26 de novembro de 2010

Vocabulário de afetos III

Em louvor da vírgula
José Mário Silva (jornalista e poeta)
Macadame – É tudo uma questão de ritmo. Digam comigo, muito rápido: “macadame, macadame, macadame”. Não imaginam logo o som de um motor a quatro tempos, numa estrada cheia de curvas? Ou então uma reta interminável onde automóveis (dos primeiros, a manivela) se cruzam com caleches repletas de burgueses aperaltados? Macadame é uma palavra deliciosamente antiga, espécie de asfalto oitocentista, vocabulário dandy para personagem do Eça.
Zigurate – A culpa é da letra “z”, dos zigezagues com que faz entrar, cego pelo sol, na arquitetura desses templos anteriores à própria Bíblia, talvez o de Ur, talvez essa maldita e fascinante Torre de Babel.
Falésia - Quatro sílabas que primeiro se põem a correm (“fa”), depois planam momentaneamente sobre o abismo (“lé”), antes de caírem desamparadas (“si”) no mar que fica lá em baixo (“a”). A palavra espelha o que é suposto representar: paisagem e perspectiva. Não se lhe pode pedir mais.
Magnólia _ Digo “magnólia” e explode na minha boca uma flor branca, presa à memória de versos magníficos (Luíza Neto Jorge, Daniel Faria).
Tiorba – Vocabulário primo de um outro – alaúde – e igualmente belo, lânguido, musical.
Ascese – Pesa o mínimo dos mínimos, este substantivo quase sem substância. É pura leveza, palavra feita de ar, caminho aberto para os pensamentos mais altos e distantes da pequenez terrestre. Pronunciá-las (as-ce-se) é já um começo de levitação.
Láudano – O torpor sobe de intervalo entre as letras (e é bom).
Revelim – É uma espécie de escudo, de proteção para muralhas e obras de arte. Palavra rara, vagamente ridícula, tão pomposa que dá vontade de rir. Gosto dela por isso mesmo: há algo na sua solenidade anacrônica que me enternece.
Pérgula – De imediato: um terraço coberto, a primavera crescendo nas sombras. E a palavra enrola-se, é portátil, cabe no bolso. Além disso, faz-me lembrar uma pausa serena, a vírgula que é muito mais do que um sinal de pontuação. Na pérgula, sinto-me perto da vírgula.
Ecografia – A razão porque escolho esta palavra é tão óbvia como íntima. Sim, é mesmo essa. Mede-se (ainda) em milímetros.
Jornal das Letras, Artes e Idéias, Ano XXIV / n.889 (27 de outubro a 9 de novembro 2004), Portugal.
http://bibliotecariodebabel.com/

20 de novembro de 2010

Vocabulário de afetos II

Música e ritmo
Catarina Fonseca (jornalista e escritora)
Traquitana – Serve para basicamente tudo à face da Terra. Geralmente é uma coisa em grande que não se domina. Ai que mal que isto soou. Tipo máquina de lavar louça. Um batom, por exemplo, não é uma traquitana.
Chafarica – É aquelas palavras que só podem existir na língua portuguesa (embora depois vamos a ver e elas vêm todas do francês ou do galego ou do árabe) como calduço, e lamisgóia, e badameco, e patanisca.
Traulitada – Também poderia estar na categoria anterior, mas merece uma alínea só para ela. Parece uma dança. ‘Os trauliteiros de Miranda’.
Madrigal – É das poucas palavras que são foneticamente musicais e têm um significado a corresponder. Estranhamente, isso faz com que não dêem jeito nenhum. São demasiado-uni-qualquer-coisa. Não se pode usá-las, só pode abusá-las. São as louras burras do vocabulário.
Escaldadiço – Gosto muito do sufixo “iço”. Como em enfermiço. Gosto muito de palavras intraduzíveis.
Berbequim – Não merece aquilo que é. Como edil. E crinolina. E filial. E criminalidade. Para que foram gastar música com significados destes? Devia ser tudo expropriado e botado noutro significado, tipo a terra a quem a trabalha. Por exemplo, berbequim podia substituir “olho”, que tem tão pouca graça que até dói. ‘Tens uns lindos berbequins’ ou, teus berbequins castanhos de encantos tamanhos.
Lacaio – Faz parte da categoria ‘palavras que são exactamente aquilo que são’. Como pacato, maléfico, moinha, alguidar, farfalheira, bodega.
Crancelim – Parece um arreio de cavalos. “Mete aí um crancelim ao Pimpão.” Infelizmente, significa uma coroa de flores no meio de um escudo heráldico. São palavras que nunca se usam, o que é uma pena. Não seria lindo poder dizer de vez em quando, “passa-me aí o crancelim? Em vez de sei lá, piaçaba? “Já tens um crancelim na tua casa de banho?” Por outro lado, passava-se a diser-se: “meu brasão de família tem um piaçaba entre dois dragões.”
Breu – Gosto, pronto. É uma pena ser tão lugar-comum que já não se pode usá-la.
Pitencantropo – Isto sim, é uma palavra de jeito. Infelizmente, não há assim muita oportunidade para a usar.
Gosma – É transtornante a quantidade de magníficas palavras que a nossa língua usa para descrever substâncias vagamente nojentas. Além da imbatível gosma ainda há ranho, ranhoca, ranheta, escarreta, cuspo. E etc. Desvantagem: não é para todos os estômagos.
 Jornal das Letras, Artes e Idéias, Ano XXIV / n.889 (27 de outubro a 9 de novembro 2004), Portugal.
Berbequim.pt=Furadeira.br

19 de novembro de 2010

Vocabulário de afetos I

A sedução das esdrúxulas
Albano Martins (poeta)
Paixão – A palavra significa sofrimento, mas o sofrimento por amor é o único humanamente tolerável e, mais do que isso, apetível. Diria mais: a paixão é a única forma digna de estar na vida e de resistir aos assaltos diários da morte.
Água – A da fonte e a dos riachos da montanha. Limpa, límpida, era assim que eu queria as relações humanas, habitualmente tão turvas e envenenadas.
Lágrima – Sempre me seduziram as palavras esdrúxulas. Esta, pela sua particular sonoridade, que lhe advém da contiguidade da vogal átona i, fechada, com a tônica a, aberta, e da acumulação de consoantes líquidas ou molhadas. Lágrima é, com efeito, uma palavra molhada. E salgada, como a água do mar.
Fogo – O elemento primordial, como queria Heráclito. Sem ele, Eros seria apenas um deus menor ou uma figura retórica.
Verão – A casa do fogo. É lá também que moram os frutos, as hidrângeas e as papoilas.
Perfume – É uma essência, e é a essência que a minha poesia persegue. Rima, além disso, com lume, que é o outro nome do fogo.
Vermelho – A primeira cor. Digo: a cor do fogo e do sangue. A cor do génesis, auroral.
Magnólia – A flor esdrúxula; a flor sem folhas e sem fruto; a flor, simplesmente.
Acaso – Tudo é obra sua. Ele é, por isso, o único deus ominipotente e... omnipresente.
Absurdo – O irmão gémeo do acaso, e tão poderoso e presente como ele no universo do nosso quotidiano.
Jornal das Letras, Artes e Idéias, Ano XXIV / n.889 (27 de outubro a 9 de novembro 2004), Portugal.
O livro comemora os 60 anos de carreira do escritor.

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade em "A Rosa do Povo" (1945)
***

16 de novembro de 2010

8 x 80

JMGLA
Parece que foi ontem. A expressão é bem usada. Eu menina em Petrópolis declamando Meus Oito Anos. Hoje prestes a completar oitenta. A estrada. Tento escrever um poema. Mal traçado. Nada me contenta.
Arlette Santos

Reescrita, traduções e releitura do Endimião de Keats

Passos em direção à beleza
Uma das meninas de Vélasquez (1665) e a releitura de Picasso (em torno de 1950)
 Leitura
O Endimião é um poema longo escrito de abril a 28 de novembro de 1817 e publicado em fins de abril de 1818. Cuida dos amores mitológicos de Febe (a Lua) e Endimião, em quatro livros cheios de incidentes.
Releitura
O tema, que consta de Ovídio, inspirou ao Cariteo, na Itália, em livro intitulado Endimione, no qual se dirigem poemas platônicos a "Luna". O assunto, na Inglaterra, foi desenvolvido por Lyly (Endimion), também platonicamente, ou por Drayton (Endymion and Phoebe), com uma história mínima, cheia de uma sucessão de cenas agradáveis interrompidas por meditações ou dissertações casuais sobre Astronomia, Astrologia, Filosofia. Admite-se que Keats haja conhecido essas e outras fontes insulares, que foram profusas (vide E.S. Le Comte, Endymion in England, Nova York, 1944).
 Escrita
O excerto abaixo abre o poema, com um verso celebérrimo, "A thing of beauty is a joy for ever", que Keats imaginou em 1815,
Escuta
ao tempo em que morava com outro estudante de medicina, Henry Stephens, o qual disse que à primeira versão da linha - "A thing of beauty is a constant joy" - faltava alguma coisa.
Reescrita 
Keats emendou então, tornando-se magistral o verso.
Péricles Eugenio da Silva Ramos
***
O poema (trecho)
Endymion
John Keats
A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways::
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
'Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven's brink.
 ***
Traduções
1. Endimião
Tudo o que é belo é uma alegria para sempre:
O seu encanto cresce; não cairá no nada;
Mas guardará continuamente, para nós,
Um sossegado abrigo, e um sono todo cheio
De doces sonhos, de saúde e calmo alento.
Toda manhã, portanto, estamos nós tecendo
Um liame floral que nos vincule à terra,
Malgrado o desespero, a carestia cruel
De nobres naturezas, os escuros dias,
E todos os sombreados e malsãos caminhos
Abertos para nossa busca: não obstante,
Alguma forma bela afasta essa mortalha
De nossa lúgubre alma. Assim são sol e lua,
As árvores lançando a dádiva da sombra
Às ovelhas sem mal; e assim são os narcisos
Com o mundo verde no qual vivem, e os regatos
Que fazem para sim uma coberta amena
Contra a quente estação; a moita mato adentro,
Rica de um jorro em flor de almiscaradas rosas;
E assim também a majestade dos destinos
Que imaginamos para os mortos poderosos;
Os lindos contos que nós lemos ou ouvimos:
Uma fonte infindável de imortal bebida
Que da fímbria dos céus a nós se precipita.
Trad. Péricles Eugenio da Silva Ramos, 1987 - Premio Jabuti - 1986

2. Endymion
O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.
Trad. Augusto de Campos, 2009
Colhido no http://antoniocicero.blogspot.com
***
Releitura
Beauty: A thing of
Haroldo de Campos
sentada no sam-
witch à hora do
almoço ergueu o braço
à altura dos cabelos um
pente louro alumbra à axila
promessa do outro
pente debruçada sobre a mesa
lápis e o caderno de notas
livros nausícaa em camiseta e/
mêmore no mármore do tempo
e se levanta e
sai
(Haroldo de Campos. In: A educação dos cinco sentidos, 1985)