19 de janeiro de 2014

Literatura e música - uma bibliografia

As referências abaixo foram indicadas pelo prof. Jorge Valentim, por ocasião de um curso na Escola de Música da UFRJ, em 2000.

I) Suporte teórico
ANDRADE, Mário de. Introdução à estética musical. SP:HUCITEC, 1995.
BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. RJ:Nova Fronteira, 1990.
________________. S / Z. RJ: NOva Fronteira, 1992.
BRANCO, João de Freitas. "Música e literatura - segmentos de uma relação inesgotável". In: Colóquio/Letras. Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 42:21-35,1978.
COOK, Deryck. The language of Music. Oxford: Oxford University press, 1989.
DAHLHAUS, Carl. Estética musical. Lisboa: Edições 70, 1991.
DIAS, Rosa Maria. Nietzche e a música. RJ: Imago, 1994.
DORFLES, Gillo. O devir das artes. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
FONSECA, Aleilton. Enredo romântico, música ao fundo. RJ: Sette Letras, 1996.
HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos dons. RJ: Jorge Zahar, 1988.
LANGER, Sussane K. "Da significação da música". In: Filosofia em nova chave. SP: Perspectiva, 1999.
_________________. "O símbolo do sentimento". In: Sentimento e forma. SP: Perspectiva, 1999.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Olhar. Escutar. Ver. SP: Companhia das latras, 1997.
NATTIEZ, Jean-Jacques. Music and Discourse: Toward a Semiology of Music. New Jersey: Princepton University Press, 1990.
NETROVSKI, Arthur Rosenblat. Debussy e Poe. Porto Alegre: L&PM, 1986.
ROSEN, Charles. Sonata Forms. New York:Norton&Company, 1988.
_____________. The Romantic Generation. Cambridge: Harvard University Press, 1998.
SAID, Edward. Elaborações musicais. RJ: Imago, 1992.
SANTIAGO, Silviano. "A estrutura musical no romance". In: Nas malhas da letra. SP: Companhia das Letras, 1989.
SCHOENBERG, Arnold. Fundamentos da composição musical. SP: EDUSP, 1993.
SEIXO, Maria Alzira. Semiologia da música. Lisboa: Veja, s.d.
SOURIAU, Étienne. A correspondência das artes: elementos de estética comparada. SP: Cultrix, 1983.
SOUZA, Carlos Mendes de. O nascimento da música: a metáfora em Eugénio de Andrade. Coimbra: Almedina, 1992.
STEINER, George. Linguagem e silêncio. SP: Companhia das Letras, 1989.
STRAVINSKY, Igor. Poética musical. RJ: Jorge Zahar, 1996.
VALENTIM, Jorge Vicente. Cântico infindável: a música como metáfora na ficção de Vergílio Ferreira. RJ: Faculdade de Letras, UFRJ, 1996. Dissertação de Mestrado.
WISNICK, José Miguel. O som e o sentido. SP: Companhia das letras, 1989.

II) Obras poéticas e ficcionais
ALVES, Rubem. Concerto para corpo e alma. Campinas: Papirus, 1998.
ASSIS, Machado de. "Trio em lá menor". In: Várias Histórias. Obra completa. RJ: Nova Aguilar, 1986, volII.
BERNHARD, Thomas. O náufrago. SP: Companhia das Letras, 1996.
CLÁUDIO, Mário. Guilhermina. Lisboa:IN-CM, 1992.
_______________. Tocata para dois clarins. Lisboa: Dom Quixote, 1992.
COTRONEO, Roberto. Presto com Fuoco. RJ: Record, 1999.
DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. RJ: Rocco, 1999.
DURAS, Marguerite. Moderato Cantabile. RJ: José Olympio, 1985.
FERNANDEZ, Dominique. Tribunal de honra. RJ: Record, 1999.
FERREIRA, Vergílio. Aparição. Venda Nova: Bertrand, 1994.
_________________. Cˆântico final. Venda Nova: Bertrand, 1985.
_________________. Em nome da terra. Venda Nova: Bertrand, 1991.
_________________. Para sempre. Venda Nova: Bertrand, 1990.
FONSECA, Rubem. O selvagem da ópera. SP: Companhia das Letras, 1995.
GERSÃO, Teolinda. Os teclados. Lisboa: Dom Quixote, 1999.
GIDE, André. Les faux-Monnayeurs. Paris: Gallimard, 1969.
HÄSTLING, Peter. A sombra de Schumann. RJ: Record, 1999.
HUXLEY, Aldous. Contraponto. Porto Alegre: Globo, 1945.
JOYCE, James. Música de câmara. SP: Iluminuras, 1998.
LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 2: o ensaio de música. Lisboa: Rolim, 1994.
MANN, Thomas. A montanha mágica. RJ:Nova Fronteira, 1993.
MARTINS, Albano. Rodomel. Rododendro. Lisboa: Quetzal, 1989.
MÖRIKE, Eduard. Viagem de Mozart a Praga. Porto Alegre:L&PM, 1991.
PEPETELA. Lueji. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
_________. O desejo de Kianda. Lisboa: Dom Quixote, 1995.
SENA, Jorge de. "Arte de música". In: Poesia II. Lisboa: Edições 70, 1988.
TUNSTRÖM, Göran. Oratório de natal. RJ: Nova Fronteira, 1996.
VERÏSSIMO, Érico. "As mãos de meu filho & Sonata". In: Contos. SP: Globo, 1994.
________________. Solo de clarineta. SP: Globo, 1995, 2 vls.
________________. Caminhos cruzados. SP: Globo, 1996.
________________. Música ao longe. SP: Globo, 1996.

LA CATHÉDRALE ENGLOUTIE, DE DEBUSSY - Jorge de Sena

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson do Terrail, o Campos Júnior, o Verne e Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.
 
Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
 
Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.
 
Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida, e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se irisa em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.
 
Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.
 
Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
Piano: François-Joël Thiollier

Catulo etc.

O título do texto é "De Catulo a Simão Pessoa - dois mil anos de poesia e escracho". São oito páginas. Tenho-o desde 1995 mais ou menos. Não quis jogá-lo fora. Mas estamos em 2013. Preservo-o? Preciso limpar as gavetas. Achei que o texto era de uma amiga minha e só no final descobri o seu autor: Zémaria Pinto. Não sabia quem era e fui pesquisar. Mas não falarei sobre ele. Vou simplesmente transcrever algumas das partes deste seu texto. Dou-me por satisfeita de falar em nomes como Catulo etc.

Odeio e amo. Talvez perguntes por que faço isso.
Não sei, mas sinto que me acontece e me torturo.
(trad. Paulo Sérgio de Vasconcelos)
Diz Zémaria:
Caius Valeriu Catullus (87-54 a.C.) foi a expressão máxima daqueles a quem o azedo Cícero chamou desdenhosamente de "poetas novos", jovens que preferiam as formas breves, preconizadas há 300 anos pelos alexandrinos, às longas e invariavelmente chatas epopeias.

Nota da transcritora: discordo. Epopeias nem sempre são chatas. E há muuuuitos poetas novos bem maçantes, principalmente por serem autorreferentes demais.

Havia nos novos poetas romanos ecos de um tempo ainda mais distante: Safo, poeta grega, de Lesbos, século VII a.C., foi descarada e amorosamente copiada por catulo, que a homenageou nomeando sua musa como Lésbia.

Mas o lírico refinado é também o introdutor na cultura latina de uma linguagem sarcástica e ferina, no limiar do que os convencionais [...] chamariam de chula.

Te peço, minha doce Ipsilila,
delícias minhas, graça, mimos meus,
ordena, que finda a sesta, eu te procure,
e caso ordenes, cogita tais cuidados:
despe de trava ou tranca a tua porta,
não te assaltem coceiras de sair.
Mas fica em casa, em raro preparo
de nove, gota a gota, nove fodas.
Se assim quiseres, pressa!, não hesites,
que eu, já almoçado, e farto à farta,
perfuro a um só tempo toga e túnica!

(Trad. Luiz Antônio de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda)

***
Ameana, mulher super-usada,
me pediu a quantia de diz mil!
Uma mulher de nariz grotesco,
amante de um caipira sem dinheiro!
Parentes, que se preocupam com a moça,
chamem os amigos e os médicos:
a moça está doente. E nem precisa
perguntar o que é: ela delira!

(Trad. Zélia de Almeida Cardoso)

***
Ah! Célio, a nossa Lésbia, aquela Lésbia,
a própria Lésbia a quem Catulo amou
mais que a todos os seus, mais que a si próprio,
agora, nas encruzilhadas e nos becos,
esfola os netos do magnânimo Remo.

(Trad. Luiz Antônio de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda)

***
Imundo puteiro, e vocês, companheiros de putaria
(nona pilastra depois do templo dos irmãos de barrete),
pensam que só vocês têm culhões,
podem comer tudo quanto é moça
e que os outros não passam de bodes?
(...) Pois a minha menina, que fugiu dos meus braços,
amada tanto quanto nenhuma será amada,
pela qual travei tantas batalhas,
senta-se aí, com vocês.
Com ela, vocês todos, nobres e ricos,
fazem amor e, contudo, o que é uma indignidade,
são todos mesquinhos e depravados da sarjeta (...)

(trad. Paulo Sérgio de Vasconcelos) 

***
Depois  de outros exemplos, Zémaria cita Marcial, cronista do primeiro século da era cristã e salta até Gregório de Mattos. Passa por Bocage (1765-1805), que carnavalizou o soneto, chegando a Simão Pessoa, que é pra lá de machista e escrachado. Esse ainda anda por aí na lida da dessacralização. Segundo Zémaria, em sua poesia há registros de uma insuspeita alegria em alguns poemas do livro Carajo:

Ivo ganhou uma ave
a ave de Ivo voa
baleei a ave do Ivo
Ivo ficou puto
Ivo me dedou pro velho
Ivo é um viado

***
O cravo transou a rosa
debaixo de uma sacada
o cravo saiu sorrindo
a rosa descabaçada

***
Súbito aguaceiro

Libertam-se libélulas
crisálidas de cristal
sob sol insólito

e eu meio bundão
cansado de fazer
tanta aliteração

***
Flores de cerejeira

Olho para as flores
Olho e as flores caem
Olho e as flores riem

Brincadeira:
nessa porra de cidade
nem existe cerejeira!

***
Resta saber se Safo era mesmo uma adepta do poema-escracho. Mas por ora volto às gavetas para de lá retirar raspas de textos, lembranças de outros Catulos etc.
http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2012_10_01_archive.html

14 de janeiro de 2014

História do primo Lobinho

Extraída da crônica "Livros, leitores e antileitores" de Roberto da Matta,
em O Globo de 09 de novembro de 2011

Meu colega e amigo, o cientista político Eduardo Raposo, ouviu de seu primo Lobinho a seguinte história: um sujeito chega numa biblioteca e pede um livro de botânica. O funcionário prontamente lhe apresenta, com um sorriso alvar, "Raízes do Brasil".

Na tal biblioteca, encontram-se nas estantes:
"O idiota", em psicologia
"A interpretação dos sonhos", na de esoterismo
"Sobrados e mocambos", catalogado como engenharia
"A montanha mágica", astrologia
"Memórias póstumas de Brás Cubas", kardecismo
"Lolita", na lista de livros para moças
"A guerra das salamandras", em história militar
"Cem anos de solidão", prateleira de geriatria
"O cru e o cozido", culinária
"Hamlet", receitas inglesas
"Madame Bovary", pornografia
"Os Maias", etnologia centro-americana
"A neves de Kilimanjaro", setor de clima e ecologia
"As viagens de Gulliver", turismo
"O poder e a glória", política
"Carnavais, malandros e herois", listado tanto nas obras devotadas às escolas de samba quanto na prateleira de fraudes e contravenções
Fonte: Vida e Estilo

25 de dezembro de 2013

De volta ao Dever, de Armando Freitas Filho

Espelho meu

Imaginar um irmão idêntico
para brincar na hora morta
quando ainda treme o Inesperado
é fraqueza e fraude de filho único.
Com o espelho à mão, sob controle
o Indivisível finge dividir-se
e por uma osmose de brincadeira
pensa que sente o mesmo de quem se doa
sem dor e avareza, livre do Narciso
do Ciúme, do Crime, de Caim e Abel.

XIX (série "Noturnos")

Beijo seu arco. Recebo sua flecha.
O prazer é machucado, fruto de traição.
A dor do dia deve ser adiada. A noite
tem que custar, mesmo que não se durma
mesmo em claro, durar, no atol escuro.

30 de setembro de 2013

Dever, de Armando Freitas Filho ou O horrível dever é ir até o fim.

A segunda parte do título acima refere-se à epígrafe escolhida por Armando para o seu livro Dever. Durante cerca de dez dias, fiz-me acompanhar dele em noites silenciosas e escuras em Mofreita, Trás-os-Montes, Portugal. Ao final, escrevi este texto, num sopro.

Na parte denominada "Numeral", uma sequência que neste livro ressurge com o poema número 101, o tom é reflexivo. A poesia está ali, urdida de um jeito sério, pensada durante dias antes de ser posta no papel como peças maquinadas reloginhos maquinetas pensativas sobre o tempo, os números, influências e outros assuntos tão difíceis que não se pode nem nomeá-los. A poesia de Armando Freitas Filho destaca-se com mais força nesta e na parte inicial, denominada "Suíte", em que o livro Dever começa com lembranças, e então é tudo fácil. Parece um dever escolar, o de escrever sobre a infância, os brinquedos, os pais, a casa, todo mundo tem de escrever sobre isso. Em "Numeral", a parte indagante, cada poema é datado. Os meses estão em algarismos romanos; os dias e os anos, em arábicos. Por que será? E assim se leem os poemas de Armando, com uma sensação de inteligência não completamente captada. Enquanto na primeira parte a linguagem é tão fácil que chega a ser condescendente; na segunda, as construções são enigmáticas e elípticas. Bom, aí está um velho poeta envolto em suas possibilidades, elásticas e recidivas.

Vale a pena relê-lo. Ainda bem que o trouxe de volta. Na segunda leitura, aproximando-me dos poemas com mais familiaridade, minha aposta é que muito do Dever se converterá em Prazer. 
Bia Albernaz


Avaliação
                        para Rita

"Infantil." Quando em voz baixa
a ferida foi nomeada, ela
começou a sangrar, ininterrupta
para quem a sofria sem saber
se era dor ou aprendizado.

A vida da ferida era sua vida
mais castigo do que crime
copiada desde o começo:
dever de caligrafia em caderno
pautado sobre a carteira
que estendeu sua tábua
até a mesa do escritório.

A letra inicial foi se formando
através de sete décadas, e continua
corrigindo o tremor da primeira folha
e chega à de hoje, tremida
por outro motivo e sentimento.


Ida ao porão

Do dia para a noite
a escada começa
a cair, sem recorrência:
os degraus desiguais
de descida são lentos
de repente, rápidos
porque esquecidos
escorregadios, finais
mas sempre arrastados
os passos que chegam
na terra do porão
sob a luz que falta
da noite para o dia.

Da série "Numeral"
105.
O corpo, calçado à força sem saber
é a armadilha: ando para frente
mas o espelho contrário se interpõe
e me rmete, retrovisor, não vidente
para o difícil andamento dos dias
contados  – os que foram, os que faltam.

28 VI 2007

136.
O "fim" manuscrito de Drummond
numa folha, depois da morte da filha
difere daquele firmado por Proust
pois foram escritos com diferentes fins:
o primeiro tinha a dicção, o peso
de um bilhete de suicida, o outro
fechava os cinco sentidos, o sexto
e o sétimo volume, para sempre.

18 IX 2009
 

Entre o De Vera e o Deverá - da literatura como chamado

O que foi feito deverá (Milton Nascimento)
O que foi feito, amigo,

De tudo que a gente sonhou

O que foi feito da vida,

O que foi feito do amor

Quisera encontrar aquele verso menino

Que escrevi há tantos anos atrás

Falo assim sem saudade,

Falo assim por saber

Se muito vale o já feito,

Mas vale o que será

Mas vale o que será

E o que foi feito é preciso

Conhecer para melhor prosseguir

Falo assim sem tristeza,

Falo por acreditar

Que é cobrando o que fomos

Que nós iremos crescer

Nós iremos crescer,

Outros outubros virão

Outras manhãs, plenas de sol e de luz

O que foi feito de Vera (Milton Nascimento e Fernando Brant)
Alertem todos alarmas

Que o homem que eu era voltou

A tribo toda reunida

Ração dividida ao sol

De nossa vera cruz

Quando o descanso era luta pelo pão

E aventura sem par

Quando o cansaço era rio

E rio qualquer dava pé

E a cabeça rodava

Num gira-girar de amor

E até mesmo a fé

Não era cega nem nada

Era só nuvem no céu e raiz

Hoje essa vida só cabe

Na palma da minha paixão

De vera nunca se acabe

Abelha fazendo o seu mel

No canto que criei

Nem vá dormir como pedra

E esquecer o que foi feito de nós

          O tempo passado abre para o futuro, na canção Deverá. O tempo passado abre para o presente, na canção De Vera.
          Na primeira, o passado íntimo se abre para o futuro mundano (do eu subjetivo para o self, como presença que participa). A crença funda este dizer. A fala presente só acontece pela escuta do passado ou pela cobrança em relação às suas dívidas e promessas. Esse cobrar possui uma carga de sentimento, de dever não cumprido, como uma missão ou uma destinação que precisa ser realizada. A cobrança do passado, nesse caso, necessita acontecer de modo a abrir perspectivas, a cumprir o desígnio daquilo que somos. A dúvida dá lugar à fé. A fala acontece por conta dessa crença e o “verso menino”, junto com o sonho, não pode mais ser encontrado, nem suspirado, pois transformou-se em desejo. Assim, não se lastima a perda da infância, já que ela dá lugar a um saber e não ao nada. Sabe-se – e a mensagem do autor é dirigida a um amigo também afetado pelo mesmo pensar-sentir – que o valor do ser está em seu devir, no prosseguir que, de qualquer modo irá se realizar, mas que será melhor realizado, intensificado, plenificado, acompanhado de crescimento do mesmo pensar-sentir, caso se cobre o ser passado que fomos, não para pagar dívidas mas para reencontrar esse mesmo menino que se transforma em outro outubro, outra primavera, outra revolução. A canção do Deverá otimiza o sol, crê no sol e na luz que nos torna plenos (ironicamente, pensa-se no superaquecimento).
          A canção de Vera começa com um alerta, não mais a um amigo mas a todos. O sol ainda presente. O passado ainda presente. O passado que sempre retorna. Isto é um dado. Não se pode fugir do que fomos. Mas o que fomos? Todos, habitantes da maiúscula Vera Cruz e da minúscula vera cruz, da pátria antiga e tribal e da verdade esmagada pela exigência e cristalização do sacrifício da tribo que dividia a ração, que descansava enquanto lutava pelo pão, que mergulhava em rios feito na medida do seu corpo. E a visão ainda um pouco romântica deste passado emenda novas visões: aventura, rio, a cabeça a rodar e a fé nada metafísica ou transcendental pois era fé feito nuvem no céu e raiz. Vida puramente imanente que hoje, admite o autor, transforma o eu-lírico em eu-vigilante e desperto, e também num eu-lamentador do presente, que só existe como pathos, como expressão da paixão pela pequena Vera na palma da mão. Essa vida passada e apequenada, para não desaparecer, tornou-se abelha com a ajuda do poeta que, ao lhe aproximar dessa forma, lhe recria. E que aconselha: cuidado para não esquecer, para não dormir e se transformar em pedra. A canção termina assim, com um apelo a todos, não somos pedras a dormir.
***
          O tempo em que descanso e luta se dão ao mesmo tempo é o tempo da narração. Walter Benjamin apresenta assim esta atividade que tem como figuras arcaicas o viajante e o camponês, narradores arquetípicos que, com o passar dos tempos, foram misturados em um só personagem, nas oficinas de artesãos, em trabalhos repetitivos e algo entediantes, mas propiciadores do encontro e do reconto. A arte de narrar é uma experiência em extinção nos alerta Benjamin. Quem era o narrador? Quais as suas qualidades? Agora só o vemos à distância, diz o autor, como um corpo que se vislumbra no alto de um rochedo. Mas sabemos (ou cremos) que, sendo típica do artesão, a arte da narrativa coordena alma, mão e olhar; não é produto exclusivo da voz.
          A mão ou corpo intervém com a materialidade dos gestos aprendidos na lida, e sustenta o fluxo do que é dito. A relação entre o narrador e sua matéria – a vida humana – é uma relação artesanal. E acrescenta Benjamin: “o narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer. Seu dom é contar sua vida; sua dignidade é conta-la inteira.”
          O que contar? Tudo que reside na memória. Reviver a experiência será possível? Ela nos chama, a própria memória se tornou uma experiência. O presente passa tão rápido, o futuro é tão incerto. Seduzidos pela memória é o titulo de um livro de Andréas Huyssen. Precisamos mais do que nunca do passado para temporalizarmos nossa existência.
          A prosa nos ajuda a viver o tempo, com o tempo e no tempo, para não sermos engolidos por ele, pois – por mais que desejemos – o tempo persiste e nos engole.
          A poesia abre o espaço para que essa existência demore, no sentido dado por Heidegger, para podermos habitar cada lugar, para sermos nós próprios lugares de afeto, para cumprirmos a missão de vera. E mesmo que só a saibamos pelo sentimento, mesmo que a reinventemos, assim narrada, retransmitida, essa missão se tornará um outro deverá.
          Termino com um poema de Drummond, cujo titulo “O chamado” enfeixa o que disse até agora, remetendo a evocação como uma vocação. Não acrescentarei aqui nenhuma leitura sobre este mesmo poema. Deixo-o na zona da sombra e esperando que ele acompanhe a todos como um desejo, um convite, uma suspeita. Aqui estamos por algo. O que nos chama? Como nos chamamos? Vamos chamar o mundo, a todos, ao amigo, para pensar-sentir?
Bia Albernaz 

O CHAMADO

(Carlos Drummond de Andrade, em “Claro enigma”)

Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai – a que angra serena,
a que Parságada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o riso desejado
o chamavam sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.