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6 de agosto de 2020

Conveniências

Ruth Lifschits

                 Padre, quero me confessar. 

            Não estou à beira da morte e nem mal da cabeça. Estou velha, só isso. Pequei, errei, é hora de acertar as contas. Não sei quanto tempo mais tenho por aqui, já-já me chamam para o andar de cima.

            Católica? Sim, fui. Não se espante, explico. Tive todo o preparo, instrução religiosa mas, lá pelas tantas, parei de praticar. Não que tenha perdido a fé, ela se voltou para um Deus sem igreja. Esse é um dos meus pecados, bem sei. 

            Padre, por favor me dê esse tempo, quero me confessar conversando. Sei que concordou em me ver nesse quarto onde moro. Preciso que me ouça. Pode ser? Ótimo. 

Quarto no Brooklin. Edward Hopper, 1932.

            Me casei duas vezes, a primeira, com vinte e poucos anos, com meu grande amor. De véu e grinalda, união abençoada por Deus. Benção?!, pois sim! Danilo morreu de tifo antes de comemorarmos dois anos de casados. Um jovem, trinta anos incompletos, um doce de pessoa. O segundo casamento foi só no civil, o Deus católico descartado, esquecido.

            Casei com um judeu. Surpreso? Devo contar isso como pecado? Vejo que o desassosseguei. Casei-me sabendo que teria muitos problemas. Os judeus não me queriam, e os católicos desaprovavam a união. 

            Aceitei, quer dizer, aceitamos enfrentar as dificuldades como parte da vida. E Jaime era dez anos mais novo do que eu, uma viúva com um filho pré-adolescente. Ah, não falei do filho? A morte de Danilo precipitou o nascimento do menino, prematuro, com quase 8 meses de gestação. Pulmões ainda não inteiramente formados, criança de risco. Deu trabalho, exigiu muitos cuidados que não dei. Entregue à minha dor, desistindo da vida, larguei meu filho com a minha mãe e a minha irmã. Eu não via sentido em viver. Sem meu amor?! Impossível. Cheguei a iniciar um suicídio num dia em que fiquei sozinha em casa. Enquanto o bebê dormia, fui para a cozinha, me ajoelhei diante do fogão, liguei o gás do forno e enfiei a cabeça lá dentro.  Comecei a respirar fundo quando ouvi o choro – forte, doído. Desisti de morrer naquela manhã. Ele chorava e esperneava. Tirei-o do berço e me sentei com ele numa cadeira de balanço. Ele foi se acalmando e, de repente, sorriu para mim. Esse sorriso me fez mãe, me conquistou. 

            Desse dia em diante, tudo que eu fazia, pensava, planejava era para ele. Tentativa de suicídio, pecado forte, não? Conversei muito com aquele pequeno ser, cheguei até a dizer que se o nome dele não fosse Danilo, como o do pai, seria Salvador. Ele sorria e emitia sons me ouvindo e tentando me imitar. Ficamos muito unidos. Tinha tempo para me dedicar a ele com atenção e mimos pois costurava em casa. Ganhava dinheiro vestindo senhoras chiques. Assim pude ajudar nas despesas e nos cuidados com Danilo e com minha mãe.

            A costura me trouxe o segundo marido, Jaime. Um dia ele me seguiu na Rua do Ouvidor até me ver entrar numa loja de tecidos e aviamentos finos onde todos me conheciam por ser freguesa. Lá conseguiu meu endereço com um vendedor e eu passei a notar um rapaz magrelo na minha rua, nos finais de tarde, me encarando sempre que eu chegava à janela. Nos aproximamos e começamos a nos encontrar na calçada. Eu sem saber muito sobre ele e ele sem saber que eu tinha um filho de 12 anos. Danilinho era semi-interno no Colégio São José, ali mesmo na Tijuca onde morávamos. Sim, concordo, os irmãos Maristas são excelentes educadores. O fato é que Jaime já tinha visto meu menino e pensava que fosse filho da minha irmã. Ela, dez anos mais nova do que eu, parecia ser a mais velha de nós duas. Minha genética me favoreceu, sempre aparentei menos idade. Até hoje é assim, é o que dizem. Quantos anos o senhor acha que tenho? Pode dizer, seja sincero. Oitenta? Não, completo noventa no final do mês. 

            Bem, continuando. Parece conversa mas é confissão, creia-me. Pensei muito antes de querer a sua visita. Digamos que ensaiei bem o que lhe falaria. Com Jaime, à medida que fui ficando íntima, e que o namoro ganhou ares de sério, resolvi contar tudo: minha idade, a viuvez, o filho. Ele não esperava por nada disso. Minha aparência jovem o enganara. Passou dias distante mas voltou e me disse que era judeu, não religioso, nunca praticante, mas que a sua família não veria com bons olhos nosso namoro e muito menos uma união. E concluiu dizendo que tinha 10 anos menos do que eu, mas não via problema nisso. Foi a minha vez de ficar mal. Terminei o namoro. Pedi a ele que não me procurasse mais. 

            Ficamos meses afastados até que ele voltou, decidido a enfrentar tudo. Eu tinha sentido falta dele, muita mesmo. Cheia de coragem, aceitei a reaproximação. Ele passou a frequentar a casa, jantando conosco algumas vezes por semana. Danilinho me tranquilizou. Me disse que eu já tinha sofrido muito, queria minha felicidade. Jaime garantiu que meu menino seria um filho para ele. Mas os dois nunca conseguiram se aceitar de fato. O senhor falou bem, padre – dois estranhos. 

            Nos casamos, vida simples com poucos recursos. Jaime era funcionário da Light, ganhava pouco. Após batalhar muito, conseguiu um emprego melhor em São Paulo. Danilinho preferiu continuar no Rio, com a tia e a avó. Jaime fez carreira nessa empresa. Seu crescimento na firma começou quando ele assumiu a gerência de uma filial no Sul. Chegamos a Porto Alegre com um filho de cinco anos e lá moramos por dez anos.            

            Vejo agora que aceitar Danilinho vivendo no Rio, longe de mim, me foi benéfico: a diferença de  idade entre Jaime e eu pôde não existir. Um filho adolescente seria a mesma coisa que ter a verdade escrita na testa. Também foi conveniente para ele que não precisou explicar um enteado, a mulher viúva e mais velha.  Funcionou bem para nós dois – casal jovem com filho pequeno, início de vida, era assim que nos viam. Nenhum preconceito nos ameaçando. Só o dele ser judeu. Não era possível esconder seu sobrenome. Mas, seu carisma dava conta disso com facilidade. Vendedor nato, soube divulgar uma imagem social positiva, vencedora. Em casa já era diferente: exigente com o filho e controlador em relação a tudo. 

            De minha parte, ao deixar de dar carinho e proteção ao meu primeiro filho, não me permiti dar carinho e mostras de amor ao segundo. Vejo isso agora. Um pouco tarde, não é? Atuava como uma governanta incansável, impecável: casa limpa, roupas limpas e bem passadas, comida boa na mesa, doces e bolos sempre ao alcance das vontades fora dos horários rígidos. 

            Como a família dele me tratou? Mal. Em reuniões, ainda bem que raras, muitos não me cumprimentavam, nem falavam comigo. Minha sogra me hostilizava e era muito crítica. Eu não acertava o ponto de nenhuma comida judaica, não fazia nada certo e nem do seu agrado. Riva, irmã de Jaime, me tratava bem, mas sempre desconfiei de suas intenções. Ela queria ficar próxima para me vigiar, ver se eu era boa para o irmão e o sobrinho. 

Quarto em Nova Iorque. Edward Hopper, 1932.

            E assim foi minha vida. Viajamos, fui companheira em eventos sociais, mantendo a pose de porto seguro de meu marido. Meu filho Raul, não foi batizado e nem comemorou Bar Mitzvá. Caberia a ele escolher uma religião, quando quisesse e se quisesse. Mas foi circuncisado. Jaime disse que seria por razões higiênicas, mas convidou os pais e irmãos, fingindo uma celebração judaica. Nunca o perdoei por isso. 

            Aí estão os meus pecados, padre.  Ah, tem mais dois, desculpe.  Dois abortos que fiz antes de Raul nascer. Por quê?! Ora, mal tínhamos como nos sustentar! Claro que me senti culpada, tenho sentimentos!  Era isso ou ver o casamento desabar.  Outro casamento interrompido?! Para mim, não! Me dispus a fazer de tudo para que meu segundo casamento fosse duradouro. E foi. Vivemos juntos 50 anos. Bodas de Ouro que não foram comemoradas porque ele estava bem doente, terminal. Danilinho já tinha falecido, seus filhos pouco me visitavam. Raul, esposa e filhos há anos morando no exterior. Ele veio para o enterro do pai, cuidou dos nossos bens, me instalou nesse lar de idosos e administra minha vida lá de Portugal. Nos falamos por telefone. 

            Sim, distantes. Conveniente, não é?

            Algo de curioso, não serve para nada mas acho interessante: Danilinho faleceu no dia do aniversário do padrasto e Jaime se foi no dia do nascimento de Danilinho. 

            Mereço perdão?

Brejal, 12/06/20

5 de agosto de 2019

O ardor de uma escrita

Ruth Lifschits 
O escritor Sandor Márai nasceu na Hungria em 1900, época em que era forte o nacionalismo, sentimento fundado tanto na fidelidade às próprias origens quanto numa lealdade quase absoluta à pátria. Tanto uma quanto a outra estão presentes no General Henrik, personagem principal de seu romance As Brasas, objeto dessa resenha.
Ainda jovem e sem fazer parte de nenhum grupo literário, Márai tornou-se um dos expoentes de destaque da narrativa húngara: a crítica o definia como um mestre do estilo, o público o adorava e seus livros eram sucesso de vendas. Essa época, que vai de 1920 a 1948, aproximadamente, é a única em que Márai conviveu com o sucesso. Em 1948, com a Hungria sob o jugo soviético e a implantação de uma política interna policialesca e persecutória, Márai deixou seu país para sempre. Ele não aceitou viver sem poder se expressar em seu próprio país. Para ele, a liberdade de pensamento era fundamental para que o homem pudesse conquistar respeito e conhecer a felicidade. A maior parte de sua obra (mais de 60 livros) foi escrita entre 1928 e 1948. Ele pagou um alto preço por suas opiniões contrárias às ações ditatoriais do governo, pois, quando já tinha alcançado respeito em seu país e era estimado pelo público como um dos maiores escritores da Hungria e da Europa, toda sua obra foi proibida e ele caiu no esquecimento. Esse desconforto com os rumos tomados por sua terra natal inspirou o longo monólogo de seu personagem desesperado e sincero, o solitário e rancoroso General Henrik.
As Brasas, romance de 1942, fala de amizade, paixão e honra. Seu título original em húngaro é A gyertyák csonkig égnek, que significa “Velas queimam até o fim”, título muito expressivo e que corresponde a uma fala do General Henrik já quase no final do livro.
 A narrativa, em terceira pessoa, se desenvolve em torno de Henrik já idoso e vivendo sozinho no castelo de seus antepassados, cercado de riqueza e mordomias, mas auto-confinado, recluso em uma pequena ala do castelo. Inesperadamente lhe chega às mãos uma carta de seu grande e inseparável amigo da juventude, Konrad. O general o convida para jantar em seu castelo.  Esse amigo, quase um irmão, tinha desaparecido há 41 anos sem explicações ou despedidas. O jantar acaba se tornando um acerto de contas, quase um julgamento no qual o amigo que reaparece é acusado por ter demonstrado graves falhas de caráter no passado.
A escrita de Márai flui com facilidade e elegância. Suas descrições dos locais onde se desenrola a história tem visibilidade fotográfica. Vemos e sentimos o que ele nos passa, pois tudo vem carregado de detalhes, cores, comportamentos e metáforas, mas sem frieza e sim com muito sentimento. Seguem exemplos da fluência narrativa de Márai, em As Brasas:

A ama se sentou. Envelhecera naquele último ano. Depois dos noventa, a pessoa envelhece de forma diferente do que ocorre depois dos cinquenta ou dos sessenta. Envelhece sem rancores. O rosto de Nini era rosado e enrugado – assim envelhecem os tecidos de grande valor, as sedas que têm séculos de vida, nas quais uma família inteira gastou suas habilidades manuais, trançando junto com os fios todos os seus sonhos. No ano anterior ela adoecera, passando a sofrer de catarata num dos olhos, que ficou cinza e apagado. O outro olho permaneceu azul, com esse azul dos lagos das altas montanhas sob o sol de agosto. E esse olho sorria.

O castelo, era um mundo em si, como aqueles grandes e pomposos mausoléus de pedra onde definham os ossos de gerações inteiras e se esfarelam as mortalhas de seda cinza ou pano preto de homens e mulheres que viveram em outros tempos. Guardava o silêncio dentro de si, qual um prisioneiro que vegeta exangue na palha apodrecida de um subterrâneo, de barba comprida, vestido de trapos e coberto de mofo.

As longas falas do General na presença do amigo durante o jantar são na verdade um diálogo com ele mesmo. Expressam a necessidade que ele próprio tem de tentar chegar a conclusões sobre fatos marcantes de sua vida e sobre os quais, ele bem sabe, nada poderá fazer. Destaco um trecho expressivo desse monólogo interior:

Não acredita que o significado da vida é simplesmente a paixão que um dia invade nosso coração, nossa alma e nosso corpo e que, aconteça o que acontecer, continua a queimar eternamente, até a morte? [...] É aí que me pergunto: a paixão é de fato tão profunda, tão má, tão grandiosa, tão desumana?

Somente depois de muitos anos, com a implantação de um sistema político pluripartidário e a retirada as tropas soviéticas da Hungria,  a obra de Márai pôde ser novamente apreciada em seu país e ficou cada vez mais conhecida em todo o mundo.
Mas a Guerra Fria já o tinha levado a escolher viver nos Estados Unidos, onde, em 1989, pouco depois da morte de sua mulher, Sandor Márai se suicidou. 
           Em 1990, em uma homenagem póstuma, lhe foi concedido o prestigiado Prêmio Kossuth da Hungria, por sua significativa contribuição à Literatura. 
***
O romance foi adaptado para o teatro por Duca Rachid e Julio Fischer.
Na peça, Herson Capri e Genézio de Barros interpretam os dois homens que vivem a amizade intensa, que passa por duas guerras e se projeta como amor à mesma mulher.

11 de julho de 2019

"Hibisco Roxo", a tirania do colonizado

Ruth Liftschits
A leitura de Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie, nos revela um livro interessante que trata  de colonização e seus efeitos sobre os colonizados: opressão, medo, extremismo religioso e cizânia entre e dentro de famílias. O livro fala também da incompatibilidade na solução de continuidade entre a Nigéria colonizada e a Nigéria independente.  Há dificuldades em relação à coexistência dos antigos valores nativos – reprimidos pelos colonizadores – e os valores adquiridos/impostos pelo longo tempo de colonização. Por terem sido assimilados, tais valores adquirem força na nação independente e encontram espaço para existirem “livremente”. A luta pelo poder político continua a existir na Nigéria independente, em detrimento da democracia e da liberdade de pensamento e ação para todos os cidadãos.
Interessei-me por Hibisco Roxo por ser um livro sobre a África escrito por uma africana. A África é um grande mistério para mim desde que as antigas colônias se tornaram países livres sobre os quais pouco ou nada sei.

A história  é narrada por Kambili, uma adolescente de 15 anos. Ela vive com seus pais e um irmão mais novo. Seu pai é empresário e dono de um jornal. Bem sucedido, ascendeu socialmente e, convertido a um catolicismo cego e cruel, renega sua cultura nativa e se recusa a conviver com seu próprio pai que se manteve fiel a sua origem. O pai de Kambili é extremamente generoso com pobres e carentes, mas muito severo com sua esposa e filhos. Ele os agride fisicamente de forma brutal quando é desobedecido ou quando acha que filhos e esposa pecaram. A jovem vive reprimida e com medo, tentando agradar o pai e se anulando  a ponto de não saber se defender, não conseguir se expressar ou questionar o que vê acontecer em seu dia-a-dia. 

Já a tia paterna da  jovem é professora universitária e mãe solteira. Ela consegue, a duras penas, criar os filhos com liberdade, respeito e convivência harmônica. Católica, não renegou as crenças de sua origem. A convivência com a tia e com o Padre Amadi faz com que Kambili consiga amadurecer e perceber sua voz, identificar seus sentimentos, reconhecer sua condição de filha submissa e omissa, vislumbrando como sua existência pode passar a ser desde que tenha coragem de enfrentar o pai. 

Para identificar mitos literários em Hibisco Roxo eu teria que ler o livro novamente, anotando tudo que surgisse. Então citarei parte de um texto escrito pela autora ao apresentar o livro:

A narrativa sobre a complexidade da formação psíquica e amorosa de uma adolescente africana é toda acompanhada pelas mudanças sofridas pelas flores e plantas: as buganvílias, os girassóis, os coqueiros, as casuarinas e especialmente, os hibiscos roxos - variedade fruto de um experimento único, que gera flores raras, cobiçadas por todos. O crescimento dessa flor rara na casa de Kambili, prisioneira das convenções, aponta para mudanças radicais em sua vida. O bem e o mal se misturam de forma ambígua, mergulhando o leitor numa história bem mais complexa do que supõem as aparências.

A autora descreve cenas e lugares, faz relatos em discurso indireto livre e cria diálogos inteligentes e verossímeis que nos permitem ver como pessoas comuns pensam e sentem os conflitos que existem nas famílias e na sociedade do país em que vivem. 

A história começa com um enfrentamento entre pai e filho e parte para um flashback que dá condições ao leitor de conhecer o passado recente dos personagens e os conflitos que existem.  No final do livro, volta-se ao acontecimento do início, numa circularidade que aguça o interesse do leitor pelo final da história. A inclusão de muitos termos em Igbo, a língua da tribo dos principais personagens, misturada ao inglês herdado dos colonizadores, nos situa e mantém na Nigéria e nos fornece dados preciosos sobre costumes nativos, alimentação e crenças religiosas. Há muita musicalidade no dia-a-dia pontuando momentos de leveza em meio às dificuldades e o peso da pobreza. 

Adichie consegue intercalar com suavidade os fatos e diálogos que nos falam da vida de Kambili com seus pais e o que presencia na casa de sua tia paterna, deixando que o leitor tire suas próprias conclusões sobre as realidades vividas. O final surpreende.


***
Leia o início do livro
QUEBRANDO DEUSES
Domingo de Ramos

                  As coisas começaram a se deteriorar lá em casa quando meu irmão, Jaja, não recebeu a comunhão, e Papa atirou seu pesado missal em cima dele e quebrou as estatuetas da estante. Havíamos acabado de voltar da igreja. Mama colocou as palmas molhadas de água benta sobre a mesa de jantar e foi para o segundo andar da casa trocar de roupa. Mais tarde ela amarraria as palmas na forma de cruzes e penduraria na parede ao lado da foto com moldura dourada da nossa família. As cruzes ficariam ali até Quarta-feira de Cinzas, quando levaríamos as palmas à igreja para que elas fossem queimadas e transformadas em cinzas. Usando uma longa veste cinzenta como outros oblatos, Papa ajudava a distribuir cinzas todos os anos. A fila que se formava diante dele era a que se movia mais devagar, porque ele pressionava com força a testa de cada um par afazer uma cruz perfeita com seu  polegar coberto de cinza e falava de forma lenta e significativa cada palavra da frase “És pó e ao pó retornarás”. 
                  Papa se sentava todas as vezes no banco da frente para assistir à missa, na ponta que dá para a nave, com Mama, Jaja e eu junto dele. Era o primeiro a receber a comunhão. A maioria das pessoas não se ajoelhava para receber a hóstia no altar de mármore, perto do qual fica a estátua loura em tamanho real da Virgem Maria. Mas Papa, sim. Ele fechava os olhos e os apertava com tanta força que suas feições se contorciam numa careta, e ele esticava a língua o máximo que podia. Depois, sentava de novo no banco e observava enquanto o resto da congregação marchava até o altar com as palmas das mãos pressionadas uma contra a outra e estendidas, como padre Benedict os ensinara a fazer. O padre Benedict já estava em St. Agnes havia sete anos, porém as pessoas se referiam a ele como “o nosso novo padre”. Talvez não tivessem feito isso se não fosse branco. Mas o padre Benedict ainda parecia novo no lugar. Seu rosto, que era da cor de leite condensado ou de uma graviola cortada ao meio, não ficara nem um pouco mais bronzeado após passar pelo calor  abrasador de sete harmattans nigerianos.
                  E seu nariz britânico continuava tão fino e estreito como antes, ainda era o mesmo nariz que me fizera temer que ele não conseguisse respirar direito, quando o padre Benedict chegou a Enugu. O padre Benedict mudara as coisas na paróquia, insistindo, por exemplo, que o credo e o kyrie fossem recitados apenas em latim; igbo não era aceitável. Além disso, devia-se bater palmas o mínimo possível, para que a solenidade da missa não ficasse comprometida. Mas ele permitia que cantássemos músicas de ofertório em igbo; chamava-as de músicas nativas, e quando dizia “nativas” a linha reta de seus lábios pendia nos cantos e formava um U invertido. Durante seus sermões, o padre Benedict sempre falava do papa, do meu pai e de Jesus – nessa ordem. Ele usava meu pai para ilustrar os evangelhos. “Quando deixamos que nossa luz brilhe diante dos homens, estamos refletindo a Entrada Triunfal de Cristo”, disse ele naquele Domingo de Ramos. “Vejam o  irmão Eugene. Ele poderia ter escolhido ser como outros Homens-Grandes deste país, poderia ter decidido ficar em casa e não fazer nada depois do golpe, para não correr o risco de ver seus negócios ameaçados pelo governo. Mas não, ele usou o Standard para falar a verdade, apesar de o jornal ter perdido anunciantes por causa disso. O irmão Eugene se manifestou em nome da liberdade. Quantos aqui defenderam a verdade? Quantos refletiram a Entrada Triunfal?”

                  A congregação respondeu “Isso mesmo”, ou “Deus o abençoe”, ou “Amém”, mas não muito alto, para não se parecer com os membros daquelas igrejas pentecostais que brotavam como cogumelos; então todos ouviram em silêncio,  cheios de atenção. (....)

19 de agosto de 2014

O presente


Ruth Lifschits
          Noite fria, muito escura. Nós três, os maiores, grudados, bem juntinhos, sentados no primeiro degrau da escada. O menor passava pra lá e pra cá no colo da babá apressada, arrumando coisas, pegando roupas nossas no quarto dos fundos, no andar de cima, pela casa. Não sei bem o que ela fazia, mas estava muito ocupada. Nossa casa cheia e continuando a se encher de pessoas solenes, sérias. Umas conhecidas e muitas outras não. Onde estava minha mãe? Continuava sumida. Tínhamos voltado do colégio e ela não tinha aparecido para nos receber. Eu ouvia  seu choro, mas quando a procurava só via as costas de mulheres encurvadas olhando para algum ponto no meio daquele embolado de gente – de lá vinham os sons de choro, gritos, gemidos. A voz era dela, mas muito diferente do que costumava ouvir. Não sei quanto tempo se passou, ficou escuro e deixamos nossa casa. Não me disseram por quê. Nada
          Fomos levados para a base militar e pensei que papai estivesse lá. Procurei por ele, esperei por ele mas ele não apareceu. Entramos num avião depois de passarmos por homens fardados que nada diziam, só nos olhavam com olhar esquisito, triste. Ninguém dizia nada. Estava com medo. As fardas eram como as do papai. Onde estava ele? Também tinha sumido. Um amigo dele me pegou no colo, me beijou e abraçou. As bochechas dele estavam molhadas. Entramos no avião. Meus irmãos mais velhos de cabeça baixa, também não falavam nada. Eu queria fazer perguntas, mas tinha medo. Estávamos indo embora, para onde? O menor chorou, tossiu, ganhou uma chupeta. A babá disse para ele que logo estaríamos na casa de nossa avó. E a mamãe? Ah, lá na frente, acho que era ela, mas estava escuro, ela de preto, jogada num banco, o rosto enfiado nas mãos. E o papai? Onde? Íamos sem ele?
          Não sei se o voo foi curto ou longo, foi no escuro. Escuro lá fora, escuro dentro. Dormi ou estava no meio de um sonho, não sei. Quando saí do avião, meu padrinho veio me pegar, também sem falar. Passou a mão nos meus cabelos, me puxou para perto dele e ficou me apertando contra ele, um tempão. Me levou para um carro. A babá e o menor vieram atrás de nós. Minha madrinha me beijou. Ela estava chorando. Sentei no banco de trás. E meus outros irmãos? E minha mãe? Tinha me perdido deles. Medo. Mas a babá e o menor estavam ali, e  meus padrinhos também. Nosso carro foi seguindo um outro. Gosto de ver as luzes da cidade. Dormi. Chegamos numa casa toda acesa. Todas as luzes brilhavam. A sala quase sem móveis, com cadeiras e mais cadeiras encostadas ao longo das paredes. E muita gente lá. Estavam falando mas, quando entramos,  se calaram e ficaram olhando, aquele olhar triste e esquisito – igual ao dos homens fardados. Tinha gente chorando. Eu queria chorar, estava com muito medo. Onde estava minha mãe? E a vovó? A casa era dela, diferente mas era a dela. A babá nos levou para a cozinha. Quis que eu tomasse sopa, uma canja. Não queria, queria minha mãe. Fomos para o segundo andar, babá nos banhou e nos pôs para dormir nuns colchões arrumados no chão. O menor chorou, queria a mamãe. Ela não veio. Papai não veio. Mamãe estava ocupada, precisava descansar, a babá dizia, embalando o pequeno. Acho que comemos, fizemos um lanche lá no chão do quarto, não sei. Me sentia num sonho, num pesadelo, não sabia de nada. A cabeça inventa, cria realidades que se confundem. O menor deve ter mamado. Posso estar inventando, está tudo misturado na minha cabeça. Escovei os dentes com o dedo, me lembro muito bem disso. Minha escova tinha ficado na minha casa. Tudo muito diferente. Muito estranho, não era assim que me punham para dormir. Ninguém contou histórias, não falavam nada. E meus outros irmãos? Tinham sumido também.
 

          Eu me deitei pensando no meu aniversário. Papai tinha me prometido a boneca loura. Amanhã vou ganhar presentes, pensei, e me animei um pouco. Mas, a festa ia ser lá em casa  e nós estávamos na casa da vovó, longe. Mamãe tinha feito um vestido novo pra mim, branco com barra de tafetá estampada de verdes e vermelhos. Mudaram a festa para a casa da vovó? Tudo muito estranho.
          Aquele meu aniversário não aconteceu. Acordei numa casa vazia. Todos tinham sumido. Só as empregadas, a babá, as crianças. Brincamos, tinha uma indiazinha de nove anos na casa da vovó, falava diferente. Meninos jogavam bola na rua em frente, meus irmãos também. Ganhei um bolo com uma vela para soprar. Uma vela para seis anos? E chegaram todos para almoçar, solenes e sérios. Mamãe, de óculos escuros dentro de casa, de preto. Me abraçou, me deu um presente – a boneca loura. E papai, quando vem? Hoje não, hoje não era o que diziam. E asma, emplastro quente no peito, respirando com dificuldade fui para o colchão no chão, a boneca junto comigo, linda, linda.
          Acabei usando o vestido novo na missa de sétimo dia do meu pai. Mamãe trocou a barra de tafetá verde e vermelha por uma preta e branca. Não me lembro como fiquei sabendo que papai tinha ido para o céu e eu tinha que ser boazinha porque mamãe estava muito triste, muito cansada. Papai no céu?! Custei a entender que estavam me dizendo que ele tinha morrido. Meu irmão menor também não tinha entendido direito. Ficava olhando para o céu  pedindo para a lua  trazer o papai de volta.
Brejal, 3 de agosto de 2014.

A experiência decisiva que, para quem a tenha feito, se diz ser tão difícil de contar, nem chega a ser uma experiência. Não é mais que o ponto no qual tocamos os limites da linguagem. (Giorgio Agamben)
Fotos: JMGLA

18 de agosto de 2014

Escrita: terceira margem

Foto:JMGLA
Primeira margem: no pra cá pra lá, no meio do rio, no de repente, uma lancha de muitos pés, grande calado: os pés marolam pelas ondas que a lancha faz. Passa rápido mas vi seu nome desenhado – LITERATURA. Atrás rabeava uma corda. Segunda margem: chama-se o MENINO. Menino, você é o Pai: contra o pai, conta o pai, outras primeiras estórias. Terceira margem: a POESIA 
Bia Albernaz
***
Vida vivida: falta de chão firme, de segurança, de conforto – tudo ilusão. É a escrita a vida de verdade? É a essência sem aparência, a liberdade de inventar, de criar personagens sem máscaras para outros? Assim deveria ser? É uma fuga? Um esconderijo de obrigações, deveres, compromissos? Escrever sem regras impostas, sem padrão, respeitar somente o querer. É um delírio? Um sonho? É comunicar com quem faz igual? Cada pessoa pode formar com o outro e o outro e o outro – uma forma de sobreviver. Aí, aceita, se expõe e o seu trabalho, suas ideias transformadas em histórias, memórias, graças, dramas. Corre a vida paralela: funções e papéis determinados. Rompe-se aqui e ali, mas o enquadramento sempre amarra. A escrita solta. 
Maria Tereza Albernaz
***
Foto:BiaA.
Viver e ter coragem para escrever. Escolher viver criando, se expondo – sem nada, mas com tudo. Desapegada de outros fazeres, na vida com o escolhido, imersa em sentimento e imaginação, sem preocupação com o tempo. Sendo uma, sendo muitas e muitos, aqui e em todos os lugares e tempos. Entregue, sem domínio do externo, dominando o interior. Sem se deslocar, mas em todos os lugares. No fluxo da escrita, sem passado e sem futuro, num imenso aqui-e-agora múltiplo e variado. Seguindo, indo, sendo. 
Ruth Liftschts
***
Não é a primeira, segunda ou terceira margem, a literatura é a canoa que nos conduz. Ao se afastar da primeira margem, nos fornece o distanciamento necessário para que possamos vê-la em toda sua extensão e complexidade. O canoeiro do conto de Guimarães Rosa, por exemplo, viu arderem por ele chamas insuspeitas. Da outra beira, a literatura nos descortina o conhecido e o desconhecido. E à terceira margem, nada é melhor do que ela para nos levar. 
Flávio Franklin
Com direção de Nelson Pereira do Santos, a produção de 1994 faz uma adaptação da história, tomando elementos dos outros contos presentes em "Primeiras estórias", de Guimarães Rosa.
 Para ler o conto de GR ("A terceira margem do rio") e em seguida o do Mia Couto ("Nas águas do tempo"),
cf. circulosdeleitura.org.br

8 de junho de 2014

Os chinelos de meu pai

Ruth Lifschits
Um dia acordei sufocada, pesada. Uma sensação de culpa imensa tinha me tomado, sem volta e sem perdão, e me colava na cama. A ponta de um sonho tinha ficado na minha lembrança, algo raro. Meus sonhos fogem de mim quando acordo. Chego a vê-los me abandonando e o esquecimento se  instalando. Mas, naquela manhã, a culpa ficou e com ela vieram lembranças antigas, de mais de 30 anos: os chinelos de papai caídos no jardim com as solas viradas para cima! Azar maior impossível.

            E me voltaram tempos de criança, com minhas práticas sagradas do dia a dia – desvirar sapatos e chinelos  por ventura emborcados; não passar de baixo de escadas e desviar o olhar se surgisse um gato preto na frente. Tudo para não atrair a má sorte. Não adiantou. Numa tarde de domingo, janela do banheiro aberta, quis ver a rua e esbarrei nos chinelos de meu pai sobre o batente da janela. Eles foram bater lá em baixo com as solas para cima. Voei escada abaixo, mas as  portas trancadas me travaram. Todos os alarmes de perigo zoavam na minha cabeça. Faça algo, rápido, o azar está chegando. Mas meus pais estavam dormindo, e as chaves com eles. As janelas abertas e as belas grades de ferro batido trançado impediam entradas ou saídas de emergência. “Daqui a pouco eu desviro os chinelos”, pensei, mas acabei me esquecendo de fazê-lo. A tarde se foi entre sucessivas brincadeiras com meus irmãos e a menina da casa ao lado. Veio a segunda-feira com a ida à escola, deveres de casa, mais brincadeiras e, no dia seguinte, às 10 e 30 da manhã papai morre em um acidente aéreo. Eu não desvirei os chinelos a tempo! Esse pensamento invadiu logo a minha cabeça assim que soube do desastre.
            Reagi à culpa e à notícia da morte de meu pai criando algo que nos salvasse, a mim e a ele: amnésia. Meu enredo interior: papai não tinha morrido no acidente, estava perdido sem saber quem era e sem saber de nós. Um dia voltaria para casa. Era só esperar. E como esperei, quieta e calada, porque nunca contei sobre os chinelos para ninguém. Deixamos São Paulo de volta ao Rio. Fomos para a Tijuca, casa de minha avó materna e de lá para a Urca. Eu tinha 6 anos quando ele morreu e até os 12 anos alimentei esperanças de que ele iria voltar. Quando a campainha de nosso apartamento tocava eu achava que era ele, finalmente. Até que um dia precisei de um documento para levar para o colégio. Mamãe não estava em casa e eu resolvi pegar a certidão numa pasta que ela guardava no guarda-roupas. A busca me colocou frente a frente com a certidão de óbito de papai. Comecei a ler e não terminei. A descrição do que foi encontrado, como foi identificado, acabou com minhas esperanças. Ele estava morto mesmo, sem volta. Os chinelos virados, o azar, meu feito. Fiquei desesperada, chorei muito naquela tarde. Mamãe chegou e estranhou me ver deitada na cama, de cara para a parede. Inventei dores de cabeça, cólicas, algo assim e logo me ignoraram. Mas eu não era mais a mesma, uma tristeza enorme passou a me habitar. Minha família percebeu a mudança mas acabaram achando que eram efeitos de já ser mocinha, da adolescência. Mas eu sabia. Passei a tomar o maior cuidado com tudo que fazia. Não queria provocar o azar, dar chances para ele atacar. E fui me tornando obediente ao extremo, incapaz de colar ou matar aulas, procurando acertar em tudo pois se algo acontecesse eu poderia dividir a responsabilidade com os adultos que me mandavam fazer isso ou aquilo, proceder dessa ou daquela maneira. Vejo meus irmãos conversarem sobre “artes” que fizeram na adolescência e eu nada tenho para contar. Não transgredi, nem fila de cinema eu furei.

            Um dia fui absolvida. Foi assim: estava em Búzios, picando cebolas para o molho do churrasco. Marido, filhos e amigos no pátio, cervejando e conversando, de olho na carne sendo assada e eu, na cozinha,   preparando os acompanhamentos: farofa, molho à campanha, arroz e salada. Sem perceber, comecei a falar comigo, o que adoro fazer quando fico sozinha. Conversa vai, conversa vem, quando vi estava conversando com meu pai. Ele estava encostado na pia, de braços cruzados,  me olhando picar cebola. Eu falava de meus filhos, de umas cismas do meu marido e, de repente, ele me disse “Filha, esquece os chinelos emborcados. O avião  ficou sem controle. Foi um acidente”.  
            A cena está viva em minha mente. Consigo ver os detalhes da roupa que ele usava: camisa branca de abotoar na frente, mangas curtas, calça caqui de pregas na cintura e bainha inglesa; sapatos marrons, de amarrar e meias brancas. Ele estava me olhando com ternura. E assim ficou por um tempo – calado e me olhando. A imagem foi se desfazendo, lentamente.  Eu com a faca no ar, boca aberta, olhos arregalados, enquanto um entendimento quente me invadia e acalentava. 
Brejal, 22 de março de 2014

7 de abril de 2014

Menina, cão, quintal, família feliz

     O que dizer desta fotografia? Vejo crianças, um cachorro, e casas. Uma menina, bem à vontade junto ao cão, cuida de conter o animal. Toca-o como que pedindo que obedeça e colabore para que sua agonia acabe e ele possa sair do lugar da obediência e da submissão. E ele procura sinais de agrado no dono, o fotógrafo, que o posicionou e ordenou que ficasse sentado naquele lugar. Só meu pai tinha voz de comando sobre o cão. Sou a menina solícita.

         Me acostumei a ver desde muito cedo as imagens colecionadas por minha mãe em um álbum intitulado My Book Treasure. É um grande álbum marrom de capa dura com o desenho de um baú de piratas cheio de moedas de ouro e muitas páginas negras repletas de fotos coladas.  Álbum com várias anotações em nanquim branco, letra de minha mãe, com as datas e locais do nosso passado.  Quando ela me deixava folhear o álbum, narrativas  eram acrescentadas.  As circunstâncias desse ou daquele momento se esclareciam com as histórias que entrelaçavam acontecimentos corriqueiros ou grandes celebrações, sempre como vivido e lembrado por ela. E tudo passava a existir para mim. Viajava no tempo e construía minhas lembranças. Eu adorava esses momentos em que as imagens ganhavam vida e significados. E sempre a voz dela pois meu pai morreu muito cedo. Ele também ganhava vida e vinha para junto de mim. Nesses relatos eu e meus irmãos éramos personagens, com papéis marcantes. Eu, única filha, era muito observada, mimada e acariciada pelo olhar do fotógrafo. 
          Durante muitos anos tivemos como certo que essa função tinha sido exercida unicamente pelo nosso pai. Afinal, a câmera era dele e mamãe nunca assumiu autoria de nada e nem mostrou interesse por fotografia. Agora, ao folhear com cuidado o álbum que se esfarela ao mais delicado toque, vejo em muitas cenas a sombra de mamãe dentro do quadro.  É seu corpo entrando no tempo a ser lembrado, não deixando dúvidas sobre quem também criara vários momentos daquele álbum. 
           Eu me reconheço no rosto da menina e sei quando e onde estava. O cenário é familiar, presente nas inúmeras vezes em que as fotografias foram visitadas. De tanto conviver com estas imagens, consegui não me esquecer das casas onde morei. 
          Esta certamente foi tirada em um dia fora do comum, em hora de estar bem vestida, com capricho não destinado a brincadeiras no quintal. O laço de fita que enfeita os cabelos sempre aponta para momentos especiais. Laços duravam pouco tempo em meus cabelos lisos e muito finos.  Meu irmão mais velho, ao fundo, se afasta do recorte escolhido para a minha pose. Também está bem vestido, num terninho escuro de mangas compridas, de sapato e meias pretas – não é traje para folguedos nos fundos da casa e na companhia do cão da família. As longas sombras na grama me dizem que o sol estava baixo no horizonte. Começo ou final de dia? Estamos ainda limpos e bem arrumados, mas não me lembro de nada, nem de explicações dadas por minha mãe.
               E porque a pose no quintal e não no jardim de frente para a rua? De certo para que o cão-personagem pudesse interagir sem possibilidade de fuga.
          As roupas da menina e do menino são as de exibir, do reino do parecer, e destinadas às páginas de um elegante álbum que eternizarão cenas de tempos idealizados do passado, e esquecidos pelos personagens dessas breves histórias. Adultos tecem fios condutores da memória, empenhados que estão em classificar e registrar os muitos minutos mágicos proporcionados à sua prole. Constroem cenas para provar a todos que houve infância, vida em família, alegrias e felicidade    e que as crianças foram o centro das atenções e dedicações cegas dos pais.
           Rip, o cão de papai caçador nas horas vagas, completa o quadro que fala da família perfeita: filhos sadios e bem vestidos, animal de estimação de raça e casa nos Estados Unidos, o que dá ao nosso núcleo familiar uma posição social privilegiada.
            Minha mãe devia estar dentro de casa, ocupada com meu outro irmão. Naquela época éramos três o filho caçula chegaria anos depois.
             Papai, quase sempre atrás da câmera, nos legou os registros de seu olhar atento e cuidadoso presentes na maior parte da coleção de fotos de infância do álbum tesouro. 
             Esta fotografia é profética. Nela só há dois dos quatro filhos do casal, os dois que restam vivos nos dias de hoje.
Brejal, 5 de março de 2014
Ruth Lifschits

14 de julho de 2012

Três posfácios para a história do Barba Azul

A história do Barba Azul foi contada por Charles Perrault em 1695. Dizem que o personagem foi inspirado num assassino em série, famoso na França renascentista: Gilles de Rais.
Se você não conhece ou já esqueceu da história, navegue um pouco pela internet. Facilmente, reaparecerão a doce Judite, as suas irmãs, o convite do Barba Azul para alguns dias de diversão e o mistério que pairava sobre a cabeça desse homem feio.
Como desapareceram as suas ex-esposas?
Leonora não conseguia entender e, fascinada por aquele homem tão poderoso, resolveu casar com ele. Depois disso, vem o episódio da proibição feita pelo marido antes de viajar. Tudo era permitido e muito havia para usufruir, só um quarto lhe era interdito. Mas o homem entregou todas as chaves para a moça, inclusive a do quarto fatídico. Claro que ela foi lá conferir.
A descrição do cenário de horror que encontrou perturba o sono de qualquer leitor. Cadáveres de mulheres pendiam das vigas. O chão tinha tanto sangue que a chave caiu e ficou manchada. A mulher ainda tentou limpa-la mas a danada da chave era encantada e o sangue não saía de jeito nenhum.
A cena final dá medo. O marido chega e descobre tudo. Ameaça mata-la.
A moça pede um tempo para rezar...

– Dou-lhe meio quarto de hora – replicou Barba-Azul – e nem um momento a mais.
Quando ela se viu sozinha, chamou a irmã e disse-lhe:
– Minha irmã, sobe ao alto da torre, eu te suplico, para ver se meus irmãos não vêm; eles me prometeram que me viriam ver hoje, e, se os vires, faze-lhes sinal para que se apressem.
A irmã subiu ao alto da torre, e a pobre aflita gritava-lhe de vez em quando:
– Ana, minha irmã, não vês ninguém?
E a irmã respondia:
– Não vejo nada a não ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
Entrementes, Barba-Azul, com um grande cutelo na mão, gritava para a esposa com toda a força:
– Desce depressa, ou eu subirei aí.
– Mais um momento, por favor –, respondia-lhe a mulher. E logo, baixinho:
- Ana, minha irmã, não vês ninguém?
E a irmã Ana respondia:
– Não vejo nada a não ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
– Desce depressa – bradava Barba-Azul –, ou eu subirei aí.
– Já vou – respondeu a mulher. E depois:
– Ana, minha irmã, não vês ninguém?
– Só vejo – respondeu a irmã Ana – uma grossa poeira que vem desta banda.
– São meus irmãos?
– Infelizmente não, minha irmã; é um rebanho de carneiros.
– Não queres descer? – bradava Barba Azul.
– Mais um momento – respondia a mulher.
E depois:
– Ana, minha irmã, não vês ninguém?
– Vejo – respondeu ela – dois cavaleiros que vêm deste lado, mas ainda estão muito longe… Louvado seja Deus! – exclamou um instante depois. –- São meus irmãos; estou lhes fazendo sinal, tanto quanto me é possível, para que se apressem.
Barba Azul pôs-se a gritar tão alto que a casa estremeceu. A pobre mulher desceu e atirou-se-lhe aos pés, desgrenhada e em prantos.
- Isto não adianta nada – disse Barba Azul. – Tens de morrer.
Em seguida, segurando-a com uma das mãos pelos cabelos e erguendo-a com a outra o cutelo no ar, ia cortar-lhe a cabeça. A pobre mulher, voltando-se para ele, rogou-lhe que lhe concedesse um breve momento para se recolher.
- Não, não – disse ele –, e encomenda bem tua alma a Deus.
E ergueu o braço… Neste momento bateram à porta com tanta força que Barba Azul se deteve instantaneamente. Abriram e logo se viu entrar dois cavaleiros que, sacando da espada, correram direto a Barba Azul.
Ele reconheceu que eram os irmãos da esposa, um deles dragão e o outro mosqueteiro, e fugiu sem demora para salvar-se; mas os dois irmãos o perseguiram tão de perto que o alcançaram antes que ele pudesse atingir a escada externa. Atravessaram-no a fio de espada, e o deixaram morto. A pobre dama estava quase tão morta quanto o marido, nem lhe restavam forças para beijar os irmãos.
Verificou-se que Barba-Azul não tinha herdeiros, razão por que sua mulher se tornou dona de todos os seus bens. Empregou parte deles no casamento de sua irmã Ana com um jovem fidalgo, que a amava desde muito tempo; outra parte na compra do posto de capitão para seus dois irmãos, e o resto no casamento dela própria com um homem muito distinto, que lhe fez esquecer o mau tempo que ela passara com Barba Azul.
Marion Cito e Jan Minarik in Bluebeard, Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, 1984. Foto: Ulli Weiss

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Posfácio 1
                                                                                       Renata Figueiredo
          A viúva do Barba Azul passeava feliz e encantada com seu novo amor pelo jardim do castelo.  Seu novo marido era carinhoso, amoroso, tão belo física quanto interiormente. Cabelo castanho claro, olhos azuis esverdeados e pele rosada, um verdadeiro galã. Calmamente,  de mãos dadas, sem destino, eles contemplavam o momento com sorrisos, abraços, beijos e muito carinho.
          Com seus cabelos soltos e compridos, ao vento, vestido longo e de pés no chão, de vez em quando a viúva dava umas corridas pela grama macia. Chegava na beira do lago, molhava os pés e via seu reflexo no espelho d’água. Sorriso frouxo e gargalhadas altas e descompromissadas, como de uma criança, deixava sair toda a sua felicidade do momento.
        Ele a observava meio abobalhado com tanta beleza e pureza. E sonhava infinitamente com tantas coisas que estariam por vir. Mal conseguia se conter, ao ponto de fortuitamente deixar lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Ela, delicadamente as enxugava e lhe beijava as faces com os lábios molhados de amor.
        Nas margens do lago, deitados, ficaram um sem tempo observando o azul do céu e o movimento das nuvens. Brincavam de descobrir figuras nos formatos das nuvens no céu.
      Cansados já com tantos sonhos, abraçaram-se e acabaram adormecendo.  O céu começou a mudar de cor com o entardecer, ficando vermelho cor de fogo. De longe, uma cena de cinema: o casal com todo aquele cenário ao seu redor. Uma foto merecia ser tirada para registro do flash de vida.
     As crianças em casa já se preocupavam e estavam irrequietos com a demora do passeio dos pais. Eram quase seis horas e a hora do jantar se aproximava. Os empregados resolveram então, sair a procura dos dois, deixando que as crianças continuassem a brincar de espada em seu lugar predileto, a torre mais alta da casa. Ao abrirem a porta do castelo viram que ameaçava chover, o tempo tinha fechado, e voltaram para pegar as sombrinhas. Sofie, a governanta mais antiga da casa foi a procura do molho de chaves para pegar a chave da chapeleira, quando se deparou com a chave ensanguentada do quarto proibido que a patroa lhe havia proibido de usar. Ficou uns segundos com ela na mão observando-a e acabou por guardá-la novamente. Pegou a chave do armário e assim que o abriu se surpreendeu com a arrumação dos chapéus pendurados na parede. Todos lindos, um para cada morador do castelo. Pegou os que achou mais bonitos, o florido para a dama, e o xadrez para o cavalheiro. Saíram a procura do casal.
      Depois de uma longa caminhada, avistaram os apaixonados dormindo no gramado.  Ficaram com pena de acorda-los, e ficaram ali parados. Sentaram um pouco distantes, sem saber o que fazer. E o tempo foi passando...
       Foi quando começou uma tempestade. O susto foi grande com o barulho dos trovões e tal foi a quantidade de água que, rapidamente, os dois acordaram e se levantaram correndo em direção ao castelo.
     Os empregados foram ao seu encontro para oferecerem os guarda-chuvas. Mas, o casal se entreolhou e com cúmplices olhares dispensou  as umbrelas, pondo-se a correr e a cantar I’m singing in the rain. E assim, continuaram felizes para sempre com seus cinco filhos! A família tão planejada.

  
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Posfácio 2
Maria Tereza Albernaz
          Já estou casada de novo há dois anos e ainda sinto calafrios quando penso no que poderia ter acontecido comigo. Traí a confiança de Barba Azul e a punição seria cruel caso meus irmãos não tivessem chegado a tempo para interromper a fúria de meu marido.
          Hoje o homem com quem vivo me cerca de carinho e atenção. Não faltam luxo e riqueza ao meu redor. 
          Confesso que a morte de Barba Azul ainda me pesa um pouco e não posso afirmar que sinto alívio por não ter sido eu a condenada. Procuro as razões para as atitudes violentas que provocaram a barbárie no castelo e não encontro. O que pode ter levado uma pessoa tão sensível a se transformar em um monstro sanguinário? O que terá acontecido no seu passado? Macabro mistério!
          Entrei no único quarto proibido entre tantos outros cômodos abertos. Não tolero ordem sem explicação. Poderia ter discutido com Barba Azul. Este foi meu erro. Agi escondido. 
          Enfim... esta história contrariou dois ditos populares: curiosidade, afinal, não mata. E, saber não é poder. Mesmo conhecendo os segredos do castelo, nada foi suficiente para salvar Barba Azul.
 
Charles Ludlam e Lohr Wilson em Bluebeard. Foto: Leandro Katz.
 
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Posfácio 3
Ruth Lifschits
          Leonora se salvou mas seu “e viveu feliz para sempre” custou um pouco a acontecer.     
          É certo que seu marido mau tinha sido eliminado e ela estava rica. Herdara a fortuna do Barba Azul: o magnífico castelo e seus tesouros e riquezas. Vivia cercada de esplendorosos jardins, bosques a perder de vista e o canto dos mais belos pássaros. E um novo marido tão pacífico, calmo e  previsível quanto o cenário que a rodeava.
          Sua vida  entrara em solene monotonia. Leonora sentia-se morrer dia após dia.  
          - Não posso continuar assim.   
      Inquieta, resolveu caminhar um pouco, para mover sua energia. Perambulou pelo castelo, entrando e saindo dos cômodos sem se fixar em nada, passando os olhos por tudo: teto, chão, paredes. Ambientes perfeitamente limpos e decorados. Foi quando, em uma saleta menor, algo brilhou e prendeu seu olhar. Aproximou-se de uma bela escrivaninha  de pau marfim com lindos entalhes em castanheira, negros e acetinados, e viu a chave daquele quartinho proibido, aquela que quase a levara à morte.  
       A peça dourada brilhava iluminada por um raio de luz que incidia  unicamente sobre ela. Leonora olhou ao redor, viu que  as cortinas estavam cerradas. Não havia como a luz natural entrar dentro do cômodo e muito menos chegar até aquele cantinho retirado. Lá fora caía uma chuvinha fina, típica das manhãs nubladas da primavera.    
          Ela não acreditava no que via e não conseguia tirar os olhos do objeto luminoso. De repente foi tomada pelas imagens que vira no dia em que entrara no  quarto proibido - as poças de sangue, os corpos das mulheres degoladas e penduradas nas vigas do teto. Tremeu dos pés à cabeça, a cena era demasiadamente forte.  
         Mas, algo de bom surgiu das sensações sentidas. Uma forte vibração percorreu todo o seu corpo enchendo-a de uma nova energia. Pegou a chave e viu que   já não havia  mais nenhuma mancha de sangue nela, “alguém a limpou?! Eu não consegui!”. 
        Leonora correu para as escadas do final do corredor, descendo-as de dois em dois degraus, em grande pressa, até chegar ao pequeno quarto que permanecia trancado. Sem fôlego, mas com mão firme, abriu a porta e se deparou com um espaço arrumado, impecável. Não havia um pingo de sangue à vista e nenhum  corpo degolado em qualquer viga do quartinho. Ficou ainda mais intrigada. 
        O resto do seu dia foi difícil, não conseguia se concentrar em nada. Resolveu se retirar bem mais cedo do que costumava. 
       E teve uma noite de sonhos, nos quais a chave a levava aos  lugares  mais incríveis que se possa imaginar. Foi tomada por prazeres jamais sentidos, provou o proibido do proibido. Acordou muito bem disposta, de faces rosadas e olhos brilhantes.
       - Amado esposo, convido-o a  tomar o café da manhã comigo na  ante-sala dos meus aposentos, foi logo dizendo assim que deu de cara com o senhor seu marido. 
      Ordenou à criada que os servisse lá. Conversaram longamente – ela muito falante, ele sempre com pouco a dizer, limitando-se a balançar a cabeça afirmativamente de tempos em tempos. Em determinado momento, Leonora se levantou, sussurrou algo em seus ouvidos e os dois saíram juntos para os fundos da casa. 
       Foi a última vez em que foram vistos juntos. 
      No dia seguinte, Leonora conseguiu algumas lágrimas nos olhos ao revelar uma carta despedida, na qual o marido explicava suas razões para abandoná-la e lhe pedia perdão.  
      O incidente rapidamente virou esquecimento. Sem espantos e sem espantados, a vida no castelo voltou à  rotina. 
    Mas Leonora rejuvenesceu. Passou a dar festas com frequência. Dançava, ria  e flertava abertamente com seus admiradores, sem se comprometer com nenhum deles. Foram tempos alegres e felizes, regados a bons vinhos, mesas fartas e muita diversão.  
       E assim o tempo passou. Leonora viveu uma longa vida de estimulantes sonhos, sempre  bonita e radiante, com a chave do pequeno quarto pendurada ao pescoço e um eterno sorriso misterioso nos lábios.
 
***
Mil e um Barbas Azuis

Na obra de Stephen King, The Shining ("O iluminado", 1977), a história do Barba Azul é recontada por Jack Torrance, o protagonista. O filme baseado na história foi lançado em 1980, dirigido por Stanley Kubrick e protagonizado por Jack Nicholson.
Os livros de Neil Gaiman, Smoke and Mirrors e Fragile Things, trazem histórias baseadas no Barba Azul, na verdade em Mr. Fox, personagem da literatura inglesa, falsamente acusado de matar a sua esposa.
A autora parte da história do Barba Azul para escrever os contos neste livro. São memórias de infância, o envelhecimento  dos pais, e as crueldades entre homens e mulheres.
Andrew Lang (1844–1912) coletou e publicou numa série de 10 livros inúmeros contos de fada. O Barba Azul saiu na livro azul (cada volume tinha uma cor). Num tempo em que este era um gênero pouco valorizado, o trabalho de compilação foi fundamental para disseminar histórias há muito perdidas na memória.
Esta ópera de Béla Bartók estreou em 1918. O libreto, do poetá húngaro Béla Balázs, focaliza a história de uma das esposas mortas por Barba Azul, Judite, que tenta entender a natureza de seu marido e lhe pede que as portas do castelo sejam abertas. São sete aposentos: a câmara de torturas, um jardim e um lago de lágrimas... No último, ela é assassinada.
Barbe-bleue (1866) é também uma ópera bufa de Jacques Offenbach, com livreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy
A música saiu em single em 1994. Alguns versos dizem:
Você é o homem certo para mim? / Você está seguro? / Você é meu amigo? / Ou você é tóxico para mim? / Você trairá minha confiança?
Editado em 1982, o romance gira em torno de Felix Schaad, médico de Zurich, de 54 anos, acusado de estrangular Rosalinde Zogg, uma garota de programa e sua sexta mulher. A história foi adaptada para o teatro.
No filme de Claude Chabrol, Landru, o pai de quatro crianças, procura mulheres nos jornais de Paris, para seduzi-las e mata-las, de modo a alimentar sua família.
Neste filme de 1947, pela primeira vez, Charlie Chaplin não faz o vagabundo. Depois da Segunda Guerra, ele volta como um serial killer. A inocência mostra o quão monstruosa pode ser.
Neste livro de 1979, a autora retrata a questão do feminino e da transgressão, com foco na sexualidade sado-masoquista.
Viúvo de sua segunda mulher, Rabo Karabekian escreve um diário em sua mansão em Long Island, onde guarda a maior coleção de pinturas abstratas e expressionistas do mundo. Na praia, ele encontra Circe Berman, que sob o pseudônimo Polly Madison, é autora de muitas novelas populares para adultos. Esta mulher formidável irá reorganizar a vida de Karabekian, mas ele tem um segredo: uma porta fechada.
Comédia de 1938, baseada numa peça francesa de Alfred Savoir. O roteiro foi escrito por Billy Wilder e Charles Brackett.