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4 de outubro de 2010

A escola de redação E.U.A - parte final

Elizabeth Bishop "Esforços do afeto", trad. Paulo Henriques Brito
          Muitos de meus patéticos candidatos davam a impressão de jamais ter lido o que quer que fosse, com a possível exceção de um único relato memorável, do gênero "Confissões verídicas". A discrepância que havia entre os textos estranhos, sem vida, desconjuntados que me enviavam e as coisas que liam em letra de fôrma simplesmente não lhes saltava à vista. Ou talvez eles imaginassem que o senhor Margolies brandiria sua vara de condão, e então os pequenos montes de melancólicos ossos verbais, como ossos de galinha ou espinhas de peixe, ganhariam carne e vida, e se transformariam em contos e romances encorpados, emocionantes, apaixonantes. Sem dúvida, haveria outros motivos, mais profundos, que os levavam a matricular-se no "curso", enviar suas "lições" e pagar a quantia absurda de quarenta dólares. Mas nunca consegui me convencer de que meus alunos realmente acreditavam que um dia iriam saber escrever, ou que teriam de se esforçar muito para conseguir tal coisa. Era como comprar um bilhete de loteria. Afinal, qualquer um poderia ganhar o prêmio, e todo mundo sabe que nessas coisas sempre tem marmelada.
          Todos esses exemplos de literatura "primitiva" - o temo me parece apropriado - tinham uma característica em comum que os diferenciava da pintura primitiva: o desmazelo e a afobação. Enquanto o pintor primitivo é capaz de passar meses ou anos, se necessário, reproduzindo todas as folhas de relva de um gramado ou criando muros de tijolo em baixo-relevo, o escritor primitivo parece ter pressas em acabar logo com aquilo. Outra característica era a ausência quase completa de detalhes. O pintor primitivo ama os detalhes, e os elabora e enfatiza em detrimento do todo. Mas quando o escritor primitivo utiliza detalhes, estes são muitas vezes absurdamente inadequados, e revelam muita coisa a respeito do autor sem dizer nada de relevante sobre o assunto em questão. Talvez isso prove que têm razão os escritores profissionais que com que freqüência se queixam de que pintar é mais divertido que escrever. Talvez as mesmas mulheres que apresentam míseros resumos de narrativas sem diálogos e sem nenhuma descrição de personagens e lugares não hesitassem em passar uma tarde inteira enfeitando um bolo de aniversário com glacê de cores diferentes. Mas a temática era igualmente banal nas pinturas e nos textos. Havia também nessa literatura a mesma tendência que há na pintura primitiva de fazer com que tudo faça sentido, ou adquira um valor moral para o mundo, atribuindo-lhe uma "moral" ou interpretação alegórica grandiosa, ainda que desajeitada. Era como se meus alunos dissessem: "Nossas experiências são verídicas e verdadeiras, e foi com base nelas que tiramos nossas conclusões inimitáveis e nobres. Como nossos sentimentos são tão elevados, quem ousaria negar-nos nosso direito à Fama?"
          O que poderia eu dizer a eles? A julgar pelo que me escreviam, estava claro que meus alunos mal podiam esperar a chegada de minha próxima análise. Talvez nutrissem a esperança, a cada vez, de que o senhor Margolies lhes dissesse que havia encontrado uma revista que publicaria sua lição e que o cheque seguia em anexo. Todos estavam ansiosos, embora não fizessem muito esforço; ou pelo menos achavam-se na obrigação de fingir-se ansiosos. Um homem escreveu: "Esta noite mal dormi, aguardando a sua resposta". Pediam desculpas pela demora, pela má ortografia, pelas canetas ou lápis que usavam (pedíamos que escrevessem a tinta, mas muitos não o faziam). Um rapaz desculpou-se pela letra feia, dizendo: "Estou escrevendo isto no metrô", o que talvez fosse verdade. Alguns se referiam a suas lições como "dever de casa", e dirigiam-se ao senhor Margolies como "querido professor". Uma mulher enfeitava suas lições com selos de Natal. Para minha surpresa, houve dois ou três alunos que escreveram obscenidades do tipo que um homem conta a outro, ou relataram piadas cabeludas velhíssimas.
          Comecei a copiar trechos das cartas e contos que enviavam e levá-los para casa. Um zelador de Kansas City queria aprender a escrever para publicar "um livro sobre como ensinar as crianças a serem bons radicais, do tipo de George Washington ou do tipo Jesus Cristo". Uma mulher contou-me que sua mãe idosa de tal modo aprovara seu propósito de aprender a escrever que lhe dera os quarenta dólares e lhe cedera "o nome dela para eu assinar trabalhos". A filha chamava-se Emma, a mãe Katerina. Eu poderia, por favor, doravante dirigir-me à filha como Katerina?
          Depois da minha "criadora de gado e galinhas", meu favorito era Jimmy O'Shea, de Fall River; idade: setenta anos; profissão: "aposentado". O estilo dele era o que mais se aproximava do primitivo clássico. Suas histórias eram um tanto compridas, e tal como Gertrude Stein ele escrevia à mão, com uma letra esparramada, em pedaços pequenos de papel. Havia elaborado um estilo que lhe permitia preencher exatamente uma página com cada frase. Cada frase - normalmente iniciada por Também ou Sim - começava no alto da página à esquerda  e terminava com um ponto avantajado no canto inferior à direita. A bondade brilhava por trás dessas páginas com pauta azul, como se elas fossem lanternas de papel. Ele caracterizava tudo que aparecia suas narrativas simples com três, quatro, até cinco adjetivos, e depois os repetia, como Homero, cada vez que o substantivo reaparecia. Foi o senhor O'Shea que me escreveu uma carta que exprimiu o sentimento comum de que o tempo está passando e sendo desperdiçado, deslumbramento e inveja, e em parte ambição sincera: 
          Eu não andava muito bem dos dentes, e tive que arrancar três dos grandes, porque eles me  faziam ficar nervoso e doente às vezes, e foi por isso que eu não mandei nenhuma lição. Estou pensando em saber escrever igual a todos os Escritores, porque acho que isso é o que pretendo mais que qualquer outro tipo de trabalho. Senhor Margolies, fico pensando como esses Escritores escrevem histórias grandes com 60 000 ou 100 000 palavras nessas Revistas, onde é que eles encontram imaginação e material para isso? Sei que ha um grande campo nessa arte.

          Aguentei o curso o máximo que foi possível, o que não foi muito tempo, e na mesma semana em que recebi essa carta do senhor O'Shea pedi demissão. O senhor Black implorou-me para ue fixasse, logo agora que eu estava começando a pegar o jeito da coisa, estava produzindo cada vez mais análises por dia, e me ofereceu mais dois dólares e meio por semana. Também Rachel pareceu ficar triste com a notícia. Fomos almoçar juntas pela última vez, numa outra lanchonete, onde havia um bar, e - cada uma pagando a sua conta - tomamos um coquetel antes do almoço. Quando eu estava retirando minhas coisas da mesa, ela me deu um presente, uma brochura estranha que havia acabado de ler, obra de um chinês, escrita num estilo semelhante ao de nossos alunos. O livro relatava suas experiências como trabalhador escravo em fazendas nos Estados Unidos e em canaviais em Cuba. O relato parecia verídico, mas não era "realismo", porque o autor usava uma imagística estranha, oriental.
          Cerca de dois anos depois encontrei Rachel no Times Square uma noite, quando eu ia ao teatro. Ela estava como sempre, talvez um pouco mais pesada e um pouco menos mal vestida. Perguntei-lhe se continuava trabalhando na Escola de Redação E.U.A., e como estava o senhor Black. O senhor Black, respondeu-me ela com perfeita naturalidade, estava preso, pela segunda ou terceira vez, por fazer uso indevido do correio. A Escola de Redação E.U.A. fora invadida pela polícia pouco depois de eu pedir demissão, e todas as lições, todas as cartas sinceras e confiantes de meus pobres alunos foram confiscadas. Disse ela: "Eu não lhe contei quando você estava lá, mas era por isso que a gente estava revendo todo o material. A Escola de Redação E.U.A. era um nome novo; até mais ou menos um mês antes de você entrar o nome era diferente. O Black pagou uma multa alta daquela vez, e estávamos começando tudo de novo".
          Perguntei-lhe o que ela estava fazendo agora, mas Rachel não me disse. Eu estava vestida para ir ao teatro, e ela me olhou dos pés à cabeça com desprezo - pelo que me pareceu - mas com tolerância, como se estivesse pensando: Mas que bela anarquista! Então o senhor Hearn e o senhor Margolies trocaram um aperto de mãos e se despediram para sempre.
Sobre Elizabeth Bishop e sua relação com o Brasil, onde morou muitos anos, Marta Góes - vizinha da poeta durante a infância, quando ambas moravam em Petrópolis - escreveu este monólogo.
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27 de setembro de 2010

Escola de Redação E.U.A. (Parte 4)

Elizabeth Bishop "Esforços do afeto", trad. Paulo Henriques Brito
            Nossos anúncios especificavam que, quando um candidato nos escrevia manifestando interesse pelo curso, ele deveria mandar uma mostra de seu texto, qualquer tipo de "material", curto ou longo, para submetê-lo a nossa "análise", juntamente com um vale postal no valor de cinco dólares. Enviávamos de volta nossa "análise" e dizíamos ao candidato se ele tinha ou não talento suficiente para se tornar um escritor de sucesso. Todos os candidatos - a menso que fossem analfabetos - tinham talento. Em seguida, o candidato tinha que completar a primeira lição - creio que o nome era "Relato direto" ou então "Prosa descritiva" - e enviá-la a nós num prazo de um mês, juntamente com os trinta e cinco dólares restantes. Esse texto era "analisado" e devolvido juntamente com a segunda lição; e assim o curso prosseguia.
          Já não me lembro de todas as lições, mas uma delas era "Publicidade". pedia-se ao aluno que redigisse anúncios para frutas, pão, bebidas. Não sei por que se dava tanta ênfase a comida e bebida: talvez fosse sinal dos tempos. Uma outra lição era um conto, e havia também um a "Confissão verídica". Quase todos os alunos confundiam esses dois gêneros totalmente. E as ä mostras" enviadas inicialmente tendiam a pertencer ao gênero "Confissão verídica", também. Essa amostra, expandida ou cortada, censurada ou apimentada, juntamente com a primeira carta ao senhor Margolies que a acompanhava, constituía a parte mais interessante do curso para todas as partes envolvidas. Meu trabalho consistia em redigir uma análise de cada lição em quinhentas palavras, se possível, tantas por dia quanto eu conseguisse fazer, utilizando como modelos uma coleção de lições e análises antigas. Cabia a mim também escrever uma pequena resposta pessoal à carta que infalivelmente acompanhava cada lição. Era meu dever incentivar o aluno se ele estivesse desanimado, e convencê-lo com firmeza a mudar de idéia se demonstrasse algum sinal de querer seu dinheiro de volta.
ParkeHarrison
         Henry James afirmou uma vez que todo aquele que aspira tornar-se escritor deve escrever em sua flâmula uma única palavra: "Solidão". No caso de meus alunos, o que eles necessitavam não era excluir-se da sociedade, e sim entrar nela. O problema deles era que "Solidão" havia sido escrito em suas flâmulas sem que eles pedissem, e era por isso que queriam tornar-se escritores. Todas as cartas que chegavam a minhas mãos, sem exceção, vinham de pessoas que sofriam de uma solidão terrível, em todas as suas formas mais conhecidas, e mais algumas formas de cuja existência eu nem sequer desconfiava. Escrever - principalmente escrever para o senhor Margolies - era uma maneira de diminuir a solidão. Ser publicado, tornar-ser "famoso", seria uma solução instantânea para o problema da falta de identidade e uma fuga da solidão, porque desse modo o escritor conheceria outras pessoas, sob a forma de admiradores, amigos, amantes, pretendentes etc.
         Nos formulários que preenchiam, os candidatos especificavam a idade e a profissão. Muitos eram vaqueiros e empregados de fazendas. Um deles escrevia suas lições com letra de imprensa, não do tipo que foi ensinado uma certa época nas escolas de elite, embora semelhante, mas sim com a espécie de letra de imprensa que uma criança faz quando tenta caprichar. Havia um pastor de ovelhas, um pastor de verdade, que chegou mesmo a afirmar que elevava uma vida muito solitária, "por causa da minha profissão". Escrever o animava, porque "as ovelhas não são uma companhia muito interessante para um homem (ha-ha)".  Havia também mulheres de empregados de fazenda. Muitos eram marinheiros; um, negro, era cozinheiro; havia um suboficial servindo num submarino e um faroleiro - um guardador de farol de verdade. Havia muitas "domésticas", algumas das quais se diziam "de cor", e vários estudantes que me escreviam do interior do Sul, que me informavam, como se tivessem obrigação de fazê-lo, que eram negros.
         De todas as cartas e lições que li durante minha passagem pela Escola E.U.A., apenas as de uma aluna indicavam um mínimo de "talento". Era uma "criadora de gado e galinhas", uma "solteirona", como ela própria se identificava, que morava no interior do Kansas. Os contos que ela mandava, qualquer que fosse o gênero de exercício requisitado, eram contos de verdade. os relatos dos outros alunos eram fracassos de cortar o coração - incoerentes, abruptos, atrofiados. As histórias dessa mulher se prolongavam com exuberância, como a narrativa de um bom contador de histórias, e quase chegavam a ser interessantes, com muita cor local e uma abundância de detalhes. Eram cheias de galos, cobras, raposas e gaviões, e tinham enredos dramáticos, talvez verídicos, que giravam em torno de vacas doentes ou moribundas, hipotecas, madrastas, bebês, nevascas desastrosas, tornados. Eram também dez vezes mais compridas que as histórias de todos os outros alunos. Depois que larguei meu emprego, de vez em quando folheava revistas de fazendeiros, como The Country Gentleman, na esperança de que ela tivesse finalmente conseguido publicar, mas nunca vi seu nome.

18 de setembro de 2010

A escola de redação E.U.A (Parte 3)

Elizabeth Bishop "Esforços do afeto", trad. Paulo Henriques Brito
          O curso que oferecíamos, "Aprenda a escrever", era anunciado nas revistas mais baratas, de agricultura, cinema ou faroeste. Os anúncios eram do tipo que afirma "você também pode ganhar dinheiro escrevendo", anúncios redigidos de modo convincente, porém cuidadoso. Aceitávamos qualquer aluno, qualquer que fosse seu nível de instrução, e o ensinávamos a escrever qualquer tipo de texto - reportagens jornalísticas, anúncios, romances; todo aluno receberia a atenção individual de escritores de sucesso como o senhor Hearn e o senhor Margolies. O curso completo consistia em oito aulas; o pagamento era adiantado, e o preço era quarenta dólares. No tempo em que trabalhei lá, a escola tinha apenas cerca de cento e cinquenta "alunos"; porém num passado bem recente houvera muito, muito mais alunos, e isso voltaria a acontecer assim que o curso passasse por uma "revisão". Pouco antes, tinha havido uma tremenda convulsão na escola, que acarretara a perda da maior parte dos alunos, e por algum motivo tornara-se necessários rever e reimprimir tudo - todas as circulares, todos os formulários de contrato, todas as "lições". Era por isso que havia tantas datilógrafas trabalhando.
          Todas essas revisões, inclusive as oito lições, estavam sendo feitas por Rachel. Sua mesa vivia coberta de pilhas de tiras de papel, presas por clipes, que eram pedaços do "material" antigo do curso. Havia também pilhas de circulares de outros cursos por correspondência, e um que outro manual de composição, dos quais ela extraía as frases mais dogmáticas, por vezes até parágrafos inteiros. Quando resolvia trabalhar, Rachel era rapidíssima. Sua máquina de escrever produzia um ruído equivalente ao de duas ou três máquinas sendo usadas ao mesmo tempo, e as datilógrafas nervosas iam e vinham afobadas da sala grande para nossa saleta, levando e trazendo pilhas de material, como se participassem de uma corrida de revezamento. porém boa parte do tempo Rachel ficava a conversar comigo, ou a contemplar a neve que caía lá fora com uma expressão soturna no rosto. Uma vez perguntou-e: "Por que você não escreve um poema bonito sobre isso?". Uma ou duas vezes, com um cheiro forte de uísque, passou a tarde inteira carrancuda, mergulhada num romance proletário recém-publicado.
          Raramente víamos o senhor Black. Ele recebia muitos visitantes em seu escritório, homens muito parecidos com ele, e lhes servia café instantâneo que preparava num fogãozinho; um cheiro desagradável de metanol atravessava a parede divisória e penetrava nossa sala. De vez e quando trazia café para nós duas, em xícaras de vidro baratas com bordas tão ásperas que cortavam os lábios. Ele perguntava: "E como vai nossa moça de Vassar?". Olhava pro cima de meu ombro para a carta que eu estava lentamente produzindo, batendo à máquina com dois ou três dedos, e então exclamava: "Muito bem! Muito bem! Está se saindo muito bem! Eles vão adorar! Vão adorar!". E apertava o meu ombro com uma força excessiva. Às vezes dizia a Rachel: "Dê uma olhada nisso. Guarde; ponha a cópia carbono no seu arquivo. Vamos usar de novo". Rachel gemia alto.
          Foi ali, naquele lugar malsão, apesar de tudo que eu já lera e aprendera e julgava já saber sobre o assunto, que pela primeira vez me dei conta do poder misterioso e terrível da escrita. Ou melhor - como "escrita" tem tantos significados diferentes - o poder da palavra escrita, ou até mesmo da Palavra com P maiúsculo, ou mesmo do Verbo, com cujo significado antes eu não havia atinado, mas que de repente se revelou a mim com toda a clareza, ainda que de modo intermitente.
http://elperrotendrasudia.blogspot.com/2008_05_01_archive.html
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7 de setembro de 2010

A escola de redação E.U.A. (Parte 2)

Elizabeth Bishop em "Esforços do afeto", trad. Paulo Henriques Brito
posted by chymes at 12:50 PM on April 14, 2006 em http://www.metafilter.com/
          O senhor Hearn era uma mulher alta, muito corpulenta, bonitona, com cerca de trinta anos de idade, chamada Rachel, que usava óculos pretos de tartaruga e tinha um sinal preto na bochecha. Nossa sala era um pouco pequena para nós duas. Rachel fumava furiosamente o tempo todo, eu fumava moderadamente, e tínhamos que ficar com a porta fechada para que as pobres datilógrafas provisórias, que não tinham permissão para fumar, não nos vissem e entrassem em greve, ou nos denunciassem ao quartel do corpo de bombeiros mais próximo. Com a chuva e a neblina e a neve lá fora e a fumaça dentro, vivíamos num isolamento sufocante, abafado, como se num casulo. O cheiro era o de um vagão de passageiros após uma longa viagem. Trabalhávamos uma de costas para a outra, mas nossas cadeiras eram giratórias, e passávamos boa parte do tempo viradas para trás, nossos joelhos quase se esbarrando, o cigarro de uma debaixo do nariz da outra, conversando.
          No início, ela me tratava mal. Na minha inocência, mais de uma vez, não percebi isso, naturalmente, era por conta de meu passado em Vassar e de minha carreira literária; mas em pouco tempo ela foi se tornando mais educada, e chegamos até a gostar uma da outra, moderadamente. Rachel era quem falava mais. Tinha muito a dizer; queria corrigir todas as falhas da minha formação e, como tantos outros naquele tempo, queria que entrasse para o Partido. Para não ter que ir à sede com ela e tirar minha "carteirinha", coisa que poderíamos fazer com facilidade na hora do almoço, assim que eu parasse com aquela absurda teimosia e me decidisse, resolvi dizer-lhe que eu era anarquista. Mas isso não adiantou muito. Apesar de meus princípios, me vi obrigada a defender o atentado a Berkman contra o sócio de Andrew Carnegie, Henry Frick, e depois disso passei horas na biblioteca da Forty-second Street consultando os livros classificados sob An, numa tentativa desesperada de conseguir fazer Rachel calar-se. Durante algum  tempo mantive contato com uma organização anarquista (descobri que eles são difíceis de contatar) em Nova Jérsei, a qual passou a me enviar panfletos e convites para reuniões, todos os dias, pelo correio.
          Às vezes almoçávamos juntas na imensa Stewart's Cafeteria. Eu nada tinha contra os restaurantes self-service, mas eles causam uma certa indecisão: o que comer, em que mesa sentar-se, em que cadeira da mesa ficar, tirar ou não o prato da bandeja antes de comer, onde colocar a bandeja, tirar ou não o casaco, largar as coisas com os comensais e ir pegar o copo d'água esquecido ou voltar com bandeja e tudo. Mas Rachel me empurrava a sua frente em direção ao balcão dos sanduíches. Era impressionante a variedade de sanduíches que se podia mandar fazer num átimo, e Rachel sempre comia três: salmão com requeijão num pãozinho, carne enlatada com picles num pão de centeio, carne defumada com mostarda em sei-lá-o-quê. Ela fazia seus pedidos aos gritos. Isso não adiantava muito, concluí, após tentar fazer meus três pedidos em voz alta; os sanduíches tinham todos os mesmo gosto. Passei a pedir uma maçãs cozidas. grandes, um tanto irreais, com café. Eu e Rachel, com seus três sanduíches e suas três xícaras de café pedidas ao mesmo tempo, nos sentávamos com nossas capa e galochas encharcadas, nossos almoços se confundindo na mesa, e ela me fazia sermões sobre literatura.
          Ela nunca falava sobre política no almoço, não sei por quê. Tinha lido muito, e para mim, que era formada em letras, seu gosto me parecia patético. Gostava de livros grandes, com muita auto-afirmação e emoção, e seu poeta favorito era Whitman. Gostava das traduções de Merejkovski, tudo que Thomas Wolfe já havia publicado, tudo de Theodore Dreiser, o ciclo Studs Lonigan de James Farrell e, mais do que tudo, Vardis Fisher - ela praticamente sabia de cor tudo ue ele já havia publicado. Uma sensação de pesadelo me domina quando relembro aqueles almoços: o chão úmido e sujo de terra sob meus pés; a multidão molhada, ruidosa, a comer sob as luzes de néon; e a voz possante e inexorável de Rachel, me relatando com todos os detalhes a infindável e insuportável autobiografia de Vardis Fisher. Talvez alguns detalhes fossem acrescentados por ela, não tenho certeza; tomei a firme decisão de jamais ler os livros desse autor, que ela se oferecia para me emprestar, e até hoje não os li. Lembro de uma vez que ela recitou um verso e meio de "Modern love" de onde Fisher havia tirado três títulos consecutivos: "In tragic life. God wot./ No villain need be! Passions spin the plot..." [A vida trágica, Deus sabe,/ Dispensa vilões! São as paixões que movem o enredo], e fiquei a me perguntar, em meio àquela zoeira, por que motivo Fisher não havia explorado as possibilidade de "Deus sabe", ou se um dia chegaria a fazê-lo. Eu havia recentemente empreendido uma análise pormenorizada de The waste land, de Eliot, e aquela colagem literária não cheou a me impressionar.
          A única coisa que impressionava Rachel era o "realismo", apenas o "realismo". Mas eu tentava argumentar, no meu velho tom de sala de aula, que havia realismos e realismos, ou lhe perguntar o que ela queria dizer com "realismo", Rachel voltava uma expressão feroz para mim - seus olhos brilhavam sob as luminárias Stewart's - e em silêncio escancarava a bocarra para acomodar os vários andares de se sanduíche. O sinal sobre a bochecha subia e descia enquanto ela mastigava De início aqueles olhares que pareciam tabefes me inspiravam medo, mas acabei me acostumando. E quando, um dia, em nossa sala no curso, Rachel me pediu para ler uma frase que ela havia escrito para lhe dizer se a sintaxe estava correta, percebi que minha colega estava começando a gostar de mim, apesar de minha decadência burguesa e de minha falta de contato com a realidade que me levavam  buscar refúgio na infantilidade do anarquismo. Percebi também que Rachel já estava desconfiada de que havia algo de estranho nas posições polítcas que eu supostamente defendia.
          Arrogante, desonesta, pouco simpática, orgulhosa de ser "durona", suscetível, insensível, porém capaz de manifestar bondade ou senso de humor quando um gesto conseguia atingi-la, Rachel era uma novidade para mim. Tinha uma característica rara que captava meu interesse: jamais falava sobre si própria. Ganhava vinte e cinco dólares por semana. Andava mal vestida, até mesmo para uma frequentadora da Stewart's naquele tempo, e suja, ainda por cima. A única coisa que fiquei sabendo a seu respeito era que tinha uma irmã, internada num sanatório público para tuberculosos, que ela visitava todos os meses, mas de quem não gostava muito, ao que parece por ela ser doente, e portanto "não servir para nada". Rachel, por sua vez, era uma mulher fortíssima, e não demorou para que me desse conta de que ela inspirava medo, um medo quase físico, em todo mundo naquela pseudo-escola, inclusive o presidente, o senhor Black. Também não demorei para compreender que Rachel era o verdadeiro cérebro do curso, e posteriormente cheguei mesmo a suspeitar que fosse ela a verdadeira dona, e o senhor Black apenas um testa-de-ferro. Essa hipótese era provavelmente falsa, mas nunca descobri a verdade a respeito de nada do que se passava por lá.
          Rachel fumava cigarros que eram roubados para ela por um "homem" que ela conhecia - de que modo eram roubados, e que homem era esse, jamais descobri. De vez em quando apareciam outros objetos - uma bolsa nova, uma caneta-tinteiro, um isqueiro - vindos da mesma fonte, ou talvez de um outro "homem", mas Rachel jamais falou em amor nem em relações amorosas, a não ser as de Vardis Fisher. Era de esperar que ela me odiasse; minha aquiescência tranquila e minhas correções vacilantes deviam ser difíceis de engolir; mas creio que não me odiava. Acho que tínhamos pena uma da outra. Tenho a impressão de que Rachel me via como uma pessoa marcada para morrer; eu desfrutava minha breve existência de cigarra, meu "senso de humor", minha "cultura", enquanto tal era possível, e talvez, num futuro não muito distante, quando "a coisa virasse", ela poderia interceder em meu favor se quisesse. Imagino que mais tarde ela pode perfeitamente ter tido sucesso no mundo dos negócios - provavelmente em algum negócio escuso, como o curso de redação, só que em escala muito maior. Rachel parecia ser atraída por tudo que era escuro e torto, como se por acreditar que as pessoas eram levadas a usar métodos ilícitos pelas circunstâncias econômicas, não ser desonesta fosse uma desonestidade para ela. Um de seus ditos prediletos eram "a propriedade é um roubo".
          Pobre Rachel! Muitas vezes me inspirava antipatia, me dava um frisson, e no entanto ao mesmo tempo eu gostava dela, e sem dúvida não conseguia deixar de ouvir com atenção tudo o que ela dizia. Durante várias semanas Rachel foi para mim uma espécie de oradora pública particular. O fato de não ter um "passado", nenhum contexto definível em que se situasse, a impressão que dava de ter poder, de estar apenas esperando a hora de agir, por mais falsa e ridícula que fosse, me fascinavam. Conversar com Rachel era como olhar contra a luz e ficar imaginando que imagens sairiam daquelas opacidades e transparências quando a foto fosse ampliada. (Continua)
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4 de setembro de 2010

A escola de redação E.U.A. (parte 1)

Elizabeth Bishop em “Esforços do afeto”, trad. Paulo Henriques Brito
          Quando me formei em Vassar, em 1934, durante a grande depressão, ainda era muito difícil encontrar emprego, e os salários eram muito baixos. Talvez exatamente por isso, eu e muitas de minhas colegas nos achávamos na obrigação de arranjar emprego, mesmo que não precisássemos trabalhar. O espírito da época – e, naturalmente, de minha turma – era radical; éramos todas adeptas de um vago e puritano socialismo. Talvez julgássemos haver algo de virtuoso em trabalhar para ganhar muito menos do que nossas famílias haviam gastado com nossa educação. Foi por esse motivo, por precisar de fato de um pouco mais de dinheiro, por simples curiosidade e, creio eu, por puro masoquismo que me interessei por um anúncio publicado no Times de domingo. Era de um curso por correspondência, a Escola de Redação U.S.A.
          Primeiro fui entrevistada pelo dono, ou presidente, como ele se autodenominava, o senhor Black. Sua primeira afirmação foi a de que a “Escola de Redação E.U.A.” queria dizer “Escola de Redação Estados Unidos da América”, e o prazer que me deu essa explicação me prendeu de imediato. mas agora compreendo que eu fora fora feita por encomenda para o senhor Black, e mentalmentalmente ele deve ter esfregado as mãos e lambido os beiços durante nossa peqeuna conversa. Eu não sabia escrever à máquina – quer dizer, não da maneira correta; queria fumar durante o trabalho, o que era contrário à legislação antiincêndio; e não tinha experiência alguma em coisa nenhuma. Mas tinha um diploma de Vassar; e havia publicado um conto e três poemas em revistas. Eu não fazia a menor idéia da minha força; ele provavelmente me teria aceitado mesmo se eu pedisse vinte e cinco dólares por semana em vez dos quinze que me foram oferecidos, mas  é claro que esse pensamento não me ocorreu. Sem dúvida o senhor Black já estava pensando de que modo poderia incorporar minha formação primorosa e minha carreira literária nos prospectos de sua empresa.
          Porém aqui havia um pequeno problema. Ao menos durante algum tempo, eu teria que exercer minhas funções na escola com o nome de Fred G. Margolies, que era o nome não de meu antecessor, e sim do antecessor do antecessor de meu antecessor. Fiquei sabendo que alguns dos alunos do senhor Margolies ainda não havima concluído o curso, e tinham que receber seus trabalhos corrigidos com a assinatura dele, e até que eles se formassem eu teria de ser o senhor Margolies. Depois eu poderia me transformar em mim mesma e orientar novos alunos. Ocorreu-me que talvez eu preferisse continuar sendo o senhor Margolies, se tal fosse possível. Ele também havia publicado alguma coisa, se bem que nunca consegui me aprofundar na história do curso o bastante para descobrir o quê. E ele – melhor, eles – certamente sabiam escrever cartas muito bem, ou então tinham ainda mais curiosidade do que eu, ou talvez apenas pessoas de muito bom coração, a julgar pelo tom das cartas que eu recebia em nosso nome. Na verdade, durante muito tempo depois desse período continuei achando que o lado neuroticamente "bonzinho" da minha personalidade era mesmo o senhor Margolies.
          O curso ficava no quarto andar, o último, de um velho edifício caindo aos pedaços perto do Columbus Circle. Não havia elevador. Eu havia aceitado – se bem que "aceitado" não pode ser a palavra correta – o emprego no final do outono, e agora tenho a impressão de que estava sempre ou chovendo ou nevando quando eu emergia da estação do metrô, de manhã, no Columbus Circle, e que eu estava sempre com um vestido preto de lã, de impermeável, galochas e guarda-chuva. No corredor escuro havia três lances de escada; e a escada sempre cheirava a coisas como ferro quente; charutos, botas de borracha, caroços de pêssego – os últimos estertores das indústrias agonizavam por trás daquelas portas assinaladas por letras.
          A Escola E.U.A. consistia de quatro salas: uma ante-sala minúscula onde ficava uma moça sozinha, datilografando – conforme vim a constatar, batendo à máquina exatamente a mesma coisa que suas colegas estavam datilografando na sala grande a que a ante-sala dava acesso; creio que ela ficava ali para deter algum aluno que resolvesse inesperadamente vir em pessoa à escola. Nessa ante-sala havia algumas fotos na parede: retratos de Sinclair Lewis e outras pessoas que não haviam estudado lá. Depois vinha a sala grande, mal iluminada por diversas clarabóias cobertas de fuligem e neve, com as luzes acesas o dia inteiro; ali trabalhavam de seis a doze moças. O número delas variava de um dia para o outro; usavam máquinas de escrever muito antiquadas para preparar "aulas" do curso. Na outra extremidade dessa sala havia duas saletas bem pequenas, com janelas para a rua: a sala do senhor Black e a dos senhores Margolies e Hearn.
          O senhor Hearn era uma mulher alta, muito corpulenta, bonitona, com cerca de trinta anos de idade, chamada Rachel, que usava óculos pretos de tartaruga e tinha um sinal preto na bochecha. Nossa sala era um pouco pequena para nós duas. Rachel fumava furiosamente o tempo todo, eu fumava moderadamente, e tínhamos que ficar com a porta fechada para que as pobres datilógrafas provisórias, que não tinham permissão para fumar, não nos vissem e entrassem em greve, ou nos denunciassem ao quartel do corpo de bombeiros mais próximo. Com a chuva e a neblina e a neve lá fora e a fumaça dentro, vivíamos num isolamento sufocante, abafado, como se num casulo. O cheiro era o de um vagão de passageiros após uma longa viagem. Trabalhávamos uma de costas para a outra, mas nossas cadeiras eram giratórias, e passávamos boa parte do tempo viradas para trás, nossos joelhos quase se esbarrando, o cigarro de uma debaixo do nariz da outra, conversando.
          No início, ela me tratava muito mal. Na minha inocência, mais  uma vez, não percebi que isso, naturalmente, era por conta de meu passado em Vassar e de minha carreira literária; mas em pouco tempo ela foi se tornando mais educada, e chegamos até a gostar uma da outra, moderadamente. (continua)
A turma de 1934 (um ano depois da formatura de Mary McCarthy) em Vassar (aavc.vassar.edu)
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28 de junho de 2010

Literatura “primitiva”

          Elizabeth Bishop, no conto "A escola de redação E.U.A.", utiliza o termo, diferenciando-o, porém, da pintura primitiva. Na literatura primitiva, há desmazelo e afobação.
          Enquanto o pintor primitivo é capaz de passar meses ou anos, se necessário, reproduzindo todas as folhas de relva de um gramado ou criando muros de tijolo em baixo-relevo, o escritor primitivo parece ter pressas em acabar logo com aquilo.
          Outra característica que os diferencia, acrescenta, é a ausência de detalhes.
          O pintor primitivo ama os detalhes, e os elabora e enfatiza em detrimento do todo. Mas quando o escritor primitivo utiliza detalhes, estes são muitas vezes absurdamente inadequados, e revelam muita coisa a respeito do autor sem dizer nada de relevante sobre o assunto em questão. Talvez isso prove que têm razão os escritores profissionais que com que freqüência se queixam de que pintar é mais divertido que escrever.
          Talvez - conclui - as mesmas mulheres que apresentam míseros resumos de narrativas sem diálogos e sem nenhuma descrição de personagens e lugares não hesitassem em passar uma tarde inteira enfeitando um bolo de aniversário com glacê de cores diferentes.

In: “Esforços do afeto”, de ELIZABETH BISHOP, Companhia das Letras, São Paulo, 1996.