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13 de outubro de 2015

A madrugada de Gretta


O movimento brusco de Gabriel, lançando o braço pesado sobre o peito de Gretta, fez com que a moça acordasse no meio da noite. Abriu os olhos, empurrou devagar o corpo do marido para mais longe e suspirou aliviada. Como escutava o vento estridente e as cortinas voavam alto, saiu de mansinho da cama quente para verificar as trancas das janelas. Conseguiu vedar as frestas maiores com toalhas e por algum tempo, ficou recostada no vidro, distraída vendo a chuva ensopar o jardim do hotel. Aos poucos, os acontecimentos ocorridos na véspera fluíam desordenados em sua cabeça.
              A lembrança da festa na noite anterior deixou Gretta melancólica, mas sua conversa com Gabriel, antes de dormir, poderia ter um bom final para ela. Quantas vezes participou da comemoração do dia de Reis na casa das tias? pensou. Desde a primeira, detestou o tradicional evento e apesar disto, como esposa do sobrinho favorito, sempre procurou agradar e demonstrar prazer por estar ali. Para suportar a família do marido e os amigos convidados, para suportar a mediocridade e a mesmice, a moça descobriu que precisava estar um pouco entorpecida. Assim, com a ajuda da bebida, desde que chegou na festa, conversou e dançou sem mostrar tédio, jantou, elogiou os repetidos pratos de comida, e bravamente, com um sorriso nos lábios, escutou até o fim o patético discurso de Gabriel.
              Gretta suspirou alto lembrando da única surpresa da noite. Quando os últimos convidados se despediam, inesperadamente uma música passou a ser cantada. Ela tremeu. Era uma música da região onde havia nascido e pouco conhecida ali. Marcou sua juventude e fez com que ela voltasse ao passado, às boas recordações com a sua avó e com amigos. Lembrou de Michael, amor adolescente, olhos expressivos que cantava tão bem a mesma música. Tentando conter as lágrimas que corriam em seu rosto, recordou da morte prematura do rapaz. Tarde como era, já tendo bebido demais, não controlou a emoção que transbordava. Naquela hora, não se deu conta que Gabriel de longe a observava. 
              Gretta reviu mais uma vez a conversa que teve com o marido quando chegaram ao hotel e decidiu esperar sentada que ele acordasse. Ele tinha ficado impressionado com a resposta da mulher sobre o motivo de seu estado transtornado quando escutou a música no final da festa. Mas mal deixou Gretta terminar de contar suas histórias do passado. Fixou-se em Michael e em sua morte. Perturbado, disse que ela tinha guardado um segredo grave. Uma paixão interrompida pela morte, mas viva em seu coração! Gretta ficou admirada com o drama engendrado por Gabriel e, naquele momento, viu uma saída para ela. Resolveu não esclarecer nada, não falar de sua saudade de Galway, da nostalgia que sentiu e nem mencionou que havia bebido demais. Certamente lembrou-se de Michael, mas somente como mais um personagem querido de anos atrás. De coadjuvante, porém, o jovem virou protagonista da história de amor criada por Gabriel.
              Providencial o que aconteceu, pensou Gretta. Há tempos, tentava falar que não era feliz no casamento, que preferia viver sozinha. Quando iniciava a conversa, Gabriel desviava para outro assunto porque não concebia a ideia de que uma mulher escolhesse deixar a segurança oferecida por um marido para ficar por sua conta. Gretta queria aproveitar os sentimentos que afloraram no marido enquanto conversaram na noite anterior para falar da separação. Ele estava abalado com a paixão que criou para Gretta e desolado por não ter ele mesmo experimentado um amor com tamanha intensidade. Que ele pensasse o que quisesse! Gostava de Gabriel e desejava que ele conseguisse se libertar de tantas regras e amarras sociais, mas o que  ela queria mesmo era se afastar daquele homem tão cheio de certezas e verdades.
              Amanhecia e a chuva não parava de cair. Com meio sorriso, Gretta pensou que o dia cinza seria o cenário ideal para a conversa.
Maria Tereza

14 de julho de 2012

Três posfácios para a história do Barba Azul

A história do Barba Azul foi contada por Charles Perrault em 1695. Dizem que o personagem foi inspirado num assassino em série, famoso na França renascentista: Gilles de Rais.
Se você não conhece ou já esqueceu da história, navegue um pouco pela internet. Facilmente, reaparecerão a doce Judite, as suas irmãs, o convite do Barba Azul para alguns dias de diversão e o mistério que pairava sobre a cabeça desse homem feio.
Como desapareceram as suas ex-esposas?
Leonora não conseguia entender e, fascinada por aquele homem tão poderoso, resolveu casar com ele. Depois disso, vem o episódio da proibição feita pelo marido antes de viajar. Tudo era permitido e muito havia para usufruir, só um quarto lhe era interdito. Mas o homem entregou todas as chaves para a moça, inclusive a do quarto fatídico. Claro que ela foi lá conferir.
A descrição do cenário de horror que encontrou perturba o sono de qualquer leitor. Cadáveres de mulheres pendiam das vigas. O chão tinha tanto sangue que a chave caiu e ficou manchada. A mulher ainda tentou limpa-la mas a danada da chave era encantada e o sangue não saía de jeito nenhum.
A cena final dá medo. O marido chega e descobre tudo. Ameaça mata-la.
A moça pede um tempo para rezar...

– Dou-lhe meio quarto de hora – replicou Barba-Azul – e nem um momento a mais.
Quando ela se viu sozinha, chamou a irmã e disse-lhe:
– Minha irmã, sobe ao alto da torre, eu te suplico, para ver se meus irmãos não vêm; eles me prometeram que me viriam ver hoje, e, se os vires, faze-lhes sinal para que se apressem.
A irmã subiu ao alto da torre, e a pobre aflita gritava-lhe de vez em quando:
– Ana, minha irmã, não vês ninguém?
E a irmã respondia:
– Não vejo nada a não ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
Entrementes, Barba-Azul, com um grande cutelo na mão, gritava para a esposa com toda a força:
– Desce depressa, ou eu subirei aí.
– Mais um momento, por favor –, respondia-lhe a mulher. E logo, baixinho:
- Ana, minha irmã, não vês ninguém?
E a irmã Ana respondia:
– Não vejo nada a não ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
– Desce depressa – bradava Barba-Azul –, ou eu subirei aí.
– Já vou – respondeu a mulher. E depois:
– Ana, minha irmã, não vês ninguém?
– Só vejo – respondeu a irmã Ana – uma grossa poeira que vem desta banda.
– São meus irmãos?
– Infelizmente não, minha irmã; é um rebanho de carneiros.
– Não queres descer? – bradava Barba Azul.
– Mais um momento – respondia a mulher.
E depois:
– Ana, minha irmã, não vês ninguém?
– Vejo – respondeu ela – dois cavaleiros que vêm deste lado, mas ainda estão muito longe… Louvado seja Deus! – exclamou um instante depois. –- São meus irmãos; estou lhes fazendo sinal, tanto quanto me é possível, para que se apressem.
Barba Azul pôs-se a gritar tão alto que a casa estremeceu. A pobre mulher desceu e atirou-se-lhe aos pés, desgrenhada e em prantos.
- Isto não adianta nada – disse Barba Azul. – Tens de morrer.
Em seguida, segurando-a com uma das mãos pelos cabelos e erguendo-a com a outra o cutelo no ar, ia cortar-lhe a cabeça. A pobre mulher, voltando-se para ele, rogou-lhe que lhe concedesse um breve momento para se recolher.
- Não, não – disse ele –, e encomenda bem tua alma a Deus.
E ergueu o braço… Neste momento bateram à porta com tanta força que Barba Azul se deteve instantaneamente. Abriram e logo se viu entrar dois cavaleiros que, sacando da espada, correram direto a Barba Azul.
Ele reconheceu que eram os irmãos da esposa, um deles dragão e o outro mosqueteiro, e fugiu sem demora para salvar-se; mas os dois irmãos o perseguiram tão de perto que o alcançaram antes que ele pudesse atingir a escada externa. Atravessaram-no a fio de espada, e o deixaram morto. A pobre dama estava quase tão morta quanto o marido, nem lhe restavam forças para beijar os irmãos.
Verificou-se que Barba-Azul não tinha herdeiros, razão por que sua mulher se tornou dona de todos os seus bens. Empregou parte deles no casamento de sua irmã Ana com um jovem fidalgo, que a amava desde muito tempo; outra parte na compra do posto de capitão para seus dois irmãos, e o resto no casamento dela própria com um homem muito distinto, que lhe fez esquecer o mau tempo que ela passara com Barba Azul.
Marion Cito e Jan Minarik in Bluebeard, Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, 1984. Foto: Ulli Weiss

***
Posfácio 1
                                                                                       Renata Figueiredo
          A viúva do Barba Azul passeava feliz e encantada com seu novo amor pelo jardim do castelo.  Seu novo marido era carinhoso, amoroso, tão belo física quanto interiormente. Cabelo castanho claro, olhos azuis esverdeados e pele rosada, um verdadeiro galã. Calmamente,  de mãos dadas, sem destino, eles contemplavam o momento com sorrisos, abraços, beijos e muito carinho.
          Com seus cabelos soltos e compridos, ao vento, vestido longo e de pés no chão, de vez em quando a viúva dava umas corridas pela grama macia. Chegava na beira do lago, molhava os pés e via seu reflexo no espelho d’água. Sorriso frouxo e gargalhadas altas e descompromissadas, como de uma criança, deixava sair toda a sua felicidade do momento.
        Ele a observava meio abobalhado com tanta beleza e pureza. E sonhava infinitamente com tantas coisas que estariam por vir. Mal conseguia se conter, ao ponto de fortuitamente deixar lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Ela, delicadamente as enxugava e lhe beijava as faces com os lábios molhados de amor.
        Nas margens do lago, deitados, ficaram um sem tempo observando o azul do céu e o movimento das nuvens. Brincavam de descobrir figuras nos formatos das nuvens no céu.
      Cansados já com tantos sonhos, abraçaram-se e acabaram adormecendo.  O céu começou a mudar de cor com o entardecer, ficando vermelho cor de fogo. De longe, uma cena de cinema: o casal com todo aquele cenário ao seu redor. Uma foto merecia ser tirada para registro do flash de vida.
     As crianças em casa já se preocupavam e estavam irrequietos com a demora do passeio dos pais. Eram quase seis horas e a hora do jantar se aproximava. Os empregados resolveram então, sair a procura dos dois, deixando que as crianças continuassem a brincar de espada em seu lugar predileto, a torre mais alta da casa. Ao abrirem a porta do castelo viram que ameaçava chover, o tempo tinha fechado, e voltaram para pegar as sombrinhas. Sofie, a governanta mais antiga da casa foi a procura do molho de chaves para pegar a chave da chapeleira, quando se deparou com a chave ensanguentada do quarto proibido que a patroa lhe havia proibido de usar. Ficou uns segundos com ela na mão observando-a e acabou por guardá-la novamente. Pegou a chave do armário e assim que o abriu se surpreendeu com a arrumação dos chapéus pendurados na parede. Todos lindos, um para cada morador do castelo. Pegou os que achou mais bonitos, o florido para a dama, e o xadrez para o cavalheiro. Saíram a procura do casal.
      Depois de uma longa caminhada, avistaram os apaixonados dormindo no gramado.  Ficaram com pena de acorda-los, e ficaram ali parados. Sentaram um pouco distantes, sem saber o que fazer. E o tempo foi passando...
       Foi quando começou uma tempestade. O susto foi grande com o barulho dos trovões e tal foi a quantidade de água que, rapidamente, os dois acordaram e se levantaram correndo em direção ao castelo.
     Os empregados foram ao seu encontro para oferecerem os guarda-chuvas. Mas, o casal se entreolhou e com cúmplices olhares dispensou  as umbrelas, pondo-se a correr e a cantar I’m singing in the rain. E assim, continuaram felizes para sempre com seus cinco filhos! A família tão planejada.

  
***
Posfácio 2
Maria Tereza Albernaz
          Já estou casada de novo há dois anos e ainda sinto calafrios quando penso no que poderia ter acontecido comigo. Traí a confiança de Barba Azul e a punição seria cruel caso meus irmãos não tivessem chegado a tempo para interromper a fúria de meu marido.
          Hoje o homem com quem vivo me cerca de carinho e atenção. Não faltam luxo e riqueza ao meu redor. 
          Confesso que a morte de Barba Azul ainda me pesa um pouco e não posso afirmar que sinto alívio por não ter sido eu a condenada. Procuro as razões para as atitudes violentas que provocaram a barbárie no castelo e não encontro. O que pode ter levado uma pessoa tão sensível a se transformar em um monstro sanguinário? O que terá acontecido no seu passado? Macabro mistério!
          Entrei no único quarto proibido entre tantos outros cômodos abertos. Não tolero ordem sem explicação. Poderia ter discutido com Barba Azul. Este foi meu erro. Agi escondido. 
          Enfim... esta história contrariou dois ditos populares: curiosidade, afinal, não mata. E, saber não é poder. Mesmo conhecendo os segredos do castelo, nada foi suficiente para salvar Barba Azul.
 
Charles Ludlam e Lohr Wilson em Bluebeard. Foto: Leandro Katz.
 
***
Posfácio 3
Ruth Lifschits
          Leonora se salvou mas seu “e viveu feliz para sempre” custou um pouco a acontecer.     
          É certo que seu marido mau tinha sido eliminado e ela estava rica. Herdara a fortuna do Barba Azul: o magnífico castelo e seus tesouros e riquezas. Vivia cercada de esplendorosos jardins, bosques a perder de vista e o canto dos mais belos pássaros. E um novo marido tão pacífico, calmo e  previsível quanto o cenário que a rodeava.
          Sua vida  entrara em solene monotonia. Leonora sentia-se morrer dia após dia.  
          - Não posso continuar assim.   
      Inquieta, resolveu caminhar um pouco, para mover sua energia. Perambulou pelo castelo, entrando e saindo dos cômodos sem se fixar em nada, passando os olhos por tudo: teto, chão, paredes. Ambientes perfeitamente limpos e decorados. Foi quando, em uma saleta menor, algo brilhou e prendeu seu olhar. Aproximou-se de uma bela escrivaninha  de pau marfim com lindos entalhes em castanheira, negros e acetinados, e viu a chave daquele quartinho proibido, aquela que quase a levara à morte.  
       A peça dourada brilhava iluminada por um raio de luz que incidia  unicamente sobre ela. Leonora olhou ao redor, viu que  as cortinas estavam cerradas. Não havia como a luz natural entrar dentro do cômodo e muito menos chegar até aquele cantinho retirado. Lá fora caía uma chuvinha fina, típica das manhãs nubladas da primavera.    
          Ela não acreditava no que via e não conseguia tirar os olhos do objeto luminoso. De repente foi tomada pelas imagens que vira no dia em que entrara no  quarto proibido - as poças de sangue, os corpos das mulheres degoladas e penduradas nas vigas do teto. Tremeu dos pés à cabeça, a cena era demasiadamente forte.  
         Mas, algo de bom surgiu das sensações sentidas. Uma forte vibração percorreu todo o seu corpo enchendo-a de uma nova energia. Pegou a chave e viu que   já não havia  mais nenhuma mancha de sangue nela, “alguém a limpou?! Eu não consegui!”. 
        Leonora correu para as escadas do final do corredor, descendo-as de dois em dois degraus, em grande pressa, até chegar ao pequeno quarto que permanecia trancado. Sem fôlego, mas com mão firme, abriu a porta e se deparou com um espaço arrumado, impecável. Não havia um pingo de sangue à vista e nenhum  corpo degolado em qualquer viga do quartinho. Ficou ainda mais intrigada. 
        O resto do seu dia foi difícil, não conseguia se concentrar em nada. Resolveu se retirar bem mais cedo do que costumava. 
       E teve uma noite de sonhos, nos quais a chave a levava aos  lugares  mais incríveis que se possa imaginar. Foi tomada por prazeres jamais sentidos, provou o proibido do proibido. Acordou muito bem disposta, de faces rosadas e olhos brilhantes.
       - Amado esposo, convido-o a  tomar o café da manhã comigo na  ante-sala dos meus aposentos, foi logo dizendo assim que deu de cara com o senhor seu marido. 
      Ordenou à criada que os servisse lá. Conversaram longamente – ela muito falante, ele sempre com pouco a dizer, limitando-se a balançar a cabeça afirmativamente de tempos em tempos. Em determinado momento, Leonora se levantou, sussurrou algo em seus ouvidos e os dois saíram juntos para os fundos da casa. 
       Foi a última vez em que foram vistos juntos. 
      No dia seguinte, Leonora conseguiu algumas lágrimas nos olhos ao revelar uma carta despedida, na qual o marido explicava suas razões para abandoná-la e lhe pedia perdão.  
      O incidente rapidamente virou esquecimento. Sem espantos e sem espantados, a vida no castelo voltou à  rotina. 
    Mas Leonora rejuvenesceu. Passou a dar festas com frequência. Dançava, ria  e flertava abertamente com seus admiradores, sem se comprometer com nenhum deles. Foram tempos alegres e felizes, regados a bons vinhos, mesas fartas e muita diversão.  
       E assim o tempo passou. Leonora viveu uma longa vida de estimulantes sonhos, sempre  bonita e radiante, com a chave do pequeno quarto pendurada ao pescoço e um eterno sorriso misterioso nos lábios.
 
***
Mil e um Barbas Azuis

Na obra de Stephen King, The Shining ("O iluminado", 1977), a história do Barba Azul é recontada por Jack Torrance, o protagonista. O filme baseado na história foi lançado em 1980, dirigido por Stanley Kubrick e protagonizado por Jack Nicholson.
Os livros de Neil Gaiman, Smoke and Mirrors e Fragile Things, trazem histórias baseadas no Barba Azul, na verdade em Mr. Fox, personagem da literatura inglesa, falsamente acusado de matar a sua esposa.
A autora parte da história do Barba Azul para escrever os contos neste livro. São memórias de infância, o envelhecimento  dos pais, e as crueldades entre homens e mulheres.
Andrew Lang (1844–1912) coletou e publicou numa série de 10 livros inúmeros contos de fada. O Barba Azul saiu na livro azul (cada volume tinha uma cor). Num tempo em que este era um gênero pouco valorizado, o trabalho de compilação foi fundamental para disseminar histórias há muito perdidas na memória.
Esta ópera de Béla Bartók estreou em 1918. O libreto, do poetá húngaro Béla Balázs, focaliza a história de uma das esposas mortas por Barba Azul, Judite, que tenta entender a natureza de seu marido e lhe pede que as portas do castelo sejam abertas. São sete aposentos: a câmara de torturas, um jardim e um lago de lágrimas... No último, ela é assassinada.
Barbe-bleue (1866) é também uma ópera bufa de Jacques Offenbach, com livreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy
A música saiu em single em 1994. Alguns versos dizem:
Você é o homem certo para mim? / Você está seguro? / Você é meu amigo? / Ou você é tóxico para mim? / Você trairá minha confiança?
Editado em 1982, o romance gira em torno de Felix Schaad, médico de Zurich, de 54 anos, acusado de estrangular Rosalinde Zogg, uma garota de programa e sua sexta mulher. A história foi adaptada para o teatro.
No filme de Claude Chabrol, Landru, o pai de quatro crianças, procura mulheres nos jornais de Paris, para seduzi-las e mata-las, de modo a alimentar sua família.
Neste filme de 1947, pela primeira vez, Charlie Chaplin não faz o vagabundo. Depois da Segunda Guerra, ele volta como um serial killer. A inocência mostra o quão monstruosa pode ser.
Neste livro de 1979, a autora retrata a questão do feminino e da transgressão, com foco na sexualidade sado-masoquista.
Viúvo de sua segunda mulher, Rabo Karabekian escreve um diário em sua mansão em Long Island, onde guarda a maior coleção de pinturas abstratas e expressionistas do mundo. Na praia, ele encontra Circe Berman, que sob o pseudônimo Polly Madison, é autora de muitas novelas populares para adultos. Esta mulher formidável irá reorganizar a vida de Karabekian, mas ele tem um segredo: uma porta fechada.
Comédia de 1938, baseada numa peça francesa de Alfred Savoir. O roteiro foi escrito por Billy Wilder e Charles Brackett.   

27 de outubro de 2011

Odisseu em Hades

Extraído do Canto XI da Odisséia de Homero, trad. Jaime Bruna
William Turner
           Depois de invocar com votos e preces as nações dos mortos, peguei as reses, degolei-as sobre a cova, e o sangue de negros vapores correu.
          Aglomeraram-se, então, subidas do Érebo, as almas das pessoas mortas. Era, donzelas, moços solteiros, velhos sofridos, virgens puras com o primeiro luto no coração; muitos eram os feridos pelas espadas de bronze, mortos em combate, com suas armaduras tintas de sangue. Chegavam incontáveis, de toda parte, e apinhavam-se em redor da cova, ululando prodigiosamente, e um pálido terror se apossou de mim. 

           [...] Veio em seguida a alma de minha falecida mãe, Anticléia, filha do altivo Autólico; eu a deixara viva quando parti para a Ílio sagrada. Ao vê-la chorei e senti pesar em meu coração; contudo, a despeito de minha dor profunda, não permiti que se aproximasse do sangue antes de eu consultar a Tirésias.
           Veio depois dela a alma do tebano Tirésias; trazia um cetro de ouro; reconheceu-me e disse:
          Filho de Laertes, progênie de Zeus, engenhoso Odisseu, por que vieste, ó desditoso? Por que deixaste a luz do sol, para veres defuntos e um lugar desprazível? Eia, arreda-te da cova e recolhe a adaga acerada, para que eu possa beber do sangue e revelar-te a verdade.
          Assim falou; eu me arredei, embainhando a adaga tauxiada de prata. O impecável adivinho, depois de sorver o escuro sangue, dirigiu-me estas palavras:
          Procuras, glorioso Odisseu, um regresso doce como mel; um deus, porém, to fará penoso; não creio que te esqueça o deus que a terra estremece; ele te guarda rancor no coração, encolerizado por lhe teres cegado o filho dileto. Não obstante, embora sofrendo desgraças, poderás lá chegar, se te dispuseres a conter tua sofreguidão e a dos companheiros, quando aproximares teu bem construído barco da ilha Trinácia, escapando do mar violáceo, ao encontrares no pasto as vacas e nédias ovelhas de Hélio, que tudo do alto vê e tudo escuta. Se as deixares intactas e cuidares de teu regresso, ainda chegareis a Ítaca, a despeito de sofrerdes reveses; caso, porém, as saqueies, então te predigo o fim do barco e da tripulação; se tu mesmo escapares, chegarás, tardio e humilhado, perdidos todos os companheiros, a bordo de barco estrangeiro; encontrarás tribulação em casa homens estróinas, que devoram teu sustento, pretendendo a mão de tua divina esposa, a quem oferecem presentes. [...] 


          Assim falou ele e eu lhe disse em resposta:
          Tirésias, foram os próprios deuses, creio, que teceram assim meu futuro. Eia, porém, dize-me uma coisa, falando sem rebuços; estou vendo presente a alma da minha falecida mãe; ela está sentada em silêncio perto do sangue; não teve, porém, ânimo de encarar o seu filho e conversar com ele. Dize, príncipe, qual o meio de ele poder reconhecer em mim quem sou?
          Assim falei e ele prontamente me disse em resposta:
          ― Não me custará dizê-lo de modo que compreendas. Toda aquela, dentre as almas dos mortos, que deixares chegar perto do sangue te fará vaticínios verazes, mas, se a alguma o recusares, essa tornará atrás.

***
PARÓDIA OU RECONTO?

Filho, aproxima de mim este cálice
barto-li
O sangue do sacrifício escorreu dos lábios da mãe de Ulisses. Ela precisava desse alimento para falar com o filho. Ah! que delícia. Saciada ela contou todas as fofocas de Ítaca. Você nem imagina o que aconteceu na sua ausência. Depois de muito ouvir, Ulisses ouviu mais porque sua mãe chamou as amigas para compartilharem do chá de sangue. Ulisses não pôde negar. Uma a uma elas passaram. Mas nosso herói não ficou cansado de ouvir espíritos. Ei, vocês poderiam me chamar o Tirésias? Eu quero ouvir o velhote vidente. Ele é cego, Ulisses. E daí? O homem vê coisas que ninguém vê. Lá isso é verdade. Aqui em Hades, ele é o cara. Tirésias chegou e bebeu um copão de sangue. Hum. Quero mais. O cara aproveitava da sua condição de fofoqueiro-mor. Depois de uns dez copos, Tirésias soltou o verbo. Ulisses, meu caro, você vai se dar mal. E toca a dar má notícias. Chega, chega, Tirésias. Xô, mau agouro.

***
Tirésias, o guia cego, é um personagem fascinante. Transitando pelos gêneros, pelos territórios, ele dá margens a várias recriações. No cinema, o Stalker, de Tarkovsky, é considerado uma dentre as diversas variantes de personagem tiresiano. De fato, o personagem-título oferece aos interessados uma passagem segura pela Zona para que eles possam entrar no Quarto - lugar onde os mais recônditos desejos dos visitantes serão atendidos. No filme, o Stalker leva um cientista e um escritor até o limiar do Quarto. A discussão que acontece ali (neste filme, é o diálogo que acontece) faz a gente pensar  no quanto a ciência e a arte às vezes podem ser tão estúpidas diante da simplicidade na vida.

9 de agosto de 2011

História e ficção (reconto)

A NOITE DE PILATOS (extraído de Histórias Apócrifas)
Karel Tchápek
          Naquela noite, Pilatos jantava com o seu ajudante de ordens e com Susa, um jovem tenente oriundo de Cirenaica. Susa mal percebera que, então, de forma pouco habitual, o governante estava muito calado. E Susa tagarelava alegremente, fazendo anedotas a respeito do primeiro terremoto que presenciara em sua vida.
          — Foi uma comédia excelente — berrava entre dois bocados. — Quando escureceu, após o almoço, corri para a rua para ver o que afinal de contas estava acontecendo. Na escadaria, tive uma sensação de que as minhas pernas estavam adormecendo ou escorregando. Posso afirmar que foi muito engraçado. Palavra, Excelência, desde que me dou por gente jamais poderia imaginar que um terremoto é assim. Antes que eu pudesse chegar à esquina, os civis já estavam correndo em minha direção, olhos esbugalhados, gritando como tresloucados: “As sepulturas vão se abrir, os rochedos vão rebentar!” Com os diabos, pensei, vai ver que é um terremoto! Rapaz, disse a mim mesmo, você tem uma sorte danada! Um fenômeno tão raro da natureza, não é mesmo? 
          Pilatos meneou a cabeça.
          — Já presenciei um terremoto na Cilícia, lá se vão uns dezessete anos. Mas a coisa, então, foi bem maior.
          — Bem, então podemos dizer que nem aconteceu coisa alguma — exclamou Susa, de maneira impensada. — No caminho que conduz a Hakeldamá rompeu-se um pedaço de rochedo. Sim, e alguns túmulos abriram-se dentro do cemitério. Admira-me muito que, neste país, eles cavem sepulturas tão rasas; não chegam a ter um côvado. No verão, deve ser uma fedentina...
          — É o hábito — resmungou Pilatos. — Na Pérsia, por exemplo, eles simplesmente não enterram os mortos: colocam o cadáver debaixo do sol, e pronto.
          — Meu senhor, isso deveria ser proibido! — objetou Susa. — Por razões de saúde pública, etecétera.
          — Proibir! — murmurou Pilatos. — Nesse caso, você não poderia fazer outra coisa a não ser ficar dando ordens e proibir-lhes alguma coisa, o tempo todo. Essa é uma política ruim, Susa. Não devemos imiscuir-nos nos negócios deles; pelo menos, nesse caso eles ficam quietos. Se vocês desejam viver como selvagens, bem, seja feita a vontade de vocês. E olhe, Susa, que eu já andei por muitos países...
          — Gostaria de saber como é que surge um terremoto destes — voltou Susa ao objeto de sua curiosidade momentânea. — Digamos que existem buracos debaixo da terra e eles, assim, sem mais nem menos, desabam. Está certo; isso eu consigo entender. Mas por que o céu fica encoberto? Não tenho inteligência suficiente para compreender. Pela manhã, o céu ainda estava limpo...
          — Peço-vos perdão — manifestou-se o velho Papadokitis, um grego do Dodecaneso que servia à mesa. — Já ontem à noite era possível ver que alguma coisa estava se preparando. O pôr-do-sol estava extraordinariamente rubro. Eu havia dito à minha cozinheira: “Miriam, amanhã teremos tempestade ou ciclone”. E Miriam respondeu: “E eu tenho dores nas costas”. Já se podia esperar que o tempo ficasse ruim. Peço-vos que me perdoem, novamente.
          — Já se podia esperar — repetiu Pilatos, cismado. — Sabe, Susa, eu também esperava que algo acontecesse hoje. Aliás, desde a manhã de hoje, quando entreguei para eles aquele homem de Nazaré; precisei entregá-lo, porque, segundo o conceito romano de política, não nos devemos imiscuir nos assuntos internos dos nativos. Guarde bem isso, Susa; quanto menos relações as pessoas tiverem com o poder do Estado, mais facilmente serão eles capazes de suportá-lo... Por Júpiter! onde foi que eu parei?
          — Naquele nazareno — auxiliou Susa.
          — Sim, o nazareno! Sabe, Susa, interessei-me um pouco por ele. Nasceu em Belém. Eu creio que os nativos efetivamente cometeram um crime contra ele. Mas, afinal de contas, isso é um assunto deles. Se não lhes entregasse aquele nazareno, iriam crucificá-lo da mesma forma; e, nesse caso, apenas a autoridade romana acabaria sendo prejudicada. Mas, espere: isso não tem nada a ver com o resto. Ananias disse que ele era um homem perigoso; quando nasceu, os pastores de Belém acorreram para junto dele e renderam-lhe homenagens, como se fosse um rei! Há pouco tempo, receberam-no, nesta cidade, como se fosse um comandante vitorioso. Isso não entra na minha cabeça, Susa. Em verdade, eu esperava que...
          — Esperava o quê? — observou Susa, após um longo silêncio.
          — Que os habitantes de Belém viessem para cá. Que eles não o deixassem cair nas garras destes intrigantes daqui. Que eles se apresentassem a mim e dissessem: “Senhor, ele é um dos nossos e, portanto, zelamos por ele; viemos dizer-vos que estamos com ele, e não permitiremos que se cometa uma injustiça contra ele”. Susa, realmente eu teria ficado contente com aqueles montanheses. Eu já estou por aqui com estes insolentes e rábulas... Eu teria dito a eles: “Que Deus esteja convosco, homens de Belém; esperava-vos. Por causa dele — e por causa de vosso país também. Não se pode governar marionetes; somente é possível governar homens, mas não esses linguarudos... Homens como vós serão os soldados que não se rendem; homens da vossa espécie é que constituem os povos e as nações. Ouvi dizer que esse vosso patrício ressuscita os mortos. Mas, por favor, o que faríamos nós com os mortos? Mas vós estais aqui, e vejo que esse homem é capaz de ressuscitar os vivos também; que ele conseguiu inocular-vos alguma coisa que se assemelha à lealdade e à honra. A isso, nós, romanos, chamamos virtus; nem sei como se diz isso em vossa língua, homens de Belém, mas isso está dentro de vós. Creio que esse vosso homem ainda será capaz de fazer algo. Seria uma pena por ele.
          Pilatos calou-se e limpou, metodicamente, as migalhas da mesa.
          — Mas não vieram — resmungou. — Ó, Susa, que coisa mais estéril é governar!

***
EM ALGUM LUGAR
Ruth Liftschits
          — Acho que você deve dar uma olhadinha nisso aqui  — Guidobaldo estendeu o jornal para o amigo.
          — Não, deixa pra lá, Guido. Não quero me aborrecer mais. Nada vai mudar coisa alguma. E não importa, na verdade não importa. O que é já é, vai ser e sempre será.
          — Mas Gali, é o Papa, ele falou para um público enorme lá na Terra.
          — Há sempre um Papa falando para um público enorme de ignorantes...
          — Mas é diferente, é importante. É o Papa João Paulo II se retratando em público. Ouça, preste atenção: “1992, Ano dedicado à Astronomia. 31 de outubro de 1992, a Igreja revê suas posições no confronto com Galileu.” É a Igreja reconhecendo que errou!  Até Urbano VIII esteve atento à cada palavra.
          — Urbano, aquele maledeto. Não me fale desse traidor. Insistiu para que eu publicasse meu trabalho. Dediquei O Analisador a ele, pensando estar homenageando um progressista, um amante da ciência, mas qual...fui julgado, proibido de dar aulas, preso e confinado aos limites de minha casa.
          — Galileu, poderia ter sido muito pior. Giordano Bruno foi para a fogueira.
          — Tem razão, mas há males que perduram, reverberam pela eternidade. Veja nosso querido mestre Copérnico, deprimido e triste até hoje.  Alcançou fama imortal, mas foi ridicularizado e vaiado por uma multidão infinita. O número de idiotas é e sempre vai ser incomensurável. Urbano era o Papa e não fez nada para me defender. Autoridade máxima que não moveu uma palha em meu favor; deixou que me anarquizassem. Todos duvidaram do meu conhecimento, minhas palavras foram deturpadas.
          — Você exagera tudo, Galileu. Até suas descobertas são exageradas.
          — Volte para sua matemática, Guidobaldo. Há mais certezas nela e muito mais satisfação. Não quero saber de retratações, seja em que século for. A Igreja muda de opinião como quem troca de roupa. O heliocentrismo se impôs. É uma verdade agora. Quiseram nos convencer que um sol imóvel é uma heresia, que a Terra se mover seria algo teologicamente errado. Bando de ignorantes. Naquela época, eu apontava os erros do método aristotélico, não queria atacar a fé. Sou religioso, acredito em Deus, sempre fui assim.

          Por mais que se esforçasse, Guidobaldo del Monte não conseguiu convencer seu amigo a ler e aceitar a retratação. Galileo Galilei afastou-se, novamente tomado por suas idéias, decidido a resolver de uma vez por todas se Plutão é um planeta anão  ou um simples plutóide do Sistema Solar.
          Solitária, a figura recolheu seus objetos e preparou-se para mais uma profunda observação da região do cinturão de Kuiper.

18 de março de 2011

Ícaro - interessante releitura

Rotineiramente nos meus sonhos sou levado de roldão no turbilhão das chafurdices mais absurdas. E acordo brigado comigo mesmo, por ser frágil, pequeno, indefeso — criaturinha atômica perdida na grandeza das coisas.
          Há pouco eu ia ladeira abaixo, desembestado, numa carreira de doido. E se não conseguisse nunca mais parar, fosse bater no fim do mundo? Bem feito, quem me havia mandado sair daquele jeito! Não, eu podia me esborrachar nas pedras, terminar todo arranhado, quebrar perna, braço, rachar a cabeça. Ah meu Deus! E que vontade de voltar atrás, ao tempo da partida! De pelo menos estacar, tomar fôlego, andar apenas, passo aqui, passo ali, feito cachorro vadio. Porém já nenhuma vontade eu carregava, nada eu conseguia fazer para diminuir a velocidade, desgovernado seixo na correnteza. E descia, rolava, perdido, danado. Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar vôo. As per­nas, soltas no espaço, balançavam agarradas ao resto do corpo, feito as de um enforcado. E me guiavam os quatro ventos do desespero para as alturas e as perdições. Na boca, o gosto do nada; nos olhos, o medo de precipitar-me; no peito, a ânsia da desgraça. Sim, a queda. Não podia durar muito minha aventura de pássaro sem asas. Como voar para sempre? A me­nos que eu buscasse o mar, seguro porto de todos os voadores. Nunca, ele não existia, e, se existisse, vivia longe, longe demais. Mas quanta burrice, eu quase alcançava tocar com os pés as cabeleiras das árvores. Não carecia preocupar-me tanto. Bastava soltar-me das argolas do céu e saltar.
          Com alguma perícia, agarrava-me aos galhos e, macaco velho, evitava o tombo. E ainda dava cambalhotas no ar, pulava de galho em galho, imitava Tarzan. E se me estrepasse? Não, não me restava salvação, condenado a perambular entre as estrelas, até perder todas as forças e... ploft. Era uma vez um menino que desceu a ladeira da vida, tomou carreira, subiu feito balão e espatifou-se todo.
          Não deixei de voar, não avistei o mar, não me agarrei aos galhos das árvores e o sonho terminou em gritaria.
          Há muitos anos, eu vivia constantemente machucado, ferido, coberto de ronchas. E, ainda por cima, minha mãe me cobria de peia. Deixasse de ser tão molenga! Eu não me emendava, no entanto. Caía, apanhava, caía de novo, apanhava mais. Por que não largava essa mania de viver trepado, feito macaco? Porém as mangueiras me encantavam. Difícil só alcançar o primeiro galho. Daí em diante eu me perdia, metido entre as folhagens, escondido do mundo. E a sensação de poder cair! Aquele vento doido, o desequilíbrio, o chão coberto de folhas secas, pintinhos entretidos a caçar insetos, aos pios, frágeis, indefesos entre os pés sujos e desatentos dos porcos aos roncos! Então aconteceu qualquer coisa comigo e eu pulei? Ou caí? Tudo isso depois de me fartar de chupar as mangas amassadas e podres do chão. Caíam de maduras ou por arte dos meninos. Eu não participava dessas brincadeiras. E sempre pegava a sobra. Até o sobejo dos bichos.
          Aprendi cedo a levar quedas, ou dar pulos; ou voar. Esses três tipos de ginástica se confundiam em mim. Eu caía, pulava ou voava da mangueira? Da janela de minha casa, porém, eu conseguia pular mesmo. E voava até o meio da rua. Chamava os colegas e fazíamos apostas.
          Eu devia ter nascido pássaro. Essa vontade de pular, de jogar-me ao chão, de lançar-me do alto. Apenas o espaço vazio, chão, a terra. E o vento que bate, açoita, puxa, empurra.
          Quando me senti bem treinado, resolvi pular do muro alto do quintal. Embaixo só pedras, espinhos, formigas. Caí e quase desmaiei. Levantei-me, cambaleante, machucado, arranhado. Ainda bem que não havia ninguém por perto. Só minha decepção. Quando entrei para casa, mamãe ficou muito nervosa e agitada. Eu disse ter pulado uma cerca, com me­do de um touro. Eu não podia dizer a verdade. Ou touro, ou tourada. “Esse calção encarnado”.
          Antes da seguinte experiência tive a idéia de fazer testes com formigas. Primeira etapa: arranjar uma caixa de fósforos, qualquer latinha. Segunda: encontrar uma porção de formigas. Terceira: ter paciência e coragem de pegar com o maior cuidado as bichinhas. Ninguém consegue fazer isso, por­que formiga é bicho danado de esperto. Mas eu era esperto e meio. E conseguia juntar dez, doze, dezenas delas. Subia ao muro, abria a caixinha, as formigas saíam apressadinhas e eu dava um sopro. As coitadas voavam, caíam e não acontecia nada de mais. Ao chegarem ao chão, corriam, apavoradas. Talvez fossem leves demais.
          Experimentei também as bonecas de minhas irmãs. Do lugar mais alto do mundo — a torre da igreja. E de lá soltei uma a uma, encantado com suas quedas lentas. Corri as escadas para ver o estado delas. No patamar, porém, não encontrei mais nenhuma. Teriam voado? Para a serra, lá onde moravam os passarinhos? Ou haviam voltado para o alto da torre, à minha procura? Espiei para cima, para todos os lados e cadê boneca? Só passarinho voando. E não podiam ser bonecas de pano. Ou podia boneca se transformar em passarinho?
          Noutro dia o sacristão não me deixou subir à torre. Precisava enfeitar a igreja para a procissão. Voltei para casa, doido para ver de novo boneca transformar-se em passarinho.
          Na hora da procissão, o povo em fila, as casas fechadas. Nos parapeitos das janelas nenens de colo e suas avós, e nas portas velhinhos sentados em cadeiras de balanço. Tomei a dianteira, impaciente. Ao nos aproximarmos, deixei a fila e subi à torre. Debruçado sobre a janelinha, tive vontade de cuspir na boiada. A igreja se entupiu de gente. No patamar ficou quem não pôde entrar. Tantas cabeças juntas nunca tinha visto assim de cima. Admirado, ia me esquecendo das bonecas. Deu-me vontade de novo de cuspir. Desisti: o sacristão podia me mandar descer. Devia era jogar logo as bonecas. E joguei. Vôo bonito. Pareciam anjos descendo do céu. Tive medo de olhar, vontade de me retirar da janela e me esconder dentro do sino ou detrás do sacristão.
          O povo, ao avistar a chuva de anjos, gritava e corria. As bonecas caíam. O padre pedia calma aos fiéis. Eu me espremia de medo. As bonecas assustavam o povo de Deus. E se o povo subisse as paredes para me castigar? Aranhas vingativas que me jogassem ao solo. Eu me espatifaria feito uma boneca. Não, voaria e viraria anjo ou passarinho e sobrevoaria a cidade e fugiria para a serra. O padre me amaldiçoaria, me chamaria de Maligno. Mostraria a cruz e eu voltaria a ser gente, menino maligno. Cairia, me despedaçaria todo. Não precisava nem cair. Bastava pular da torre. Todas aquelas ovelhas correriam, fugiriam de mim e me deixariam morrer. Nenhuma abriria os bra­ços para me aparar. Eu me quebraria de encontro ao duro chão do patamar. A menos que o povo se juntasse de novo. Então eu cairia em cima dele e me salvaria. Não, aquelas cabe­ças eram duras. Serviam então as mãos. E se seus dedos me furassem, me espetassem? Nem isso. Aquele povo imenso abria caminho para minha morte. Furava um buraco para eu me enterrar. Eu e as bonecas.
          Todos olhavam para cima, embasbacados, como se eu fosse a papa-ceia. O vento soprava. O espaço vazio, cinzento. Minhas irmãs choravam a morte de suas bonecas que voavam para a serra e às vezes caíam como frutas maduras. Por onde andava o sacristão que não vinha bater o sino? A procissão continuava, mas no patamar não cabia sequer mais um cristão. Os fiéis esperavam Deus. Se eu caísse? Se eu voasse? Se eu virasse anjo, passarinho, aquele homem de asas?

30 de outubro de 2010

A casa de Asterion (reconto do Minotauro)

Jorge Luís Borges (retirado do livro O aleph, trad. Flávio José Cardozo)

E a rainha deu à luz um filho que se chamou Asterion.
Apolodoro: Biblioteca, III,I.
          Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio da casa, mas também é verdade que suas portas (cujo número é infinito)* estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Asterion, seja um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não existe uma fechadura? Mesmo porque, num entardecer, pisei a rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mão aberta. O sol já se tinha posto, mas o desvalido pranto de um menino e as preces rudes do povo disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, se prosternava: alguns se encarapitavam no estilóbato do Templo das Tochas, outros juntavam pedras. Algum deles, creio, se ocultou no mar. Não é em vão que uma rainha foi minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que o queira minha modéstia.
          O fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais minúcias não encontram espaço em meu espírito, capacitado para o grande; jamais guardei a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.
          Claro que não me faltam distrações. Como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até cair no chão, estonteado. Oculto-me à sombra duma cisterna ou à volta dum corredor e divirto-me com que me busquem. Há terraços donde me deixo cair, até ensanguentar-me. A qualquer hora posso fazer que estou dormindo, com os olhos cerrados e a respiração contida. (Às vezes durmo realmente, às vezes já é outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de todos os brinquedos, o que prefiro é o do outro Asterion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes reverências, lhe digo: Agora voltamos à encruzilhada anterior ou Agora desembocamos em outro pátio ou Bem dizia eu que te agradaria o pequeno canal ou Agora vais ver como o porão se bifurca. Às vezes me engano e rimo-nos os dois, amavelmente.
          Não tenho pensado apenas nesses brinquedos: tenho também meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, um pesebre; são quatorze (são infinitos) os pesebres, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Todavia, de tanto andar por pátios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo das Tochas e o mar. Não entendi isso até uma visão noturna me revelar que também são quatorze (são infinitos) os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, quatorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: em cima, o intrincado sol; embaixo, Asterion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.
          Cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo mal. Ouço seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para buscá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles, na hora da morte, profetizou que um dia vai chegar meu redentor. Desde então a solidão me magoa, porque sei que meu redentor vive e por fim se levantará do pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? – me pergunto. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? Ou será como eu?
          O sol da manhã rebrilhou na espada de bronze. Já não restava qualquer vestígio de sangue.
          -    Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu. – O minotauro apenas se defendeu.
Para Marta Mosqueta Eastman
* O original diz quatorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Asterion, essa adjetivo numeral vale por infinitos.
Picasso - Minotauro ferido IV (1933)

27 de setembro de 2010

A mensagem desejada

Extraída de “O imaginário cotidiano", de Moacyr Scliar
http://www.fotorescue.com/
           “EVITE E‐MAILS INDESEJADOS.” (INFORMÁTICA, 30 AGO. 2000)

           Brigaram muitas vezes e muitas vezes se reconciliaram, mas depois de uma discussão particularmente azeda, ele decidiu: o rompimento agora seria definitivo. Um anúncio que a deixou desesperada: vamos tentar mais uma vez, só uma vez, implorou, em prantos. Ele, porém, se mostrou irredutível: entre eles estava tudo acabado.
             Se pensava que tal declaração encerrava o assunto, estava enganado. Ele voltou à carga. E o fez, naturalmente, através do e-mail. Naturalmente, porque através do e-mail se tinham conhecido, através do e-mail tinham namorado. Ela agora confiava no poder do correio eletrônico para demovê-lo de seus propósitos. Assim, quando ele viu, estava com a caixa de entrada entupida de ardentes mensagens de amor.
             O que o deixou furioso. Consultando um amigo, contudo, logo descobriu que havia solução para o problema: era possível, sim, bloquear as mensagens de remetentes incômodos. Com uns poucos cliques resolveu o assunto.
              Naquela mesma noite o telefone tocou e era ela. Nem se dignou a ouvi-la: desligou imediatamente. Ela ainda repetiu a manobra umas três ou quatro vezes. Depois, também o telefone silenciou, mas aí ela optou por usar o pager dele. Tórridos recados apareciam ali, evocando as passadas noites de paixão e prometendo repeti-las. Ele simplesmente enfiou o pager numa caixa, junto com vários outros objetos sem uso. Posso muito passar sem essa droga, resmungou.
             Esgotada a fase eletrônica, começaram as cartas. Três ou quarto por dia, em grossos envelopes. Que ele nem abria. Esperava juntar vinte, trinta missivas, colocava tudo em um envelope e mandava de volta para ela. Funcionou: agora o carteiro trazia apenas contas e propagandas, como sempre.
             Mas se pensou que ela tinha desistido, estava enganado. Uma manhã acordou com batidinhas na janela do apartamento. Era um pombo, um grande pombo branco. Surpreendeu-se: o que estava querendo aquela estranha ave? Tão logo aproximou-se da janela, descobriu: era um pombo-correio, trazendo numa das patas uma mensagem.
             Não teve dúvidas: agarrou-o, aparou-lhe as asas. Pombo, sim. Correio, não mais.
             E pronto, não havia mais opções para a coitada. Aparentemente chegara o momento de gozar seu triunfo; mas então, e para seu espanto, notou que sentia falta dela, de seus carinhos, de seus beijos. Mandou-lhe um e-mail, e depois outro, e outro: ela não respondeu. E não atendia ao telefone. E devolveu as cartas dele.
             Agora ele passa os dias na janela, contemplando a distancia o bairro onde ela mora. Espera que dali venha algum tipo de mensagem. Sinais de fumaça, talvez.

13 de setembro de 2010

A história de Ariadne, por ela mesma (reconto do Minotauro)

Louis Begley - Trad. Rubens Figueiredo ("Folha de São Paulo, Mais!", 22/12/2002)
          No labirinto do Minotauro
          Segundo a mitologia grega, um jovem herói ateniense chamado Teseu, ao saber que sua cidade deveria pagar a Creta um tributo anual composto de sete rapazes e sete moças, para serem entregues ao insaciável Minotauro que se alimentava de carne humana, solicitou ser incúído entre eles. O Minotauro vivia em um labirinto, constituído de salas e passagens intrincadas do palácio de Cnossos, cuja invenção é atribuída ao arquiteto ateniense Dédalo. Ao chegar a Creta, Teseu conhceu Ariadne, resolvida a salvar Teseu, pediu a Dédalo a planta do palácio. Ela acreditava que Teseu poderia matar o Minotauro, mas não saberia sair do labirinto. Ariadne deu então um novelo a Teseu, recomendando que o desenrolasse à medida que entrasse no labirinto onde vivia o Minotauro, de modo a encontrar a saída depois de matar o monstro.
          Teseu usou essa estratégia, matou o Minotauro e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho da volta. Retornando a Atenas, o herói levou consigo a princesa. Depois de uma noite de amor, Teseu deixou-a na ilha de Naxos e ela nunca mais o viu.
***

          Ela sabia a história de sua família, o futuro da família e, nela, o seu próprio futuro. Seu pai, o rei Minos, lhe havia contado. Além disso, ultimamente, rápidas visões desse futuro haviam surgido, em lampejos, ante os seus olhos. Sonhos ou revelações? Não tinha certeza. Este saber a deixava triste, envaidecida e envergonhada. Sua irmã Fedra e ela, ambas suicidas, enforcadas pelas próprias mãos! O Minotauro, seu meio-irmão, assassinado! A nau ateniense, com Teseu a bordo, já estava a caminho, vindo de Creta. Saber que a desgraça se desencadearia muito em breve a deixava aflita. Numa tarde dourada, ela se dirigiu à corte onde sabia que encontraria o pai, recostado em seu coxim de ouro e prata, ajoelhou-se a seu lado, chorou e lhe revelou seus temores. Sabia que o pai a consolaria. O rei ouviu com atenção, afagou o cabelo da filha e disse: Coragem, minha Ariadne. Aquilo que há de vir está sempre diante dos olhos de Zeus e não pode mudar; para nós, que somos seus filhos, ele só revela a porção do futuro cuja visão conseguimos suportar; mas nem mesmo ele pode subjugar as leis da Necessidade. O passado vive na mente dos mortais. Aquilo que há de acontecer não é o mesmo que eles irão conhecer ou lembrar.
          Por que é assim, pai – perguntou Ariadne. Como aquilo que aconteceu pode ser desfeito? Minha filha adorada, respondeu Minos, o passado é apenas o que os poetas nos contam. Mentirosos natos, todos eles, como os que cantam em troca de comida na mesa do meu banquete. Inteligência e memória degeneradas; para cada fato ocorrido, eles inventarão, a cada geração, outros dez, que jamais aconteceram, e cada geração acrescentará suas inumeráveis invenções. Muito depois, homens ainda mais inconsequentes, chamados historiadores, continuarão a reescrever o passado, até que fábulas ocupem o seu lugar.
          Ariadne refletiu bastante. Pai, disse ela, o senhor mostrou-me o caminho. Para nós, mortais, o futuro é breve; o passado pode ser eterno. A fim de salvar minha honra, criarei a minha própria história dos infortúnios que estão para se abater sobre mim. Eis aqui como a história há de ser contada: eu. Ariadne, sabia que a nau ateniense de velas negras traria, mais uma vez, para o senhor, meu pai, o tributo anual de Atenas – sete rapazes e sete virgens de grande beleza – destinados a saciar a fome de carne humana e aplacar a sede de sangue humano do meu meio-irmão, o Minotauro. Eu também sabia que o herói Teseu, filho do rei de Atenas, estava entre eles e que jurara matar o Minotauro. Moviam-no a vingança e a aversão à natureza do Minotauro, em parte humano e em parte animal, e à união da qual foi ele o fruto, quando a rainha Pasifae, minha mãe, enlouquecida por Posêidon, deixou que o touro do deus do mar a cobrisse. Escondida dentro de uma vaca de madeira que Dédalo fabricou para ela, Pasifae abaixou-se e entregou-se ao touro. Mais tarde, o senhor mandou Dédalo construir o Labirinto onde, envergonhado, o senhor escondeu o Minotauro. E eu conhecia a profecia que haviam feito a Teseu: que eu haveria de me apaixonar por ele com tanto ardor que trairia o meu país e o meu meio-irmão. Teseu, com a minha ajuda, entraria no labirinto, apanharia o Minotauro de surpresa e mataria o monstro com corpo de touro e um belo rosto de homem, usando uma espada que eu, às escondidas, pusera em suas mãos. Depois, orientado por mim e com a ajuda de um novelo de linha que eu lhe dera, Teseu escaparia do labirinto e embarcaria de volta para a sua terra, tendo a mim como concubina. Nada disso vai acontecer! Eu, pobre de mim, me entregarei a Teseu. Mas, a fim de me humilhar e relembrar a vergonha do touro e de Pasifae, o louco vai me possuir como fazem os cães. O insulto me deixará furiosa e reanimará meu amor pelo Minotauro, como homem e como touro. O senhor sabe que respeito, por igual, todos os seres vivos. Pelo sexo, porém, me entrego ao touro em qualquer momento. Prevenido por mim, o Minotauro vai devorar Teseu e os outros treze atenienenses. Depois, urrando feliz, com uma guirlanda de rosas em volta do pescoço, ele pedirá a minha mão, que o senhor, de bom grado, cederá. E assim, depois que Zeus tiver chamado o senhor para o lado dele, o Minotauro e eu e os nossos filhos, até a décima geração, reinaremos na rica e fértil Atenas.