a conversar aquela conversa que nós, "seres civilizados", conversamos quando encontramos um serzinho encardido e belo como o de Andreia. 
          Perguntei-lhe onde ela morava. Ela disse que na rua. Olhei-a bem, sem acreditar totalmente e perguntei: “aqui?” “Não, em Copacabana. Estou com meu pai.” E apontou um homem dormindo num banco mais adiante. Quis saber seu nome e, como ela percebeu o meu bloquinho e os meus rabiscos,  disse que iria escrevê-lo para mim. Tirei meu estojo da bolsa. Dei-lhe um lápis e, junto, um pequeno chocolate. Abri o bloco numa página em branco. Eu queria dar  à menina o máximo que podia no pouco tempo que teríamos juntas. Com extremo cuidado, Andreia pegou no lápis. Antes de começar a escrever, afastou um pouco o bloquinho, analisando o espaço da folha em branco e o lugar onde depositaria o seu nome. Escolheu um canto muito à direita. Tentei lhe mostrar que deveria começar a escrever pela outra margem. Não adiantou. Ela voltou ao canto que havia escolhido e ali escreveu seu nome como Leonardo da Vinci o faria: espelhado. Depois me disse o seu nome todo, que eu não me lembro porque era muito grande. Sei que o segundo nome era "Joy". Andreia Joy. Depois, arranquei três folhinhas para ela desenhar. Em seguida, atendi outro pedido seu. Entreguei-lhe uma borracha,  escolhendo a melhor das duas que tinha.
          Esqueci de dizer. Também dei o suco a ela, que o bebericou, deixando-o logo de lado. Empolgada com outras coisas que saíam da minha bolsa, esbarrou no copo e o derramou. 
          Em nossa conversa, também falamos sobre o imprescindível assunto: escola. Ela não ia. Disse que estava esperando uma cirurgia no umbigo. Então levantou a blusinha e me mostrou a protuberância em sua barriga no lugar onde temos o umbigo. E me contou que a professora não queria que ela fosse à escola porque o seu umbigo podia estourar. Contestei: "mas você me disse que nasceu com ele desse jeito, não foi? Não vai estourar de um dia pro outro."
          Andreia olhou pra mim: "ela (a professora) disse que o que eu tenho aí dentro pode pegar nos outros. Pode ser uma doença que 'pega'."
          O que a gente faz com nossa indignação nesse caso? Fiquei ali detestando a tal professora. Mas logo em seguida, vieram me chamar. Estava na hora da palestra. Perguntei a Andreia se queria entrar na Biblioteca. Disse que lá havia um bocado de livros. Mas já era noite. Ela não podia entrar. 
          Enquanto isso, o pai de Andreia dormia. Eu havia dito a ela para lhe pedir permissão para me acompanhar. Não sei se perguntou porque foi até o pai e voltou muito rápido, com um sorrisão, dizendo que ele tinha deixado. Na verdade, não sabia bem o que fazer. Estava preparada para contar uma história infantil da Clarice Lispector para um público de adultos. Antes de iniciar a palestra, compartilhei com algumas pessoas da platéia a minha sensação de inutilidade. Uma delas se ofereceu para tomar conta de Andreia enquanto eu falava, mas mesmo assim acharam melhor ela ficar lá na praça junto ao pai que dormia. Foi muito estranho e inesquecível ver Andreia, do outro lado da porta de vidro do auditório, me encarando com o seu corpo todo, como se ela fosse uma lagartixa pregada fora da janela. Eu falava um monte de coisas e me consolava, dizendo a mim mesma que  talvez assistir uma palestra fosse uma coisa muito chata para a menina. Não sei. 
          Havíamos brincado com nossos dedos. Não me lembro se chegamos a nos dar as mãos. Mesmo sabendo que ela não podia entrar, levei-a para uma área descoberta, do lado de dentro dos muros da biblioteca. Ela quis dar a volta em torno do prédio mas não havia passagem e já não dava mais tempo. 
          Na verdade, a conversa com a platéia estava muito simpática e seguia divertida. Enquanto eu falava, a noite caía. Quando saí não encontrei mais Andreia. Eu tinha dito a ela que, no final, lhe daria um livro. Lembro-me agora de seu rosto, com as palminhas das mãos abertas acima dos olhos, buscando-me, cada vez mais distante. Ela estava se despedindo. Andreia Joy, que a vida não lhe machuque, que o mundo não lhe machuque. Obrigada, Andreia. Desculpe-me, Andreia.
          E a você também, querida amiga. Obrigada, por ler este meu relato até o fim. Este registro estava precisando ser feito. Beijo, e se cuide com a bicicleta, hein? Não se distraia, muito. Aproveito para desejar um feliz natal, com muitos sorrisos inocentes de Andreia Joy pela frente – um verdadeiro atropelamento de borboleta. Reze por Andreia Joy, mesmo que você não costume fazer isso. Ela é um bom motivo pra gente se lembrar de querer um mundo melhor.
          Com o carinho, da Bia

Momento vivido

Ruth Lifschits
          Hoje de manhã, atrasada e pensando no que teria de enfrentar nas próximas horas, uma voz suave me trouxe de volta para onde eu realmente estava e devia estar: em casa e com o neto em apuros.
          — Vó, meu dever de casa está confuso.   
          Pedi a ele que lesse o enunciado da questão. Ele leu em voz alta:  “acrescente uma letra às palavras abaixo e crie novas palavras”. 
          Ele tinha criado bamba ao inserir um ‘m’ entre as duas sílabas de baba e queria saber se essa palavra existia. 
          — Existe sim. 
          — Mas o que é bamba?, ele perguntou. 
          — Já vamos descobrir, disse, enquanto alcançava meu ‘Aurélio’ na estante. 
          Mostrei a ele o dicionário, dizendo:
          — Aqui estão quase todas as palavras da nossa língua. 
          Ele arregalou os olhos: 
          — Que livro grandão! 
          Pediu para segurá-lo, queria ver se era pesado. 
          Juntos, folheamos o dicionário. Mostrei a ele a ordem alfabética na listagem dos verbetes e sugeri que procurássemos a palavra bamba. Deixei que ele virasse as páginas, procurando o grupo das palavras  começadas com b. Ele foi para o começo do livro, passando as páginas com delicadeza e parando os olhos aqui e ali para se orientar. Me mostrou que ban vinha depois de bam, e finalmente achou a palavra. Mostrei a ele que havia explicações sobre o sentido e o uso de bamba — as definições. Lemos todo o verbete e pensamos em exemplos diferentes dos que tínhamos acabado de encontrar. 
          Ele fechou o livro e voltou para a mesa de estudos, já sabendo a frase que escreveria com a palavra que acabara de aprender.                  
          Acariciei  o bom amigo Aurélio e o devolvi à prateleira.
Capa da primeira edição, do designer e ilustrador ítalo-brasileiro Gian Calvi.
Para acessar o Dicionário do Aurélio online clique AQUI.

19 de dezembro de 2011

Em bons lençóis

A cama da vovó
Renata Figueiredo
          Dormir na casa da minha avó sempre foi muito prazeroso. Adorava quando meus pais saíam ou viajavam e me diziam que tinha que dormir ou passar o fim de semana na casa dela. Estar em sua companhia era sempre um novo ensinamento. Aprender a fazer uma cama foi uma das muitas coisas que aprendi com ela. A hora de dormir é um momento nobre, dizia. A hora em que vamos descansar de nosso dia. E a cama é o lugar onde vamos sonhar. Tínhamos então que prepara-la como uma cama de princesa, de rainha, para podermos enfrentar bem o dia seguinte. Primeiro lençóis limpos, cheirosos e bonitos. Segundo, esticá-los bem sobre o colchão. Para finalizar, com uma raquete de ping-pong, fazê-los entrar bem nas beiradas da cama, evitando assim que eles saiam com nossos movimentos quando dormimos. Ela sabia o quanto eu era agitada e me mexia durante a noite. Adorava ver todo esse ritual, e dormia realmente como uma princesa toda vez que dormia com a vovó. Ainda mais quando ao deitar ela vinha com todo amor e carinho me cobrir e me dar um beijo de boa noite, dizendo: temos que dormir cobertas. Dormir sem se cobrir não é a mesma coisa, não descansa. Como não ter uma boa noite assim?!
***
Hábito Antigo 
Arlette Santos
          Não sei por que, cedo adquiri o hábito de arrumar minha cama logo que me levanto. Quando criança, morei em Petrópolis, na região serrana do estado. Por ser uma cidade fria e úmida, deixavam-se as cobertas expostas ao sol para arejar, e só mais tarde faziam-se as arrumações.
          A meu ver, existem dois momentos na preparação de uma cama ao longo do dia: ao acordar – dispondo-a para o longo período em que não será utilizada, e antes de deitar – quando o ninho é feito para o período de repouso.
          Ao me levantar, ajeito o lençol de forrar e coloco o de cobrir à noite com a parte superior dobrada, pronta para dormir. A seguir, cubro com uma colcha ou acolchoado que dê ao quarto uma boa aparência. Por fim, coloco um travesseiro da largura da cama, com fronha que combine com a colcha.
          À noite, tudo fica mais simples: basta retirar a colcha e o travesseiro, substituindo-o pelo que uso para dormir – mais macio e feito de penas de ganso. Caso haja necessidade, acrescento uma colcha ou edredon. E antes de me deitar, já arrumo a colcha e o travesseiro que não serão usados à noite de forma a facilitar o trabalho da manhã. 
          Preocupo-me sobretudo com o conforto e a praticidade. Uma amiga fisioterapeuta me indicou o colchão de futton, que não enruga o lençol e facilita a arrumação. E – principalmente quando se vive só – uma colcha atenua a falta de outras coisas...

8 de novembro de 2011

A volta do meu mundo rosa

Renata Figueiredo
Keith Haring. Ilustração do livro Love
          Vou lhes contar sobre o meu companheiro, o que me protege, me embeleza e torna o meu mundo cor-de-rosa. De cara, assim que o vi, me encantei. Primeiro, pela sua cor, depois, por ele representar justamente o que estava sentindo naquela cidade-luz, tudo era rosa. E por último, pela confiança em saber que ele não me deixaria na mão, afinal ele era de boa qualidade e de uma marca conhecida. Foi paixão à primeira vista. E me entreguei, com um pouquinho de receio, por este ser mais um, dentre tantos que já possuía. Seu preço era mediano. Na verdade, não deveria adquiri-lo mas o impulso foi mais forte que eu, não resisti, e acabei comprando-o. Feliz com a minha nova aquisição.
          Diretamente de Paris, ele veio juntinho de mim para a cidade maravilhosa. E todos os dias, passou a ser meu fiel parceiro. Houve uma vez, numa viagem à capital, no cerrado, em terras planaltinas, por um descuido, que o esqueci num quarto de hotel. Senti sua falta. Pensei em buscá-lo mas não ficamos muito tempo longe. Um anjo, lindo, teve o cuidado de reparar o meu esquecimento e trazê-lo para mim. Foi a primeira vez que o vi numa outra pessoa e confesso que gostei.
          Seguimos em frente em minha cidade, e sempre juntos. Até que por mais um descuido me desencontrei dele. Fui para minha aula de literatura e, no final do encontro, procurei por ele e não achei. Procurei daqui, procurei dali, e nada. Puxei da minha cabeça: quando foi a última vez que o vi? Tinha quase certeza que havia colocado meu companheiro sobre a mesa. Sabia que, num intervalo, tinha ido até o bar tomar um café e, no final, tinha passado no banheiro. Fui à busca. Olhei no bar, no banheiro, pelo chão, minhas amigas do curso examinaram suas bolsas, todos me ajudaram e nada. Fui para casa de  bicicleta  com um incômodo enorme. Quem me protegeria, camuflaria a minha tristeza e me daria a esperança de ter um mundo cor-de-rosa?
          Chegando em casa, desolada, me agarrei na última esperança: mandar um e-mail para todas as minhas amigas do curso para saber se alguém o havia levado por engano. Enviei a mensagem e cruzei os dedos bem fortes. Até rezei para que ele voltasse. Ficaria arrasada de tê-lo perdido por um descuido. Definitivamente ele não merecia isso.
          Até que, para minha felicidade, recebi uma resposta da minha amiga Gilda Niemeyer dizendo que ele estava com ela. Agradeci, e muito! E fiquei mais feliz ainda pela coincidência, pois ela foi a pessoa que me proporcionou a enorme alegria de poder desfrutar da melhor festa de quinze anos que vi na minha vida. A minha! Realizada em sua casa, pasmem,  projetada pelo meu ídolo, Niemeyer. Pois então. Mais uma vez ela me proporcionava uma enorme felicidade.
          Na aula seguinte, assim que cheguei, ela o colocou de volta em minhas mãos. E o que mais me chamou a atenção foi o detalhe como entregou o meu querido. Justamente da maneira como ele merecia ser cuidado, dentro de uma capinha própria. O que me fez pensar que tenho de cuidá-lo melhor porque não é sempre que terei uma sorte dessas. Bom, o que tenho a dizer é: obrigada por ter voltado, desculpa pela minha falta. Podem dizer por aí que você é plural, é mais de um. Mas para mim você é único. Te amo, meu óculos Ray ban cor-de-rosa.

1 de novembro de 2011

Meu Rio de Janeiro

J.Carlos
Arlette Santos
          Maricotinha – como carinhosamente a chamam em família – não nasceu no Rio de Janeiro, mas considera-se carioca. Não há argumentos que a façam duvidar desta afirmação. Pouco importa o que pensem os intelectuais, o que está escrito no Aurélio ou no Houaiss, o que vale para ela é o que sente, resultado de quase sete décadas aqui vividas.
          Está com oitenta anos e se orgulha da coincidência de ter nascido no mesmo ano em que foi inaugurado o Cristo Redentor, que além de ter sido construído em local privilegiado parece representar um Deus verdadeiro – forte, altaneiro, como a dizer: Aqui estou, agora e sempre, abençoando e protegendo aqueles que aqui moram e os que vêm de terras próximas e longínquas para me reverenciar.
          O número de pessoas importantes nas áreas política, cultural, jornalística e televisiva que neste ano completam oitenta anos é bem significativo, mas para Maricotinha o que importa e traz orgulho é anonimamente manter este vínculo com o Cristo Redentor.
          Em junho de 1943, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial. Sua família, na expectativa de encontrar novos rumos, mudou-se de uma das cidades serranas do estado do Rio de Janeiro para a capital, indo morar em Quintino Bocaiúva, subúrbio da Central do Brasil. Apesar das circunstâncias desfavoráveis – pai sem emprego fixo, família numerosa (eram nove irmãos), produtos racionados (açúcar, por exemplo, era limitado à quantidade prevista em uma cartela, de acordo com o tamanho da família) – sentiu-se abençoada: a chegada ao Rio viajando de trem numa manhã fria do dia de São João a excitava. Conhecer novos bairros, ver o mar pela primeira vez, cruzar a Baía de Guanabara e chegar a Niterói – quanta emoção! Em sua cabeça de menina pobre só passavam pensamentos positivos: iria crescer nesta cidade, estudar, ter um emprego. Tudo iria mudar, e para melhor.
          A adaptação foi tranqüila. No bairro em que moravam a criançada brincava nas ruas despreocupadamente. Os portões estavam sempre abertos. Não havia grandes desníveis sociais entre seus moradores. A convivência era alegre e pacífica. Maricotinha e seus irmãos frequentaram uma das escolas públicas do bairro. As professoras eram formadas pelo Instituto de Educação – tradicional colégio situado na Rua Mariz e Barros. Usei a profissão no feminino porque naquela época só meninas frequentavam a Escola Normal. Bem mais tarde é que foi permitido o ingresso de rapazes, e demorou ainda muito tempo para que, em contrapartida, as moças viessem a ingressar no Colégio Militar.
          Descendia de imigrantes portugueses, tanto pelo lado paterno como materno. Devido à idade, seu mundo era bem pequeno, porém feliz. Só depois de estarem no Rio de Janeiro tiveram seu primeiro rádio. As notícias passaram a encher suas vidas, e o mundo ganhou novas proporções. Ainda hoje, parece ouvir o comentarista do Repórter Esso dando a notícia do término da Segunda Guerra, e reviver a emoção que tomou conta da cidade enquanto desconhecidos se abraçavam e comemoravam a chegada daquele momento tão ansiado.
          Conseguiu se formar, fez concurso e se tornou funcionária pública. O tempo passou. Hoje ela acompanha com interesse o que se passa no Brasil e no Mundo, mas sente no mais íntimo do seu ser o que se passa neste seu Rio de Janeiro: vibra com suas vitórias, sofre com suas derrotas. Ao tomar conhecimento de fatos como o ocorrido no bairro de Santa Teresa – com o descarrilhamento do bondinho e a morte de cinco pessoas, seu coração se acelera.
          Neste ano em que as autoridades agem no sentido de nos preparar para os dois eventos internacionais que aqui serão realizados, a cidade fervilha, parecendo um grande canteiro de obras. Crescem expectativas e inquietações: será que haverá tempo? Teremos pessoal numerica e tecnicamente capacitado para realizar tantas obras importantes? Sua cabeça está a mil: pela manhã lê o jornal, durante o dia assiste aos telejornais. Quer se inteirar do que está acontecendo.
          As lembranças de fatos ocorridos nesta longa jornada a fazem ficar ligada ao que acontece hoje. Recorda-se de um dito popular muito usado em nossa cidade – bola pra frente! – e aí antigas e novas imagens aparecem: o Maracanã e o Engenhão. Em 1950, a Copa do Mundo realizou-se no Brasil: a inauguração do Estádio do Maracanã, a derrota da seleção brasileira para o Uruguai no último jogo, e lá estava ela! Difícil descrever o sentimento que os dominou. E agora aqui está, acompanhando a grande obra de reconstrução do velho Maracanã para servir como sede aos dois próximos eventos mundiais: Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016.
         Infelizmente, vivemos num país cheio de conflitos: extrema miséria, ostentação desenfreada e preconceitos que, embora sejam considerados crimes previstos em lei, confundem sua cabeça e às vezes abatem seu ânimo. E é aqui, mais uma vez, que a experiência de vida vem trazer perspectiva diante das dificuldades: lembrando-se dos colegas do grupo escolar que frequentou, do humor das pessoas que, apesar dos fatos angustiantes que as atingiam frequentemente, mantinham o alto astral, acredita que o carioca ainda conserva sua característica de enfrentamento e superação de limites com bom-humor e perseverança. E espera conservar-se saudável mental e fisicamente, para poder assistir e participar destes eventos que marcarão a história de nossa cidade.

14 de outubro de 2011

Joeverson

Maria Tereza Albernaz
          Não fazem parte da vida do Joeverson hábitos e comportamentos simples. Hábitos esperados de qualquer criança. Na escola, onde qualquer aluno atende a solicitações da professora, seja por respeito, timidez ou comodismo, Joeverson só costuma obedecer se houver recompensa ou ameaça de punição. E precisa ser explícita.
          Provocativo, ri ele mesmo de suas brincadeiras maldosas com seus colegas. Debocha das gordas, das magras, dos fracos, dos que não sabem ler ou fazer os deveres. Usa palavrões repetidos nas conversas com as professoras, fala o que vem à cabeça para desconcertar ou atordoar. Contrariado, Joeverson age com agressão e adota uma atitude de desprezo pelo exercício, pela brincadeira ou pela turma, inclusive as professoras.
         Com inteligência acima da média, curiosidade e memória extraordinárias, surpreende a familiaridade de Joeverson com assuntos diversos. Lê e compreende com certa facilidade e, se porventura, a questão não é do âmbito escolar, ele já ouviu falar e tem algo a dizer. Se não conhece e tem interesse, pergunta e escuta atentamente a resposta.
          Como gosta de mostrar que sabe mais do que os outros, quando disposto, ajuda os colegas nos deveres, mas impacienta-se com os que não acompanham suas explicações. Participa com entusiasmo de atividades coletivas, principalmente se houver competição. Mais ainda, pede e gosta de jogos com desafios, e na maioria das vezes, claro, é o vencedor.
          Joeverson é um menino negro, lábios grossos, roupas velhas, muito pobre, mora com uma avó porque sua mãe é presidiária.
          Uma ou duas vezes, por ter sido repreendido fortemente, sentou-se num canto da sala e seus olhos encheram-se de lágrimas. Nesses momentos, somos lembrados da fragilidade do menino rebelde.
Bansky

17 de setembro de 2011

O dia em que a minha filha adolesceu

Lucia Koury
        Os sinais foram sutis.  A bermuda e a camiseta larga ainda eram o uniforme preferido quando ela começou a se interessar por miçangas.  Lá fomos nós, para o centro comercial, comprar bolinhas de todas as cores e feitios.  Não demorou muito, virei expert em catar as miçangas nas frestas dos tacos do quarto dela, da sala, do corredor, por onde ela passasse com sua caixinha de futuras jóias. Comerciante nata, logo renovou o estoque com o rendimento do seu trabalho.  Depois, cansou de enfiar pedrarias e começou a se enfeitar com elas.  Fez mais um furinho na orelha e eu, que durante anos tinha tentado convencê-la de que ela ficava uma gracinha de jóias, vi, toda babando, Mariana colocar brincos, pulseiras e pequenas gargantilhas.  Minha alegria não demorou muito.  Não sei se por causa da alergia, ela vivia coçando a orelha esquerda.  Dizia que gostava de ficar rodando o brinco e eu já estava vendo a hora em que a orelha ia virar um repolho de inflamada.  Tanto falei que ela aposentou o brinco. Às vezes, ainda a vejo coçando o lóbulo como se estivesse de brinco.  Tenho que me lembrar de comentar com o homeopata na próxima consulta.
    Quando avisei a ela que ia tirar o sábado para arrumar seu quarto, ver as roupas que ainda lhe cabiam, os brinquedos com os quais brincava, os livros que tinha, ela foi taxativa: “eu vou arrumar meu quarto no primeiro dia de férias”.
          Os dois últimos meses do ano foram corridos, como sempre.  Ensaio de teatro (e um menino que ligava sempre para saber se ela ia à aula) prova de admissão em colégio novo, horário de verão, três festas de amigo oculto, passeio com o grupo da natação... E ela começando a circular com as amigas pela vizinhança.  Uma indo para a casa da outra. Telefona assim que chegar, não fica vendo vitrine, não fala com gente estranha, não aceita bala nem chiclete de ninguém e o coração batendo de ansiedade até sabê-la segura, em casa. 
          Foi por essa ocasião que começou a troca de roupas: toma meu biquíni vermelho e me dá o seu azul.  Eu não gosto muito desse short.  Você quer? O baú do quarto dela era quase um armário de roupas das amigas que iam e vinham. Todos os dias ela levava na mochila uma sacolinha com roupa esquecida ou emprestada. Em dois meses, contabilizei os seguintes prejuízos: duas cangas, cinco calcinhas, um maiô, duas camisetas, incontáveis meias, um alpargatas, uma blusa de colégio. Sumiram. Ninguém sabe. Ninguém viu. 
          O segundo semestre do ano coincidiu com o boom editorial de Harry Potter. Isso não foi privilégio da Mari. Todas as crianças do mundo caíram de boca (e de olhos) na coleção. Comprei-lhe o primeiro livro. Leu vorazmente.  O pai deu-lhe o segundo. Devorou. Ainda era outubro e a edição seguinte só seria lançada em dezembro.  Leu de novo o primeiro e o segundo volumes.  E, ainda, mais uma vez.  Enquanto esperava dezembro, tentei impingir-lhe outros livros do gênero como uma coleção de histórias policiais para adolescentes, com textos de diversos autores nacionais e estrangeiros. Não deu certo. Nem eu aguentei ler.  Mostrei-lhe o Fernão Campelo Gaivota, aquele livro-poesia sobre o inconformismo que existe em cada um de nós (em uns mais latente que em outros) mas ela me olhou de rabo de olho e deixou o  livro onde estava.  O resultado foi que no dia 1º de dezembro (dia do lançamento do livro), às nove horas da matina, debaixo de uma chuva torrencial, lá estávamos nós na livraria, atrás do último volume. Ele só chegou no meio da tarde e foi entregue em domicílio.  Mas a aflição não acabou.  Ainda existem muitos outros volumes que vão ser editados durante os próximos anos e alguns filmes da série.  Haja expectativa! 
          Pois bem, chegou o primeiro dia de férias e ela cumpriu sua promessa.  Enquanto eu estava na aula de ginástica, ela esvaziou sua escrivaninha inteira, separando o que era lixo, o que era para dar e o que era para guardar.  É claro que eu fui dar uma mãozinha porque a arrumação só terminou no dia seguinte, com o quarto dela bem limpo e o meu entulhado de brinquedos, de livros e de roupas. A determinação dela em se desfazer das suas coisas causou-me bastante estranheza; não fazia muito tempo, ela se negava a dar o que quer que fosse (incluindo brinde de festa de aniversário).  Mas, o verdadeiro choque veio quando percebi uma sacolinha branca, jogada num cantinho do quarto.  Ao ver seu conteúdo, quase caí para trás: era toda a coleção de revistas das Chiquititas, as órfãzinhas que durante dois ou três anos haviam convivido conosco, jantado diariamente em nossa mesa, compartilhado todas as alegrias e tristezas  O envolvimento era tanto que estivemos com elas (as meninas-atrizes) em San Isidro, na Argentina, numa feliz coincidência de viagem.  As fotos da ocasião, reproduzidas em tamanho gigante, também saíram da parede onde andaram penduradas desde então.
           Foi então que percebi.  Minha filha havia adolescido.  As gavetas da escrivaninha ficaram vazias, prontas para receber os novos signos. Fui para meu quarto e chorei, procurando minha menininha.
           Mas, foi aos poucos que vi que esse negócio dá e passa.  Não é de uma hora para outra.  A natureza é sábia.  Faz as coisas devagar que é para gente ir se acostumando.  Aos poucos.  Tanto que o presente de Natal que ela fez questão de escolher e pedir foi um jogo de montar Lego e uma Barbie Jóia.  Ainda tenho alguns meses pela frente. 

16 de setembro de 2011

Bruno

Maria Tereza Albernaz
          Se uma criança tivesse que representar as travessuras da turma, este seria o Bruno. Não que ele lidere as outras crianças, mas com 7 anos, não faltam irrequietação e energia no menino.
          O Bruno é pequeno, pele clarinha meio encardida, dentes todos atrapalhados na boca. Provavelmente, este é o problema responsável pela má dicção. Ele fala pouco, baixinho e é mesmo difícil entender o que diz. Pode ser também um dos motivos para preferir fazer suas traquinagens sozinho e não participar de atividades coletivas. E, talvez o incentivo para que ele desenvolva uma enorme capacidade de emitir sons inusitados que, durante as aulas, irritam os alunos e as professoras. A qualquer tempo, o Bruno surpreende com imitações de animais, toques na porta, rangidos de ferro com ferro, e outros tantos ruídos. Sempre repetidos à exaustão dos outros.
          É curioso como o Bruno consegue se esconder em uma sala pequena. Ele se deita, se agacha, escorrega no chão e, se ninguém procurar por ele, por longo período, fica apertado embaixo de um armário de tamanho mínimo. Assim, está sempre um pouco empoeirado ou sujo de caneta e tinta. É difícil para o menino ficar sentado sem colocar um pé para cima, os dois pés para cima, não ficar ajoelhado ou recostado na carteira até quase cair, sempre com um lápis na boca. Fica assim até ser chamado à atenção mas, em poucos minutos, volta a se desconjuntar.       
          Tanto suas roupas como o material escolar não podem ser mais simples. Short e camiseta surrados, chinelos gastos e, se o tempo estiver frio, um casaco leve e um pouco rasgado. Sua mochila é velha e sem cor. É visível o desleixo que cerca o menino em todos os aspectos. Sua aparência, seu lápis, seu caderno, tudo demonstra falta de cuidado com ele. Não espanta a indicação no registro da escola de que Bruno foi abandonado pela mãe, ainda que ela também more na Rocinha.   
          Bruno vive com a avó e o irmão, junto com mais duas crianças. Como a casa é próxima da escola, os meninos voltam com as professoras. No entanto e tristemente, é a bebida que impede a velha senhora de assumir o compromisso de buscar as crianças ao final das aulas. E a circunstância de acompanhar o Bruno permite que sua casa seja vista pela porta sempre entreaberta – um cômodo atolado de objetos, escuro, com cheiro forte de cachaça.  
          O Bruno é uma criança exasperante na sala de aula. Mas, depois de conhecer um pouco mais o menino, “travessuras” parecem uma resposta pequena para uma vidinha como a sua.
Menino da garrafa, Nicolau

15 de agosto de 2011

O poema de circunstância; a crônica

Bia Albernaz
          Escrever sob uma circunstância é escrever propositalmente sem a inspiração de forças ocultas, mas sob a força de alguém bem visível, num momento bem palpável. É deixar-se empolgar, sem se importar com o acabamento para que o entusiasmo não esmoreça sob a ação do poeta que quer brilhar mais do que a coisa que o empolga. É escrever sem outra pretensão que o propósito de destacar ainda mais a circunstância.
          Sob o abrigo da circunstância, sem pompa, escreve-se um texto fresco, feito sob o calor que se faz sentir como um relance, uma verdade, meio encoberta e meio à mostra. A questão é: o amor se anuncia ou deve manter-se calado em seu fervor? O risco é que o excesso de intenção engula a beleza espontânea que, para continuar sendo espontânea, precisa ser passageira.
          Este tema se apresentou depois que fui a um show do Guinga, no Parque Lage, que gostaria de recortar e colar num álbum como um dos momentos especiais de minha vida.  A transcrição aqui do que rascunhei, ainda sob os efeitos de seus acordes, justifica-se como exercício e como oportunidade para pensar sobre o difícil equilíbrio entre o descompromisso com a forma e a responsabilidade frente aos sentimentos poéticos que determinadas circunstâncias despertam e que acreditamos devam ser destacados; entre o compromisso com a poesia como companhia para sublinhar estados de graça e a irresponsabilidade de ferir a ética do bom poeta, que uma vez me foi traduzida por um atual membro da Academia Brasileira de Letras da seguinte maneira: "se você não achar que seu poema pode ser um exemplar digno de ser encontrado numa ilha deserta em caso de destruição total de todos os outros poemas da face da terra, então abstenha-se". Será que os poemas de circunstância são apenas atos de incontinência verbal, mesmo que poética?

Com o Guinga em meus ouvidos, não tem erro, só proveito. Até a imperfeição ao redor parece boa. A realidade fica marota, vira um maremoto.

Com o Guinga, as mãos tocam no invisível. E os pés, o corpo, tocam o chão e o ar ao mesmo tempo, no mesmo ritmo.

O abraço o violão os dedos a madeira. Deslizar apertar castigar fechar os olhos deixar. O lá bem fundo de um metal e um violão mais redondo que uma bola.

Com o Guinga, um bocado de vozes velhas, de riso sério, de gente no escuro fala: obrigada, ó mestre.

Guinga fala sobre o uso do dedo polegar nos acordes. Inspire-se AQUI.
***
         Manuel Bandeira em "Mafuá do Malungo" (1948) publica todo tipo de versos de circunstância: jogos onomásticos, réplicas e agradecimentos; panegírios e saudações. Mesmo as dedicatórias podem ser consideradas "de circunstância", o que não quer dizer "sob encomenda" porque o poema de circunstância é feito com total espontaneidade; para uso doméstico. Parecem estar ali apenas para mostrar que a poesia faz companhia ao poeta em momentos especiais para ele, mas que permanecem impossíveis de serem acessados pelos leitores do "poema" que, de tanta puerilidade, chega a ganhar aspas. Eis alguns exemplos:

Tuquinha
Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.

Reza a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.

          Quem conheceu pessoalmente o poeta, ou quem se dedicou a estudar a sua biografia, poderá facilmente identificar a circunstância que cercou a criação desse poema. Mas, mesmo sem saber quem é quem, pode-se desfrutar do gesto de compartilhar um momento, em que a poesia curva-se, dobra-se, reverencia algo ou alguém a ponto de contentar-se apenas com a insinuação, tal como se lê no poema abaixo:

Louvado e Prece
   Isabel querida
   — A menininha
   mais bonitinha
   mais engraçadinha
   mais bizurunguinha
que eu vi na minha vida
   — amorável
      adorável,
   a d o r á v e l !

Mas é mesmo uma menina?
    Ou será, Manuel,
    lírio da campina
botão de rosa no galho,
    ou, na manhã fria
    de abril, cristalina
    gotinha de orvalho?
    (De orvalho ou de mel?)
    Se não é um doce,
    é como se fosse.

    É mais: um anjinho
    muito seriozinho
    caído do céu
    por descuido, com
    uma bonequinha
    loura e coradinha
    nos braços. Que bom
    que é um anjo fresquinho
    caído do céu!
                   *
Rogo a Deus, nosso Senhor,
seres meu anjo-guardião:
se um dia, seja em que for,
eu cair em tentação
(sou tão grande pecador!)
peço-te que tu me salves,
salves o bardo Manuel,
         Isabel,
    — Isabel Moreira Alves.

          Apenas para não parecer que todos os poemas de circunstância de Bandeira tem Deus e anjo no meio, transcrevo mais um:

Agradecendo doces a Stella Leonardos
1. Doces de açúcar e gemas
    São teus versos, e teus doces
    Sabem a poemas: não fosses
    Toda doce em cada poema!

2. Pouco e coco rimam, sim,
    Mas quando o coco é o seu coco,
    Que, por mais que seja, é pouco
    (Pelo menos para mim!).

3. Não veio doce, mas veio
    Verso seu, que me é tão doce
    Como se doce ele fosse:
    Mais que doce: doce e meio!

***
          As crônicas de modo geral são circunstanciais. Ao que parece, porém, a relação com o tempo na crônica é diferente daquela vivida no poema de circunstância, que celebra o fugidio, o efêmero, e não se preocupa em construir nada de edificante. Uma das críticas que se faz ao Drummond-cronista é que suas crônicas tornaram-se datadas. Em muitas deles, o poeta gasta laudas e laudas para, por exemplo, comentar uma gíria ou fazer um elogio às minissaias, como se fossem novidades. O problema é que, no momento em que foram alvo da escrita do poeta, de fato a gíria e a minissaia indicavam circunstâncias  especiais. Contudo, com o decorrer do tempo, perderam o interesse. E assim Drummond, em muitas de suas crônicas, rapidamente se tornou anacrônico, sem alcançar o histórico.
          No entanto, talvez só agora, depois de ter refletido sobre a grandeza do poema de circunstância, eu  tenha sido capaz de ler o eterno nas entrelinhas do datado. Se não, vejamos:

          PELÉ:1000
          O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé. Aquele gol que gostaríamos tanto de fazer, que nos sentimos maduros para fazer, mas que, diabolicamente, não se deixa fazer. O gol.
          Que adianta escrever mil livros, como simples resultado de aplicação mecânica, mãos batendo máquina de manhã à noite, traseiro posto na almofada, palavras dóceis e resignadas ao uso incolor? O livro único, este não há condições, regras, receitas, códigos, cólicas que o façam existir, e só ele conta — negativamente — em nossa bibliografia. Romancistas que não capturam o romance, poetas de que o poema está-se rindo à distância, pensadores que palmilham o batido pensamento alheio, em vão circulamos na pista durante 50 anos. O muito papel que sujamos continua alvo, alheio às letras que ele exigia de nós. E quantos metros cúbicos de suor, para chegar a esse não-resultado!
          Então o gol independe de nossa vontade, formação e mestria? Receio que sim. Produto divino, talvez? Mas, se não valem exortações, apelos cabalísticos, bossas mágicas para que ele se manifeste... Se é de Deus, Deus se diverte negando-o aos que o imploram, e , distribuindo-o a seu capricho, Deus sabe a quem, às vezes um mau elemento. A obra de arte, em forma de gol ou de texto, casa, pintura, som, dança e outras mais, parece antes coisa-em-ser na natureza, revelada arbitrariamente, quase que à revelia do instrumento humano usado para a revelação. Se a obrigação é aprender, por que todos que aprendem não a realizam? por que só este ou aquele chega a realiza-la? por que não há 11 Pelés em cada time? Ou 10, para dar uma chance ao time adversário?
          O Rei chega ao milésimo gol (sem pressa, até se permitindo o charme de retitficar para menos a contagem) por uma fatalidade à margem do seu saber técnico e artístico. na realidade, está lavrando sempre o mesmo tento perfeito, pois outros tento menos apurados não são de sua competência. sabe apenas fazer o máximo, e quando deixa de destacar-se no campo é porque até ele tem instante de não-Pelé, como os não-Pelés que somos todos.
          O mundo é feito de consumidores, servido por alguns criadores. O desequilíbrio é dramático, e só não determina a frustração universal porque não nos damos conta de nossa impotência criadora, e até nos iludimos, atribuindo-nos uma potência imaginária. Ainda por absurdo desajuste, a criação, em muitas áreas, nem sequer é absorvida pelos consumidores em carência. Muitos seres não sabem consumir, vegetando em estado de privação inconsciente. para o consumo, sim, é necessário aprendizado. Mas os bilhões de analfabetos, subnutridos e marginalizados, dos mundos ocidental e oriental, não desconfiam sequer de que há alimentos fascinantes para fomes não pressentidas.
          Afortunadamente, no caso de Pelé, a comida de arte que ele oferece atinge o paladar de todos. O futebol é desses raros exemplos de arte corporal e mental que promovem a felicidade unânime, embora dividindo a massa de consumidores em grupos antagônicos. Antagonismo formal, pois a fusão íntima se opera em torno da beleza do gesto, venha de que corpo vier.
          Os mil gols de Pelé são um só, multiplicado e sempre novo, único em sua exemplaridade. Não sei se devemos exaltar Pelé por haver conseguido tanto, ou se nosso louvor deve antes ser dirigido ao gol em si, que se deixou fazer por Pelé, por uma dessas misteriosas escolhas que a genética ainda não soube explicar, pois a ciência, felizmente, ainda não explicou tudo neste mundo.
Extraído de O poder ultrajovem (1972)