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19 de julho de 2020

Pequeno ensaio sobre a palavra fim

Edna Bueno
Os passos do tio escada acima ecoavam. O barulho da sola dos sapatos nos degraus, estalando, fazia a casa inchar, crescer até arrebentar. Tapei os ouvidos, sabia o que vinha me dizer. Sentia uma água empedrada desde o estômago, guardada para chorar em silêncio, em paz.
Era domingo. Se não era domingo, um dia de céu  e vento, carros na rua, horas passando. De manhã, na visita no hospital, vi que se soltavam as amarras. A respiração roncava. Quando vem a calmaria, espera-se. Um bom velejador espera. Que o vento volte, que aponte no mar encrespando sua superfície. Sabe-se que ele vem, não a hora.
Quando meu pai me levava no barco à vela, eu prestava uma atenção descuidada aos movimentos. Nas manobras, a vela saía da linha do vento e ficava panejando até se alinhar novamente. Manobras mais lentas, maior o tempo do panejar. 
Éramos pequenos, eu e o irmão do meio. O pai amarrava uma corda na popa e nos puxava pelas águas da baía. O barco se arrastava com nosso peso e alegria. Porque era muito movimento, braços, pernas, mergulhar a cabeça, risadas. Um modo da alegria de se colocar no caminho, diminuindo a velocidade, querendo se demorar. Fomos pequenos um dia, eu, o irmão do meio e o caçula nos braços da mãe.
Meu tio despontou na porta do quarto:
            – Seu pai…
            Já não era pequena. E me afligia com o escuro que levava pessoa tão amada, o rosto, as mãos:
– Vou precisar de você.
Por que? Sempre eu a precisar dele. 
O vazio era de se pegar, apalpar. Eu aprendia a palavra fim.
***
"Regata" (2008), Mário Signorini
            Sábado, com certeza um sábado. Sol e vento, calçadão da Praia do Leme, o bebê de um mês no carrinho. Uma alegria cuidadosa, de gestos pequenos, de pegar o bebê e deixar no colo do pai. Então sigo em direção ao mar, ainda me viro para ver os dois e guardar a imagem daquela manhã. Quero molhar os pés, sentir a areia.
            Uma separação breve, meu filho sob cuidados paternos. Ele conheceria o avô pelas histórias, um dia aprenderia que o mar nunca acaba, que vai andando e empurrando o horizonte adiante. Que viver é algo desarrazoado e pulsa.
            A palavra fim me paralisa. Pressinto que serão separações e encontros, no nascimento corta-se o cordão. Pela vida, muitas vezes mais o cordão será cortado. Morte do pai e nascimento do filho se traduzem em sentimento semelhante, o mesmo vazio espesso, de se pegar. Fim e começo. O bebê chegou por meio de uma cirurgia, faca que corta pele e carne. Da sala de parto para o quarto sem ele. Rodeada de pessoas felizes e notícias do berçário. Tudo rodando. Vazio. Não se separa assim duas pessoas tão uma da outra. E por que se quer tanto um filho se a vida comporta a dor? Minhas mãos têm o formato das de meu pai.
            Penso outras palavras: porto, âncora, deriva. Os barcos nunca deixam de singrar as águas, velas brancas na linha do horizonte. Meu pai dizia que, quando se entra em um barco à vela, não se vai a lugar algum: já se chegou. Olho para trás, para meu rastro, para a frente. O fim não decifro. Um bom velejador espera, sereno na deriva da vida. Tem o controle do barco, o vento desenha os caminhos.
            O filho pela primeira vez à beira do mar. Um passeio banal, em família. As velas brancas no horizonte, a palavra fim mergulhada nas águas, ondas, vento, as calmarias.
            Volto para o calçadão. No inverno, as manhãs de sol são especialmente bonitas.
fevereiro 2019
Edna Bueno nasceu no Rio de Janeiro. E passa longas temporadas em Praia Seca. Pelo livro Entre os bambus, recebeu em 2000 o Prêmio França-Brasil de Literatura para crianças. Com A Ingrid veio ver o mar, ganhou em 2002 o Prêmio Adolfo Aizen, de literatura infantojuvenil. Mais informações AQUI na página da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. 

20 de novembro de 2019

Memórias de Adriano - Notas

“Memórias de...”, a quê o título remete? Às memórias como um gênero literário? Talvez, mas também ao romance histórico, à narrativa epistolar e confessional. O título remeteria também a “memorandum”, um tipo de documento comum no cotidiano da burocracia, muito apropriado à função histórica assumida por Adriano, de criar governabilidade para o extenso e espalhado Império Romano.

A mistura dos mundos apresentados por Adriano vem do seu contato com os gregos e com os povos bárbaros, da sua infância na Espanha e de suas muitas campanhas militares; vem da sua formação estrita, física e intelectual, da sua disciplina latina; e vem do seu poder de contemplação e desfrute da arte, da beleza e do pensamento, advindos sobretudo de sua convivência e admiração pela Grécia. Mas, ao se tornar romance, o universo clássico se singulariza, se moderniza. Mistura-se o tempo de ação e o da escrita. Em seu estado quase estático,
em seu final de vida, Adriano é flagrado e ouvido. O romance é a coleta do que ele diz, é fazer com o texto um meio dessa voz tão distante reaparecer. E o modo como isso é feito tem analogia com o de um escultor, uma vez que Adriano é um amante da arte. Como uma matéria dura como mármore, o texto, com suas palavras e suas reentrâncias, pacientemente é esculpido, convertendo-se em uma estátua contemporânea de Adriano. Na bruma espessa criada pelo seu fraseado, vislumbra-se a efígie de um imperador como apenas um aspecto de um homem comum. Ou ainda, o vislumbre do homem incomum, apesar de imperador. Adriano como um status e também em êxtase.

Lendo-o, me identifico, e ao me identificar, pergunto: o que é ser latino? E moderno, é possível que esse romance o seja, ainda que sem a necessária dose de ironia? Ou a ironia, nesse livro, se apresenta tão-somente como pano de fundo existencial, pela aceitação das contradições em prol de uma convivência coletiva na cidade? Pelas “Memórias...”, sente-se a reverência à força do Império, como centrum (o “umbigo do mundo“), e percebe-se a importante referência às leis da República, com seus cultos sacro-mundanos, seus jogos de guerra e seus interesses ocultos na sustentação da paz. Adriano, porém, não parece gostar particularmente de Roma. Vive viajando. Tem várias casas. Conquistou a liberdade de poder viajar constantemente, sem precisar gerir a economia de perto, observando à distância um sistema de governo descentralizado, que funciona com precisão e de acordo com regras e procedimentos bem definidos. Para isso, empenhou-se em consolidar a possibilidade de fazer carreira funcional, nos moldes da militar.

Resumo da história
Adriano é um corpo, uma retórica. Seus ditos, discursos, dizeres modulam-se ao longo dos capítulos que, com o auxílio da Wikipedia, podem ser assim resumidos:

- Em Animula vagula blandula [Pequena alma terna flutuante], sabemos que as “Memórias…” constituem-se como uma carta a Marco Aurélio, sucessor de Adriano, que padece de uma doença mortal de Adriano. Tentando viver um dia após outro, sem medo nem agonia, recua no tempo, e fala de sua juventude, das caçadas, da paixão por cavalos e de outros apetites sensuais. Mas salta para o presente onde sente inapetência e insônia, e daí para o sonho e sua infância;
- Em Varius multiplex multiformis [Várias e complexas formas], expõe a relação com o avô, o pai, a mãe. E também a sua predileção pela cultura grega, que teria o ensinado a ser um imperador. Também nessa parte fala de Roma, o exército, a atração que sente por homens, a iniciação no culto de Elêusis, o medo da morte, seu casamento, o que pensa das mulheres. Refere-se às guerras com os bárbaros e à vitória dos romanos, mas também a uma política não expansionista, à defesa das fronteiras e à pacificação dos focos de instabilidade. A imperatriz Plotina surge como uma figura essencial, cuja atitude, por muitos criticada, no momento da morte de Trajano, garante a sucessão de Adriano no poder;
- Em Tellus stabilita [Estabilidade telúrica, expressão cunhada em moeda da época], Adriano retrata inimigos e o clima de instabilidade social, com a desastrada intervenção de Atiano, homem da sua confiança. E relata suas medidas político-administrativas, sua crítica e seu pragmatismo quanto à sociedade romana, seu apoio aos poetas, sobretudo a Suetônio. Descreve os cenários, a arquitetura, as cores e os edifícios que ajuda a construir e por onde viveu. Dá indícios do romance e do final violento, quando se refere à estatuária e à importância que esta tinha para a sua pessoa uma vez que via nela a imagem do seu amado. Termina com a menção ao culto de Elêusis e à sua admiração pelos astros;
- Em Saeculum aureum [Idade do ouro], dedica-se a seu amado, desde quando se conheceram até à morte inesperada de Antínoo: as viagens, a reciprocidade e a intensa cumplicidade. Mas surgem indícios de tristeza em sua “criança”, que acaba por se suicidar, talvez em sacrifício por Adriano. O embalsamento do seu corpo pelos egípcios, seu túmulo, a construção de uma cidade e mesmo a instituição de um culto a Antínoo são narradas em meio a expressões sombrias;
- Em Disciplina augusta [referência à majestade da deusa Disciplina, presente nas muralhas construídas por Adriano na Britânia], ainda se fazem referências ao culto de Antínoo, acompanhadas de forte revolta. Fala-se de guerra e da revolução dos judeus, da batalha com Simão e do clima febril e de peste no exército. Surgem indícios de sua doença e, apesar disso, dá-se a vitória dos romanos, com a Judeia cortada do mapa, passando a chamar-se Palestina. Inicia-se as ações relacionadas com a sucessão: a adoção de Lúcio, que sucumbe; a nomeação de Antonino como sucessor; e de Marco Aurélio como seu neto; e 
Detalhe da muralha de Adriano, em Northumberland, na Inglaterra. (https://www.megalithic.co.uk/article.php?sid=18177)
- Em Patientia, uma carta de Arriano traz alento a Adriano, mas sem forças e, em desespero, pede a dois homens da sua confiança que o matem, acabando os dois por finalizar a sua vida com o fim de não cumprirem tal ordem. Por isso, continua a viver e, ainda que sonhando com espectros, procura entrar na morte de olhos abertos…

Cada um desses capítulos se reporta a uma dimensão de ser Adriano, de ser um corpo, um cargo, um homem, um qualquer, qualquer um. Sobre todos paira a imagem da autora, com sua força e as muitas histórias que leu, ouviu e buscou in loco, a todo custo e por muitas noites, durante cerca de uma década de sua vida. Num exercício de “magia simpática”, como ela chama esse processo de escrita meditativa em torno de um outro, de uma outra voz, como uma aranha, ela tece sua teia: Marguerite Yourcenar escreve seu romance. Ininterruptamente, ela se dedica a fazê-lo existir, pela arquitetura e pela carpintaria. Nesse processo, La Yourcenar, nome criado a partir de um anagrama de seu sobrenome de batismo[1], se torna digna de Adriano e de si. Reinventa-se enquanto escreve. Essa relação entre uma leitura e o encontro com uma voz faz do escrever, uma escritura.

Do Delirium ("de-lire") como método [2]
O ego como um corpo, com suas ondas de sentimentos e calor. Yourcenar sente fascinação pela disciplina física cultivada por Mishima para fazer frente à cega e insana crença nas palavras (sustentada pela intelectualidade Ocidental) [3], e assim alcançar uma maior intimidade com as ideias, muito maior do que a surgida apenas pela mente. Para aprimorar sua escrita, a autora se aferra em buscar desenvolver técnicas meditativas para criar um vácuo dentro de si e induzir um estado interno de receptividade, aberto ao aspecto do outro, que vem para se refletir “num mar calmo”, nas camadas mais profundas de quem o acolhe.

Yourcenar adapta, para seus próprios propósitos, os exercícios de Inácio de Loyola e o método do ascetismo hindu, a fim de visualizar com mais precisão as imagens que cria por dentro das pálpebras fechadas, e expandir a mente, incluindo o pensamento não racional, não lógico.

A simpatia pela inteligência
Graças a esses métodos de meditação contemplativa e de re-criação imaginativa, confere-se forma, substância e vida ao que de outra maneira permaneceria ignorado, e é assim que se processa a “transição para o outro”, como ação decorrente do verbo em latim delirare (desviar de um buraco). Esse processo, Yourcenar definiu como “simpatia mágica”, uma transferência, em pensamento, para dentro de outra pessoa, permitindo, por exemplo, que ela sentisse as lágrimas de Adriano correrem em seu rosto, em profunda compaixão. A origem do amor e da inteligência se equiparam nesse instante. Simpatia e inteligência tornam-se então interdependentes. 


Notas[1] - "Esa niña llamada Marguerite, según Ud., gustaba bastante del nombre, que identifica una flor, y toma su denominación del antiguo iranio a través del griego en cuya lengua traduce ¨perla¨. Es un nombre místico, que no es de ninguna época ni de ninguna clase. Era un nombre de reina, pero también de campesina. No así el Yourcenar, que nace de la graciosa arrogancia juvenil por desprenderse de la tradición y de las ataduras que pudieran dar a una “futura artista” las convenciones familiares. Fruto de un juego divertido entre Ud. y su padre —cuando decidieron publicar su primer poema— para conseguir un seudónimo a partir del apellido que sonara agradable al oído de quienes serían su público. Entretenidos en hacer un anagrama con el apellido Crayencour y después de acordar la simpatía de ambos por la letra Y, valorada su estética y su significado como cruce de camino o un árbol con los brazos abiertos, esa niña terminaría llamándose Marguerite Yourcernar, una de la más celebres escritoras del siglo XX." Trecho da Carta a Marguerite Yourcenar, por León Sarcos. https://www.elnacional.com/papel-literario/carta-a-marguerite-yourcenar-5-7/
[2] - Cf. Subversive Subjects: Reading Marguerite Yourcenar, editado por Judith Holland Sarnecki, Ingeborg Majer O'Sickey.
[3] - Marguerite Yourcenar escreveu um livro sobre as motivações de Yukio Mishima ao cometer suicídio de acordo com os preceitos do ritual japonês. Em português, "Mishima ou a visão do vazio".

18 de fevereiro de 2015

A curiosidade matou "O coronel e o lobisomem"

Bia Albernaz
Emprestaram-me a 16a. edição (mesma capa)
A antiga curiosidade reacendeu-se com a notícia: o livro iria ser republicado pela "Companhia das Letras". Queria lê-lo. Iria estudá-lo. Sim, o picaresco etc. Mas não era isso. O que procurava, e reencontrei, neste livro, era uma cidade, uma memória de Campos. Ávida, pulei linhas à procura do lobisomem. Quem é? Talvez seja ele, o coronel. Afinal, nem seu pai nem sua mãe aparecem na narrativa que, diga-se, é boa, mas um pouco prolixa para o meu gosto. Ser caudaloso não é fácil. Mas eis um dos méritos do autor: muitos nomes, muitos personagens, uma galeria de tipos (no final, há um glossário com uma pequena descrição, usando trechos extraídos do livro). O nome "Poço Gordo", propriedade da família há tempos atrás, aparece uma vez. A citação de um lugar conhecido, familiar, atiça ainda mais a minha curiosidade. E ele vai casar ou não esse danado? O coronel é um praticante do sexo com profissionais. Amadas e amantes não se confundiam naqueles tempos, naqueles ermos. Em Campos, há menção a um certo cabaré "Moulin Rouge" e a um teatro de vedetes que eu nunca tinha ouvido falar. Mas Campos é infância pra mim. Tenra infância de muita conversa com jardineiro, de dança com cozinheira, de tardes no balanço com Abigail, sobrinha de Isa, do clã das formiguinhas ou o da Mulata? Mas nada disso interessa agora. Quanto à lobisomem, memória e história coincidem: esse sempre era um assunto. Viu não viu? Existe ou não? Ao lado disso, corriam soltas as práticas paramilitaristas, agregadorísticas, paternalizantes.

Tudo isso é Campos. E João, Cândido, por entre essa floresta, reporta. Reparte as histórias desse tempo que a gente sabe, não passou. Ávida, procurei cenas de alcova, de pensamento das mulheres (elas pensam?). No livro, elas são pensadas. A impressão que se tem é que as mais importantes são vacas. Coisas das circunstâncias. Campos resistiu o mais que pôde para manter os escravos em seu lugar. Chegava a tratá-los como se da família fossem. Desculpem, a curiosidade, quando morta, dana a proclamar ideias. Disso, o livro não padece. A história, as peripécias do Coronel Ponciano são contadas sem interferência maior do autor, que lhe quer dar a voz, carta branca para dizer as besteiras que quiser, para se sentir em casa. No final, a gente fica amigo desse louco que se humaniza à medida que é varrido pelas autoridades. Ele então se aproxima de homens e mulheres coadjuvantes na história, à exceção de Francisquinha, espécie de mãe preta que, sempre muito presente, aos poucos se dissolve e se funde ao horizonte daquela terra. Amiga do Coronel, não diria que fiquei. Mas é verdade que a gente passa a sentir vaga simpatia por ele, e não mais curiosidade.

Fecha-se o livro com uma noção sobre o picaresco e também sobre os riscos do regionalismo. Ficaram também dançando em minha memória uma leva de personagens fictícios-reais, uma onda de sentimentos de lonjura e de proximidade que aprecio e agradeço ao autor e também a quem me deu a notícia da republicação do livro, emprestando-me um exemplar da antiga edição, pela José Olympio, com um prefácio gráfico, esse sim, simpaticíssimo.
Desenhos de Appe, do Prefácio gráfico (16a. edição do livro)
Dizem que a adaptação mais antiga do livro para o cinema, de 1973, é a melhor, e não a da Globo Filmes. Dizem também que o diretor, Alcino Diniz, ao lado desse filme, fez muitas pornochanchadas. Maurício do Valle é o Coronel.

19 de agosto de 2014

O presente


Ruth Lifschits
          Noite fria, muito escura. Nós três, os maiores, grudados, bem juntinhos, sentados no primeiro degrau da escada. O menor passava pra lá e pra cá no colo da babá apressada, arrumando coisas, pegando roupas nossas no quarto dos fundos, no andar de cima, pela casa. Não sei bem o que ela fazia, mas estava muito ocupada. Nossa casa cheia e continuando a se encher de pessoas solenes, sérias. Umas conhecidas e muitas outras não. Onde estava minha mãe? Continuava sumida. Tínhamos voltado do colégio e ela não tinha aparecido para nos receber. Eu ouvia  seu choro, mas quando a procurava só via as costas de mulheres encurvadas olhando para algum ponto no meio daquele embolado de gente – de lá vinham os sons de choro, gritos, gemidos. A voz era dela, mas muito diferente do que costumava ouvir. Não sei quanto tempo se passou, ficou escuro e deixamos nossa casa. Não me disseram por quê. Nada
          Fomos levados para a base militar e pensei que papai estivesse lá. Procurei por ele, esperei por ele mas ele não apareceu. Entramos num avião depois de passarmos por homens fardados que nada diziam, só nos olhavam com olhar esquisito, triste. Ninguém dizia nada. Estava com medo. As fardas eram como as do papai. Onde estava ele? Também tinha sumido. Um amigo dele me pegou no colo, me beijou e abraçou. As bochechas dele estavam molhadas. Entramos no avião. Meus irmãos mais velhos de cabeça baixa, também não falavam nada. Eu queria fazer perguntas, mas tinha medo. Estávamos indo embora, para onde? O menor chorou, tossiu, ganhou uma chupeta. A babá disse para ele que logo estaríamos na casa de nossa avó. E a mamãe? Ah, lá na frente, acho que era ela, mas estava escuro, ela de preto, jogada num banco, o rosto enfiado nas mãos. E o papai? Onde? Íamos sem ele?
          Não sei se o voo foi curto ou longo, foi no escuro. Escuro lá fora, escuro dentro. Dormi ou estava no meio de um sonho, não sei. Quando saí do avião, meu padrinho veio me pegar, também sem falar. Passou a mão nos meus cabelos, me puxou para perto dele e ficou me apertando contra ele, um tempão. Me levou para um carro. A babá e o menor vieram atrás de nós. Minha madrinha me beijou. Ela estava chorando. Sentei no banco de trás. E meus outros irmãos? E minha mãe? Tinha me perdido deles. Medo. Mas a babá e o menor estavam ali, e  meus padrinhos também. Nosso carro foi seguindo um outro. Gosto de ver as luzes da cidade. Dormi. Chegamos numa casa toda acesa. Todas as luzes brilhavam. A sala quase sem móveis, com cadeiras e mais cadeiras encostadas ao longo das paredes. E muita gente lá. Estavam falando mas, quando entramos,  se calaram e ficaram olhando, aquele olhar triste e esquisito – igual ao dos homens fardados. Tinha gente chorando. Eu queria chorar, estava com muito medo. Onde estava minha mãe? E a vovó? A casa era dela, diferente mas era a dela. A babá nos levou para a cozinha. Quis que eu tomasse sopa, uma canja. Não queria, queria minha mãe. Fomos para o segundo andar, babá nos banhou e nos pôs para dormir nuns colchões arrumados no chão. O menor chorou, queria a mamãe. Ela não veio. Papai não veio. Mamãe estava ocupada, precisava descansar, a babá dizia, embalando o pequeno. Acho que comemos, fizemos um lanche lá no chão do quarto, não sei. Me sentia num sonho, num pesadelo, não sabia de nada. A cabeça inventa, cria realidades que se confundem. O menor deve ter mamado. Posso estar inventando, está tudo misturado na minha cabeça. Escovei os dentes com o dedo, me lembro muito bem disso. Minha escova tinha ficado na minha casa. Tudo muito diferente. Muito estranho, não era assim que me punham para dormir. Ninguém contou histórias, não falavam nada. E meus outros irmãos? Tinham sumido também.
 

          Eu me deitei pensando no meu aniversário. Papai tinha me prometido a boneca loura. Amanhã vou ganhar presentes, pensei, e me animei um pouco. Mas, a festa ia ser lá em casa  e nós estávamos na casa da vovó, longe. Mamãe tinha feito um vestido novo pra mim, branco com barra de tafetá estampada de verdes e vermelhos. Mudaram a festa para a casa da vovó? Tudo muito estranho.
          Aquele meu aniversário não aconteceu. Acordei numa casa vazia. Todos tinham sumido. Só as empregadas, a babá, as crianças. Brincamos, tinha uma indiazinha de nove anos na casa da vovó, falava diferente. Meninos jogavam bola na rua em frente, meus irmãos também. Ganhei um bolo com uma vela para soprar. Uma vela para seis anos? E chegaram todos para almoçar, solenes e sérios. Mamãe, de óculos escuros dentro de casa, de preto. Me abraçou, me deu um presente – a boneca loura. E papai, quando vem? Hoje não, hoje não era o que diziam. E asma, emplastro quente no peito, respirando com dificuldade fui para o colchão no chão, a boneca junto comigo, linda, linda.
          Acabei usando o vestido novo na missa de sétimo dia do meu pai. Mamãe trocou a barra de tafetá verde e vermelha por uma preta e branca. Não me lembro como fiquei sabendo que papai tinha ido para o céu e eu tinha que ser boazinha porque mamãe estava muito triste, muito cansada. Papai no céu?! Custei a entender que estavam me dizendo que ele tinha morrido. Meu irmão menor também não tinha entendido direito. Ficava olhando para o céu  pedindo para a lua  trazer o papai de volta.
Brejal, 3 de agosto de 2014.

A experiência decisiva que, para quem a tenha feito, se diz ser tão difícil de contar, nem chega a ser uma experiência. Não é mais que o ponto no qual tocamos os limites da linguagem. (Giorgio Agamben)
Fotos: JMGLA

8 de junho de 2014

Os chinelos de meu pai

Ruth Lifschits
Um dia acordei sufocada, pesada. Uma sensação de culpa imensa tinha me tomado, sem volta e sem perdão, e me colava na cama. A ponta de um sonho tinha ficado na minha lembrança, algo raro. Meus sonhos fogem de mim quando acordo. Chego a vê-los me abandonando e o esquecimento se  instalando. Mas, naquela manhã, a culpa ficou e com ela vieram lembranças antigas, de mais de 30 anos: os chinelos de papai caídos no jardim com as solas viradas para cima! Azar maior impossível.

            E me voltaram tempos de criança, com minhas práticas sagradas do dia a dia – desvirar sapatos e chinelos  por ventura emborcados; não passar de baixo de escadas e desviar o olhar se surgisse um gato preto na frente. Tudo para não atrair a má sorte. Não adiantou. Numa tarde de domingo, janela do banheiro aberta, quis ver a rua e esbarrei nos chinelos de meu pai sobre o batente da janela. Eles foram bater lá em baixo com as solas para cima. Voei escada abaixo, mas as  portas trancadas me travaram. Todos os alarmes de perigo zoavam na minha cabeça. Faça algo, rápido, o azar está chegando. Mas meus pais estavam dormindo, e as chaves com eles. As janelas abertas e as belas grades de ferro batido trançado impediam entradas ou saídas de emergência. “Daqui a pouco eu desviro os chinelos”, pensei, mas acabei me esquecendo de fazê-lo. A tarde se foi entre sucessivas brincadeiras com meus irmãos e a menina da casa ao lado. Veio a segunda-feira com a ida à escola, deveres de casa, mais brincadeiras e, no dia seguinte, às 10 e 30 da manhã papai morre em um acidente aéreo. Eu não desvirei os chinelos a tempo! Esse pensamento invadiu logo a minha cabeça assim que soube do desastre.
            Reagi à culpa e à notícia da morte de meu pai criando algo que nos salvasse, a mim e a ele: amnésia. Meu enredo interior: papai não tinha morrido no acidente, estava perdido sem saber quem era e sem saber de nós. Um dia voltaria para casa. Era só esperar. E como esperei, quieta e calada, porque nunca contei sobre os chinelos para ninguém. Deixamos São Paulo de volta ao Rio. Fomos para a Tijuca, casa de minha avó materna e de lá para a Urca. Eu tinha 6 anos quando ele morreu e até os 12 anos alimentei esperanças de que ele iria voltar. Quando a campainha de nosso apartamento tocava eu achava que era ele, finalmente. Até que um dia precisei de um documento para levar para o colégio. Mamãe não estava em casa e eu resolvi pegar a certidão numa pasta que ela guardava no guarda-roupas. A busca me colocou frente a frente com a certidão de óbito de papai. Comecei a ler e não terminei. A descrição do que foi encontrado, como foi identificado, acabou com minhas esperanças. Ele estava morto mesmo, sem volta. Os chinelos virados, o azar, meu feito. Fiquei desesperada, chorei muito naquela tarde. Mamãe chegou e estranhou me ver deitada na cama, de cara para a parede. Inventei dores de cabeça, cólicas, algo assim e logo me ignoraram. Mas eu não era mais a mesma, uma tristeza enorme passou a me habitar. Minha família percebeu a mudança mas acabaram achando que eram efeitos de já ser mocinha, da adolescência. Mas eu sabia. Passei a tomar o maior cuidado com tudo que fazia. Não queria provocar o azar, dar chances para ele atacar. E fui me tornando obediente ao extremo, incapaz de colar ou matar aulas, procurando acertar em tudo pois se algo acontecesse eu poderia dividir a responsabilidade com os adultos que me mandavam fazer isso ou aquilo, proceder dessa ou daquela maneira. Vejo meus irmãos conversarem sobre “artes” que fizeram na adolescência e eu nada tenho para contar. Não transgredi, nem fila de cinema eu furei.

            Um dia fui absolvida. Foi assim: estava em Búzios, picando cebolas para o molho do churrasco. Marido, filhos e amigos no pátio, cervejando e conversando, de olho na carne sendo assada e eu, na cozinha,   preparando os acompanhamentos: farofa, molho à campanha, arroz e salada. Sem perceber, comecei a falar comigo, o que adoro fazer quando fico sozinha. Conversa vai, conversa vem, quando vi estava conversando com meu pai. Ele estava encostado na pia, de braços cruzados,  me olhando picar cebola. Eu falava de meus filhos, de umas cismas do meu marido e, de repente, ele me disse “Filha, esquece os chinelos emborcados. O avião  ficou sem controle. Foi um acidente”.  
            A cena está viva em minha mente. Consigo ver os detalhes da roupa que ele usava: camisa branca de abotoar na frente, mangas curtas, calça caqui de pregas na cintura e bainha inglesa; sapatos marrons, de amarrar e meias brancas. Ele estava me olhando com ternura. E assim ficou por um tempo – calado e me olhando. A imagem foi se desfazendo, lentamente.  Eu com a faca no ar, boca aberta, olhos arregalados, enquanto um entendimento quente me invadia e acalentava. 
Brejal, 22 de março de 2014

Ao pé da escada

Daniel Willmer

Talvez escutar Philip Glass gere um texto, uma tristeza, um assombro. A musica não é melancólica, mas algo nostálgica, lenta, em terças menores, repetitiva quase.
 
          Folheando um álbum, vejo uma vida em lacunas. Vejo imagens que sempre soube, que me acompanharam por toda a vida, revisitadas de tempos em tempos, sem contudo ter qualquer lembrança associada a elas. O olhar se volta para onde não existe memória, apenas reconhecimento. O tempo vai adiante e volta, deformado, ao sabor da arrumação, do caber nas páginas, das imagens espalhadas, no ir e vir de um arquivo de retalhos.
          Olhando, me pergunto até quando vai a infância e prontamente respondo: até os doze em 10 de janeiro. Data-marco. Nesse dia, a casa e o tempo desabaram. Me espanto, me dou conta de que nunca tive sete anos, ou cinco, ou mesmo dez. Não existe prova, imagem nenhuma destas idades. Memória portanto é invenção. O que sentiu, viveu ou pensou aquela criança aos onze anos? Nessa infância lacônica, defeituosa, também não existe cidade, rua, apenas a casa, ou melhor, quase sempre  o jardim da casa.
          Me detenho numa foto em que me vejo junto aos cães da casa. Estou no centro, sentado numa curta escadaria que parece se fechar aos poucos pela perspectiva. Duas jardineiras com samambaias e sem flores, uma de cada lado, acompanham os degraus. Adivinho que seja inverno, pois estou de calças e não há flores. Em todas as casas onde vivi sempre tinha muitas flores. Gosto de flores. Estou sentado ao pé da escada com Alexandre, o dálmata. Repouso uma das mãos em seu dorso pintado. Talvez o afague. A outra mão parece quieta sobre o degrau. Meus joelhos estão juntos enquanto os pés, afastados para os lados, são escudos contra o mundo. Estou de sapatos. (Sempre usava sapatos fechados. Ou então ficava descalço.) São os sapatos marrons. Uso-os sem meias. Com eles, chutava pedras, jogava futebol de chapinha ou de bola de papel no colégio. Tirava apenas para tomar banho ou quando ia para a cama. Os bicos estão marcados, lanhados.
       Visto calça e camiseta azuis. Uma das minhas combinações favoritas. Roupas que eu exauria, antes de, muito infeliz, jogá-las fora.  Quando o fazia era porque os remendos eram mais abundantes do que o tecido, e os furos impossíveis de serem cerzidos.  Noto que a gola da camiseta está frouxa. Por anos destruí golas. Da roupa herdada de meus irmãos maiores, não gostava: eram velhas, eram deles. Gostava daquelas que sempre haviam sido minhas.  No entanto, destruía suas golas com raiva animal. Elas eram as rédeas do cavalo em que me transformava. Rédeas que eu mesmo me impunha para me refrear. Trincava os dentes, respirava forte. Com intensidade crescente, num acesso curto, desabava pelo chão com um riso louco, a camiseta toda deformada e babada (cavalo não cospe), enchia o peito de ar e batucava o chão com mãos e pés. Rosnava como os cães e gatos para parecer bravio, um cavalo louco. (Não sabia que cavalos não rosnam, resfolegam – não conhecia a diferença, fraco de vocabulário.) Foram vários anos e muitas camisetas. Mais tarde, depois de me tornar ladrão de cigarros e fumar escondido,  passei a usar camisas e a raiva seria extravasada por bombas.
          Na foto, olho para a lente da câmera com desconfiança, de soslaio, sutilmente infeliz, a cabeça de lado e o queixo para baixo. Não tinha o costume de ser fotografado, desgostava. Noto as olheiras e o semblante algo triste. Nessa época não tinha amigos, apenas companheiros de classe. E não me encaixava com a minha família. Eu, a minha turma; eu, a família, tínhamos caminhos diversos. Eu era do jardim.
          Lentamente, subo os seis degraus da escada. Vejo que há um outro cão, grená, escondido na sombra, e na varanda mais acima, muito alta e coberta, duas cadeiras de ratam, de onde se podia desfrutar da vista do centro do Rio e do jardim cuidado por meus pais e o jardineiro. Lá dentro, fica um aposento inacessível: a sala de música de meu pai. Majestosa, suntuosa, com seus seis metros de altura e os oito de lado, as enormes portas, cortinas pesadas fabricadas por minha mãe, sofás proporcionais, e as caixas de som: monstros de mais de metro de altura e quase dois de largura onde cabiam 102 autofalantes. O seu orgulho. Desenvolvidas por um amigo engenheiro, povoavam as noites com vozes e orquestras, vindas de elepês estereofônicos ou não. Acima, em meu quarto, tudo vibrava pelos tímpanos, os tutti, os dós de peito, enquanto que, sob o travesseiro, por um radinho de pilha, a rádio Nacional me embalava o sono.
          O pensamento aderna por outros cantos, outras lembranças, ao sabor do solo de piano. Olho de relance outra imagem da família, e a memória me leva a uma prima que por aqueles tempos conheci, mas que não encontro na foto. E a garota bela e simples de quem não sei sequer refazer o rosto me sussurra: estórias descansam no invisível.
5 de junho de 2014

7 de abril de 2014

Menina, cão, quintal, família feliz

     O que dizer desta fotografia? Vejo crianças, um cachorro, e casas. Uma menina, bem à vontade junto ao cão, cuida de conter o animal. Toca-o como que pedindo que obedeça e colabore para que sua agonia acabe e ele possa sair do lugar da obediência e da submissão. E ele procura sinais de agrado no dono, o fotógrafo, que o posicionou e ordenou que ficasse sentado naquele lugar. Só meu pai tinha voz de comando sobre o cão. Sou a menina solícita.

         Me acostumei a ver desde muito cedo as imagens colecionadas por minha mãe em um álbum intitulado My Book Treasure. É um grande álbum marrom de capa dura com o desenho de um baú de piratas cheio de moedas de ouro e muitas páginas negras repletas de fotos coladas.  Álbum com várias anotações em nanquim branco, letra de minha mãe, com as datas e locais do nosso passado.  Quando ela me deixava folhear o álbum, narrativas  eram acrescentadas.  As circunstâncias desse ou daquele momento se esclareciam com as histórias que entrelaçavam acontecimentos corriqueiros ou grandes celebrações, sempre como vivido e lembrado por ela. E tudo passava a existir para mim. Viajava no tempo e construía minhas lembranças. Eu adorava esses momentos em que as imagens ganhavam vida e significados. E sempre a voz dela pois meu pai morreu muito cedo. Ele também ganhava vida e vinha para junto de mim. Nesses relatos eu e meus irmãos éramos personagens, com papéis marcantes. Eu, única filha, era muito observada, mimada e acariciada pelo olhar do fotógrafo. 
          Durante muitos anos tivemos como certo que essa função tinha sido exercida unicamente pelo nosso pai. Afinal, a câmera era dele e mamãe nunca assumiu autoria de nada e nem mostrou interesse por fotografia. Agora, ao folhear com cuidado o álbum que se esfarela ao mais delicado toque, vejo em muitas cenas a sombra de mamãe dentro do quadro.  É seu corpo entrando no tempo a ser lembrado, não deixando dúvidas sobre quem também criara vários momentos daquele álbum. 
           Eu me reconheço no rosto da menina e sei quando e onde estava. O cenário é familiar, presente nas inúmeras vezes em que as fotografias foram visitadas. De tanto conviver com estas imagens, consegui não me esquecer das casas onde morei. 
          Esta certamente foi tirada em um dia fora do comum, em hora de estar bem vestida, com capricho não destinado a brincadeiras no quintal. O laço de fita que enfeita os cabelos sempre aponta para momentos especiais. Laços duravam pouco tempo em meus cabelos lisos e muito finos.  Meu irmão mais velho, ao fundo, se afasta do recorte escolhido para a minha pose. Também está bem vestido, num terninho escuro de mangas compridas, de sapato e meias pretas – não é traje para folguedos nos fundos da casa e na companhia do cão da família. As longas sombras na grama me dizem que o sol estava baixo no horizonte. Começo ou final de dia? Estamos ainda limpos e bem arrumados, mas não me lembro de nada, nem de explicações dadas por minha mãe.
               E porque a pose no quintal e não no jardim de frente para a rua? De certo para que o cão-personagem pudesse interagir sem possibilidade de fuga.
          As roupas da menina e do menino são as de exibir, do reino do parecer, e destinadas às páginas de um elegante álbum que eternizarão cenas de tempos idealizados do passado, e esquecidos pelos personagens dessas breves histórias. Adultos tecem fios condutores da memória, empenhados que estão em classificar e registrar os muitos minutos mágicos proporcionados à sua prole. Constroem cenas para provar a todos que houve infância, vida em família, alegrias e felicidade  –  e que as crianças foram o centro das atenções e dedicações cegas dos pais.
           Rip, o cão de papai caçador nas horas vagas, completa o quadro que fala da família perfeita: filhos sadios e bem vestidos, animal de estimação de raça e casa nos Estados Unidos, o que dá ao nosso núcleo familiar uma posição social privilegiada.
            Minha mãe devia estar dentro de casa, ocupada com meu outro irmão. Naquela época éramos três – o filho caçula chegaria anos depois.
             Papai, quase sempre atrás da câmera, nos legou os registros de seu olhar atento e cuidadoso presentes na maior parte da coleção de fotos de infância do álbum tesouro. 
             Esta fotografia é profética. Nela só há dois dos quatro filhos do casal, os dois que restam vivos nos dias de hoje.
Brejal, 5 de março de 2014
Ruth Lifschits

26 de março de 2011

Cortázar: o ordinário e o extraordinário na gênese do fantástico

MBGLA
Julio Cortázar
Eu sei que faz cinco anos que estou numa das etapas mais negativas da minha vida. Mas sou tão pouco racional que não me ocorre a idéia de ir procurar um astrólogo e dizer: “escuta aqui, investigue esse assunto para mim”, porque sei que não vou ganhar nada com essa investigação. Tenho a sensação clara de que existe isso que as pessoas chamam às vezes de “destino”, e que num momento determinado se coloca contra você. [...] Tento assumir algo que sinto que me acontece, e contra o qual não posso fazer nada a não ser me defender com os meios que estiverem ao meu alcance.

Desde muito pequeno existe esse sentimento de que a realidade para mim não era apenas o que a professora ou minha mãe me ensinavam e o que eu podia verificar tocando e cheirando, mas que existiam, além disso, contínuas interferências de elementos que não correspondiam, no meu sentimento, a esse tipo de coisas. Essa foi a iniciação do meu fantástico. Quer dizer, não é um fantástico fabricado, como o fantástico da literatura chamada gótica, em que se inventa todo um aparato de fantasmas, de espectros, toda uma máquina de terror que se opõe às leis naturais, que influi no destino dos personagens.
***
Posso dizer que as primeiras intuições que tive nesse plano, desde menino, foram tão normais e tão naturais como as que podia ter frente a qualquer manifestação tangível e aristotélica da realidade. 

Ou seja, uma espécie de aceitação prévia de qualquer coisa que os demais consideravam inexplicável, como um jogo de casualidades, ou como uma brincadeira de coincidências.

Desde criança desconfiei destas palavras: “coincidências”, “casualidades”. Porque me pareciam baratas demais. Na verdade, digo que fui um menino muito precoce e então tudo que existia de barato na inteligência daqueles que as crianças chamam de “os grandes” – ou seja, a família, minha família – eu notava, quase que com crueldade. Ouvia minha família falar e sabia, por antecipação, o que iam dizer. Porque um lugar-comum puxava o outro. Era um sistema já organizado de pensamentos em questão de política, de comida, de saúde, se o banho devia ser morno ou frio, se o bicarbonato fazia ou não fazia bem. E eu me divertia silenciosamente adiantando para mim mesmo tudo o que as pessoas iam dizer. Eu sabia que depois que minha mãe dissesse aquela frase,  minha avó diria outra que, na maioria dos casos, era a que eu tinha previsto. Emendavam de um lugar-comum a outro, de um juízo de valores a outro.
***
A margem de pensamento dos adultos me parecia muito pequena no círculo da minha família, que era o único que eu conhecia. [...] Mas o fato é que, sendo precoce no campo das intuições, percebia no vocabulário dos adultos – aliás, um reflexo da realidade deles – que eles viam a realidade de um modo diferente do meu. Pois bem, percebia então naquele vocabulário uma espécie de desajuste.
Quando ouvia certos lugares-comuns, tinha a impressão de que provavelmente a verdade era o avesso daquilo. Naturalmente, a criança não diz essas coisas porque corre o risco de levar um tabefe, sobretudo nessas casas argentinas onde criança é criança e adulto é adulto e justamente por isso tem sempre razão. Nem precisa saber mais: basta ser adulto para ter razão. Mas, enfim, tudo isso é para explicar que não existe um momento no qual eu tenho definido o fantástico. Havia um mundo paralelo, misturado ao mundo de todos os dias, o mundo das escola e o mundo da casa, e eu me movia entre um e outro, flutuando.

Por exemplo, minhas brincadeira solitárias eram praticamente mágicas, totalmente diferentes das brincadeiras com meus amigos, que eram conhecidas. As minhas eram únicas: inventei um reino imaginário no jardim da casa, só para mim. Claro que eu sabia que era o jardim, mas sabia também que os grandes não sabiam que era ao mesmo tempo o “reino”. [...] Assim, no dia em que comecei a escrever poemas e contos, era quase inevitável que essa permeabilidade se abrisse. Na falta de uma palavra melhor, eu mesmo tenho usado “fantástico”.
Trechos de "O fascínio das palavras – entrevistas com Júlio Cortazar" (por Omar Prego) – trad. Eric Nepomuceno, Ed. José Olymplio, Rio de Janeiro: 1991.

6 de dezembro de 2010

Invocações (memória e ficção) - outro trecho

 Sergio Sant'Anna
          No dia seguinte, o peru, enquanto ser vivo, já estava completamente esquecido, sem lástima, para tornar-ne cheiro tentador de carne assada que se espalhava por toda a casa, e depois gosto delicioso, do qual se desfrutava sem nenhuma culpa. O almoço de Natal da família era sempre realizado em nossa casa, e a ele compareciam os dois irmãos de minha mãe com suas mulheres, sendo que somente um dos casais tinha uma filha. Quanto aos pais de minha mãe, apenas minha avó era viva, e morava conosco. Da família de meu pai raramente vinha alguém, pois moravam, meus avós e três tias, em Catalão, no interior de Goiás. para chegar a Catalão, naquele tempo, era preciso fazer uma demorada viagem aérea num bimotor DC3 até Araguari, em Minas, seguida de outra demorada etapa terrestre.
          Entre os dois tios, aqui no Rio de Janeiro, eu e meu irmão tínhamos preferência indisfarçável pelo mais velho, Luiz, nos sentíamos totalmente seduzidos por ele que, não tendo àquela época filhos, era uma espécie de segundo pai, mais liberal e divertido, para nós. Mulherengo, nos contava em segredo suas experiências amorosas, revelando para nós os assuntos do sexo, totalmente vedados em nossa casa. E, o mais importante, detinha a senha mágica que nos abria os bastidores do Fluminense Futebol Clube, pois, além de jornalista esportivo, foi algumas vezes Diretor de Imprensa do clube, o que nos permitia ter acesso, em sua companhia, aos jogadores do time tricolor, uma verdadeira glória para nós. E, se esta é uma história de fantasmas, é de fantasmas tricolores, entre eles o de minha mãe, torcedora fervorosa do Fluminense e que ia muitas vezes ao estádio de Laranjeiras -, posteriormente, aos jogos do time no Maracanã.
          Mas, como um texto que se esconde atrás de outro texto, um fantasma que se oculta sob outro fantasma, eis que, de repente, de regiões mais profundas, surgiu outro morto e passei eu a invocá-lo no lugar de minha mãe, não apenas para que me guiasse neste texto como para que figurasse nele como seu personagem principal, com quem tomarei diversas liberdades da ficção, sem deixar de ser fiel à sua pessoa.
          Esse fantasma, de um morto mítico, que pairava como o grande ausente de nossas festas de natal, é o de um outro tio materno, que não cheguei a conhecer , pois somente minha irmã, dos filhos de meus pais, era nascida, e tinha um ano de idade quando ele morreu de tuberculose, em 1939, aos vinte e seis anos. Seu nome era Carlos, e a família verdadeiramente cultuava sua memória. Além de médico, esportista de várias modalidades (seu apelido era Secura, por ser "seco" por esporte), criador de passarinhos, excursionista de montanha, fotógrafo, dotado de uma bela voz, segundo se dizia, e tocador de violão, fora goleiro amador do Fluminense, já no início do profissionalismo no futebol carioca. Na mesma pasta em que vou guardando os rascunhos deste texto há uma foto dele com o time tricolor que disputou e venceu o campeonato carioca da segunda divisão, reservada a amadores, em 1932, enquanto na primeira divisão jogavam os profissionais do clube. Uma outra foto que havia em nossa casa e que me causava fortíssima impressão, mostrava-o com uma cobra não venenosa enrolada no braço. Era seu "bicho de estimação", criado num viveiro de fundo de quintal e, às vezes, ele saía com ela no bolso para de repente mostrá-la na rua ou no bonde, a fim de assustar as pessoas. Sua coragem e sangue-frio, segundo minha mãe, levavam-no a fazer defesas arriscadíssimas, caindo aos pés de atacantes adversários, e era comum que chegasse em casa todo esfolado e cheio de mercuro-cromo na pele.
          Esse tio, sempre o amei, até idolatrei, sem conhecê-lo. Então acho natural que, ao invocar minha mãe morta, tenha chegado até ele, ou mesmo a recebê-lo, e é aí que começo a entrar no território da ficção, da fantasia. Sim, porque tive a exata sensação de estar com ele em certas situações, como entre as traves de um gol, num jogo do Fluminense, no estádio do tricolor em Laranjeiras, digamos que contra o Botafogo. Ele joga na partida preliminar, no início da tarde, entre os times da segunda divisão dos dois clubes e, num momento em que a bola é lançada pelo ponta-direita botafoguense sobre a área tricolor, Carlos sai do gol, com segurança e elegância, para saltar e agarrar a bola sobre a cabeça de todos. É um lance comum de partida, mas revivo-o num clima onírico, quase fazendo a defesa junto com o tio, ouvindo o barulho da bola cortando o vento, o estádio em silêncio, como num sonho. Logo a seguir, num outro ataque do Botafogo, no finalzinho do jogo, que o Fluminense está ganhando por 1 a 0, a bola é chutada no ângulo pelo centroavante alvinegro e Carlos, numa ponte espetacular, joga-a para escanteio, agora sob gritos e aplausos intensos da torcida. Dessa vez não ousei ser mais do que espectador, mas postado logo ali, atrás do gol, ouvindo o barulho, o impacto da bola sendo chutada e depois defendida.
          Esse barullho de uma bola sendo chutada ou defendida, ou batendo numa trave ou se aninhando no fundo de uma rede, ouvi-o muitas vezes, de verdade, com emoção, durante a adolescência, acompanhando o Fluminense em jogos de juvenis, aspirantes e profissionais, em campos pequenos do Rio, onde um torcedor podia se colocar bem atrás de um gol, separado dele apenas por um alambrado. mas é principalmente de treinos do Fluminense em Laranjeiras, aos quais eu ia com meu tio Luiz, quando menino e adolescente, que o som da bola retorna aos meus ouvidos.
           Pulando os canos grossos de ferro que separavam, naquele tempo, o campo da arquibancada ou da tribuna social, no Fluminense eu ia me sentar, com meu irmão e outros meninos, atrás da meta defendida por outro Carlos, o grande Carlos Castilho, goleiro do Fluminense e da seleção brasileira. Atuando entre os reservas, contra o ataque titular, para ser mais exigido, Castilho, num simples treino, mostrava toda a sua categoria, ora fazendo defesas difíceis ou mesmo dificílimas, ora apenas mostrando o seu grande senso de colocação, tudo o que se confirmava nas partidas oficiais, tendo ele recebido da torcida o apelido de São Castilho. E jamais me esquecerei de uma falta cobrada, com barreira, pelo fenomenal meia-armador Didi, naquele tempo também tricolor, fazendo a bola subir e depois descair, na sua famosa folha seca; bola que Castilho foi buscar no ângulo direito, espalmando-a para escanteio. para melhor treinar os jogadores, o técnico Zezé Moreira mandou repetir a cobrança, e Didi, dessa vez, meteu a bola no ângulo esquerdo, mas Castilho defendeu-a do mesmo jeito. O técnico ordenou nova cobrança e Didi, marotamente, chutou a bola rasteirinha junto à barreira, o que quase nunca fazia, e Castilho foi pego de surpresa e ficou parado, vendo a bola entrar no canto direito. E os dois craques riram e se abraçaram.
          Se perguntassem ao menino que eu era dos dez aos catorze anos quem eu mais admirava no mundo, acredito que responderia sem hesitação que o Castilho. Achava-o, inclusive, bonito, contrariando a opinião de minha mãe. E, observando-o nos treinos e jogos, quantas vezes não imaginei meu tio Carlos jogando ali naquele espaço, em Laranjeiras?
          Carlos Castilho se suicidou em 2 de fevereiro de 1987, aos cinquenta e nove anos. Devastado por uma depressão, às vésperas de voltar para a Arábia Saudita, onde era treinador de um clube, pulou da sacada do apartamento da ex-mulher, Vilma, de quem era muito amigo. Segundo ela, e conforme publicado na revista Placar de 16 de feveriro de 1987, ele ficou andando de um lado para outro no apartamento e esteve na sacada, olhando fixo para baixo; ela o chamou para dentro, ele veio, ela lhe deu um comprimido de Lexotan, mas, de repente, em passos decididos, ele voltou para a sacada e se jogou.
          Senti a morte de Castilho quase como se fosse de uma pessoa da família e, como outros, não pude deixar de associar, numa coincidência macabra, seu mergulho no espaço aos seus saltos para grandes defesas. De acordo com as leis cruéis e inflexíveis da religião católica, os suicidas perdem suas almas, são condenados para sempre ao inferno. Existiriam, então, demônios, e, para os mais desesperados, que são os suicidas, mais desespero, total e definitivo. Como amar um Deus assim, que condenaria ao suplício eterno algumas de suas criaturas? Então passo por cima dessa prescrição sinistra e invoco também o Castilho, para que me ilumine neste texto, e que ele seja também uma espécie de oração em sua homenagem. Para que, caso subsistam as almas para além da vida, a sua esteja acolhida na paz e na felicidade eternas.
Para ler o trecho inicial do texto "Invocações (memórias e ficção)" de Sergio Sant'Anna, clique aqui. CONTINUA.


2 de novembro de 2010

Invocações (memórias e ficção) (trecho)

Sergio Sant'Anna em "O vôo da madrugada"
            Quantas vezes já não desesperei de mim, diante da impossibilidade de escrever não uma grande obra e sim um simples conto, mas que aplacasse, ainda que por poucos dias, uma ânsia de realização e de beleza? Quantas vezes já não me desesperei diante dessa impossibilidade? Gemi, solitário, dentro de um quarto, abafei gritos, quis bater a cabeça na parede, cheguei a desejar, por causa disso, a morte? E me pergunto: quantos artistas, ou candidatos a serem-no, já não se mataram ao debater-se contra seus limites? Mas quantas outras pessoas de reconhecido talento, ou mesmo de gênio, também já não se mataram por não suportar o tormento e a angústia encravados em seus cérebros? Uma lista tão considerável que nem vale a pena enumerar aqui. Isso para não falar naqueles outros, escritores ou artistas, que terminaram suas vidas em hospícios, ou imersos no alcoolismo, às vezes caído na sarjeta, como se houvesse uma maldição a abater-se sobre eles. Mas quantos malditos no mundo não tiveram nem o consolo da arte?
            Voltando aos que desesperaram delas, a arte ou a literatura, ou mesmo aos que se torturaram de por elas afortunados, qantos já não se colocaram a questão de invocar o Demo para satisfazer seus anseios? para além das histórias em que o próprio Demo toma parte, como o Fausto, de Goethe; o Doutor Fausto, de Thomas Mann; e, mais ambiguamente, o Grande sertão, veredas, de Guimarães Rosa, quem poderá garantir que uma ou outra obra de gênio não foi gerada sob inspiração satânica? Isso, ainda que Satã não passe da agregação de certas forças psíquicas. Mas não seria absurdo supor - apenas supor - que Goethe, Mann, ou mesmo o metafísico Rosa, em alguns momentos da escrita de suas obras, tenham bebido nessa fonte obscura da psique, por que não?
             Na verdade, nunca deixou de pairar sobre o mundo a grande pergunta: existe o Diabo? Talvez se possa dizer que existirá ele se existir Deus, e como contrapartida Dele. Ou não. Mas nem por todo êxito de uma obra invocaria eu Satã. Pois, ainda que houvesse apenas uma possibilidade em milhões de que ele existisse e pudesse apossar-se da alma de alguém em troca de uma grande fortuna artística ou de outra ordem, eu não me arriscaria a invocá-lo. Até porque ficaria muito, muito temeroso se por acaso uma obra começasse a sair-se muito bem e houvesse eu me valido de tal invocação. Mesmo que a obra não passasse de um simples conto, e o contista de um pequeníssimo Fausto.
             O que não quer dizer que eu, este contista, quando em desespero, não possa apelar, seja isso inútil ou até ridículo, para outras invocações, como por exemplo minha mãe morta. Sim, minha mãe, porque jamais, no tempo em que convivi com ela, escutei-a admitir uma dúvida que fosse sobre a existência do Deus dos cristãos, ao Qual se converteu, segundo ela por ter recebido Sua graça, e a Quem seguia com devoção e até fanatismo. Não a vi revoltar-se ou desesperar-se nem mesmo diante das verdadeiras torturas físicas pelas quais passou em longas enfermidades, que lhe custaram, entre muitos outros males, uma perna, que foi forçada a amputar. Rezava muito e diariamente, e o fazia também pelos filhos, dando a entender que velaria por eles depois que já não estivesse mais neste mundo. Rezava ainda em intenção da alam de seus parentes mortos e os invocava: seu adorado pai, que no entanto fora ateu e anticlerical; seus irmãos, falecidos todos antes dela; e a preta velha, Lindolfa, a Bó, que, como uma segunda mãe, fora importantíssima na sua criação e na de seus irmãos. A se confirmarem então os ensinamentos de sua fé, minha mãe seria sobrevivente à morte, transformada em alguma outra espécie de ser, e talvez em condições de ouvir o apelo de que, o leitor pode ter certeza, me vali agora mesmo, enquanto rascunhava este texto:
            "Mãe, esteja onde estiver, acuda este seu filho e faça-o escrever um conto bonito que transforme a sua solidão e angústia em amor e alegria".
             A existência de um ser para além da sua morte é algo em que se pode acreditar ou não - e não posso dizer que creio, pois nada sei -, mas que a idéia e o texto que me vieram imediatamente à cabeça - independentemente do esforço que me custou a sua escrita e de seu modesto valor - sofreram em tudo a interferência da própria e estão com ela intimamente relacionados, disso não há a menor dúvida, como se verá.
            Pois surgiu nítida em mim a lembrança do menino que fui, com seus nove, dez anos, na véspera de um Natal, quando um peru ia ser morto no quintal de nossa pequena casa em Botafogo, isso numa época bem anterior à do surgimento das carnes industrializadas. E preferia-se sacrificar-se a ave em casa, menos de vinte e quatro horas antes do almoço de Natal, a fim de se preparar bem fresca a sua carne. Antes de ser abatido, ficava ali o bicho no quintal, marrado por uma das pernas num arbusto, quanto menos tempo melhor, pois nós, as crianças, não podíamos nem nos permitir gostar dele, porque condenado à morte por nossos próprios pais. mas não resistíamos à curiosidade e íamos várias vezes lá, olhar, simultaneamente fascinados e penalizados, aquela ave esdrúxula. A sentença de morte conferia-lhe uma certa solenidade e tragicidade e, em nosso íntimo, não havia como não nos perguntarmos que direito tínhamos sobre a vida dos animais. O que não nos impedia de atormentar o pobre bicho, cutucando-o com um cabo de vassoura e atirando-lhe pedrinhas. Ao mesmo tempo, diante de seu olhar de medo e raiva, fixo em nós, sentíamos pena dele também pelo que nós lhe fazíamos. E fico aqui pensando que milhões de perus são mortos pelo mundo afora na ocasião do Natal, supostamente para isso. E penso, também, que apesar de serem milhões, cada peru é um peru em especial; este, de que aqui se fala, especialíssimo, porque preservado numa memória e num texto cinquenta anos depois de sua morte, quase como um personagem de conto, porém real, pois a vida o habitou por um breve tempo.
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