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2 de janeiro de 2012

Três anotações em torno da técnica

I
A partir de textos de Manuel Antonio de Castro
(http://travessiapoetica.blogspot.com/ 
http://acd.ufrj.br/~travessiapoetic/index.htm)
O que é techné
Estudar e aprofundar a questão da arte, isto é techné.
Palavra que, em grego, diz conhecimento.
*
Quando técnica se torna tecnologia?
Ao se tornar instrumento de autoafirmação, massificação, destruição e mediocrização.
Quando não mais sabe lidar com as coisas.
Quando não é mais movido e orientado pelas coisas,
de um modo nem idealista, nem realista,
mas compreensivo.
*
Na cultura contemporânea, aconteceu a reunião impensável:
techné + logos =  tecnologia.
Tecnologia não é o conjunto do aparato técnico produzido pela ciência;
tecnologia implica em uma visão técnica do mundo, onde vigora a eficácia e a utilidade.
***
II
Que fazer quando a criação do mundo, segundo a nossa vontade,
furtivamente toma conta da terra?
O que um homem faz então?
          Essa pergunta também se fez Martim, em A maçã no escuro, de Clarice Lispector, quando lhe chegou o duro tempo da explicação. Também para ele, a arte se manifestou. Entenda-se aqui, arte no sentido de busca de um saber que supera as limitações da época, aberto pela techné, , na tradição japonesa, caminho de auto-perfeiçoamento pela aprendizagem de uma arte.
          Martim, à custa de um controle de arte [...] se apegou a uma verdade apenas. O caminho de auto-aperfeiçoamento o levou à compreensão da verdade singular das coisas.  E à estranheza, pois rompeu com a busca na direção da universalização, da verdade abstrata e polivalente.
          A arte de Martim aproxima-se daquela desenvolvida por Lucrécia, a arte de ver. Com olhos de contra-Medusa, ela permitia a livre movimentação e ao mesmo tempo o emolduramento de cada coisa como uma obra.


***
III
Normalmente, vemos as coisas como matéria e forma,
interpretando-as como instrumentos,
em função da sua utilidade ou do seu conteúdo. 
          Quando deu o exemplo dos sapatos da camponesa no quadro de Van Gogh, em A origem da obra de arte, Heidegger observou bem que a utilidade dos sapatos dependia de um outro item por ele chamado solidez. Se quisermos chegar ao que é essencial nos sapatos, não basta descrevê-los, nem relatar o processo de sua fabricação, nem mesmo mostrar o modo como são utilizados. 
          Coloquemo-nos diante do quadro de Van Gogh. Aproximando-nos da obra, nos colocaremos num lugar que habitualmente não é aquele que costumamos estar. Não se trata de importar subjetividade aos sapatos. Trata-se de deixar que a obra nos desvele os sapatos em sua existência. Na obra está em obra um acontecer da verdade, aquela solidez, para além da utilidade dos sapatos.
          Nesse pensamento acerca da obra de arte, não é possível separar Verdade e Beleza. A imagem de uma pequena igreja cuja arquitetura modesta se erguera no antigo silêncio, encontrada na S. Geraldo de Lucrécia, em “A cidade sitiada”, de Clarice Lispector, é bela. Além de bela (ou porque é bela), a imagem nos abre para um antigo silêncio, para uma terra onde se ergue uma pequena igreja. Sem ele, a igreja é apenas um monumento. Esse silêncio é concreto. É ele que sustenta o habitar dessa igreja.
          No poético, se sustenta o habitar dos lugares. O poético confere às coisas o seu caráter de obra a ser criada. Para ver as coisas em sua poesia, é preciso ser também uma coisa a se obrar, na busca pela aproximação da verdade de um outro. O poeta é um ente-que-vê-com-arte.
          Lucrécia atentava para os movimentos dos cavalos em S. Geraldo. Eles eram seus guias. A moça via a cidade como eles. Com a cabeça a dominar o subúrbio, lançando o longo relincho,  cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina, mesmo com medo. Nas trevas do quarto, o terror de um rei, a mocinha queria responder com as gengivas à mostra. Mal saía do quarto, sua forma se avolumava e apurava-se, e quando chegava à rua já galopava com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus. Da calçada deserta, ela olhava e via as coisas como um cavalo. Porque não havia tempo a perder: mesmo de noite a cidade trabalhava fortificando-se e de manhã novas trincheiras estariam de pé. 
          No momento em que os cavalos foram banidos da cidade, Lucrécia abandonou a cidade.
         A tarefa de ver requer grandeza de alma. Requer entrega para fazer da cidade, no movimento para além da sua época, uma obra de arte. Arte é não explodir a cidade, nem é levá-la a se dissipar em redundância. Não é preciso perfumar as flores, nem poetizar a poesia. É preciso ter domínio das forças, ver as coisas como um cavalo. É preciso conhecer a contenção, saber domar a explosão e ignorar a tentação da dissipação. Ser o lugar desse olhar exige trabalho.

A partir de "Claricidade – a cidade segundo Clarice", de Bia Albernaz

10 de julho de 2011

Série "Todos os contos de um caso" (6)

Zulmira e Maria
Arlette Santos
          Maria. Não é assim que as pessoas costumam se referir às domésticas, quando não querem se preocupar com seus nomes? Pois é, Maria iniciara seu dia ansiosa. Morando lá pros lados de Xerém – melhor dizendo, onde Judas perdeu as botas – acordou cedo, antes das cinco da matina, preparou a mamadeira do Zezinho e, ao entregá-la à criança, notou que ela estava com uma pontinha de febre. Se acordasse o Leleo pedindo que observasse o garoto e, se necessário o levasse à UPA, na certa ouviria uma série de desaforos. Melhor entregar pra Jesus: Ele olharia por seu filhote. Para completar, a patroa iria a uma festa à noite, e teria que repassar suas roupas.
          Completara quinze anos no emprego. Não podia se queixar: o pagamento era pouco acima do salário mínimo, recebia o auxílio-transporte, férias e demais direitos trabalhistas. Às vezes, quando se atrasava um pouco devido às dificuldades de transporte por conta da falta de ônibus, a viagem de metrô – afinal, de Xerém a Copacabana não era mole, não – quando se atrasava, Dona Zulmira não falava nada. Mas a maneira dela olhar o relógio incomodava. Embalada por esses pensamentos, chegou ao trabalho. Felizmente, sem atraso.
          Iniciou seus afazeres como sempre. Arruma aqui e ali, coloca jornais, revistas e objetos em seus devidos lugares. Por que as pessoas que têm empregadas costumam achar normal não dar nenhuma colaboração à boa arrumação dos espaços que utilizam? A patroa já saíra para o trabalho e deixara um bilhete reforçando o pedido para passar sua roupa, e que tivesse cuidado especial com o xale de seda chinesa – relíquia de família que daria destaque especial à sua roupa.
          Estava tão acostumada com suas tarefas que se mantinha calma. Qualidade sempre observada pela patroa. Depois de arrumar a cozinha, foi passar as roupas. De vez em quando, lembrava-se do Zezinho. Como estaria? Foi quando o telefone tocou. Desligou o ferro e foi atender. Ouviu quando a porta do quarto bateu. Ao voltar, percebeu – uma rajada de vento deslocara o xale para o lado do ferro. E fez um rombo que não dava para disfarçar. Ficou desesperada. Como justificar? Dobrou-o e foi tomar banho. Poderia sair como costumava fazer, mas teria que se explicar com a patroa. Resolveu aguardá-la.  Êta, vida complicada!
          Estava acabando de se arrumar quando ouviu a voz alterada da patroa. Ela chegara, fora imediatamente ver sua roupa e dera com a tragédia.
          – Maria, não há desculpa para o que você fez. Volte no dia 30, traga seus documentos e acertaremos suas contas.
          Ambas choraram. E lá se foi a Maria repetindo em sentido contrário seu trajeto diário. Rememorou o longo tempo que servira a Dona Zulmira. A gente acaba se acomodando, aí surgem os imprevistos. Ma de repente, sentiu uma grande calma. Afinal, sabia que tinha capacidade e arranjaria outro trabalho. Melhor é não esquentar a cabeça...
          Isso aconteceu com Maria. E Dona Zulmira, como estava? Passado o desabafo, cabeça fria, começou a refletir: será que exagerei? Encontrarei quem substitua Maria a contento? Afinal ela me foi útil durante tantos anos... Quando suas colegas comentavam as agruras por que passavam, trocando toda hora de empregada, sentia-se feliz. Esses problemas não existiam para ela.
          No dia seguinte, ao ir à área de serviço apanhar uma vassoura, observou que o varal, que estava com a corda arrebentada, fora restaurado. Coisas da Maria. Habilidosa, consertava tomadas, trocava lâmpadas... Iria sentir muito sua falta.  Tenho que rever minha decisão.
          Chegou o dia 30 e Maria chegou para acertar as contas. Tinha férias vencidas. Lá estavam as duas, emocionadas e tensas. Dona Zulmira tomou a iniciativa:
          – Maria, vamos esquecer o que houve. Você fica, e tudo volta a ser como era. Peço que dê mais atenção às suas tarefas.
          Para surpresa de Dona Zulmira, Maria, de cabeça baixa, porém com firmeza, respondeu:
          – Não é bem assim. Passei dias difíceis, dormindo mal pensando nos dias que enfrentaria e como a vida não é fácil saí à procura de um novo trabalho. Tive sorte. Alguém que a senhora até conhece me fez uma proposta. O salário é um pouco melhor e não trabalharei aos sábados. Mas mudança de emprego na minha idade assusta um pouco. Preciso de um tempo pra pensar. Entro de férias e dentro de alguns dias dou minha resposta.
***
Filme de Bruno Barreto de 1987, baseado nas obras de Clarice Lispector.
 Carla de Souza Santana escreveu um trabalho que deve ser interessante (veja o resumo, aqui). Chama-se "Sabedoria e humildade: um estudo sobre a presença das empregadas domésticas nas crônicas de Clarice Lispector". Concordo quando ela diz que, em suas crônicas, a autora amplia a compreensão acerca das empregadas, ultrapassando os estereótipos convencionais.
Abaixo um exemplo:

Conversa puxa conversa à-toa
Clarice Lispector
          Eu estava na copa tomando um café e ouvi a cozinheira na área de serviço cantando uma melodia linda, sem palavras, uma espécie de cantilena extremamente harmoniosa. Perguntei-lhe de quem era a canção. Respondeu: é bobagem minha mesmo.
          Ela não sabia que era criativa. E o mundo não sabe que é criativo. Parei de tomar o café, meditei: o mundo ainda será muito mais criativo. O mundo não se conhece a si próprio. Estamos tão atrasados em relação a nós mesmos. Inclusive a palavra criativa não será usada como palavra, nem mesmo vai se falar nela: apenas tudo se criará. Não é culpa nossa -  continuei com meu café - se estamos atrasados de milhares de anos. Ao pensar em “milhares de anos à nossa frente”, deu-me quase uma vertigem pois não consigo contar sequer com a cor que a terra terá. A posteridade existe e esmagará o nosso presente. E se o mundo se cria por ciclos, digamos, é possível que voltemos às cavernas e que tudo se repita de novo? Dói-me até o corpo ao pensar que não saberei jamais como o mundo será daqui a milhares de anos. Por outro lado, continuei, nós estamos engatinhando até depressa. E a toada que a moça cantava vai dominar esse mundo novo: vai-se criar sem saber. Mas por enquanto estamos secos como um figo seco onde ainda há um pouco de umidade.
          Enquanto isso a empregada estende roupa na corda e continua sua melopéia sem palavras. Banho-me nela. A empregada é magra e morena, e nela se aloja um “eu”. Um corpo separado dos outros, e a isso se chama de “eu”? É estranho ter um corpo onde se alojar, um corpo onde sangue molhado corre sem parar, onde a boca sabe cantar, e os olhos tantas vezes devem ter chorado. Ela é um “eu”.
Em: A descoberta do mundo, escrita originalmente para o “Jornal do Brasil” (16 de maio de 1970)

Frases retiradas de A paixão segundo GH
           Na minha casa fresca, aconchegada e úmida, a criada sem me avisar abrira um vazio seco.
*
          A lembrança da empregada ausente me coagia. Quis lembrar-me de seu rosto, e admirada não consegui - de tal modo ela acabara de me excluir de minha própria casa, como se me tivesse fechado a porta e me tivesse deixado remota em relação à minha moradia. A lembrança de sua cara fugia-me, devia ser um lapso temporário.
          Mas seu nome - é claro, é claro, lembrei-me finalmente: Janair. E, olhando o desenho hierático, de repente me ocorria que Janair me odiara. Eu olhava as figuras de homem e mulher que mantinham expostas e abertas as palmas das mãos vigorosas, e que ali pareciam ter sido deixadas por Janair como mensagem bruta para quando eu abrisse a porta.
*
          E havia também o guarda-roupa estreito: era de uma porta só, e da altura de uma pessoa, de minha altura. A madeira continuamente ressecada pelo sol abria-se em gretas e farpas. Aquela Janair nunca, pois, havia fechado a janela? Aproveitara mais do que eu da vista que se tinha da cobertura. O quarto divergia tanto do resto do apartamento que para entrar nele era como se eu antes tivesse saído de minha casa e batido a porta. O quarto era o oposto do que eu criara em minha casa, o oposto da suave beleza que resultara de meu talento de arrumar, de meu talento de viver, o oposto de minha ironia serena, de minha doce e isenta ironia: era uma violentação das minhas aspas, das aspas que faziam de mim uma citação de mim. O quarto era o retrato de um estômago vazio.

17 de fevereiro de 2011

O pequeno monstro (exemplo maravilhoso de personagem)

Clarice Lispector, em Fundo de gaveta
É o primeiro aluno da classe. Não brinca. (Seu segredo é um caracol.) O cabelo bem cortado, os olhos são delicados e atentos. Sua cortês carne de nove anos ainda é transparente. É de uma polidez inata: pega nas coisas sem quebrá-las. Empresta livros para os colegas, ensina a quem lhe pede, não se impacienta com a régua e o esquadro, não se comporta mal quando há tanto aluno desvairado.

Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol tratado com frio e torturante cuidado. Ele o cria numa caixa de sapatos com cuidado. Com gentileza, diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado, adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão.

28 de outubro de 2010

Que segredos tem Clarice?

Do livro "Espelho" de Susy Lee
          Solilóquio
          Escrevo como se estivesse dormindo e sonhando: as frases desconexas como no sonho. É difícil, estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mistérios. Há uma coerência – mas somente nas profundezas. Para quem está à tona e sem sonhar, as frases nada significam. Se bem que embora acordados alguns saibam que se vive em sonho na vida real. O que é a vida real? Os fatos? Não, a vida real só é atingida pelo que há de sonho na vida real.
          Sonhar não é ilusão. Mas é o ato que uma pessoa faz sozinha.
          Eu – eu quero quebrar os limites da raça humana e tornar-me livre a ponto de grito selvagem ou “divino” ... A vida real é um sonho, só que de olhos abertos (que vêem tudo distorcido). A vida real entra em nós em câmera lenta, inclusive o raciocínio o mais rigoroso – é sonho. A consciência só me serve para eu saber que vivi às apalpadelas e na ilogicidade (apenas aparente) do sonho. O sonho dos acordados é matéria real. Nós somos tão ilógicos sonhadores que contamos com o futuro. Eu baseio minha vida no sonho-acordado ... Mas nos sonhos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhante e coerente. O estado de ser. (Um Sopro de vida)

          Fluxo de consciência
          As uvas, um cacho de uvas redondas e polpudas e líquidas e falsamente transparentes porque dão a impressão de serem transparentes, mas não se vê o lado de lá tu és inteiramente opaco embora dês a impressão de transparência diabo pro inferno que tenho a ver com a opacidade das coisas e a tua o touro da fazenda é grosso as vacas cheirando a campos inéditos o campo fica ao ar livre entre o campo e o céu eu respiro o ar que voa voa leve quando começa a brisar meu rosto nu e desgovernado louco quando as janelas batem e batem as ventanias gosto tanto de ser brisada como de me expor à ventania que bate as portas e janelas do casarão inteiro. (Um Sopro de vida)

          Busca do grau zero da linguagem
          Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. E então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.
          Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros quiseram ter o que já tinham. (...) Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem distraídos. (“Fundo de gaveta”, em Legião Estrangeira)

          Repetição
          Pois ele sabia que eu não saberia ver o que visse: a explicação de um enigma é a repetição de um enigma. O que és? e a resposta é: És.  O que existes? e a resposta é: o que existes. Eu tinha a capacidade de pergunta mas não a de ouvir a resposta. (Paixão segundo GH)

          Elementos metafóricos contundentes
          Pega uma espiga delgada de trigo de ouro, e põe entre as gengivas sem dentes e se afasta de gatinhas com os olhos abertos. Olhos imóveis como o nariz. É preciso mover toda a cabeça sem ossos para fitar um objeto. Mas que objeto? (Água viva)

          Oxímoros (uma variante da antítese, resultado de uma contradição entre termos próximos) desajustados
          Juro, acredita em mim – a sala de visitas estava escura – mas a música chamou para o centro o centro da sala – a sala se escureceu toda dentro da escuridão – eu estava nas trevas – senti que por mais escura a sala era clara – agasalhei-me no medo – como já me agasalhei de ti em ti mesmo – que foi que encontrei? – nada senão que a sala escura enchia-se da claridade que se adivinha no mais escuro – e que eu tremia no centro dessa difícil luz – acredita em mim embora eu não possa explicar – houve alguma coisa perfeita e graciosa – como se eu nunca tivesse visto uma flor – ou como se eu fosse a flor – e houvesse uma abelha – uma abelha gelada de pavor – diante da irrespirável graça dessa luz das trevas que é uma flor – e a flor estava gelada de pavor diante da abelha que era muito doce – acredita em mim que também não creio – que também não sei o que poderia uma abelha viva de pavor querer na escura vida de uma flor – mas crê em mim – a sala estava cheia de um sorriso penetrante – um rito fatal se cumpria – e o que se chama de pavor não é pavor – é a brancura subindo das trevas – não ficou nenhuma prova – nada te posso garantir – eu sou a única prova de mim. (“Fundo de gaveta” – LE)

          Símiles conectados em estranhamento
          A morte é um encontro consigo. Deitada, a morta era tão grande como um cavalo morto. (A hora da estrela)

          Letra desarticuladora de si e do outro
          Eu escrevo por intermédio de palavras que ocultam outras – as verdadeiras. É que as verdadeiras não podem ser denominadas. Mesmo que eu não saiba quais são as “verdadeiras palavras”, eu estou sempre aludindo a elas. (Um sopro de vida)

          Palavra: encontro do ato e vivenciamento desse ato
          De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
          Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo... – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo... – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. (LE)
Confira ROSSONI, Igor. Zen e a poética auto-reflexiva de Clarice Lispector: uma literatura de vida e como vida. SP: UNESP, 2002 ou no site: http://cultvox.uol.com.br/ListaLivros.asp?IDCategoria=56&Tipo=Categoria

3 de outubro de 2010

Concomitância de tempos na narrativa de "O mistério do coelho pensante" de Clarice Lispector

Bia Albernaz
 Do coelho indigente, de natureza domesticada, Joãozinho passa a ser o coelho natural voltado para a sua necessidade. Recapturado, tem sua natureza de novo reduzida, até que o ciclo se rompe quando o coelho se torna filosófico, ao sair da sua prisão para conhecer o mundo, e ao mesmo tempo poético, tendo se libertado pela imaginação, provocando e contemplando imagens. Esta é a história de Joãozinho, o coelho pensante, que, apesar de misteriosa, não tem nada de complicada, pois como diz a sua autora, Clarice Lispector:
Todo mundo sabe tudo.
E uma ou outra vez, alguém redescobre a pólvora, e o coração bate.
A gente se atrapalha é quando quer falar,
mas todo mundo sabe tudo.
Capa e ilustrações de Leila Barbosa
           Na história do mistério do coelho, a voz narrativa sai da intimidade. Voz narrativa é um conceito literário que extrapola à tipologia dos textos: não é exclusiva de nenhum deles, nem poderia ser reduzida ao uso de uma técnica. É uma espécie de afinação entre o que se conta e o modo como se conta. Mais do que isso, é também o modo como o narrador dá corpo à história, como a torna tangível, próxima à sua sensibilidade e, por conseguinte, ao do ouvinte. Poderia ser comparada à embocadura, essencial para os intérpretes de instrumentos de sopro.
          Pois então, na história do coelho pensante, desde o primeiro momento, do impulso de conta-la até à pulsação narrativa, a voz narrativa toma vulto pelo andamento e cadência progressivamente mais intensos a medida que, com o desenrolar dos acontecimentos, a história vira um enredo. Como a voz narrativa sai da intimidade, já que foi escrita “a pedido-ordem de Paulo [filho da autora] quando ele era menor” e também como “discreta homenagem a dois coelhos que pertenceram a Pedro e Paulo”, ela sofre uma transformação, tal como o personagem que dá título ao livro, passando da necessidade à liberdade. Essa transformação na forma relaciona-se com o que Luigi Pareyson chama de formatividade, conceito que dá ênfase à importância do processo na criação da obra de arte. Ao acentuar a relação entre o artista e sua arte, esse autor ilumina o fato de que, durante o processo de realização de uma obra, o artista produz também o seu modo de produzir, seu estilo, num diálogo constante com a matéria prima. Nessa perspectiva, o artista desce do pedestal da pura inventividade e assume também a condição de padecimento, ao se deixar conduzir pela obra, atendendo os seus desígnios, a sua especificidade.
         No caso de “O mistério do coelho pensante”, fica bem clara essa presença formativa pela adoção de um estilo bastante livre e espontâneo de narrar coerente com a liberdade que pouco a pouco, e graças ao pensamento, o coelho vem a conquistar. Abrindo as portas à imaginação, a narradora recorre a uma linguagem em que a prosa alimenta-se constantemente da poesia,  para espacializar a história. Com a prosa, por outro lado, ela temporaliza a experiência, que se desdobra, complexificando-se pela concomitância do passado, presente e futuro dentro da mesma história.
          Assim, a narração propriamente dita é feita no passado:
          Um dia o nariz de Joãozinho conseguiu farejar uma coisa tão maravilhosa que ele ficou bobo.
          Mas o tempo verbal no presente aparece na história, tanto no endereçamento direto da narradora ao leitor ou ao interlocutor (já que ela conta a história para o seu filho Paulo), quanto nos momentos de digressões, considerações da narradora à margem dos acontecimentos:
          Desconfio que você não sabe bem o que quer dizer natureza de coelho.
          Natureza de coelho é o modo como o coelho é feito.
         Por fim, o tempo futuro ocorre à medida em que a história reserva um papel fundamental à narração por vir, já que a história só irá se completar no momento em que “pais e mães, tios e tias, e avós” a contarem. Pois, explica a autora, ainda na sua apresentação,
         Como a história foi escrita para uso exclusivo doméstico, deixei todas as entrelinhas para as  explicações orais. Peço desculpas a pais e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar.
          Além disso, no final, a história é lançada ao futuro por uma ação incerta, que depende de um desejo para ocorrer, aparecendo, no texto, expressa pelo futuro subjuntivo:
          Se você quiser adivinhar o mistério, Paulinho, experimente você mesmo franzir o nariz para ver se dá certo.
          A complexidade da temporalização nesta narrativa aumenta ainda mais quando se considera que o presente pode ser referente a um acontecimento atemporal:
          E foi aí que ele descobriu que gostar é quase tão bom como comer.
         Assim, os tempos usados nesta narração, apresentada sob a forma simples de uma conversa, expressam as suas múltiplas possibilidades enquanto experiência já que o leitor é levado a acompanhar esse movimento sinuoso de passagens no tempo sem que se dê conta, sem apresentar resistência. Ou seja: sem que a autora explique ou prepare, o pensamento do leitor incorpora a complexidade temporal do texto. Em relação a essa habilidade, a obra de Clarice Lispector é pródiga. Pela espontaneidade do seu dizer, ela inventa uma espécie de língua desinteligente. A sua maestria está em apresentar a complexidade de um modo despojado, e ainda assim denso, já que lhe interessa a linguagem obediente aos mistérios de ser, àquilo que foge às classificações redutoras, ou ao tratamento do tempo como se ele apenas se realizasse ou pudesse ser compreendido através da cronologia. Desse modo, alarga-se a realidade.
(Trecho do artigo "Poesia e filosofia em 'O mistério do coelho pensante' de Clarice Lispector)

12 de agosto de 2010

Escrever, Humildade, Técnica

Em Para não esquecer, de Clarice Lispector
Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

26 de julho de 2010

Meninas narradoras, narração de meninas3

em Legião Estrangeira de Clarice Lispector
            Os desastres de Sofia
         O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:
           – Cale-se ou expulso a senhora da sala. 
           Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava.


 
Os Desastres de Sofia – quase espetáculo, direção de Ivana Moura e Lúcia Machado, com Maria de Jesus Bacarelli e Leila Freitas.

Veja também Narração de meninos 1, 2 e 4.