26 de fevereiro de 2011

Para repensar a inspiração

Bia Albernaz
É muito comum ouvir que, na escrita literária, 5% cabem à inspiração, e que o resto é trabalho, com o intuito de desmistificar a idéia de que arte se faz “de papo pro ar”. Mas tente escrever algo contando apenas com os 95% de expiração. Essa proporção é forçada, sobretudo se reconhecermos que – fundamental – a leitura é inspiradora. Com que porcentagem de leitura, afinal, se escreve um texto?

Começamos a escrever um texto a partir do que desconhecemos. Focamos aquilo que não se encaixa, mas que sabemos ser um começo. Saber é crença, como afirma Duchamps. Se juntarmos o que não se encaixa com o que se acredita, podemos começar. De um lado, os senões da realidade; do outro, a participação, o envolvimento, a fusão do eu ao outro. Impossível dizer onde começa ou onde termina um texto. A inspiração mantém-se intermitente, como um sabiá que é preciso às vezes realimentar, pelo desejo de tornar a ouvi-lo.
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Manifesto do movimento expressionista Die Brucke (A ponte), que procurava estabelecer uma ligação entre o visível e o invisível.

25 de fevereiro de 2011

Na primeira frase, a cena

          Meu último natal
Marcelino Freire
          Aí o Leco resolveu matar o Papai Noel. De verdade. dar uma pedrada na cabeça dele assim que ele chegasse. Não pela chaminé, que não havia. pela janela do barraco. Aquela encruzilhada de esgoto. Como viria? Voando?
          Leco ficou esperando. O olho grudado no alto. Apertando o pedaço de paralelepípedo. Também trouxe uma faca, caso fosse preciso. Ou se o velho gordo revidasse. E gritasse. Eu disse para o Leco. Papai Noel não grita. Faz só ho, ho, ho. Leco riu, meio apressado. E me disse que papai Noel era rico. Eu disse que não era. Leco disse que era. Papai Noel era dono de uma fábrica. E vinha de longe. De um país cheio de neve. País pobre não tem neve. E Papai Noel era gordo. Muito gordo. E sorria. Era um homem muito rico, sim. Por isso fazia ho.
          Tudo começou porque a mãe do Leco falou que Papai Noel não traria a motoca. Era uma motoco muito cara. E outra: Leco nunca foi um bom menino. Xinga a mãe por qualquer coisa. Um dia, cuspiu na cara da vizinha. O máximo que ele poderia ganhar, adivinha. Uma bola. Velho pão-duro. No ano passado, trouxe uma boneca bem feia para a irmãzinha do Leco. Ele ficou revoltado. Para ele, um helicóptero torto. E o Leco não queria um helicóptero. Muito menos torto. Queria uma motoca. Grande. Uma que pisca-pisca. Vem até com capacete de polícia. [...]

O conto encontra-se no livro Rasif - mar que arrebenta, da Record, 2008.
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O  conto de Marcelino Freire começa com uma frase-cena. Só de ler "Aí o Leco resolveu matar o Papai Noel." já se visualiza, ainda que de modo impreciso e vário, uma cena. Mas, pela vítima, antecipa-se: Leco só pode ser um menino. É o início pelo meio, como sugere Tchecov. Retire-se o princípio e o fim em um conto - que ele seja só desenvolvimento. Em "Meu último natal", o fluxo é contínuo. As frases gotejam pela voz de um narrador infantil que conta da sua preocupação em ser cúmplice deste possível assassinato do bom velhinho. "A polícia dos Estados Unidos vai nos pegar. [...] Eu acho que eu sou um terrorista." O cenário surge em pinceladas rápidas, sem estancar o fluxo narrativo. Por entre frases de ação, detalhes como a janela miúda por onde o Papai Noel terá de passar, a camisa do Flamengo - pedido de natal do menino-narrador -, a chuva forte a provocar o medo de uma invasão de lama no barraco, não deixam dúvida: tudo se passa em uma favela bem pobre.  No ritmo rápido que as frases curtas imprimem, misturam-se humor e crítica social sem discurso algum. Não há tempo. Nos três paragrafos que iniciam o conto, acima citados, se percebe também a inversão temporal na escrita do conto. Primeiro vem o efeito, depois a causa. Primeiro a decisão, depois as suas motivações. Este recurso promove ainda mais dinamismo ao texto. No final, o autor oferece uma chave para a compreensão do título. Nada de bandeja, mas sem hermetismo. Pela poesia, sobra ao leitor a oportunidade de ser um intérprete, de ser inteligente, sem precisar ser um intelectual. Vale a pena conferir o texto na íntegra.
O Coletivo Angu de Teatro apresenta o espetáculo RASIF – Mar que Arrebenta baseado em doze contos do autor pernambucano Marcelino Freire.
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Outros exemplos de meninos e meninas narradores em Graciliano Ramos, Gunther Grass, Clarice Lispector e Guimarães Rosa.  

21 de fevereiro de 2011

Tradução: traição?

Uma espécie de canção

Que a víbora espere sob
as ervas daninhas
e a escrita
se faça de palavras, lentas e rápidas,
prontas ao ataque, aguardando pacientemente,
em vigília.

_ e através da metáfora reconciliem
as pessoas e as pedras.
Compõe. (Ideias
só nas coisas) Inventa!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

William Carlos Williams (trad. de José Agostinho Baptista) em Antologia Breve

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A sort of song

Let the snake wait under
his weed
and the writing
be of words, slow and quick, sharp
to strike, quiet to wait,
sleepless.

_ through the metaphor to reconclie
the people and the stones.
Compose. (No ideas
but in thing) Invent!
Saxifrage is my flower that splits
the rocks.

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Tradução. Como não trair, se para a palavra weed, temos "erva daninha"? E sendo tão mais longa esta nossa expressão, como manter, no poema em português, o pronome possessivo que a acompanha no original em inglês? Snake é "víbora" ou "cobra" simplesmente? E o que dizer do jogo sharp to strike, quiet to wait? Por que não traduzi-lo por "agudas para atacar" e "quietas para esperar"? Sleepless não poderia ser "insones"? E, na segunda estrofe, Compose. (No ideas but in things) Invent!, não seríamos mais fiéis ao poeta se a tradução fosse "Compõe. (Não idéias mas nas coisas) Inventa!"?

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Ao procurar na internet se havia uma tradução brasileira para o poema, encontro em uma postagem do blog "mundo de K", a referência ao trecho "não há ideias senão nas coisas", e a capa de uma edição com tradução de José Paulo Paes. A conferir.

Em tempo: neste blog, há uma listagem de links preciosos.

18 de fevereiro de 2011

Laboratório Novas Histórias (Recado)

Cenário

          A cena e o cenário
Raimundo Carrero em O segredo da ficção
         Cena é ação de conflito, decisiva para a compreensão da história, representativa da movimentação dos personagens, mesmo quando muda. Silenciosa. Em geral, só há cena com a participação do personagem.
          Cenário é o local, a área ou o registro onde ocorre a cena, sem a participação ativa do personagem. O cenário sem personagem é, no máximo metafórico, registrando o olhar do personagem ou do narrador.
          As pessoas dizem sempre: "Essa foi a cena do crime". Não é verdade. "esse foi - ou é - o cenário do crime." Isso, sim. "Cena" pede personagem ativo. O teatro resolve esse problema com muita facilidade. Vejamos em O casamento suspeitoso, de Ariano Suassuna:

          Uma sala de casarão sertanejo. Portas para quartos e corredor. Uma grande mala ou um guarda-chuva. Estão em cena Cancão, Gaspar - que é gago - e o juiz Nunes.

          Com a maior clareza: o cenário é formado por "uma sala de casarão sertanejo. Portas para quartos e corredor. Uma grande mala ou um guarda-chuva". O autor adverte, logo em seguida, que estão em cena os personagens que vão promover a ação dentro do cenário - "Cancão - que é gago - e o juiz Nunes". A distinção é óbvia.
          Em geral, o cenário é fixo; a cena, dinâmica.

          O silêncio do cenário
          A seguir, um exemplo mais avançado de cenário. Observaremos que no cenário de Hemingway há referência a tropas, mas elas não estão em movimento. Apenas lembram os movimentos. Apenas. Não existe ação plena. Podemos dizer que há aí o cenário da guerra. E não a cena da guerra. Os personagens não interferem na história.

          As tropas de passagem pela estrada erguiam pó e o pó acamava-se sobre as folhas. Também o tronco das árvores vivia empoado. As folhas caíram cedo naquele ano. Víamos as tropas em marcha pela estrada sempre envolvidas numa nuvem de pó; e víamos as folhas caírem ao sopro do vento; e depois que os soldados passavam, a estrada estendia-se deserta e branca, só pintalgada das folhas secas.
          A planície abundava de plantações; muitos pomares, árvores frutíferas, e ao longe as montanhas pardas e descalvadas. A guerra nas montanhas as noites de clarões de artilharia. Clarões que lembravam os relâmpagos do verão, mas em contraste com o frio da noite e nenhum sinal de tempestade. (Adeus às armas)*

* Sem indicação de tradutor.
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          O conto "Cenários", de Sergio Sant'Anna, que abre o livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, apresenta uma sucessão de descrições completamente diferentes entre si. O leitor, do momento em que começa a se sentir envolvido e parece já estar no ponto certo para ser flagrado pelo irromper de uma cena de dentro do cenário descrito pelo narrador (sempre em 3a pessoa), recebe um pequeno tapa do autor, que aparece abruptamente para concluir: "não, não é bem isso", exigindo a escrita de um novo início.

          Um fio d'água caindo de um esgoto sobre um córrego da Baixada cheio de bolhas pestilentas, onde um rato passeia sobre um cadáver algemado e degolado e cuja cabeça, com cabelos soltos, lisos e grossos, de índio amestiçado, pertencendo a um desses homens que perderam sua raça e não encontraram outra - e por isso, talvez, buscava a si próprio nos crimes - pende ela do corpo também apenas por um fio, boiando numa correnteza quase imperceptível e à espera de que, com o calor e o roer do rato, possa desprender-se do corpo e descer rolando, vagarosamente, este arremedo de rio, encalhando aqui, soltando-se novamente ali, como a última marca de um homem cuja falta nunca será sentida, devorado até a última migalha pelos vermes e, mais adiante, pelos peixes que resistiram a tanto lixo, mas que persiste, ainda, este homem, como se quisesse fazer valer até o fim sua presença, em desprender do crânio durante as noites de lua em fogo fátuo, diante do qual as pessoas se benzem e fogem espavoridas?
          Não, não é bem isso.
Capa de Paulo Cesar Pereira, edição da Ática, 1982.
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Um cenário pode ter personagens que se movimentam, sem que isto signifique que alguma ação ou cena esteja em curso. Um rio também se movimenta mas pode simplesmente ser parte da paisagem. Um chafariz, o vento, uma pessoa fazendo ginástica, um menino andando no deserto podem ser parte do cenário, assim como alguém pode se tornar mais um móvel ou utensílio da casa. Toda ação deflagra uma mudança, o que dá ensejo ao encadeamento da narração.  A parada repentina do jorro de um chafariz, ou do sopro contínuo do vento,  a ocorrência de uma distensão em uma ginasta, o tropeço de um menino na deserto em uma raiz de um arbusto no meio de um deserto. Mas, parodiando Sant'Anna, talvez seja possível concluir: não, não é bem isso.

17 de fevereiro de 2011

O pequeno monstro (exemplo maravilhoso de personagem)

Clarice Lispector, em Fundo de gaveta
É o primeiro aluno da classe. Não brinca. (Seu segredo é um caracol.) O cabelo bem cortado, os olhos são delicados e atentos. Sua cortês carne de nove anos ainda é transparente. É de uma polidez inata: pega nas coisas sem quebrá-las. Empresta livros para os colegas, ensina a quem lhe pede, não se impacienta com a régua e o esquadro, não se comporta mal quando há tanto aluno desvairado.

Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol tratado com frio e torturante cuidado. Ele o cria numa caixa de sapatos com cuidado. Com gentileza, diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado, adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão.

"Deus está nos detalhes"

Grandes escritores constroem suas ficções esmeradamente com detalhes pequenos mas significativos que, pincelada por pincelada, pintam as imagens que procuram retratar, as realidades estranhas ou familiares de que esperam nos convencer[...].

Muitas vezes, um detalhe bem escondido pode nos dizer mais sobre um personagem - seu status social e econômico, suas esperanças e sonhos, sua visão de si mesmo - que uma longa passagem explanatória.
Francine Prose
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Um bom exercício seria procurar o(s) detalhe(s) que diferencia(m) e personalizam cada um destes rapazes:
Foto: Antonio Pinheiro