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21 de agosto de 2010

Frase

Trechos retirados do livro Comunicação em prosa moderna de Othon Garcia

A colocação das palavras na frase constitui um dos processos mais comuns e mais eficazes para dar relevo às idéias. O que determina a ordem dos elementos na frase é o rumo do raciocínio, a seqüência lógica, a clareza e a ênfase.

Ordem direta: 1) sujeito, 2) verbo e 3) complementos essenciais.

Mas a inversão pode dar à frase mais vigor e mais energia, i. é, mais ênfase, realce ou relevo:
- Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. [direta]
- O homem, criou-o Deus à sua imagem e semelhança.
- À sua imagem e semelhança, criou Deus o homem.
- Criou Deus o homem à sua imagem e semelhança.

Na conhecida narrativa de Alexandre Herculano,“O rei e o arquiteto”, a resposta de Afonso Domingues, se construída em ordem direta, não chegaria a revelar toda a indignação de que se sentiu possuído o velho arquiteto cego por ter o rei dado a outro o cargo de mestre-de-obras do mosteiro de Santa Maria. A sobrecarga afetiva decorre em grande parte da ênfase resultante da anteposição dos predicativos “arquiteto” e “sabedor”.

"Arquiteto do mosteiro de Santa Maria, já não o sou; Vossa Mercê me tirou esse encargo; sabedor nunca o fui, pelo menos assim o crêem e alguns o dizem."

Na inversão dos termos, é comum o torneio pleonástico (arquiteto... já não o sou).
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Frases típicas do estilo jornalístico
- Ênfase no quem referente ao protagonista:
Pedro da Silva, pedreiro, de trinta anos, residente na Rua Xavier, 25, Penha, matou ontem, em Vigário Geral, seu colega Joaquim de Oliveira, com uma facada no coração, porque não lhe quis pagar uma garrafa de cerveja.

- Ênfase no quem referente ao antagonista:
Joaquim de Oliveira foi assassinado ontem, em Vigário Geral, com uma facada no coração, dada por seu colega Pedro da Silva, por ter se negado a pagar-lhe uma garrafa de cerveja.

- Ênfase no como:
Com uma facada no coração, Pedro da Silva matou ontem seu colega... etc.

- Ênfase no quando:
Ontem, em Vigário Geral, Pedro da Silva, matou... etc.

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Adjetivos ou locuções também podem ser invertidos para dar realce e, em certos casos, exprimem caracterização concreta quando pospostos, e abstratas quando antepostos: homem grande e grande homem, homem pobre e pobre homem, período simples e simples período.
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Os adjuntos adverbais, em geral, vêm juntos do verbo, pospostos ou antepostos, conforme a seqüência lógica, a clareza, a ênfase e a harmonia da frase. Não há regras para sua colocação mas recomenda-se: 1) iniciar com ele ou eles a oração, se se pretende dar-lhes maior realce; 2) evitar deslocações que possam tornar a frase ambígua ou obscura.

Observe-se a gradação enfática do adjunto “antes do jantar” nas diferentes posições que ocupa nas seguintes versões do mesmo período:
a)    Eu, antes de jantar, costumo ler o jornal.
b)    Antes de jantar,  eu costumo ler o jornal.
c)    Costumo ler o jornal antes de jantar.
d)    Costumo ler, antes de jantar, o jornal.
e)    Costumo antes de jantar, ler o jornal.

Parece que a melhor versão é aquela em que o adjunto ganha maior relevo, colocado no princípio da frase. As intercalações nas versões a), d) e e) aparentemente interrompem a cadência da frase, sobretudo em d), onde os dois grupos de força – costumo ler e antes do jantar – tem uma extensão e uma cadência diversas do terceiro – o jornal. O período se tornaria mais harmonioso se se fizessem similicadentes os três grupos de força, isto é, os três estágios rítmicos da frase, alongando-se o terceiro com um adjunto adequado: Costumo ler, antes do jantar, o jornal da tarde.

A versão b) é mais enfática por ser mais comum na corrente da fala ou é mais comum por ser mais enfática? Antes do jantar deixa em suspenso o sentido do resto da frase, sentido que só vai se completar com o termo jornal.
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Questões quanto ao realce pela posição no final
- O meu melhor amigo, Joaquim Carapuça, pai da Estela, é um político de grande futuro. 
- É um político de grande futuro, Joaquim Carapuça, pai da Estela e meu grande amigo.

Na segunda frase, o sentido mais importante está completo na oração enunciada logo de saída, os termos secundários (pai da Estela e meu grande amigo), ao invés de se destacarem, tornam-se quase supérfluos, já que o entendimento do essencial da comunicação deixa de depender deles.
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Matizes semânticos e enfáticos como decorrência da posição da partícula só
a)    ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
b)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
c)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
d)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
e)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
f)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
g)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
h)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
i)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas .
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Por vezes, a simples deslocação de uma adjunto adverbial torna as idéias obscuras ou incoerentes:
- O protagonista da história diz que não quer casar no primeiro capítulo, mas já concorda em fazê-lo no quarto.
- Estou pronto a discutir com você, quando quiser, esse assunto.

Casos como esses levam-nos a contrapor a regrinha da ênfase (“coloque em posição de destaque as palavras de maior relevância”) às da clareza e da coerência: aproxime tanto quanto possível termos ou orações que se relacionem pelo sentido. Eis as três qualidades primordiais da frase: clareza, coerência e ênfase.
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A gradação é um recurso tanto de ênfase quanto de coerência, consiste em colocar em dispor as idéias em ordem crescente ou decrescente de importância: “Anda, corre, voa, se não perdes o trem” (crescente); “Uma palavra, um gesto, um olhar bastava" (decrescente).  
- Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. (Vieira)
- [O regato] corria murmuroso e descuidado; encontrou o obstáculo: cresceu, afrontou-o, envolveu-o, cobriu-o e, afinal, o transpõe...

Se a repetição resultante da pobreza de vocabulário ou de falta de imaginação para variar a estrutura da frase pode ser censurável, a repetição intencional representa um dos recursos mais férteis de que dispõe a linguagem para realçar as idéias.

2 de julho de 2010

Parágrafos

A partir de "Comunicação em prosa e verso",
de Othon M. Garcia, editora FGV-RJ, 1992.
Parágrafo-padrão: tópico frasal + agregação de idéias secundárias
Vários processos de desenvolvimento ou encadeamento de idéias = vários tipos de estruturação de parágrafo.

Tópico frasal desenvolvido por
Enumeração
A televisão, apesar das críticas que recebe, tem trazido muitos benefícios às pessoas, tais como: informação, por meio de noticiários que mostram o que acontece de importante em qualquer parte do mundo; diversão, através  de programas de entretenimento (shows, competições esportivas); cultura, por meio de filmes, debates, cursos. 

Descrição de detalhes 
Era o casarão clássico das antigas fazendas negreiras. Assobradado, erguia-se em alicerces o muramento, de pedra até meia altura e, dali em diante, de pau-a-pique À porta da entrada ia ter uma escadaria dupla, com alpendre e parapeito desgastado.

Confronto
Embora a vida real não seja um jogo, mas algo muito sério, o xadrez pode ilustrar o fato de que, numa relação entre pais e filhos, não se pode planejar mais que uns poucos lances adiante. No xadrez, cada jogada depende da resposta à anterior, pois o jogador não pode seguir seu planos sem considerar os contra-ataques do adversário, senão será prontamente abatido. O mesmo acontecerá com um pai que tentar seguir um plano preconcebido, sem adaptar sua forma de agir às respostas do filho, sem reavaliar as constantes mudanças da situação geral, na medida em que se apresentam.

Razões
As adivinhações agradam particularmente às crianças. Por que isso acontece de maneira tão generalizada? Porque, mais ou menos, representam a forma concentrada, quase simbólica, da experiência infantil de conquista da realidade. Para uma criança, o mundo está cheio de objetos misteriosos, de acontecimentos incompreensíveis, de figuras indecifráveis. A própria presença da criança no mundo é, para ela, uma adivinhação a ser resolvida. Daí o prazer de experimentar de modo desinteressado, por brincadeira, a emoção da procura da surpresa.

Análise
Quatro funções básicas têm sido atribuídas aos meios de comunicação: informar, divertir, persuadir e ensinar. A primeira diz respeito à difusão de notícias, relatos e comentários sobre a realidade. A segunda atende à procura de distração, de evasão, de divertimento por parte do público. A terceira procura persuadir o indivíduo, convencê-lo a adquirir certo produto. A quarta é realizada de modo intencional ou não, por meio de material que contribui para a formação do indivíduo ou para ampliar seu acervo de conhecimentos.

Exemplificação
A imaginação utópica e inerente ao homem, sempre existiu e continuará existindo. Sua presença é uma constante em diferentes momentos históricos: nas sociedades primitivas, sob a forma de lendas e crenças que apontam para um lugar melhor; nas formas do pensamento religioso que falam de um paraíso a alcançar; nas teorias de filósofos e cientistas sociais que, apregoando o sonho de uma vida mais justa, pedem-nos que “sejamos realistas, exijamos o impossível”.

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A quebra em parágrafos e a pontuação devem ser feitas adequadamente, mas apenas pelo efeito sobre o leitor.
Um conjunto de regras mortas não é bom.
Um novo parágrafo é uma coisa maravilhosa. Ele lhe permite mudar tranquilamente de ritmo, e pode ser como um relâmpago que mostra a mesma paisagem sob um aspecto diferente.
Isaac Bábel