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20 de maio de 2020

LOVE IS ENOUGH [Basta o amor], William Morris

LOVE IS ENOUGH

Love is enough: though the World be a-waning,
And the woods have no voice but the voice of complaining,
Though the sky be too dark for dim eyes to discover
The gold-cups and daisies fair blooming thereunder,
Though the hills be held shadows, and the sea a dark wonder
And this day draw a veil over all deeds pass'd over,
Yet their hands shall not tremble, their feet shall not falter;
The void shall not weary, the fear shall not alter
These lips and these eyes of the loved and the lover.

- - -
BASTA O AMOR

Basta o amor: embora o mundo esteja minguando,
E a floresta não tenha outra voz senão a das queixas,
Embora esteja o céu escuro demais para olhos fracos perceberem
As trepadeiras e as margaridas florescendo,
Embora as montanhas sejam vultos e o mar um colosso sombrio
E que esse dia desenhe um véu sobre cada fato passado,
Ainda assim, que as mãos não tremam, os pés não vacilem;
O vazio não esgotará, o medo não mudará
Os lábios e os olhos de amados e amantes.

Poema de William Morris (1834-1896), publicado em 1872
Tradução de Maurício Peltier 
(Poeta e designer. Autor de Poemas tribais, 1995 e Magistério Vodu, 2010)
William Morris nasceu em Walthamstow, Gră-Bretanha em 1834, e morreu em Hammersmith, Gră-Bretanha em 1896. Socialista, poeta, artista e arquiteto, fundou a Sociedade para a Proteção de Edifícios Antigos em 1877; a Liga Socialista em 1884, e sua própria editora, a Kelmscott Press em 1893. Sua produção literária inclui poesia narrativa, romances, ensaios e contos. Incorporou elementos da poesia clássica e de romances da Idade Média. 


"Trabalho tanto com a cabeça quanto com as mãos."

11 de abril de 2020

SAÍ, de Fernando Bueno Guimarães - leitura de um poema

Saí 
Tudo é viagem de volta.
Guimarães Rosa 
Hoje ninguém nada me pergunta,
a solidão é que me responde.

Não sei a quem pedir desculpas,
não sei de quem me despeço,
falar eu comigo mesmo
de morte?

Estamos sempre esperando,
mas não foi isso que vim fazer aqui.
O sol e seus raios,
a lua em pedaços nunca me disseram uma palavra
sobre esse encontro impossível:
viver e a vida.

Não quis jogar mal,
não parar de perder.
Saí voando pela janela do dia deserto e imóvel.
Meu cavalinho de vidro tomava conta de tudo,
nos seus lampejos meu desamparo.
__________________________________________________________________
Fernando Bueno Guimarães
Rio, 11 de abril de 2020 
***
Leitura
Pela versificação
Os dois primeiros versos sintetizam o sentimento motivador: a solidão é muita, mas também é quem responde. Ela indica uma saída possível de si?
Na segunda estrofe, vem a pergunta do Eu para um outro indefinido, ausente. A morte, carregada pela necessidade de pedir desculpas e de se despedir, é a pergunta. Sem destinatário, a pergunta cai no vazio, e ganha status de afirmação.
Na terceira estrofe, a primeira pessoa aparece no plural, identificada com os outros ocultos pela sujeição à espera, mas a revolta individual vem logo em seguida. O Eu desviado de seu destino, imprevisto mesmo pelos astros, é impossível de se realizar? “Viver e a vida” são postos como duas instâncias diferentes. “A vida” é esperar, mas viver não.
Na quarta estrofe, vem a confissão do fracasso mas mesmo assim o desejo de persistir no jogo, que ressurge pela metáfora: sobrevoar “o deserto e imóvel dia”.  O jogo ressurge também pela memória, quando o Eu ainda possuía um “cavalinho de vidro” (lembrei de um cavalinho azul de porcelana que uma vez dei de presente ao poeta). E ressurge ainda pela ilusão de que no passado “tomava conta de tudo”. O jogo (a poesia) é o lampejo da linguagem que realiza o impossível, que recorda, presentifica, mas também temporaliza. A consciência intermitente do tempo que passa e que passou é o que provoca o desamparo?
Pela pontuação 
Depois da pergunta, basta uma breve respiração, a resposta vem. O silêncio. Três suspiros curtos de lamento ante a presença da morte, que paira soberana e interrogativa. Silêncio.
A presença de um “nós” enseja uma respiração mais forte e possibilita em seguida a afirmação de um ponto pelo “Eu”. Uma afirmação, ainda que pela negação. A respiração se amplia com a presença do sol radiante e da lua em pedaços, como costumam vir, mas a negação novamente se impõe pela mudez sempiterna da natureza “sobre esse encontro impossível”. Paira porém uma afirmação, uma síntese ou conclusão: a de que há um viver, mesmo que a vida não dê conta dessa existência. “A vida” é uma invenção, não?
A negativa insistente, cadenciada, ecoada, transforma-se em ritmo e abre a porta da fantasia. O passado é um brinquedo? É impossível se amparar na vida em claro, mas também no escuro? Silêncio.

Pelas margens
Um traço introduz a assinatura do poeta numa margem, e a data em margem oposta. O poeta e tempo se confrontam? A poesia fica na terceira margem? O poema faz parte de um conjunto. Ao repetir-se como um ritual demonstra-se como manifestação de um viver, e ao mesmo tempo passa a propiciar encontros ou jogos possíveis (como este), ainda que em lampejos, ainda que “jogando mal” e fadados a se perderem. 
Ressoa aqui a epígrafe como uma chave para a leitura, quem sabe uma inspiração para a escrita do poema, cuja motivação afinal talvez não resida no sentimento de solidão, mas na “viagem de volta”. A saída é voltar-se para o viver, com seus jogos e apesar de suas perdas?  
Bia Albernaz
***
Nota final do poetaA frase do GR é de Tutaméia de onde garimpei várias, e o poema veio daí. Viver nos conduz, mas a vida não conduzimos, pelo menos sinto que não consegui essa proeza, joguei mal. A gente volta para a solidão, sempre.
__________________
Fernando Bueno Guimarães nasceu no Rio de Janeiro, em 1945 e é advogado. Publicou Águas emendadas (coletânea), 1978; Passada a palavra, 1980; O que podemos concluir, 1984; Galo na porteira, 1987; Idade de barro; 1995; e Região natural, 2010. 

8 de abril de 2020

A ESCRITA DO POEMA

Lila Maia
Inicio o texto me apropriando de umas frases da Clarice Lispector que certa vez disse: “a gente escreve, como quem ama, ninguém sabe por que ama...”
Escrevo poemas como se tivesse uma fome imensurável de tudo e pudesse encontrar o verso no voo baixo da gaivota, ouvindo uma conversa no metrô.
Nunca sei onde carrego a poesia, com certeza não é nos bolsos da calça. Tem dias que ela está no lado esquerdo da minha cabeça. Meu poema é sempre canhoto. Embora, algumas vezes quero que seja definitivo, mas sai incompleto e de novo volto para Clarice: “eu estou sempre incompleta”.
Por isso tenho cadernos, blocos, folhas de papel, quando inicio o processo de criação do poema. Rasgo muito o que escrevo e releio em voz alta diversas vezes. Ler em voz alta é saber se há um certo ritmo, se faz sentido  juntar ou separar algumas palavras. Até hoje invejo a Cecília Meireles pelo ritmo, a criatividade e musicalidade febril de seus poemas.
Eu queria, quando escrevo ter “aquele Dobermann correndo atrás de mim”, como disse o Henfil falando sobre o processo de criatividade. Mas nem sempre isso acontece. Às vezes, é só um inseto qualquer atrás de ti.
E na escrita de um bom poema, o que me vem à cabeça é um elefante, o cavalo, milhares de borboletas; e tem a leveza do gato, a cumplicidade do cachorro, aquele medo do lobo... mas não é criando um zoológico  que se consegue escrever o bom poema.
Agora, me vem um verso maravilhoso do Murilo Mendes: “Nascer é muito comprido.” A escrita do poema também.    
O poeta, ensaísta, Octavio Paz diz no livro O Arco e a Lira que “a poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono...”  “...ela revela este mundo; cria outro”. Gosto dessa definição de revelar e criar mundos.
Os poemas que escrevo passam primeiro pelos olhos. Sinto necessidade de guardar imagens. Algumas são extremamente singulares, íntimas e gosto do desafio de colocá-las no papel. Depois vem os cheiros. Até hoje, sinto o cheiro da torta de camarão que minha mãe fazia. 
A poesia entrou cedo na minha vida, quando li o poema da Cecília, "Leilão de Jardim" e o primeiro verso, que diz: “Quem me compra um jardim com flores”.
Na verdade cultivei esse “Jardim” da Cecília, lendo seus poemas e de outros tantos poetas que vou descobrindo ao longo da vida e nas oficinas de poesia que  me dei de presente.
Mas cultivo o que me comoveu certa vez, quando fiz uma oficina com a Marina Colasanti, ao ouvi-la dizer: “quero sempre o veneno das palavras.” Eu também. 
_____
LIVRE
Descubro a música do corpo,
no espaço do quarto e danço livre 
do que pode ser imperceptível, pandemônio.

Danço,
porque minha rotina é olhar para as estrelas.
Ter esse exagero de sinceridade comigo mesma.

Desde pequena minha coragem
é fabricação caseira.
***
O OLHAR MADURO DA ONÇA
Não se escreve um poema de amor impunemente.

No desvão da noite uma onça perpetua a sombra de fogo
sobre teu caminhar espaçado.
Há uma súplica com os devidos ais prudentes, 
a onça sabe onde derrama seus passos.
Crava os dentes nesta carne que tem cheiro de batismo,
o sangue suado de caça.
Que rara luz expressa teu corpo.
A onça é aos poucos domesticável.

Não se escreve um poema de amor inutilmente.
***
OS SAPATOS DA MÃE
O que amei naquela mulher de 1,55,
não foi a forma decidida de dizer não,
ou quando mantinha o limite  
entre o pacote de biscoitos recheados de morango 
e o prato de sopa que devia ser tomado
 sem direito a choro.
O que amei foram seus sapatos.
Tinha um vermelho com saltos prateados, 
meu preferido,
me fazia imaginar que um dia seria meu.
Nem sei quantos sapatos sem embrulho de presente lhe dei.

Anos mais tarde quando fui ao seu enterro 
abri o armário e fui tirando todos os sapatos de número 33.
Nenhuma daquelas caixas vazias puderam me consolar:
calço 37.  
LILAMAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Graduada em Pedagogia. Escreveu os livros de poemas: As Maçãs de Antes (vencedora do Prêmio Paraná de Literatura 2012 - Prêmio Helena Kolody de poesia), Céu Despido - 2004 (vencedora do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A Idade das Águas - 1997. 

24 de outubro de 2019

A liberdade exata de Rita Moutinho: uma homenagem


Querida Rita, te agradeço a oportunidade.
Você é um portal vizinho e próximo.
Uma oficina, uma sala de estar. Uma biblioteca.
Um alfabeto.
Rita, eis aqui um texto meio band-aid,
de quem contigo partilhou pelo menos quatro aventuras.
Na primeira, nos idos de 1989, juntas, fomos “Ladrões do fogo”. Ela bem à frente, acolhedora das pontas dos meus poemas. Decifradora de mistérios, poeta pronta e em êxtase, iluminando com “Uma ou duas luas”, performances em bares, leituras em bandos noturnos, tertúlias na varanda de sua casa.

Na segunda, em 1995, ano em que fui mãe, fui sua leitora e editora na pequena grande coleção “Indivíduos em extinção”. Para mim, “Vocabulário: um homem” vai ser sempre meu livro-criança da Rita inteira, um bebê a oferecer para o leitor um molho de chaves, uma figura de proa em leves traços e um fundo de Netuno. Mar de letras, veleiro erótico, praia grande incontida.

Na terceira, em 2010, fomos companheiras e leitoras mútuas em nova coleção do antigo “Ladrãos do fogo”: ela, com “Sete movimentos da alma; eu, com “Vida vegetativa e outros cadernos”.

E a quarta, na verdade anterior a essa última, pela sua escrita de dedo em riste da orelha do meu livro “Inverno de 99”, em que ela sutilmente apontava quem eu poderia ser como poeta, e alertava aos meus improváveis leitores que precisariam ser tanto aranha quanto teia para adentrar na caixa-preta da minha poesia. Relendo hoje esse texto entendo que, tateando, e aos poucos, tentei seguir os sinais que Rita me indicou a fim de lograr transportar “a poesia da vida que pulsa no cérebro para vida que revolve corpo”. Igualmente tento lembrar, como ela dizia, que o tempo, ainda que infinito, obedece a matemática, mas também ao olho que não pisca, esse olho-cronômetro que o poeta possui.

Artes: Maurício Peltier
Dito isso, passo a fazer o que me foi encomendado: colher de sua fortuna crítica, alguns trechos, indicações que auxiliem o leitor a fruir com mais vagar e aproveitar melhor da poética de Rita Moutinho.

Apesar de ser uma fera lírica, Rita aceitou o desafio de evitar o transbordamento e, para isso (e não só por isso, uma vez que ela era também uma apaixonada estudiosa das tradições da versificação na história da poesia ocidental), tornou-se sonetista. Seus livros “O romanceiro dos amantes” (1999), “Soneto dos amores mortos” (2006) e “Psicografia da terapia cotidiana” (2013) foram integralmente dedicados ao exercício e à renovação do soneto. 

Soube falar de amor, mas também da psicanálise, em sonetos, como diz Fernando Carneiro, folhetinescos. De fato, a partir de “Psicografia...” e depois em “Theo&May” (2016), Rita imprime narratividade à poesia. São “sonetos de romance”, conclui Fernando Carneiro.

Sobre os sonetos de Rita, Ivan Junqueira confessou, o “assombro“ e a “disfarçada inveja“. Tranquilizando o leitor temeroso de que a competência métrica e rítmica pudesse sufocar a expressão, ele indica que, ao contrário, pela concisão dos poemas de Rita, não só a emoção se sutiliza como a tradição se moderniza.

Compartilhando do “grande privilégio dos artistas”, segundo Alexei Bueno, Rita transforma limitações humanas em objetos de beleza. Pela imaginação metafórica livre e rica, e a emoção “recolhida em tranquilidade”, Rui Espinheira Filho junta a voz de Rita Moutinho aos grandes da poesia brasileira. Ela torna “imortais os próprios amores mortos”.

Geraldo Carneiro, na introdução ao livro “Sonetos de amores mortos”, elogia a coragem da poeta que mostra com elegância o seu “negligê feito de andrajos”. Sem bancar a chique, rodando a baiana com classe, sua linguagem é feroz e tragicômica. Em reencontros com amores mortos mortos e mortos vivos, descarta o romantismo e transforma dor em humor, misturando circunstância e transcendência, fazendo da leitura da poesia um privilégio e uma alegria.

Em um mundo cujos elos estariam mortos, em que Eros está morto, a poesia de Rita é brinde, ofensa e fogueira. Possibilita renovar e distinguir as percepções do amor, esse sentimento que atravessa séculos e nos deixa entrever a eternidade. E potencializa a visão do feminino por meio de jogos de espelhos entre o passado e o futuro, cortado por um presente consciente e provisório; ficcional, mas real.

Rita chega assim a ser “um modo intensivo da linguagem poética”, nas palavras de Frederico Gomes, tendo entrado para a “tribo dos raros”, como diz Elaine Pavoulid. Seu lirismo persegue o lirismo proclamado por Mário de Andrade, o que supera o sussurro confessional pelo canto que joga pra escanteio a carpideira, e faz entoar uma carpinteira, livre na medida exata, pra criar a poesia do amor sempre móvel.
Bia Albernaz
(Lido no encontro realizado depois de um ano da morte da Rita.
Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, RJ, out.2019)
***
Trinta anos 
Nem mais nem menos, a liberdade exata,
o bem estar do encontro dos meridianos,
a sombra da floresta, o sol no rosto,
os pés de trinta anos inventando chão,
as possibilidades expostas pelas frestas.

O interno sondar em equilíbrio basta,
a paz,
nem mais nem menos, a liberdade exata,
quando o grão da vagem é que apetece
e sou apenas mais uma que acontece. 
(In: Duas ou três luas, Plaqueta. Coleção Ladrões do Fogo, RJ, 1987.) 
 ***
Voo livre
Da beira da plataforma
a paisagem não cabe
nos planos do meu voo.
A vida que peço não cresce
se me lanço apenas
lança, armada, sabre,
na busca do fim solo.
Vestir a liberdade, acreditar no aço, na asa, na raça,
partir provida e vazia.

                          A praia grande é incontida. 

Da beira da plataforma
o menos é pouco,
quero um voo longo,
quero um pouso esforço,
numa onda ainda sem lugar.
Não nos perderemos de vista.
A espuma se hospeda em areias diversas,
a onda muda de nome.

Lembrar; A praia grande é incontida.
Sem angústias,
marcamos encontro onde?
Que tal na palavra mar?

***
Veleiro
Posso ser veleiro,
mastro, parte ossificada,
velas, sensibilidade,
casco, verdade.

Não multiplico pães nem peixes,
choro onde me sangram as chagas,
singro humana pelos mares,
faço imagens, não milagres.

Mas se você se fizer
veleiro,
eu andarei sobre as águas.
(In: Vocabulário: um homem. Coleção Indivíduos em Extinção. RJ, 1995)
***
Soneto de um sábado surreal
Tu, anjo do "Teorema" e também bruxo,
cevada nas carícias, fel na fala,
pastor de pedras, âncora de surtos, córrego azul, raposa, avenca, magama.
Eu, esta belle de jour, sal de soluços,
frasco de versos, útero de asas,
peregrina das noites, nau sem prumo,
alma de nácar, água, orquídea, calda.
Nas vísceras do oceano nos amamos,
embarcamos um no outro noite adentro,
espumando os delírios mais insanos.
Depois, viraste tronco, e eu, filodendro.
              Amores podem ser longos e poucos,
              mas pelo menos um tem que ser louco.
(In: Sonetos dos amores mortos. Prefácio de Geraldo Carneiro. 2a.ed. Rio, 2014.)
***
Sonetos do Sossego
1981
(62 anos)
Theo, senta aqui na rede do meu lado.
Lerei poemas escritos, yes, à inglesa,
depois de penetrada pelo Bardo
na sosseguidão alva da fazenda.
São poemas inquietos, ardorosos,
tendo o amor por pavio - te devo isto!
Nossa paixão me sai de cada poro,
e a natureza sua nos escritos.
Depois do sarau íntimo arrumarei
rosas em craquelados cache-pots,
antúrios em floreiras, e porei
o feltro pra partida de crapô.
              A paz vamos coroar de noite ouvindo
              "Insensatez", tocada por Laurindo.
                                                                               May

 Minha poeta, parceira e botanista.
Ontem vivemos como duas brisas,
ventando brandamente pela vida,
mantendo em forno brando a crua rotina.
Hoje faço uma letra bossa nova,
exaltando as roseiras e suas rosas,
as rendas de palavras das tuas obras,
o Laurindo de Almeida na vitrola.
Sossego, vou cantar paz e sossego,
fazer um dó-ré-mi bastante tenro
que represente o amor luzente e pleno,
e a bela natureza dos momentos.
              De noite, eu te convido a bom xadrez
               e para muffins com um chá inglês...
                                                                            Theo
(In: Theo&May, 2016)
***
Rita Moutinho, 1995.
 Sessão de fotos para divulgação da Coleção Indivíduos em Extinção.

Obras de Rita Moutinho (1951-2018)
A hora quieta (1975), A trança (1982), Uma ou duas luas (plaqueta), 1987, Vocabulário: um homem (1995), Romanceiro dos amantes (1999), Soneto do amores mortos (2006), Sete movimentos da alma (2010), Psicolirismo da terapia cotidiana (2013), Theo&May (2016).

24 de abril de 2019

Imaginação primária e secundária, segundo Coleridge, de acordo com Auden*

A única preocupação da imaginação primária são os seres sagrados e acontecimentos sagrados. O profano é conhecido de outras faculdades da mente, mas não da imaginação primária. Não se pode escolher um ser sacro, é preciso encontrá-lo. No encontro, a imaginação não tem outra escolha a não ser reagir. A impressão que qualquer ser sagrado deixa na imaginação é de suprema importância, mas indefinível – uma qualidade imutável, uma “identidade”, como disse Keats. Sou o que sou, é o que todo ser sagrado parece dizer. Em seu livro Witchcraft, o sr. Charles Wiliams a descreveu assim:
Tem-se a consciência de que um fenômeno, específico, está carregado de significado universal. A mão que acende um cigarro é a explicação de tudo; o pé que desce do trem é o pilar de toda a existência... Dois leves passos de dança de uma menina parecem traduzir tudo o que já se tentou expressar... mas dois silenciosos passos de velho são a linguagem do próprio inferno. Ou o inverso.
A reação da imaginação a tal presença ou significado é um sentimento de temor e reverência. Esse temor pode variar imensamente de intensidade e numa escala que vai de encantamento e êxtase a pavor e pânico. O ser sagrado pode ser atraente ou repulsivo – cisne ou polvo, bonito ou feio – bruxa desdentada ou linda criancinha, bom ou mau – Beatrice ou Belle Dame sans Merci, fato histórico ou ficção – um transeunte ou uma imagem de estória ou sonho; pode ser nobre ou algo impossível de se mencionar num salão, pode ser o que quiser, com a condição absoluta de despertar temor e reverência. O reino da imaginação primária não tem liberdade ou senso de tempo.
Alguns seres sacros parecem serem sagrados para todas as imaginações em todas as épocas. Por exemplo, a lua, fogo, cobras e aqueles quatro importantes seres que só se pode definir em termos de não ser – a escuridão, o silêncio, o nada e a morte. A imaginação pode adquirir novos seres sagrados e perder antigos para o profano. Os seres sacros podem ser adquiridos por contágio social, mas inconscientemente. Não se pode ensinar alguém a reconhecer um ser sagrado, a pessoa tem de se converter. Em regra, com a idade, talvez, os eventos sagrados passam a ter mais importância que os seres sagrados.
O ser sagrado também pode ser um objeto de desejo, mas a imaginação não o deseja. Um desejo pode ser um ser sagrado, mas a imaginação não tem desejo. Na presença do sacro, ela se esquece de si; na sua ausência, torna-se o próprio profano, “a menos poética de todas as criaturas de Deus”. Um ser sagrado pode também exigir ser amado ou obedecido, recompensar ou punir, mas a imaginação não se afeta. Para ela, o ser sacro é auto-suficiente, não necessita de amigos.

A imaginação secundária é ativa, não passiva, e suas categorias não são o sacro e o profano, mas o belo e o feio. Nossos sonhos são plenos de seres e eventos sacros – de fato é bem possível que não contenham outra coisa, mas nos sonhos não podemos distinguir – ou assim me aparece, embora possa estar errado – entre bonito e feio. Beleza e feiúra pertencem à forma, não ao ser. Para a imaginação primária, o ser sagrado é o que é. Para a secundária, a forma bonita é como ela deveria ser,  a feia como não deveria ser. Não deseja o belo, mas a forma feia desperta nela o desejo de que sua feiúra seja quem sabe transformada a fim de se tornar bela. Pode-se dizer que a imaginação secundária tem uma natureza burguesa. Aprova a regularidade, a simetria, a ordem; desaprova o mau acabamento, a insignificância, a confusão.
Enfim, a imaginação secundária é social e solicita o acordo de outros intelectos. Se para mim um forma é bonita e para o senhor, feia, não podemos deixar de concordar que um de nós deve estar errado, enquanto que se alguma coisa para mim é sagrada e para o senhor, profana, nenhum de nós sonhará discutir o assunto.

Os dois tipos de imaginação são essenciais à saúde do intelecto. Sem a inspiração do medo sacro, suas belas formas logo se tornariam banais e seus ritmos mecânicos; sem a atividade da imaginação secundária, a passividade da primária seria a anulação da mente. Mais cedo ou mais tarde seus seres sacros a possuiriam; ela viria a considerar-se sagrada, excluir o mundo exterior como profano, e assim enlouquecer.
Certas pessoas sentem impulso para criar uma obra de arte quando o medo passivo provocado por eventos ou seres sagrados é transformado no desejo de expressá-lo em um rito de adoração ou homenagem. Para uma homenagem adequada, o rito deve ser belo. Esse rito não tem intenção mágica ou idólatra; nada se espera em troca. Nem é, no sentido religioso, um ato de devoção. Se louva o Criador, o faz indiretamente, ao louvar suas criaturas – entre as quais pode haver noções da natureza divina.
Na poesia, o rito é verbal; rende-se homenagem, nomeando. Suspeito que a predisposição da mente ao medium poético talvez se origine de um engano. Imaginemos uma babá que diz a uma criança: “olha a lua!”. A criança olha e, para ela, esse é um encontro sagrado. Em sua mente, a palavra lua não é o nome de um objeto sagrado, mas uma de suas propriedades. A ideia de escrever poesia não pode ocorrer à criança, é claro, enquanto ela não se der conta de que nomes e coisas não são idênticos e de que não pode haver uma linguagem sagrada inteligível. No entanto, ao descobrir a natureza social da linguagem, é possível que a importância ao ato de nomear só aconteça porque previamente houve aquela falsa identificação entre nome e coisa.
Um poema é um rito; daí seu caráter formal ritualístico. Seu uso da língua é deliberada e ostensivamente diferente da conversa. Mesmo quando emprega a dicção e os ritmos da conversação, emprega-os com informalidade deliberada, pressupondo a norma com a qual tem a intenção de contrastar.
A forma do rito deve ser bonita, exibindo, por exemplo, equilíbrio, proximidade e equivalência com aquilo de que é forma. É essa última qualidade, de equivalência, que provoca a maior parte de nossos debates estéticos, sempre que nossos mundos sagrado e profano se choquem.
Aos olhos de um avarento uma moeda é de longe mais bonita que o sol & uma bolsa de dinheiro gasta pelo uso tem proporções mais belas que um vinhedo carregado de uva. Pode-se notar que Blake não acusa o miserável de falta de imaginação.
O valor da coisa profana está no que faz de útil, o valor da sagrada, no que é. O nome apropriado para o ser profano, portanto, é a palavra, ou são as palavras que descrevem acuradamente _ Sr. SmithSr. Weaver. O nome apropriado para o ser sagrado é a palavra, ou palavras que exprimem devidamente sua importância – Son of ThunderThe Well-Wishing One.
As grandes mudanças de estilo na arte refletem sempre uma alteração na fronteira entre o sacro e o profano na imaginação da sociedade. Assim, tomando um exemplo da arquitetura, o monarca do século XVII tinha a mesma função do chefe de estado moderno – governar. Mas ao projetar seu palácio, o arquiteto barroco não aspirou, como aspira o arquiteto moderno, a criar um escritório no qual o rei pudesse governar fácil e eficientemente. Procurou fazer uma habitação à altura do representante de Deus na terra. Se é que pensou no que faria o rei dentro dela como governante, pensou apenas em suas atividades cerimoniais, não nas práticas.
Graças à natureza social da linguagem, o poeta pode relacionar qualquer ser ou evento sacro a qualquer outro. A relação pode ser de harmonia, contraste irônico ou contradição trágica. Pode relacioná-los a qualquer outro assunto da mente, às exigências do desejo, da razão e da consciência, e pode trazê-los ao contato e contraste com o profano. Mais uma vez, as conseqüências podem ser felizes, irônicas, trágicas e, em relação ao profano, cômicas. Quantos poemas não foram escritos, por exemplo, sobre um desses três temas:

Isto foi sagrado, mas agora é profano. Graças a Deus!

Isto é sagrado, mas deveria ser?

Isto é sagrado, mas será isso tão importante?

Mas é dos encontros sagrados da imaginação do poeta que desperta o impulso para escrever poemas. Graças à língua, ele não precisa nomeá-los diretamente, a não ser que o deseje: pode descrever um em termos de outro, e traduzir os que são privados, irracionais ou socialmente inaceitáveis de tal forma que a razão e a sociedade os aceitem. Alguns poemas são diretamente sobre os seres sagrados para os quais foram escritos, outros não, e nesse caso, nenhum leitor saberá qual o foi o encontro que originou o impulso para o poema.  Nem, provavelmente, o propria poeta. Todo poema que um poeta escreve envolve todo seu passado. Todo poema de amor, por exemplo, está ligado a troféus de amantes passados, entre os quais pode haver alguns objetos realmente peculiares. A linda mulher do presente pode contar, entre suas predecessoras, uma roda de moinho movida a água. Mas para que possa escrever um poema genuíno, o poeta tem de sofrer o encontro, seja ele ficção ou renovação de recordações do passado.
Qualquer que seja seu conteúdo real e sentido aparente, todo poema enraiza-se no medo da imaginação. A poesia pode fazer cento e uma coisas: dar prazer, entristecer, perturbar, divertir, instruir – pode expressar toda nuance possível de emoção e descrever qualquer tipo concebível de evento. Mas há apenas uma coisa que toda poesia tem de fazer: louvar o quanto possa o fato de existir, de acontecer.
Como ilustração, um poema porque ele é tão simplesmente um rito de homenagem aos objetos sagrados que não são deuses nem objetos de desejo:


Depois


Quando o presente tiver trancado a sua porta após a minha trêmula estadia,
E o mês de maio abanar suas alegres folhas verdes como asas,
Névoa delicada feito a seda acabada de fiar, irão os vizinhos dizer:
“Ele era um homem que costumava notar tais coisas.”

Se for na penumbra quando, como um piscar sem som de uma pálpebra
O falcão da queda do orvalho vier cruzando as sombras para iluminar
O espinheiro do planalto torcido de vento, um observador pode pensar:
“Para ele essa deve ter sido uma visão familiar.”

Se eu passar durante algum negrume noturno, roído de insetos e morno,
Quando o ouriço-cacheiro viaja furtivamente pelo gramado,
Podem dizer: “Ele lutou para que a essas inocentes criaturas não sobreviesse nenhum mal,
Mas pouco pôde fazer por elas, e agora foi-se.”

Se, ao saber que aquietei-me afinal, eles estiverem de pé à porta,
Acompanhando os céus inteiramente estrelados que o inverno vê,
Irá esse pensamento despertar naqueles que não mais encontrarão meu rosto:
“Ele foi alguém que tinha olhos para tais mistérios.”

E irá alguém dizer quando o sino da minha despedida for ouvido ao escurecer,
E a brisa que passa cortar uma pausa em seus desenrolares
Enquanto não tornam a levantar-se como se fossem um novo repicar de sino:
“Ele já não ouve mas costumava notar tais coisas.”

Thomas Hardy, 1840 - 1928
Afterwards
When the Present has latched its postern behind my tremulous stay,
     And the May month flaps its glad green leaves like wings,
Delicate-filmed as new-spun silk, will the neighbours say,
     "He was a man who used to notice such things"? 

If it be in the dusk when, like an eyelid's soundless blink,
     The dewfall-hawk comes crossing the shades to alight
Upon the wind-warped upland thorn, a gazer may think,
     "To him this must have been a familiar sight."

If I pass during some nocturnal blackness, mothy and warm,
     When the hedgehog travels furtively over the lawn,
One may say, "He strove that such innocent creatures should come to no harm,
     But he could do little for them; and now he is gone."

If, when hearing that I have been stilled at last, they stand at the door,
     Watching the full-starred heavens that winter sees,
Will this thought rise on those who will meet my face no more,
     "He was one who had an eye for such mysteries"?

And will any say when my bell of quittance is heard in the gloom,
     And a crossing breeze cuts a pause in its outrollings,
Till they rise again, as they were a new bell's boom,
     "He hears it not now, but used to notice such things?"
*Do livro Saber, fazer e julgar, de W.H. AUDEN, trad. de Angela Melim, Ed. Noa Noa, Florianópolis, 1981.