14 de janeiro de 2015

A benfazeja

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Guimarães Rosa (em “Primeiras estórias)
          Sei que não atentaram na mulher; nem fosse possível. Vive-se perto demais, num lugarejo, às sombras frouxas, a gente se afaz ao devagar das pessoas. A gente não revê os que não valem a pena. Acham ainda que não valia a pena? Se, pois, se. No que nem pensaram; e não se indagou, a muita coisa. Para quê? A mulher – malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feita tonta, no crime não arrependida – e guia de um cego. Vocês todos nunca suspeitaram que ela pudesse arcar-se no mais fechado extremo, nos domínios do demasiado?
          Soubessem-lhe ao menos o nome. Não, pergunto, e ninguém o inteira. Chamavam-na de a Mula-Marmela, somente, a abominada. A que tinha dores nas cadeiras: andava meio se agachando; com os joelhos para diante. Vivesse embrenhada, mesmo quando ao claro, na rua. Qualquer ponto em que passasse parecia apertado. Viam-lhe vocês a mesmez – furibunda de magra, de esticado esqueleto, e o se sumir de sanguexuga, fugidos os olhos, lobunos cabelos, a cara; – as sombras carecem de qualquer conta ou relevo. Sabe-se se assustava-os seu ser: as fauces de jejuadora, os modos, contidos, de ensalmeira? As vezes, tinha o queixo trêmulo. Apanhem-lhe o andar em ponta, em sestro de égua solitária; e a selvagem compostura. Seja-se exato.
          E nem desconfiaram, hem, de que poderiam estar em tudo e por tudo enganados? Não diziam, também, que ela ocultava dinheiro, rapinicado às tantas esmolas que o cego costumava arrecadar? Rica, outromodo, sim, pelo que do destino, o terrível. Nem fosse reles feiosa, isto vocês poderiam notar, se capazes de desencobrir-lhe as feições, de sob o sórdido desarrumo, do sarro e crasso; e desfixar-lhe os rugamentos, que não de idade, senão de crispa expressão. Lembrem-se bem, façam um esforço. Compesem-lhe as palavras parcas, os gestos, uns atos, e tereis que ela se desvendava antes ladina, atilada em exacerbo. Seu antigo crime? Mas sempre escutei que o assassinado por ela era um hediondo, o cão de homem, calamidade horribilíssima, perigo e castigo para os habitantes deste lugar. Do que ouvi, a vocês mesmos, entendo que, por aquilo, todos lhe estariam em grande dívida, se bem que de tanto não tomando tento, nem essa gratidão externassem. Tudo se compensa. Por que, então, invocar, contra as mãos de alguém, as sombras de outroras coisas?
        O cego pedia suas esmolas rudemente. Xingava, arrogava, desensofrido, dando com o bordão nas portas das casas, no balcão das vendas. Respeitavam-no, mesmo por isso, jamais se viu que o desatendessem, ou censurassem ou ralhassem, repondo-o em seu nada. Piedade? Escrúpulo? Mais seria como se percebessem nele, de obscuro, um mando de alma, qualidade de poder. Chamava-se o Retrupé, sem adiante. Como a Mula-Marmela, os dois, ambos: uns pobres, de apelido. E vocês não veem que, negando-lhes o de cristão, comunicavam, à rebelde indigência de um e outra, estranha eficácia de ser, à parte, já causada?
          Ao Retrupé com seu encanzinar-se, blasfemífero, e prepotente esmolar, ninguém demorava para dar dinheiro, comida, o que ele quisesse, o pão-por-deus. – "Ele é um tranca!" – o cínico e canalha, vilão. Mas só, às vezes, alguém, depois e longe, se desabafava. O homem maligno, com cara de matador de gente. Sobre os trapos, trazia um facão, pendente. Estendia, imperioso, sua mão de tamanho. E gritava, com uma voz de cão, superlativa.
Se alguém falasse, ou risse, ele parava, esperava o silêncio. Escutava muito, ao redor de si. Mas nunca ouvia tudo; não sabia nem podia.
          Tinha medo, também; disso, vocês nunca desconfiaram. Temia-a, a ela, à mulher que o guiava. A Mula-Marmela chamava-o, com simples sílaba, entre dentes, quase esguichado um "ei" ou "hã" - e o Retrupé se movia de lá, agora apalpante, pisando com ajuda; balançava o facão, a bainha presa a um barbante, na cintura. Sei que ele, leve, breve, se sacudira. Desciam a rua, dobraram o beco, acompanharamse por lá, os dois, em sobrossoso séquito. Rezam-se ódio. Lé e cré, pelas ora voltas, que qual, que. tal, loba e cão. Como era que ficavam nesse acordo de incomunhão, malquerentes, parando entre eles um frio figadal? O cego Retrupé era filho do finado marido dela, o Mumbungo, que a Mula-Marmela assassinara.
        Vocês sabem, o que foi há tantos anos. Esse Mumbungo era célebre-cruel e iníquo, muito criminoso, homem de gostar do sabor de sangue, monstro de perversias. Esse nunca perdoou, emprestava ao diabo a alma dos outros. Matava, afligia, matava. Dizem que esfaqueava rasgado, só pelo ancho de ver a vítima caretear. Será a sua verdade? Nos tempos, e por causa dele, todos estremeciam, sem pausa de remédio. Diziam-no maltratado do miolo. Era o punir de Deus, o avultado demo - o "cão". E, no entanto, com a mulher, davam-se bem, amavam-se. Como?. O amor é a vaga, indecisa palavra. Mas, eu, indaguei. Sou de fora. O Mumbungo queria à sua mulher, a Mula-Marmela e, contudo, incertamente, ela o amedrontava. Do temor que não se sabe. Talvez pressentisse que só ela seria capaz de destruí-lo, de cortar, com um ato de "não", sua existência doidamente celerada. Talvez adivinhasse que em suas mãos, dela, estivesse já decretado e pronto o seu fim. Queria-lhe, e temia-a - de um temor igual ao que agora incessante sente o cego Retrupé. Soubessem, porém, nem de nada. A gente é portador.
          O cego Retrupé é grande, forte. Surge, de lá, trazido pela Mula-Marmela agora se conduz firme, não vacila. Dizem que bebe? Vejam vocês mesmos, porém, como essas petas escondem a coisa singular. Todos sabem que ele não bebia, nunca, porque a Mula-Marmela não deixava. Nem carecia de falar-lhe a paz da proibição: dava-lhe, apenas, um silêncio, terrível. E ele cumpria, tinha a marca da coleira. Curtia afogados desejos, indecifrava-o. Aspirava, à. porta dos botequins, febril, o espírito das cachaças. Seguia, enfim, perfidiado e remisso, mal-agradecido, raivoso, os dentes do rato rangiam-no. Porque, ele mesmo, não sabendo que não havia de beber, o que não fosse – ah, se! – o sangue das pessoas. Porque sua sede e embriaguez eram fatais, medonhas outras, para lá do ponto. Seria ele, realmente, uma alma de Deus, hão certeza? Ah, nem sabem. Podia também ser de outra essência – a mandada, manchada, malfadada. Dizem-se, estórias. Assim mesmo no tredo, estado em que tateia, privo, malexistente, o que é, cabidamente, é o filho tal-pai-tal; o "cão", também, na prática verdade.
            O pai, o Mumbungo, se vivia bem com a mulher, a Mula-Marmela, e se ela precisava dele, como os pobres precisam uns dos outros, por que, então, o matou? Vocês nunca pensaram nisso, e culparam-na. Por que hão de ser tão Infundados e poltrões, sem espécie de perceber e reconhecer? Mas, quando ela matou o marido, sem que se saiba a clara e externa razão, todos aqui respiraram, e bendisseram a Deus. Agora, a gente podia viver o sossego, o mal se vazara, tão felizmente de repente. O Mumbungo; esse, foi o que tivera de se revoltar a um outro lugar, foi como alma que caiu no inferno. Mas não a recompensaram, a ela, a Mula-Marmela ao contrário: deixaram-na no escárnio de apontada à amargura, e na muda miséria, pois que eis. Matou o marido, e, depois, própria temeu, forte demais, o pavor que se lhe refluía, caída, dado ataque, quase fria de assombro de estupefazimento, com o cachorro uivar. E ela, então, não riu. Vocês, os que não a ouviram não rir, nem suportam se lembrar direito do delírio daquela risada.
            Se eu disser o que sei e pensam, vocês inquietos se desgostarão. Nem consintam, talvez, que eu explique, acabe. A mulher tinha de matar, tinha de cumprir por suas mãos o necessário bem de todos, só ela mesma poderia ser a executora – da obra altíssima, que todos nem ousavam conceber, mas que, em seus escondidos corações, imploravam. Só ela mesma, a Marmela, que viera ao mundo com a sina presa de amar aquele homem, e de ser amada dele; e, juntos, enviados. Por quê? Em volta de nós, o que há é a sombra mais fechada – coisas gerais. A Mula-Marmela e o Mumbungo, no fio a fio de sua afeição, suspeitassem antecipadamente da sanção, e sentença? Temia-a, ele, sim, e o amor que tinha a ela colocava-o à mercê de sua justiça. A Marmela, pobre mulher, que sentia mais que todos, talvez, e, sem o saber, sentia por todos, pelos ameaçados e vexados, pelos que choravam os seus entes parentes, que o Mumbungo, mandatário de não sei que poderes, atroz sacrificara. Se só ela poderia matar o homem que era o seu, ela teria de matá-lo. Se não cumprisse assim – se se recusasse a satisfazer o que todos, a sós, a todos os instantes, suplicavam enormemente – ela enlouqueceria? A cor do carvão é um mistério; a gente pensa que ele é preto, ou branco.
          E outra vez vejo que vêm, pela indiferente rua, e passam, em esmolambos, os dois, tão fora da vida exemplar de todos, dos que são os moradores deste sereno nosso lugar. O cego Retrupé avança, fingindo-se de seguro, não dá à Mula-Marmela a ponta do bordão para segurar, ela o gula apenas com sua dianteira presença, ele segue-a pelo jeito, pelo se deslocar do ar – como em trasvoo se vão os pássaros; ou o que ele percebe à sua frente é a essência vivaz da mulher, sua sombra-da-alma, fareja-lhe o odor, o lobum? Notem que o cego Retrupé mantém sempre muito levantada a cabeça, por inexplicado orgulho: que ele provém de um reino de orgulho, sua maligna índole, o poder de mandar, que estarrece. E ele traz um chapéu chato, nem branco nem preto. Viram como esse chapéu lhe cai muitas vezes da cabeça, principalmente quando ele mais se exalta, gestilongado abarbarado e maldoso, reclamando com urgência suas esmolas do povo. Mas, notaram como é que a Mula-Marmela lhe apanha do chão o chapéu, e procura limpá-lo com seus dedos, antes de lho entregar, o chapéu que ele mesmo nunca tira, por não respeitar a ninguém? Sei que vocês não se interessam nulo por ela, não reparam como essa mulher anda, e sente, e vive e faz. Repararam como olha para as casas com olhos simples, livres do amaldiçoamento de pedidor? E não põe, no olhar as crianças, o soturno de cativeiro que destinaria aos adultos. Ela olha para tudo com singeleza de admiração. Mas vocês não podem gostar dela, nem sequer sua proximidade tolerem, porque não sabem que uma sina forçosa demais apartou-a de todos, soltou-a. Apara, em seu de-cor de dever, o ódio que deveria ir só para os dois homens. Dizem-na maldita: será; e? Porém, isto, nunca mais repitam, não me digam: do lobo, a pele; e olhe lá! Há sobrepesos, que se levam, outros, e são a vida.
        Mas, com tanto, está que ninguém sabe o que entre os dois verdadeiramente se compassa – do desconchavo e desacerto de assim perambularem, torvos, no monótono, em farrapos, semoventes: do que vocês apenas se divertem, tiram graças e chocarra. Se o que os há é apenas embruxar e odiar, loba contra cão, ojeriza e osga; convocam demônios? Ou algum encoberto ultrapassar -posto o que também há: uma irmandade das almas más, alcatéia e matilha? Não, não há ódio; engano. Ela, não. Ela cuida dele, guia-o, trata-o - como a um mais infeliz, mais feroz, mais fraco. Desde que morreu o homem-marido, o Mumbungo, ela tomou conta deste. Passou a cuidá-lo, na reobriga, sem buscar sossego. Ela não tinha filhos. – "Ela nunca pariu.. – vocês culpam-na. Vocês, creio, gostariam de que ela também se fosse, desaparecesse no não, depois de ter assassinado o marido. Vocês odeiam-na, destarte.
            Mas, se ela também se tivesse matado, que seria de vocês, de nós, às muitas mãos do Retrupé, que ainda não estava cegado, nos tempos; e que seria tão pronto para ser sanguinaz e cruel-perverso quanto o pai - e o que renega de Deus – da pele de Judas de tão desumana e tremenda estirpe, de apavor?
         Seus os-olhos, do Retrupé, ainda eram sãos: para espelhar inevitável ódio, para cumprir o dardejar, e para o prazer de escolher as vítimas mais fáceis, mais frescas. Só aí, se deu que, em algum comum dia, o Retrupé cegou, de ambos aqueles olhos. Souberam vocês como foi? Procuraram achar? Sabem, contudo, que há leites e pós, de plantas, venenos que ocultamente retiram, retomam a visão, de olhos que não devem ver. Só com isso, sem precisão de mais, e já o Retrupé parava, um ser quase inócuo, um renunciado. E vocês, bons moradores do lugar, ficavam defendidos, a cobro de suas infrenes celeradezas. Talvez, ele não precisasse de danado morrer como o Mumbungo, seu pai. Talvez, me pergunto, o próprio Mumbungo descarecesse de ser morto, se acaso, por ponto, alguém pensasse antes nessas ervas cegadoras, ou soubesse já então de sua aplicação e efeito. Se assim, pois, haver-se-ia agora a Mula-Marmela guiando a dois, pelas ruas, e deles com terrível dever-de-amor cuidando, como se fossem os filhos que ela queria, os que ela não pariu nem parirá, nunca – o dócil morto e o impedido cego. A pacto de tolher-lhes as ainda possíveis malícias, e dar-lhes, como em sua antiquíssima linguagem ela diz: gasalhado e emparo. Vocês, porém, fio que nem nunca lhe escutaram a voz – à surda.
            Também o cego Retrupé se intimida dessa voz, rara tanto. Sabem o que é tão estúrdio? – que, mesmo um que não vê, sabe que precisa de apartar a cabeça: ele faz isso, para não encarar com a mulher odiosa. O cego Retrupé volta-se de frente para o ponto onde estão as sensatas, quietas pessoas, que ele odeia em si, pelo desprezamento de todos, na pacatez e concórdia. Ele precisava de matar, para a fundo se cumprir, desafogado e bem. Mas, não pode. Porque é cego, apenas. O cego Retrupé, sedicioso, então, insulta, brada espumas, ruge – nas gargantas do cão. Sabe que é de outra raça, que vem do ainda horroroso, informe; que ainda não entendeu a mansidão, pelo temor? Então, o cego Retrupé esbarra com o impoder da cegueira; agora, ele não pode alcançar ninguém, se a raiva mais o cega; pode? O cego Retrupé cochicha consigo – ele ofende o invisível. Para ele, graças à cegueira, este nosso mundo já é algum além. E se assim não fosse? Alguém seria capaz de querer ir pôr o açamo no cão em dana? E vocês ainda podem culpar esta mulher, a Marmela, julgá-la, achá-la vituperável? Deixem-na, se não a entendem, nem a ele. Cada qual com sua baixeza; cada um com sua altura.
            Saibam ver como ela sabe dar descargo de si. Sim, ela é inobservável; vocês não poderiam. Mas, reparando com mais tento, veriam, pelo menos, como ela não é capaz de pegar estouvadamente em alguma coisa; nem deixa de curvar-se para apanhar um caco de vidro no chão da rua, e pô-lo de lado, por perigoso. Ela abaixa assaz os olhos. Pelo marido, seu morto; pode, porque o matou sem inúteis sofrimentos. Se não o matasse, ele se teria condenado ainda mais? Ela afasta do botequim o cego Retrupé, turbador, remisso e bulhento. Só este é o seu, deles, diálogo: um pigarro e um impropério. Ele a segue, caninamente. Vão-se; nunca nenhum de vocês os observou, a gente não consegue nem persegue os fios, feixes dos fatos. Vivem em aterrador, em coisa de silêncio, tão juntos, de morar em esconderijos. A luz é para todos; as escuridões é que são apartadas e diversas.
            Diziam que, em outro tempo, ao menos, entre eles teria havido alguma concubinagem. Cambonda? Vocês sabem que isso é falso; e como a gente gosta de aceitar essas simples, apaziguadoras suposições. Sabem que o cego Retrupé, canhim e discordioso, ela mesma o conduz, paciente, às mulheres, e espera-o cá fora, zela para que não o maltratem. Isto, porém, faz tempo. Hoje ele está envelhecido, virou em macilento, grisalho, as cãs assentam-lhe bem, quando o chapéu cai. Estes tempos, durante que deixamos de conhecê-los e averiguá-los. O cego Retrupé anda meio caído, amorviado, em escanifro e escanzelo. Parece que, ao mesmo passo, seu modo de medo da Mula-Marmela muda e aumenta. Fraqueia-lhe também a fúria alastradora e áspera de viver: não exerce com o mesmo entono puxar pelo seu direito - o feroz direito de pedir.
         Parece que seu temor fazia-o murmurar queixumes, súplicas, à Mula-Marmela. E, no entanto, ela cada dia para com ele mais se abranda, apiedada de seu desvalor. Mas ele não crê, não pode saber, não confia dela, nem da gente. O entressentir-se, entre as pessoas, vem de regra com exageros, erro, e retardo. Ele sussurra disfarçada e impessoalmente seus pedidos de perdão; vocês notaram? A Mula-Marmela ouvia-o, sem parecer que. Fugia de olhá-lo. Sei, vocês não notaram, nada. E, mesmo, agora, vocês se sentem um pouco mais garantidos, tranquilos estamos. É de crer que, breve, estaremos livres do que não amamos, do que danadamente nos enoja, pasma.
          Conta-se-me que ele quis matá-la. Em hora em que seu medo se derramou maior, saber-se-á lá por quê? Tido que já se estava maltreito, quando adoeceu, mal, de febre acesa. Sentara-se à beira da rua, para arquejar. De repente, levantou-se, sem bordão, estorvinhado, gritou, bramou: exaltado como um cão que é acordado de repente. Sacou o facão, tacava-o, avançava às doidas, às mesmo cegas, tentando golpeá-la, em seu desatinado furor. E ela, erguida onde estava, permaneceu, não se moveu, não se intimidava? Olhava na direção do não. Se ele acertasse, poderia em carnes trucidá-la. Mas, aos poucos, acreditou que o facão não a encontraria nunca, sentiu-se desamparado demais e sozinho. Temeu, de todo em pé. O facão lhe caiu da mão. Seu medo não tinha olhos para encher.
          Parece que gemeu e chorou: - "Mãe... Mamãe... Minha mãe! ..." – esganiçado implorava, quando retombou sentado no chão, cessada a furibundância; e tremia estremecidamente, feito os capins dos pastos. Estava já no fino do funil, é de crer que. A Mula-Marmela, ela veio, se chegou, sem dizer nem o sussurrar. Apanhou-lhe o chapéu, limpou-o, tornou-o a pôr na cabeça dele, e trouxe também o facão, recolocou-o em sua cintura, na velha bainha. Ele, com o se apequenar de sofrer e tremer, semelhava um bicho do fundo da floresta. Diz-se que ela teria lágrimas nos olhos; que falou, soturna de ternuras terríveis – "Meu filho..." E olhou para uma banda, disse a alguma coisa mais, como se falando ao outro; soluçava, também, pelo Mumbungo, seu reconduzido marido, por sua parte, de seu ato. Disso, vocês não quererão saber, são em-diabas confusões, disso vocês não sabem. E, se, para quê? Se ninguém entende ninguém; e ninguém entenderá nada, jamais; esta é a prática verdade.
           Sim, os dois, ficaram, até ao anoitecer, e pela noite entrada, naquela solidão próxima, numa beira de cerca. Alguém os acudiu? Diz-se que ele padecia uma dor terrivelmente, de demasiado castigo, e uma sufocação medonha de ar, conforme nem por uma esperança ainda nem não agoniava. Só estrebuchava. Não viram, na madrugada, quando ele lançou o último mau suspiro. Sim, mas o que vocês creem saber, isto, seriamente afirmam: que ela, a Mula-Marmela, no decorrer das trevas, foi quem esganou estranguladamente o pobre-diabo, que parou de se sofrer, pelos pescoços; no cujo, no corpo defunto, após, se viram marcas de suas unhas e dedos, craváveis. Só não a acusaram e prenderam, porque maior era o alívio de a ver partir, para nunca, daí que, silenciosa toda, como era sempre, no cemitério, acompanhou o cego Retrupé às consolações. Vocês, distantemente, ainda a odiavam?
          E ela ia se indo, amargã, sem ter de se despedir de ninguém, tropeçante e cansada. Sem lhe oferecer ao menos qualquer espontânea esmola, vocês a viram partir: o que figurava a expedição do bode – seu expiar. Feia, furtiva, lupina, tão magra. Vocês, de seus decretantes corações, a expulsaram. Agora, não vão sair a procurar-lhe o corpo morto, para, contritos, enterrá-lo, em festa e pranto, em preito? Não será custoso achá-lo, por aí, caído, nem légua adiante. Ela ia para qualquer longe, ia longamente, ardente, a só e só, tinha finas pernas de andar, andar. É caso, o que agora direi. E, nunca se esqueçam, tomem na lembrança, narrem aos seus filhos, havidos ou vindouros, o que vocês viram com esses seus olhos terrivorosos, e não souberam impedir, nem compreender, nem agraciar. De como, quando ia a partir, ela avistou aquele um cachorro morto, abandonado e meio já podre, na ponta-da-rua, e pegou-o às costas, o foi levando: – se para livrar o logradouro e lugar de sua pestilência perigosa, se para piedade de dar-lhe cova em terra, se para com ele ter com quem ou quê se abraçar, na hora de sua grande morte solitária? Pensem, meditem nela, entanto.
Oswaldo Goeldi. Destino. s/d.

Notas sobre o narrador em “A benfazeja”, de Guimarães Rosa, no livro "Primeiras estórias"

O narrador como advogado de defesa do estigmatizado
       Francysco Pablo Gonçalves analisa o conto do ponto de vista da psicologia social, referendando-se no conceito de estigma delineado por Goffman. Sinais corporais como cicatrizes que marcam o escravo, o criminoso ou o traidor e os tornam “ritualmente poluídos” e intocáveis, especialmente em lugares públicos, caracterizam tradicionalmente o estigmatizado. Porém, na atualidade, o termo ampliou-se e há estigmas que se ancoram em “culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade”, inferidas a partir de relatos de “distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político radical”. E, além desses, há estigmas de “raça, nação e religião”, que podem “contaminar por igual todos os membros de uma família”. (GOFFMAN, 1988, p. 14)
            “Por definição, é claro, [nós, normais,] acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: Construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social. Utilizamos termos específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora e representação, de maneira característica, sem pensar no seu significado original.” (GOFFMAN, 1988, p. 14-15)
            Formado em Direito, o autor recorre ainda à criminologia (!), de modo a mostrar como a rotulação de pessoas acaba por soar verdadeira a essas mesmas pessoas. Uma citação sua comenta essa tendência estudada pelos criminólogos (sim, o termo é este): “De maneira bastante cruel, pode ser dito que, à medida que o mergulho no papel desviado cresce, há uma tendência para que o autor do delito defina-se como os outros o definem.” (SHECAIRA, 2008, p. 288)
             “A mulher fiel do paciente mental, a filha do ex-presidiário, o pai do aleijado, o amigo do cego, a família do carrasco, todos estão obrigados a compartilhar um pouco o descrédito do estigmatizado com o qual eles se relacionam.” (GOFFMAN, 1988, p. 39) 
            Coerente com essa abordagem, o autor aproxima o tom do narrador da “A benfazeja” ao de um advogado de defesa cujo questionamento centra-se nas imposições e imposturas sociais  da comunidade frente à Mula-Marmela, minimizando o crime por ela cometido. A perspectiva do narrador, ao acompanhar as interações entre os moradores do povoado e ao prestar especial atenção na Benfazeja, é a “de fora” (“de fora da sociedade e de seus valores”, observa o autor do artigo), ainda que, ao longo da narrativa, ele oscile entre o dentro e o fora da comunidade. Por conta desse seu trânsito entre diferentes pontos de vista, ele se permite jogar com a retórica, fazendo uso da exortação e da pressuposição, em seu relato do caso. Seu discurso implicitamente sugere: “se eu que sou de fora  sei, você que é do povoado deve saber”. 
            Como o narrador, o autor do artigo converte-se em seu defensor, e advoga que, mesmo enlouquecida, a Mula-Marmela “permanece consciente”, ao se retirar com o cachorro nas costas. “Aos olhos da comunidade, há pouca ou nenhuma diferença entre a Benfazeja lupina e magra e o cachorro morto e meio já podre. Diríamos até que ambos são o mesmo ser indesejável, do qual a sociedade deve ser higienizada."
           Destacando as semelhanças entre as obras de Goffman e de Foucault, cita-se o último: “Desaparecida a lepra, apagado (ou quase) o leproso da memória, essas estruturas permanecerão. Frequentemente nos mesmos locais, os jogos da exclusão serão retomados, estranhamente semelhantes aos primeiros, dois ou três séculos mais tarde. Pobres, vagabundos, presidiários e ‘cabeças alienadas’ assumirão o papel abandonado pelo lazarento, e veremos que salvação se espera dessa exclusão, para eles e para os que os excluem.” (FOUCAULT, 2010, p. 6-7)
Os estigmas da benfazeja: mediando um diálogo entre Guimarães e Goffman. Macabéa – Revista Eletrônica do Netlli, Crato, v. 1., n. 1., 2012.
Referências: FOUCAULT, Michel. Historia da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 2010.
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. São Paulo: RT, 2008.
 ***

             O mito das Eumênides e o narrador tragediógrafo
          Não menos interessante é o artigo de Adilson dos Santos (“A atualização de Eumênides, de Ésquilo, em ‘A benfazeja’, de Guimarães Rosa”). Para Santos, o conto de GR retoma o mito das “Erínias/Eumênides”, referendando-se em sua interpretação trágica por Ésquilo, na trilogia “Oréstia” (458 a.C.), sobretudo na última peça, “Eumênides” ou “Deusas Benévolas”. A partir dela se sabe que as “Erínias” eram “deusas virgens, violentas e de aspecto disforme que tinham por função punir os crimes cometidos entre consanguíneos”.
      Erínias são divindades de uma época em que figuras femininas dominavam a teogonia (matriarcado), diferentemente do patriarcado posterior do Olimpo. A peça mostra como as Erínias passaram a incorporar a função de castigar toda espécie de excesso dos homens (hybris), tornando-se as deusas benfazejas ou Eumênides.
           Também a Mula-Marmela, “vítima de um cruel e terrível destino que lhe nega o livre arbítrio do ego”, acaba por assumir, em seu povoado, a condição de bode expiatório. Na Grécia Antiga, transferia-se ao bode expiatório (pharmakós) a responsabilidade por anormalidades que perturbavam a ordem social. Como prática de purificação e cura para a cidade, em casos de calamidades, sacrificava-se o homem mais feio de todos.
         Em “A benfazeja”, menciona-se a presença do trágico logo no primeiro parágrafo quando o narrador, ao questionar os moradores do povoado, refere-se aos “domínios do demasiado”. Como heroína trágica, a Mula-Marmela  cumpre o seu destino e por ele despende todas as suas forças, cristalizando pulsões de morte e de castigo, a fim de limpar o povoado da “pestilência” daqueles que ultrapassam os limites do bom convívio social, sejam eles amados ou não. Tal como as Erínias, a Mula-Marmela também é implacável, horrível, impossível de ser contemplada. Mas, “assim como as Eumênides, Mula-Marmela se caracteriza como uma lei externa, uma ministra da justiça que, através do temor e mansidão, contém nos limites os indivíduos que os queiram ultrapassar”.
          Como uma mula, a personagem é estéril e carrega fardos, “suporta pesos que não são os seus”. Sendo  “Marmela”, é fruto ácido e adstringente usado na preparação de doces. Abstendo-se de sua subjetividade, nas palavras de Santos, “abre mão da felicidade de estar ao lado de quem amava para alcançar a graça de promover o bem a uma quantidade maior de pessoas”. Cegando o enteado, anula os seus atos, mas também lhe dá a possibilidade de permanecer junto ao vilarejo e, depois do sacrifício final, chama-o “Meu filho...”. Também as Eumênides passam a adotar os habitantes de Atenas como seus filhos, sendo responsáveis tanto pela punição de criminosos quanto pela geração da vida.
       Tal como o artigo anterior, este também faz menção ao papel do narrador em “A benfazeja”. Sendo “de fora”, “tudo o que sabe acerca da personagem obteve através do relato dos habitantes do vilarejo. Sua condição de estrangeiro lhe garante uma visão menos comprometida dos fatos”. Para Santos, o narrador é um tragediógrafo. Com o relato de crimes e agressões familiares, busca atrair a atenção e emocionar os seus interlocutores. Com palavras indignadas e não com atos, apresenta a sua interpertação trágica do caso. A partir de uma conversa, pelo domínio da argumentação, da narração e do juízo, em tempo presente, pela rememoração de acontecimentos em uma ordem estabelecida por ele, o narrador transforma a história da Mula-Marmela num caso exemplar a ser transmitido às próximas gerações.
         “Para o vilarejo, os atos de Mula-Marmela são violações de interditos. Já, para o narrador, não violar o interdito é que se caracteriza como um crime. […] Tal como acontece na terceira tragédia que compõe a Oréstia, a imagem da personagem é reabilitada através de um discurso marcadamente persuasivo. Em "Eumênides", Atena cuida para que a Democracia não seja intimidada pelas Eríneas e tece para elas um longo discurso, induzindo-as a assumirem a nova condição de Eumênides como uma honra.  "Com isso, a deusa garante a presença amedrontadora de tais divindades, que passam, então, a assumir uma função de extrema importância dentro do novo direito da pólis": a responsabilidade pela observância da justiça, cuidando, com antecedência, de evitar o crime.
Todas as Musas ISSN 2175-1277 (on-line). Ano 03 Número 01 Jul-Dez 2011.
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Imagem de leproso na idade média
            Da aparência à vidência ou a sabedoria do narrador onisciente
        Por fim, vale destacar alguns pontos extraídos do artigo “O narrador persuasivo: Um olhar benfazejo”, de Iolanda Cristina dos Santos. Em seu texto, afirma-se o narrador como um “pedagogo”, ou melhor, como um sábio focado na apreensão da realidade pela superação da aparência. Tal como os moradores, acometidos pela cegueira em relação às reais motivicões da Mula-Marmela, somos nós próprios, os leitores, convidados a nos ver e a questionar o que vemos. Nesse sentido, o distanciamento do narrador é essencial.
          Otimista, a autora do artigo afirma que  é possível deslocar pelo menos um pouco a membrana que turva a nossa visão. Com isso, belas paisagens e conceitos redimensionados surgirão.  Afirma também que o elemento trágico dialoga com a perplexidade nesta história. É a perplexidade do narrador ante o “fato de a protagonista não ter sido notada no que ela tem de melhor”, e não a crueldade dos seus atos, que o leva a contar sua história
      Iolanda dos Santos lembra que na obra de GR, a crueldade, as deficiências, apresentam-se como possibilidades de instaurar esse sentimento de perplexidade, imprescindível para uma abertura e reconhecimento “de aspectos pouco valorizados e desejáveis no ser humano”. Citando Costa Lima, a autora destaca que " O aleijão é menos prova acusatória do caráter cruel da vida que indício do que nela perplexamente desconhecemos." (LIMA, 1991, p. 506)
      Contrapondo-se ao desprezo pelo narrador onisciente, a autora elogia a sua postura “intrusa”: “Parece já ter abarcado inúmeras situações humanas, e que, por isso, agora vem nos ensinar a olhar”. Sob a forma de um “jogo de velar e desvelar”, ele se dirige desde a primeira frase do conto ao leitor (identificado aqui com os moradores do vilarejo), “introduzindo-o na problemática [do quê e do como] vai contar: "SEI QUE NÃO atentaram na mulher”, fazendo-nos “ver que o papel do narrador, muito mais que simplesmente narrar, é tocar em algumas camadas inapreensíveis pelo olhar apressado e comum”. […] “E, em termos formais, o que temos é uma reincidência de verbos ligados ao sentido da visão, pois estão sempre presentes formas verbais como "revê", "viam-lhe", "notar", "vêem", "viram", "notem", "notaram", "reparam", "olha", "saibam ver", "veriam", "os observou", dirigidas ao leitor desavisado.”
        O foco constante da voz narrativa na Mula-Marmela combina-se à força do discurso subjetivo do narrador. Graças a essa coragem em se mostrar, “podemos nos libertar das armadilhas do enredo e, paralelamente à fruição deste, refletirmos sobre os modos com que cada um realiza as suas possibilidades e impossibilidades de ser. Não fossem as chamadas do narrador, o enredo nos levaria, e perderíamos a oportunidade de refletirmos sobre o narrado”. Bendita astúcia da narração, “que nos leva a uma fruição mais astuta do texto”
Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/garrafa11/v1/iolandacristina.html 
Referência: LIMA, Luiz Costa. “O mundo em perspectiva: Guimarães Rosa”. In: COUTINHO, Eduardo Faria. Guimarães Rosa . 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, p. 500-513. 
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Ilustração de Gustav Tenggren para "João e o pé de feijão"
Assim que terminei a leitura do conto “A benfazeja”, de Guimarães Rosa, pensei: “aquela história que queria escrever, explorando a alma de uma mulher de ogro, já foi escrita, veja só, ei-la aqui”. Mas mesmo assim, sinto-me compelida a reler alguns contos de fadas com ogros: “O Barba azul”, “O ogro com penas” (compilado por Italo Calvino), além de “O pequeno polegar” e “João e o pé de feijão”. Em alguns deles, a mulher é pouco fiel e mostra-se como a antítese do marido.  É de Diana Lichtenstein (“Fadas no divã: psicanálise das histórias infantis”) a analogia da mulher do ogro, em “João e o pé de feijão”, com Reia, esposa de Cronos. Tal como a deusa, a ogra cuida do menino, não lhe negando a verdade de que o “pai” é um rival perigoso e temível. Segundo Lichtenstein, essa tensão ou contradição revelada pela mulher entre o seu homem e o seu filho é essencial para que a criança apreenda: “ninguém é um complemento perfeito para o outro”. Fica, por fim, a curiosidade: Simone de Beauvoir, em “O segundo sexo”, identifica a mulher de ogro com a fêmea do louva-deus: “o Outro privilegiado através do qual o sujeito se realiza”.
Reia e Cronos

19 de agosto de 2014

O presente


Ruth Lifschits
          Noite fria, muito escura. Nós três, os maiores, grudados, bem juntinhos, sentados no primeiro degrau da escada. O menor passava pra lá e pra cá no colo da babá apressada, arrumando coisas, pegando roupas nossas no quarto dos fundos, no andar de cima, pela casa. Não sei bem o que ela fazia, mas estava muito ocupada. Nossa casa cheia e continuando a se encher de pessoas solenes, sérias. Umas conhecidas e muitas outras não. Onde estava minha mãe? Continuava sumida. Tínhamos voltado do colégio e ela não tinha aparecido para nos receber. Eu ouvia  seu choro, mas quando a procurava só via as costas de mulheres encurvadas olhando para algum ponto no meio daquele embolado de gente – de lá vinham os sons de choro, gritos, gemidos. A voz era dela, mas muito diferente do que costumava ouvir. Não sei quanto tempo se passou, ficou escuro e deixamos nossa casa. Não me disseram por quê. Nada
          Fomos levados para a base militar e pensei que papai estivesse lá. Procurei por ele, esperei por ele mas ele não apareceu. Entramos num avião depois de passarmos por homens fardados que nada diziam, só nos olhavam com olhar esquisito, triste. Ninguém dizia nada. Estava com medo. As fardas eram como as do papai. Onde estava ele? Também tinha sumido. Um amigo dele me pegou no colo, me beijou e abraçou. As bochechas dele estavam molhadas. Entramos no avião. Meus irmãos mais velhos de cabeça baixa, também não falavam nada. Eu queria fazer perguntas, mas tinha medo. Estávamos indo embora, para onde? O menor chorou, tossiu, ganhou uma chupeta. A babá disse para ele que logo estaríamos na casa de nossa avó. E a mamãe? Ah, lá na frente, acho que era ela, mas estava escuro, ela de preto, jogada num banco, o rosto enfiado nas mãos. E o papai? Onde? Íamos sem ele?
          Não sei se o voo foi curto ou longo, foi no escuro. Escuro lá fora, escuro dentro. Dormi ou estava no meio de um sonho, não sei. Quando saí do avião, meu padrinho veio me pegar, também sem falar. Passou a mão nos meus cabelos, me puxou para perto dele e ficou me apertando contra ele, um tempão. Me levou para um carro. A babá e o menor vieram atrás de nós. Minha madrinha me beijou. Ela estava chorando. Sentei no banco de trás. E meus outros irmãos? E minha mãe? Tinha me perdido deles. Medo. Mas a babá e o menor estavam ali, e  meus padrinhos também. Nosso carro foi seguindo um outro. Gosto de ver as luzes da cidade. Dormi. Chegamos numa casa toda acesa. Todas as luzes brilhavam. A sala quase sem móveis, com cadeiras e mais cadeiras encostadas ao longo das paredes. E muita gente lá. Estavam falando mas, quando entramos,  se calaram e ficaram olhando, aquele olhar triste e esquisito – igual ao dos homens fardados. Tinha gente chorando. Eu queria chorar, estava com muito medo. Onde estava minha mãe? E a vovó? A casa era dela, diferente mas era a dela. A babá nos levou para a cozinha. Quis que eu tomasse sopa, uma canja. Não queria, queria minha mãe. Fomos para o segundo andar, babá nos banhou e nos pôs para dormir nuns colchões arrumados no chão. O menor chorou, queria a mamãe. Ela não veio. Papai não veio. Mamãe estava ocupada, precisava descansar, a babá dizia, embalando o pequeno. Acho que comemos, fizemos um lanche lá no chão do quarto, não sei. Me sentia num sonho, num pesadelo, não sabia de nada. A cabeça inventa, cria realidades que se confundem. O menor deve ter mamado. Posso estar inventando, está tudo misturado na minha cabeça. Escovei os dentes com o dedo, me lembro muito bem disso. Minha escova tinha ficado na minha casa. Tudo muito diferente. Muito estranho, não era assim que me punham para dormir. Ninguém contou histórias, não falavam nada. E meus outros irmãos? Tinham sumido também.
 

          Eu me deitei pensando no meu aniversário. Papai tinha me prometido a boneca loura. Amanhã vou ganhar presentes, pensei, e me animei um pouco. Mas, a festa ia ser lá em casa  e nós estávamos na casa da vovó, longe. Mamãe tinha feito um vestido novo pra mim, branco com barra de tafetá estampada de verdes e vermelhos. Mudaram a festa para a casa da vovó? Tudo muito estranho.
          Aquele meu aniversário não aconteceu. Acordei numa casa vazia. Todos tinham sumido. Só as empregadas, a babá, as crianças. Brincamos, tinha uma indiazinha de nove anos na casa da vovó, falava diferente. Meninos jogavam bola na rua em frente, meus irmãos também. Ganhei um bolo com uma vela para soprar. Uma vela para seis anos? E chegaram todos para almoçar, solenes e sérios. Mamãe, de óculos escuros dentro de casa, de preto. Me abraçou, me deu um presente – a boneca loura. E papai, quando vem? Hoje não, hoje não era o que diziam. E asma, emplastro quente no peito, respirando com dificuldade fui para o colchão no chão, a boneca junto comigo, linda, linda.
          Acabei usando o vestido novo na missa de sétimo dia do meu pai. Mamãe trocou a barra de tafetá verde e vermelha por uma preta e branca. Não me lembro como fiquei sabendo que papai tinha ido para o céu e eu tinha que ser boazinha porque mamãe estava muito triste, muito cansada. Papai no céu?! Custei a entender que estavam me dizendo que ele tinha morrido. Meu irmão menor também não tinha entendido direito. Ficava olhando para o céu  pedindo para a lua  trazer o papai de volta.
Brejal, 3 de agosto de 2014.

A experiência decisiva que, para quem a tenha feito, se diz ser tão difícil de contar, nem chega a ser uma experiência. Não é mais que o ponto no qual tocamos os limites da linguagem. (Giorgio Agamben)
Fotos: JMGLA

18 de agosto de 2014

Escrita: terceira margem

Foto:JMGLA
Primeira margem: no pra cá pra lá, no meio do rio, no de repente, uma lancha de muitos pés, grande calado: os pés marolam pelas ondas que a lancha faz. Passa rápido mas vi seu nome desenhado – LITERATURA. Atrás rabeava uma corda. Segunda margem: chama-se o MENINO. Menino, você é o Pai: contra o pai, conta o pai, outras primeiras estórias. Terceira margem: a POESIA 
Bia Albernaz
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Vida vivida: falta de chão firme, de segurança, de conforto – tudo ilusão. É a escrita a vida de verdade? É a essência sem aparência, a liberdade de inventar, de criar personagens sem máscaras para outros? Assim deveria ser? É uma fuga? Um esconderijo de obrigações, deveres, compromissos? Escrever sem regras impostas, sem padrão, respeitar somente o querer. É um delírio? Um sonho? É comunicar com quem faz igual? Cada pessoa pode formar com o outro e o outro e o outro – uma forma de sobreviver. Aí, aceita, se expõe e o seu trabalho, suas ideias transformadas em histórias, memórias, graças, dramas. Corre a vida paralela: funções e papéis determinados. Rompe-se aqui e ali, mas o enquadramento sempre amarra. A escrita solta. 
Maria Tereza Albernaz
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Foto:BiaA.
Viver e ter coragem para escrever. Escolher viver criando, se expondo – sem nada, mas com tudo. Desapegada de outros fazeres, na vida com o escolhido, imersa em sentimento e imaginação, sem preocupação com o tempo. Sendo uma, sendo muitas e muitos, aqui e em todos os lugares e tempos. Entregue, sem domínio do externo, dominando o interior. Sem se deslocar, mas em todos os lugares. No fluxo da escrita, sem passado e sem futuro, num imenso aqui-e-agora múltiplo e variado. Seguindo, indo, sendo. 
Ruth Liftschts
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Não é a primeira, segunda ou terceira margem, a literatura é a canoa que nos conduz. Ao se afastar da primeira margem, nos fornece o distanciamento necessário para que possamos vê-la em toda sua extensão e complexidade. O canoeiro do conto de Guimarães Rosa, por exemplo, viu arderem por ele chamas insuspeitas. Da outra beira, a literatura nos descortina o conhecido e o desconhecido. E à terceira margem, nada é melhor do que ela para nos levar. 
Flávio Franklin
Com direção de Nelson Pereira do Santos, a produção de 1994 faz uma adaptação da história, tomando elementos dos outros contos presentes em "Primeiras estórias", de Guimarães Rosa.
 Para ler o conto de GR ("A terceira margem do rio") e em seguida o do Mia Couto ("Nas águas do tempo"),
cf. circulosdeleitura.org.br

4 de agosto de 2014

PAI


Daniel Willmer
A cena é tocante,  quase grotesca, irreal: ver o homem tão envelhecido. Choca ver só pele e osso sob a camisola de hospital aberta nas costas. Em seu leito, tenta levantar o tronco, estica para fora os braços, para tentar aferrar-se às grades, com seus dedos longos e agora finos, quase transparentes, que deixam ver sob a pele as veias e capilares como se fossem pequenas enguias serpenteando. Com as mãos fechadas em volta das grades, puxa-as para si, quer se levantar, mas parece mudar de ideia, solta-as e volta a ficar deitado, exausto, exangue, tentando aferrar-se à vida.
Uma vez deitado, geme o esforço a cada expiração, sem dor física aparente, um pranto por perder seu viver. Apenas refeito, refaz o movimento, sua vida se resume a isso: deitar, levantar o tronco, abrir os braços e agarrar as grades para, mais uma vez, perplexo, soltar-se e tombar sobre o leito e gemer. Essa repetição é quase maquinal, cronometrada. Perceber que não há salvação não altera a sua ação. Ele sempre recomeça os movimentos como uma máquina extraviada de sua função.
Soltas das grades, quando o tronco se deita e enfim descansa, as mãos voltam a ficar uma sobre a outra, apertando-se mutuamente, como a se dar força para uma nova tentativa. São dias e noites que se escorrem desse jeito. Neste embate surdo, profundo, solitário – isolado do mundo – se isolando do mundo, se afastando cada dia mais um pouquinho.
Quando ele para de tentar se levantar e se entrega ao futuro, resta apenas a respiração ritmada e curta que expande e retrai o peito como de um boneco de molas, que ergue a cabeça do travesseiro num ímpeto para cair logo depois. O corpo não se mexe, não reage, não se sabe se ele nos escuta ou não, se há algum registro, ou se é apenas vida que late.
Parece que uma manhã ele quis voltar, mas tropeçou no caminho de volta e perdeu as forças que restavam.
Terá sido paz o fim da agonia? 
5.5.2014
Em 1947, Flavio de Carvalho (1899-1973) desenhou a "Série Trágica" ou "Minha Mãe Morrendo", composta por nove esquetes. Exposta no MASP em 1948, a série foi alardeada pela imprensa e execrada pela sociedade.
http://www.macvirtual.usp.br


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Você acha que eu iria fazer uma coisa que não fosse bonita? Ele era um artista e isto é bonito. É uma coisa certa. Não estou fazendo isto para ninguém. É para mim, que gostava tanto dele.
 Glauber Rocha

A tarde nublada e o salão vazio retratavam uma tristeza sem fim ao velório de Di Cavalcanti, no Museu de Arte Moderna [1976]. Eis que surge Glauber Rocha: "Um, dois, três, ..., dez, onze, doze... Corta! Agora, dá um close na cara dele". [...] Surpreendidos pela excêntrica cena, num ambiente de sofrimento, familiares e amigos, espantados, reprovaram a iniciativa de Glauber, que recebeu um compreensível pedido da filha adotiva do pintor, Elizabeth, para interromper aquele mórbido espetáculo. "Não se preocupe. Esta é a minha homenagem a um amigo que morreu. Estou aqui filmando a minha homenagem ao amigo Di Cavalcanti. Agora, dá licença que preciso trabalhar". [...] Finalizou seu filme e, no ano seguinte, lançou o documentário "Ninguém Assistirá Ao Enterro Da Tua Última Quimera, Somente A Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável!, - Di Cavalcanti di Glauber", uma homenagem cinematográfica póstuma.

A exibição do filme foi interditada pela justiça no mesmo dia, quando da concessão de uma liminar pela 7a. Vara Cível, ao mandado de segurança impetrado pela filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti. O documentário recebeu o Prêmio Especial do Júri durante o Festival de Cannes em 1977. (Jornal do Brasil)
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Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, ir para o trabalho, quatro horas no escritório ou fábrica, almoço, trabalho, jantar, sono, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado. Um dia surge o "por quê?" e somos tomados por uma fadiga assombrosa. A fadiga de uma vida maquinal inaugura um movimento da consciência.