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| ParkeHarrison_FlyingLesson | BONS ESCRITOS, BOAS LEITURAS |
26 de dezembro de 2010
Cavalo Baio - o mistério que abalou Penedo em 1960 (recado)
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| Para ler mais sobre o autor e a sua edição realizada com o apoio dos empresários da região, clique aqui. |
A partir de um atentado em Penedo na década de 1960, Gustavo Praça desenvolve uma trama policial misturando personagens fictícios e históricos, como Toivo Uuskalio e Toivo Suni, pioneiros na criação da colônia finlandesa na década de 1930, ou ainda como Macedo Miranda, escritor resendense que inspirou o protagonista do livro - um jornalista dublé de detetive com alma de pintor. Acompanhando-o, atrás de um certo cavalo baio de canelas pretas, o leitor passeia pelos vales da Mantiqueira e visita os povoados de Visconde de Mauá, Mirantão e Santo Antônio, com seus roçados de milho e de feijão, seus bois de invernada, seus primeiros habitantes vindos da cidade. De leve, o livro propõe algumas questões sobre o modo de ocupação desta região que cresce no meio de interesses muitas vezes conflitantes, entre turismo e agricultura, entre as culturas finlandesa, do interior de Minas, de alternativos e de veranistas. Em meio a esta difícil equação, desponta o mistério de Penedo.
24 de dezembro de 2010
Livro pra escrever (colagem como poética)
Tomando como referência um texto de Marjorie Perloff sobre a colagem na poesia, percebe-se como a imagem de uma solidão que encontra (ou “se cola”) à outra é poderosa e produtiva. A colagem, concebida nas artes plásticas como uma justaposição metonímica de objetos, aproxima-se da escrita, enquanto montagem ou edição de textos cotejados pela leitura ou pela reunião de fragmentos de narrativas colhidas no cotidiano. Através da colagem, reúne-se temporariamente elementos em uma nova composição.
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| Josep Renau Berenguer |
Usualmente considerado pejorativo, o processo de colagem de textos possibilita, porém, quebrar a linearidade discursiva, ao transferir um trecho de um contexto para outro. Segundo Perloff, na colagem, realizamos uma dupla leitura, na medida em que os fragmentos mantêm sua relação com o texto original, ao mesmo tempo em que se incorporam a uma totalidade diferente.
Na nova ordenação propiciada pela colagem, predominam as relações de similaridade, equivalência e identidade, assim como suas formas negativas – a dissimilaridade, a não equivalência e a não identidade. Persistem ainda a concatenação, o agrupamento ou a associação, enquanto minimizam-se as relações de implicação, sequenciação, negação e subordinação. Em termos das idéias ou imagens justapostas, pelo processo da colagem, desenvolve-se mais a sua coordenação do que a subordinação entre elas; mais a semelhança e a diferença do que a lógica, seqüência ou qualificação dos fragmentos escolhidos.
Nessa perspectiva, podemos compreender a estreita relação entre os atos de escrever e ler. Para escrever um novo texto, descongelam-se trechos retirados de seu contexto, dispondo-os em uma outra composição. Por outro lado, com a atividade da colagem escrita-leitura, quebra-se a ilusão que cerca os livros como portadores de verdades acabadas. Considerando ainda a leitura em termos amplos, como coleta de fragmentos das narrativas do cotidiano, promove-se também – através da colagem de textos impressos e textos orais – uma quebra da hierarquia entre o impresso e o expresso, o público e o privado.
Mas, ao destacar um trecho e readeri-lo a um outro contexto, ao transplantar e citar, o autor da colagem não estaria se valendo da autoridade alheia para fazer um texto próprio? Tais ações contribuem de fato para a quebra de discursos totalizadores ou seriam apenas fruto da preguiça de pensar por conta própria? Como garantir que esse método de justaposição, “camada sobre camada”, leve a um texto poético, desestabilizador? Como mantê-lo aberto à crítica, mesmo que se recuse a se centrar num ponto único?
Tais questões, embora importantes, não conseguem mais estancar o poder da colagem como processo produtivo. Em realidade, afirma Perloff, a colagem encontra-se hoje não somente nos domínios das artes plásticas ou da literatura. No próprio domínio da crítica, absorve-se a poética da colagem como importante modo de teorização, e é também matéria-prima da propaganda, o que reflete, para além da moda, um meio mais eficaz de comunicação, considerando os indivíduos, em princípio, como colagens.
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| Sol de Maiakovski, de Augusto de Campos |
Perloff, Marjorie. “Collage and poetry”. In: Kelly, Michael (org.) Encyclopedia of Aesthetics. New York: Oxford U Press, 1998. O artigo aqui citado encontra-se disponível na internet no site da autora http://marjorieperloff.com/articles/collage-poetry/ (disponível em 17/10/09).
Bia Albernaz
22 de dezembro de 2010
Rapidinha 5
Arlette Santos
Como acontece quase todos os dias, após o café saí para caminhar um pouco e comprar algo para completar a despensa. Sempre falta alguma coisa.
Antes de atingir a Avenida 28 de Setembro, ainda na Visconde de Abaeté, encontro uma velha conhecida. Rapidamente, "me baixa o arquivo": Curso Normal na Escola Carmela Dutra, em Madureira, colega de minha irmã. Foi professora na escola dos meus filhos. Por coincidência, passávamos férias em Lambari. Ficamos camaradas. Nossos filhos tomaram seus rumos, ela mudou de apartamento, ainda mora em Vila Isabel. Creio que não nos víamos há uns dois anos. Mas todo este passado esvoaçou. Sua reação, ante a minha presença, é que me fez pensar. Junto com a alegria do reencontro, ela demonstrou uma tremenda surpresa. Por que será? Como se eu não soubesse.
19 de dezembro de 2010
Livro pra escrever (a colagem leitura-escrita)
Bia Albernaz
A idéia de desenvolver um texto sobre a relação entre a escrita e a leitura surgiu primeiramente pelo desejo de consolidação do meu trabalho como professora de diferentes cursos de redação criativa, mas também especificamente a partir de um outro artigo que redigi sobre bibliotecas escolares. Nele, encontram-se listados sete desafios para os profissionais da área, dentre os quais a necessidade de preparar a biblioteca não só como um lugar de leitura mas também de escrita. Isso porque um leitor faz anotações, escreve enquanto lê. De fato, testemunha-se tal necessidade, mesmo que satisfeita de forma indevida, pela enorme quantidade de livros sublinhados que somos obrigados a consultar. É óbvio portanto que o impulso existe.
O leitor-escritor, principalmente o pesquisador ou o estudante, transcreve frases, destaca palavras e rascunha pensamentos, dúvidas e associações com outros autores, absorvendo, pelo processo da escrita, as diversas leituras subjacentes a um texto, direcionando-as desse modo para um texto único. Um texto, tal como diz Michel Schneider, é feito desse modo: por fragmentos, combinações, acidentes, reminiscências, empréstimos[1]. Muitas vezes, escritores escrevem a partir de um vazio, de interrogações e insatisfações deixados por um livro ou uma série deles, o que se coaduna com a imagem da leitura como navegação. Os livros, como guardiões de saberes móveis, melhor sorte não poderiam ter do que poder espalhar tais saberes em novos textos.
Escrita e leitura não são processos separados. Se assim fossem, estariam condenados a uma existência congelada, coisificada e não alcançariam o ápice de suas vidas – a recriação do leitor e do mundo. De fato, essa vida paralela que gravita ao redor dos textos consiste naquilo que nos acostumamos chamar de “interpretação”, atividade “entre” a leitura e a escrita. Quando lemos-escrevemos, pensamos e saímos do automático, em atenção ao não-dito, ao invisível, ao ainda não pensado. No entanto, Richard Mitchell, autor de “The underground grammarian”, observa o modo como fugimos ou de como somos impedidos de exercer a responsabilidade da verdade no ato da escrita; da coragem de assumir posições ou incertezas por escrito, dirigidas a leitores concretos. Ao invés disso, aprendemos a cultivar uma torrente de eufemismos e generalizações suavizadas que, aos poucos, passamos a identificar com a própria escrita [2].
Uma vez, ouvi de um advogado: “por escrito? Nem carta para a namorada!” Ora, a escrita compromete porque traduz pensamentos, constituindo-se como símbolo ou celebração dessa atividade essencial para sermos humanos. Mas, a fim de fugir de compromissos, ao longo de nossa formação, aprendemos a obstruir as passagens entre vida interior e exterior, o que transforma a escrita em um tormento, em uma arte de preencher linhas, sem nada dizer nas entrelinhas. Escreve-se para agradar professores ou editores preocupados em atender um mercado no qual leitores padronizados esperam textos tipificados. Felizmente essa regra não consegue deter a produção solitária de escritores criativos que insistem em se comprometer, em provocar nos leitores a felicidade de entrever o novo, de apreender algo nunca antes pensado.
O solitário traz o singular. A solidão é necessária ao ato da escrita. Tal afirmação choca-se com o esforço socializador empreendido pela escola, pela família, enfim, pelas instituições formadoras. Choque produtivo, contudo, à medida que essas mesmas instituições se dão conta da dificuldade de crianças, jovens ou adultos aprenderem sem desenvolverem a capacidade de estar só. Pela indissolúvel relação entre leitura e escrita, compreendemos: a solidão pode encontrar outra solidão, a diferença possibilita a identidade.
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| No New Yorker há um artigo de Ian Frazer sobre a marginalia em livros que pertenceram a escritores famosos. |
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| Como os métodos de criação e ordenação de notas dá forma a um manuscrito "final", venha ele a ser publicado ou não? Perguntas como esta serviram de base para um curso oferecido pelo Max Planck Institute for the History of Science. |
Escrita e leitura não são processos separados. Se assim fossem, estariam condenados a uma existência congelada, coisificada e não alcançariam o ápice de suas vidas – a recriação do leitor e do mundo. De fato, essa vida paralela que gravita ao redor dos textos consiste naquilo que nos acostumamos chamar de “interpretação”, atividade “entre” a leitura e a escrita. Quando lemos-escrevemos, pensamos e saímos do automático, em atenção ao não-dito, ao invisível, ao ainda não pensado. No entanto, Richard Mitchell, autor de “The underground grammarian”, observa o modo como fugimos ou de como somos impedidos de exercer a responsabilidade da verdade no ato da escrita; da coragem de assumir posições ou incertezas por escrito, dirigidas a leitores concretos. Ao invés disso, aprendemos a cultivar uma torrente de eufemismos e generalizações suavizadas que, aos poucos, passamos a identificar com a própria escrita [2].
Uma vez, ouvi de um advogado: “por escrito? Nem carta para a namorada!” Ora, a escrita compromete porque traduz pensamentos, constituindo-se como símbolo ou celebração dessa atividade essencial para sermos humanos. Mas, a fim de fugir de compromissos, ao longo de nossa formação, aprendemos a obstruir as passagens entre vida interior e exterior, o que transforma a escrita em um tormento, em uma arte de preencher linhas, sem nada dizer nas entrelinhas. Escreve-se para agradar professores ou editores preocupados em atender um mercado no qual leitores padronizados esperam textos tipificados. Felizmente essa regra não consegue deter a produção solitária de escritores criativos que insistem em se comprometer, em provocar nos leitores a felicidade de entrever o novo, de apreender algo nunca antes pensado.
O solitário traz o singular. A solidão é necessária ao ato da escrita. Tal afirmação choca-se com o esforço socializador empreendido pela escola, pela família, enfim, pelas instituições formadoras. Choque produtivo, contudo, à medida que essas mesmas instituições se dão conta da dificuldade de crianças, jovens ou adultos aprenderem sem desenvolverem a capacidade de estar só. Pela indissolúvel relação entre leitura e escrita, compreendemos: a solidão pode encontrar outra solidão, a diferença possibilita a identidade.
Referências:
[1] Apud JACOB, Christian. “Ler para escrever: navegações alexandrinas”. In: O poder das bibliotecas – a memória dos livros no Ocidente. Trad. Marcela Mortala. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2000, p. 67.
[2] Richard Mitchell pôs na rede todos os seus livros. Cf no site http://www.sourcetext.com/grammarian/ (disponível em 17/10/09).
[1] Apud JACOB, Christian. “Ler para escrever: navegações alexandrinas”. In: O poder das bibliotecas – a memória dos livros no Ocidente. Trad. Marcela Mortala. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2000, p. 67.
[2] Richard Mitchell pôs na rede todos os seus livros. Cf no site http://www.sourcetext.com/grammarian/ (disponível em 17/10/09).
17 de dezembro de 2010
Rebeldia dramática
Onde há dor e prazer, impetuosidade da liberdade, e defesa apaixonada do direito e da verdade, ou do amor e da ambição, há pathos, problema, condições de drama. O arrebatamento patético diferencia-se do êxtase lírico, ainda que muitas vezes um se transforme no outro. Antígona vive de seu objetivo. Não se limita à realidade atual e suas leis, ela antecipa a realidade que virá a ser. Tudo parece inverossímil e ao mesmo tempo está dentro da capacidade de percepção humana. Antígona dirige-se a si mesmo e impetuosamente blasfema (e atua) contra a lei. Em sua atuação, misto de agir e dizer, procura persuadir a si mesma e aos outros da estranha condição de sua existência no mundo.
Cf. “Conceitos fundamentais da poética” de Staiger
*
Impetuosidade nascida da vontade de potência
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| Antigona - aspirante a atriz em 1953 - Univ. Católica da América em Washington. |
ANTÍGONA – Ainda que não queiras ele é teu irmão / e meu; e quanto a mim, jamais o trairei.
ISMEME – Atreves-te a enfrentar as ordens de Creonte?
ANTÍGONA – Ele não pode impor que eu abandone os meus.
ISMENE – Pobre de mim! Pensa primeiro em nosso pai, / em seu destino, abominado e desonrado, / cegando os próprios olhos com as frementes mãos / ao descobrir os seus pecados monstruosos; / também, valendo-se de um laço retorcido, / matou-se a mãe e esposa dele – era uma só – / e, num terceiro golpe, nossos dois irmãos / num mesmo dia entremataram-se (coitados!), / fraternas mãos em ato de extinção recíproca. / Agora que restamos eu e tu, sozinhas, / pensa na morte inda pior que nos aguarda / se contra a lei desacatarmos a vontade do rei e a sua força. E não nos esqueçamos / de que somos mulheres e, por conseguinte, / não podemos enfrentar, só nós, os homens. / Enfim, somos mandadas por mais poderosos / e só nos resta obedecer a essas ordens / e até a outras inda mais desoladoras. / peço indulgência aos nossos mortos enterrados / mas obedeço, constrangida, aos governantes; / ter pretensões ao impossível é loucura.
ANTÍGONA – Não mais te exortarei e, mesmo que depois / quisesses me ajudar, não me satisfarias. / Procede como te aprouver; de qualquer modo / hei de enterra-lo e será belo para mim / morrer cumprindo esse dever: repousarei / ao lado dele, amada pro quem tanto amei / e santo é o meu delito, pois terei de amar / aos mortos muito, muito tempo mais que aos vivos. / Eu jazarei eternamente sob a terra / e tu, se queres, foge à lei mais cara aos deuses.
ISMENE – Não fujo a ela; sou assim por natureza; / não quero opor-me a todos os concidadãos.
ANTÍGONA – Alega esses pretextos, mas não deixarei / sem sepultura o meu irmão mais querido.
ISMENE – Ah! Infeliz! Quanto preocupação me causas!
ANTÍGONA – Não deves recear por mim; cuida de ti!
“Antígona”, Sófocles, trad. Mário da Gama Kury.
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Apenas uma certeza, a situação atual não pode se manter
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| "Um copo de cólera" (1988). Dir. de Aluízio Abranches, com Alexandre Borges e Julia Lemmertz |
E quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão pra que eu entrasse com o carro, e logo que saí da garagem subimos juntos a escada pro terraço, e assim que entramos nele abri as cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com nossos olhos voltados pro alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e só foi mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” e como ela dissesse “mais tarde” eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.
“Um copo de cólera”, Raduar Nassar
*
A cena como um clarão
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| Kazuo Ohno em foto de Eikoh Hosoe |
A ação do pathos pressupõe resistência – choque brusco ou simples apatia – que tenta romper com ímpeto. O ritmo complicado no pathos não nos contagia (como na disposição anímica), e sim purifica a atmosfera com pancadas rudes como as de uma tempestade. A comoção patológica não necessita da consciência, nem saber de sua origem ou finalidade. Investe-se contra o status quo, mesmo sem querer, pois sente-se a tensão presente-futuro.
No texto dramático, palavras e gestos co-atuam; o leitor percebe arte e realidade co-atuantes. O personagem dramático ou herói patético consome-se em sua individualidade, arrebata-se pelo pathos, e o artista dramático deixa que as razões históricas sobreponham-se às estéticas.
No texto dramático, palavras e gestos co-atuam; o leitor percebe arte e realidade co-atuantes. O personagem dramático ou herói patético consome-se em sua individualidade, arrebata-se pelo pathos, e o artista dramático deixa que as razões históricas sobreponham-se às estéticas.
Staiger
14 de dezembro de 2010
Rebeldia épica - caminho mais importante do que meta
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| Circe transformando os homens de Ulisses em bestas - Giovanni Benedetto Castiglione |
O autor épico não avança para alcançar o alvo e sim, de antemão, dá-se um alvo, para onde ele avança, examinando tudo em volta atenciosamente. O herói épico demonstra reflexão. A força de sua alma atua tão livremente que ela pode separar uma onda por assim dizer dentre todo o oceano de sentimentos que lhe corre por todos os sentidos; pode sustê-la, dirigir a ela a atenção e tornar-se consciente de que percebe essa atenção. No texto épico, o caminho é mais importante do que a meta. (cf. Staiger em "Conceitos fundamentais da poética")
***
Na épica, não há como escapar do destino. O que o autor mostra é como, em cada ação por menor que seja, ele já está presente e atuante, tal como se percebe neste trecho da "Odisséia", de Homero, trad. Jaime Bruna:
Escapamos, por fim, aos rochedos e à terríveis Caríbdis e Cila. Chegamos logo à magnífica ilha do deus, onde havia belas vacas de fronte larga e muitas nédias ovelhas de Helio Hipérião. Então, ainda no mar, a bordo do escuro barco, ouvi os mugidos das vacas ao relento e os baldios das ovelhas. Assaltaram meu coração as palavras do cego adivinho, o tebano Tirésias, e as de Circe de Eéia, que tanto me recomendou evitasse a ilha de Helio, alegria dos homens. Falei, por fim, aos companheiros, com peso no coração:
- Escutai, companheiros, as minhas palavras, por mais que estejais sofrendo, para eu vos revelar os vaticínios de Tirésias e os de Circe de Eéia, que tanto me recomendou evitasse a ilha de Helio, alegria dos homens, pois ali, disse ela, está nosso perigo mais terrível. Por isso, tocai o negro barco ao largo da ilha.
Assim falei e o coração se lhe partiu. Prontamente me respondeu Euríloco com palavras odiosas:
- Tu és cruel, Odisseu; tens robustez incomum e teus membros não se cansam. Deves tê-los todos feitos de aço, tu que, em vez de permitires aos companheiros, mortos de cansaço e de sono, que ponham pé em terra, quando podemos preparar uma ceia saborosa numa ilha em meio das ondas, mandas continuar errando pela rápida noite, no brumoso mar, arredados da ilha. Nascem da noite os ventos ruins, perdição dos navios. Como se pode escapar a um fim abismal, se vier de surpresa uma borrasca de Noto, ou de Zéfiro violento, ventos que mais embarcações despedaçam até sem aprovação dos deuses soberanos? Não! Atendamos agora ao convite da negra noite; preparemos uma ceia sem nos afastarmos do ligeiro barco. Quando clarear, embarcaremos e singraremos o vasto mar.
Assim falou Euríloco e os demais tripulantes o apoiaram. Reconheci, então, que um deus meditava nosso infortúnio e, proferindo aladas palavras, lhes disse:
- Verdadeiramente, Euríloco, vós me constrangeis porque sou um só; eia, porém, prestai-me todos um poderoso juramento de que, se depararmos uma manda de vacas ou grande rebanho de ovelhas, ninguém por seu ruim desatino matará uma vaca ou uma ovelha, satisfazendo-vos com a comida que Circe imortal nos forneceu.
- Escutai, companheiros, as minhas palavras, por mais que estejais sofrendo, para eu vos revelar os vaticínios de Tirésias e os de Circe de Eéia, que tanto me recomendou evitasse a ilha de Helio, alegria dos homens, pois ali, disse ela, está nosso perigo mais terrível. Por isso, tocai o negro barco ao largo da ilha.
Assim falei e o coração se lhe partiu. Prontamente me respondeu Euríloco com palavras odiosas:
- Tu és cruel, Odisseu; tens robustez incomum e teus membros não se cansam. Deves tê-los todos feitos de aço, tu que, em vez de permitires aos companheiros, mortos de cansaço e de sono, que ponham pé em terra, quando podemos preparar uma ceia saborosa numa ilha em meio das ondas, mandas continuar errando pela rápida noite, no brumoso mar, arredados da ilha. Nascem da noite os ventos ruins, perdição dos navios. Como se pode escapar a um fim abismal, se vier de surpresa uma borrasca de Noto, ou de Zéfiro violento, ventos que mais embarcações despedaçam até sem aprovação dos deuses soberanos? Não! Atendamos agora ao convite da negra noite; preparemos uma ceia sem nos afastarmos do ligeiro barco. Quando clarear, embarcaremos e singraremos o vasto mar.
Assim falou Euríloco e os demais tripulantes o apoiaram. Reconheci, então, que um deus meditava nosso infortúnio e, proferindo aladas palavras, lhes disse:
- Verdadeiramente, Euríloco, vós me constrangeis porque sou um só; eia, porém, prestai-me todos um poderoso juramento de que, se depararmos uma manda de vacas ou grande rebanho de ovelhas, ninguém por seu ruim desatino matará uma vaca ou uma ovelha, satisfazendo-vos com a comida que Circe imortal nos forneceu.
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