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25 de junho de 2011

Série "Todos os contos de um caso" (3 e 4)

EPÍSTOLA
Mgrilo
                 Mãe,
                 Sei que você vai achar estranho eu te escrever nesta sexta-feira, em vez de telefonar como sempre faço. E que você injustamente se intitula “ mãe das sextas”, apelido cretino que sua única filha inventou para me acusar e ganhar um pouco mais de amor. Mais do que eu ganho, sejamos claros. Ela diz que eu nunca vou à sua casa como se você não existisse. O que é uma mentira, pois tive por aí no Natal, só não pude ir na Páscoa e no dia das Mães. E ela me disse no telefone que só vou na sua casa por que você sempre faz  bife à milanesa para mim, e que você ficou magoada por que eu disse que para esses casos prefiro o vício do que o amor. Outra mentira daquela bostinha da minha irmã que não entendeu nada do que eu disse para ela. E quando for implantado o Islã em nossa família, se por lá eles cortam a mão de quem rouba, por aqui vai ser cortada a língua de quem fala muito. Mas eu soube da Jandiara, a sua velha faxineira que faleceu. Acho que você sentiu bastante. Não tenho muitas lembranças dela, só de uma confusão de alguns anos atrás quando ela queimou seu xale indiano no dia do jantar no casarão da Dona Beth. Depois da berraria você ficou resmungando durante dias.  Mas me lembro pouco, por que naquela época estava mais preocupado com a minha juventude. Espero que você a tenha perdoado, por que sempre achei ela uma boa pessoa. Muito trabalhadora.  Você ficava fascinada com o jeito dela consertar o ferro elétrico e o varal de roupas. Ela conseguiu criar um filho com dificuldade e isso é bastante coisa. Mas afinal o que foi feito do xale esburacado? Virou lenço de cabelo da minha ex-irmã?
                do seu filho com amor
 ***
VARAL INSPIRADO
 Gilda Niemeyer
       O telefone toca e Dora corre para atender.
       — Alô, é Dona Dora?
       — Sim, sou eu, quem fala?
       — É a Dalva, amiga da Rosa.
       — Hum, responde Dora, angustiada e sentindo que chegava mais um problema.
       — A senhora se lembra que eu trabalhei na sua casa de Ipanema, substituindo a Rosa? Deve lembrar que um dia resolvi fazer um bolo e, pra surpresa de todos, o bolo solou?
       — Lembro bem, responde Dora, antecipando o que viria, disfarçando a ansiedade que tomava conta dela.
       — A Rosa está muito mal desde que foi despedida, só faz chorar! Estamos todos preocupados com a situação dela. Ela gostava tanto da casa, da família e se dedicou tanto!...
       Lá vem bomba!, pensa Dora, que responde sem demora:
       —Você sabia que ela queimou o meu xale de seda lindo de morrer, trazido da viagem que fiz à India e que eu precisava de usar naquela noite pra festa de amigos, e sem me dizer  nada me entregou o xale queimado embrulhadinho? Onde vou achar outro igual?
       Dalva responde antes de Dora terminar a frase, ofegante, a voz imperiosa:
      — Eu não sei, Dona Dora, é onde a senhora vai encontrar outra Rosa. E segue enumerando os fatos heróicos da amiga, a dedicação de anos, a guerreira que ela é , e com que valentia serviu a todos da família.
       Dora começa a se mexer na cadeira, sentindo-se irritada e ansiosa, doida para desligar o telefone e fazer a Dalva se calar. Caramba, e ela ainda me liga às sete horas da manhã! Suas palavras são finais: — Vou pensar, encontraremos uma solução justa, mas agora preciso desligar.
       Ela vive um conflito. Como encontrar a chave perdida? De fato, como fazer justiça a esse ser desolado por uma injustiça que diz ter sofrido? Dora caminha pela casa buscando inspiração para o enigma, desiste, insiste, até que se dirigindo para a área de serviço e olhando para o teto, verifica que aquele varal de roupas que por séculos ficou desprezado, pendurado nos ares e que ninguém sabia consertar porque não davam conta de estruturar as cordinhas, estava lá no seu lugarzinho de sempre, bonitinho, dizendo:  oi! estou aqui cheio de fraldinhas, cuequinhas, blusinhas esticadas, bem colocadinhas, porque a Rosa, aquela craque em quase tudo, de pastéis à moquecas, a que conserta máquinas e geladeiras, guerreira, madeira de dar em doido, como bem classificou a amiga Dalva, teve a sabedoria de me colocar a serviço, pôs os neurônios pra funcionar. Chama ela de volta.
       Dora liga de novo para Dalva.
       — Diz para Rosa que eu quero ela de volta, me faz muita falta, não podemos ficar nem mais um dia sem a presença dela. Espero-a na segunda-feira.
       E foi assim que a visão do varal de roupas, embandeirado, redimiu a ambas, patroa e funcionária, aproximando-as, fazendo-as amigas inseparáveis até hoje.

3 de maio de 2011

Ensaio Trágico

Mgrilo
                   Observando o quadro intitulado “O importuno” do pintor brasileiro Almeida Jr., podemos contemplar um bom desenho, uma técnica de pintura apreciável e uma idéia insólita.
                   A tela é de 1898, o assunto é a modelo com o pintor no atelier do artista surpreendidos por alguém  que bate na porta, enquanto a moça se veste rapidamente. No quadro, reparamos um cavalete com uma tela de um nu artístico inacabado. O pintor atende à porta segurando a palheta e os pincéis. Um ano depois, o artista foi assassinado no meio da rua com uma  punhalada do marido da modelo.
                   Mas onde o poeta errou? Sabemos que poetas devem ter os pés na lama, os olhos no firmamento e uma arma na mão. Errou com sua arma, a palheta e as cores? Errou na falta de contundência dos pincéis de um Caravaggio? Não. Mas errou quando, recusando todas as propostas que teve para ficar no Rio de Janeiro, voltou para se chafurdar no lodaçal da vida pobre e provinciana dos habitantes da cidade de Itu no final do século XIX.
                   Sonhando com as estrelas o artista solteirão de quarenta e poucos anos não percebeu que a porta de seu estúdio era o acesso ao inferno das feiosas que nunca iriam posar para ele, e da maioria dos homens da cidade que não passavam de mal remunerados comerciários e servidores públicos  que nunca iriam perdoar a boa vida que levava.
                   E foram esses invejosos com línguas ferinas, cartas anônimas e indiretas que induziram uma sanguinária lavagem da honra por parte do ignorante esposo traído.
                   Mais uma vez a vida importuna imita a arte, e nos ensina como é difícil ser poeta em qualquer época.

10 de setembro de 2010

O tóquicico

mgrilo
Se você não consegue o que deseja, é melhor gostar do que consegue. Bernard Shaw
          Com seus cabelos maltratados, longos e esbranquiçados, Rui india-velha estava me explicando por que considera  a maconha um produto natural e uma homeopatia para o espírito.
          Esse vai para o inferno via barca de Caronte, comentei alto depois que me afastei dele. Por que,  pelo contrário, o tratamento do espírito exige diversos atos de coragem e muito trabalho, e corruptores como eles vivem exclamando: Longe de mim, esse trabalho!
          Mas existem outros vícios similares, e uma história de um deles relato a seguir.

Vida de poeta
          Preguiçoso mental em que só considerava a valorização da inspiração sem a transpiração, Moacizinho de vez em quando folheava poemas e prosas daqueles poetas chatos que só se alimentam das palavras pelas palavras e de si mesmos, até que finalmente se achando inspirado pelas musas soltou a seguinte frase no meio de um grupo de pessoas: “Aquele edifício parece um ranário, está cheio de pererecas gostosas!”, e de tanto repeti-la ganhou o apelido de Sophisticated Joe, que passou a usá-lo com algum orgulho.
          E num desses dias, como diz Céline, em que um fio desce das nuvens atravessando a cabeça e saindo pelo traseiro, Sophisticated decidiu apresentar sua frase ao mundo e escolheu nada-mais-nada-menos do que a porta da última cabine de um sanitário popular - murmurando que, pelo menos alguns daqueles caras tem algum momento de reflexão. L - levando uma lixa para preparar o espaço e uma régua para a letra ficar certinha, publicou sua proclama num sábado movimentado às dezessete horas e trinta e um minutos.
          Apesar de ansioso, decidiu aguardar duas semanas para voltar até sua portaeditor e o resultado das reflexões daqueles caras foi a seguinte: duas setinhas com telefones gays, algumas setinhas com epítetos difamatórios como Joe Babacão, Chupa-rola Joe e outros, e uma setinha longa até a parte inferior da porta  obrigando o nosso Joe  a se ajoelhar naquele chão imundo onde ele leu o clássico dos banheiros das escolas:
Triste vida
Triste sina
Ser poeta
de latrina,
          e esse acontecimento pode ser considerado como o término de uma fase de nosso aedo de uma frase.
          Mas com o tempo não se brinca, e muito depois vamos encontrar o nosso ex-Joe trabalhando como advogado de uma empresa e conhecido como Dr. Freitas, e como vício nem sempre é pecado ele acabou fazendo parte de uma punhado de pessoas intituladas DiPoets, vocês sabem, desse tipo de gente que imita as banalidades e as misérias dos estados de espírito deles mesmos.
***
Mike Bidlo. The fountain drawings.  Duchamp's pissoir
http://www.paolocurti.com/bidlo/bidduch.htm

21 de abril de 2010

O caguetinha

mgrilo
... e os seus presentes serão também os meus presentes, e os meus presentes serão só os meus presentes
(fala de irmão mais velho para o menor  fingindo ler a bíblia)
         Quando a pequena mariposa entrou pela janela e se grudou na parede, ele olhou indiferente, mas um impulso o levantou para fechar a janela, encostar a porta e trazer o gato para o quarto; com seus lábios carnudos e proeminentes saudosos da chupeta, apontou a mariposa para o gato e, enquanto a natureza fazia a sua parte, o menino Venio de 11 anos da família Actorides tornava-se um alcagüete. Quando sua mãe perguntou por que tinha feito aquilo, respondeu com sua boquinha muxoxa  “a natureza não pode esperar” e, diferente de todos os outros que faziam essas coisas por interesse ou por prazer, acrescentou uma convicção filosófica  à sua iniciante carreira de caguetagens.
        Não era filho único e nem mau aluno. Quando seu professor de ciências explicou que o homem era também um animal – o apoio cientifico para ampliar suas ações – fez a sua primeira vítima: Nádia bunda-baixa, sua irmã adolescente, que ...tapaf!! levou uma tapona da mãe bem no meio dos beiços, e ele foi muito elogiado por ser tão zeloso com a família.
       Numa seqüência olímpica, os próximos imolados foram Manueli, a faxineira expulsa da casa, e Ciço, o auxiliar da portaria, o mais novo desempregado da cidade. Sendo considerado observador, diligente e cuidadoso pelos pais e vizinhos,  esse sacaninha agora encontrava-se enricado de adjetivos.
       De vez em quando seus pais na cama, antes de anunciarem os desejos, fantasiavam para ele uma carreira sólida no serviço público federal e concursado, como repetia orgulhosa sua mãe, mas como, com as provas da vida não se brinca, a família foi reprovada  – exatamente no dia doze de outubro  e um pouco antes das oito –  na BR-040, com  um acidente de carro em que faleceu esse varão, com o crânio fraturado, salpicando  de neurônios pervertidos a sua alma que voou direto para o nirvana dos corrompidos onde foi recebida com honras e de braços abertos pelo diabo em pessoa que, fazendo biquinho, murmurava baixinho “meu querubim...”

24 de novembro de 2009

Carta aos Medrosos

   mgrilo
             Quem faz adaptações da literatura para o teatro está substituindo seu talento pelo ócio intelectual, e com esse papel de artista passivo evitando escolhas e conflitos  não percebe  a fascinante linguagem poética própria de cada arte maior e  a impossibilidade de transferência de uma para a outra  nesse mesmo nível poético.
                E são esses mesmos que, junto aos pseudo dramaturgos e acadêmicos dessa área, falam da morte do teatro e da dramaturgia, e ainda acreditam que marchar com os tempos é assumir fórmulas existentes – as opiniões autorizadas – sem se libertar desses parteiros e seus monstrinhos trazidos ao mundo.
                Nos debates do Teatro Casa Grande em 1973, o jornalista e dramaturgo Plínio Marcos (autor da peça perfeita “Dois Perdidos Em Uma Noite Suja”) fez a seguinte observação: “ O Teatro se finge de morto, para ver quem aparece no enterro”, e o primeiro a velar o extinto foi Aristóteles.
              Estudando os grandes textos da dramaturgia grega, cinquenta anos após a última grande peça a ser encenada, Aristósteles se tornou o primeiro critico da história do teatro (sua concepção do conceito kátharsis ainda não tem registro prático na dramaturgia mundial, apesar de ser admirável) mas ao se emplumar com regras em sua POETICA  querendo ser considerado uma fênix, por pura malícia essa  avis rara foi mesmo classificada é de defaecare lex.
              O segundo a aparecer no velório foi Hegel, em uma época em que as peças ainda eram encenadas com os atores declamando para a platéia, com total falta de ação no palco e à luz de velas, peças de seus contemporâneos Goethe e Schiller. E sem perceber que a roupa do defunto era maior , provocava sombras com a luz trêmula das velas nas cortinas do teatro assustando os espectadores  que, ao lerem suas regras da ação dramática em sua ESTÉTICA, logo desconfiaram que se tratava de uma migração da defaecare lex.
                E nesses tempos modernos, como uma carpideira dialética, aparece Brecht (“Galileo Galilei”, de sua autoria, está entre o melhor da dramaturgia), anunciando a saída do féretro no seu PEQUENO ORGANON, se empenando como um Ìcaro Proletário e agitando furiosamente os braços gritando uma paródia de si mesmo: “precisamos destituir a platéia e eleger outra!”, assombrando os cidadãos que logo verificaram se tratar de uma extraordinária reprodução em cativeiro  da defaecare lex.
               Com uma prosa clara e honesta, Guilherme Figueiredo  ensina sobre dramaturgia ("Cartilhas de Teatro VI", SNT/73) mas foi sábio o suficiente para deixar registrada essa intenção: “Esqueça as regras e escreva o que  achar melhor”, nos livrando da migração dessa avis rara, que por aqui seria conhecida como defaecare lex brasilis.
               Acho que iniciamos o ano 453 da degustação do Bispo Sardinha.

27 de outubro de 2009

De como um Teatro encerrou suas atividades

Mgrilo

Apesar de não acreditar que poderia ser uma boa peça, estava com minha mulher no saguão aguardando a abertura das portas.

Enquanto esperávamos, estava lhe dando instruções de como agir no final da peça se o ator fosse ruim: “Conta a História que em Roma no ano 303, o Imperador Diocleciano mandou para a arena com os leões o ator mimo Genésio, sendo desconhecida se essa decisão foi porque ele se converteu ao cristianismo ou se porque era um péssimo ator. Dessa maneira, quando assistir um ator medíocre você deve gritar assim: ‘VÁ PARA ARENA COM SÃO GENÉSIO!’ e ambas as partes irão ficar satisfeitas, ele porque vai se achar elogiado até em teatro de arena, e você porque vai se achar uma Imperatriz”, e essa conversa meia boca seguiu até as portas se abrirem.

Que noite! Era uma peça em que o elenco queria interagir com a platéia, e o que aconteceu durante o espetáculo peço que os leitores leiam o que está lavrado no livro de ocorrências pelo escrivão de uma delegacia da comarca do Rio de Janeiro:

“No dia primeiro do mês de abril do ano corrente de hum mil novecentos e oitenta e quatro, um batalhão da PM trouxe diversos elementos para esta Delegacia e se apurou que se tratavam do público e do elenco de uma peça de teatro intitulada AQUILES, AJAX E ZEUS; relatado que perto do final da peça um espectador exaltado reclamou: “Se é para a gente ter algum tipo de participação como está acontecendo, quero o meu cachê!”, paralisando o espetáculo e trazendo dos bastidores o diretor que retrucou se tratar de uma montagem stanislavskiana, ao que foi interrompido por um coro de “quero o meu!”, iniciando uma troca de insultos entre o público e o elenco; contam ainda que neste mesmo momento o gerente do teatro, que estava do lado de fora e colocava o cartaz do novo espetáculo, ao ouvir a barulheira entrou ainda segurando o cartaz sobre sua cabeça onde se lia: ”PORQUE NÃO NASCI MILIONÁRIO?”, provocando mais revolta; e que, depois de muita discussão e cálculos, concluiu-se que os espectadores pela sua participação deveriam receber determinado valor cada um na saída e postos em fila única; mais o agravante é que depois disso, dois atores ainda empolgados pelos seus papéis de marginais e dizendo que iam fazer um tal de “laboratório” resolveram assaltar o público do lado de fora do teatro para tentar recuperar o prejuízo, causando assim pancadaria generalizada”.

Ainda outro dia, passei em frente ao teatro fechado, e olhando para o alto pude ler o que sobrou das letras - que ainda não caíram - daquela malfadada peça: AQUI    JA    Z