16 de agosto de 2020

O BRANCO LUNAR

Maria Tereza Albernaz 

Parecia que o sonho era inventado, mas gravei exatamente como tinha sido.

Estou caminhando ao ar livre e ao virar para uma pequena estrada, vejo uma paisagem esbranquiçada. Me deparo com montanhas de pedra branca, trilhas de pedra branca, mesmo casas feitas com a pedra branca. Não é um lugar nobre, nem pobre demais. Não encontro vida, folhagem, flor. A medida que avanço, percebo ao fundo um mercado, uma feira de todos os tipos de coisas sem cor. Velhos pálidos de cabeça branca e jovens macilentos amigavelmente exibem suas mercadorias. O único animal que vejo é um cachorro quase sem pelo, enrolado em um pano desbotado sendo acarinhado por uma moça que chora. Me abaixo para apanhar no chão pedaços de ossos, ensaio um meio sorriso e ela se afasta fazendo levantar sua ampla saia de uma alvura resplandecente. Sigo seu percurso e me vejo diante de um lago cristalino. Entro e me deito na água transparente, pura, fria. Nas proximidades um homem calvo lança um anzol e pesca um peixe brilhante. Os movimentos e sons desaparecem e as formas somem como um pássaro atrás das nuvens. Neste momento faz-se um vazio total entre a noite e o dia. Na alvorada, começo a afundar lentamente e respiro lívido de medo. Reviro-me de costas, estendendo os braços para alcançar um tronco que sirva de boia. Estou preso ali sentindo a sucção me puxar para baixo. Aterrorizado vejo ao meu lado a moça flutuando em sua brancura imaculada. Depois me acalmo e sou levado também pela morte.   

 

Acordei aliviado por sentir que minha reação ao sonho foi de tranquilidade e aceitação. 

Branco sobre branco. Kazimir Malevich, 1918.

6 de agosto de 2020

Conveniências

Ruth Lifschits

                 Padre, quero me confessar. 

            Não estou à beira da morte e nem mal da cabeça. Estou velha, só isso. Pequei, errei, é hora de acertar as contas. Não sei quanto tempo mais tenho por aqui, já-já me chamam para o andar de cima.

            Católica? Sim, fui. Não se espante, explico. Tive todo o preparo, instrução religiosa mas, lá pelas tantas, parei de praticar. Não que tenha perdido a fé, ela se voltou para um Deus sem igreja. Esse é um dos meus pecados, bem sei. 

            Padre, por favor me dê esse tempo, quero me confessar conversando. Sei que concordou em me ver nesse quarto onde moro. Preciso que me ouça. Pode ser? Ótimo. 

Quarto no Brooklin. Edward Hopper, 1932.

            Me casei duas vezes, a primeira, com vinte e poucos anos, com meu grande amor. De véu e grinalda, união abençoada por Deus. Benção?!, pois sim! Danilo morreu de tifo antes de comemorarmos dois anos de casados. Um jovem, trinta anos incompletos, um doce de pessoa. O segundo casamento foi só no civil, o Deus católico descartado, esquecido.

            Casei com um judeu. Surpreso? Devo contar isso como pecado? Vejo que o desassosseguei. Casei-me sabendo que teria muitos problemas. Os judeus não me queriam, e os católicos desaprovavam a união. 

            Aceitei, quer dizer, aceitamos enfrentar as dificuldades como parte da vida. E Jaime era dez anos mais novo do que eu, uma viúva com um filho pré-adolescente. Ah, não falei do filho? A morte de Danilo precipitou o nascimento do menino, prematuro, com quase 8 meses de gestação. Pulmões ainda não inteiramente formados, criança de risco. Deu trabalho, exigiu muitos cuidados que não dei. Entregue à minha dor, desistindo da vida, larguei meu filho com a minha mãe e a minha irmã. Eu não via sentido em viver. Sem meu amor?! Impossível. Cheguei a iniciar um suicídio num dia em que fiquei sozinha em casa. Enquanto o bebê dormia, fui para a cozinha, me ajoelhei diante do fogão, liguei o gás do forno e enfiei a cabeça lá dentro.  Comecei a respirar fundo quando ouvi o choro – forte, doído. Desisti de morrer naquela manhã. Ele chorava e esperneava. Tirei-o do berço e me sentei com ele numa cadeira de balanço. Ele foi se acalmando e, de repente, sorriu para mim. Esse sorriso me fez mãe, me conquistou. 

            Desse dia em diante, tudo que eu fazia, pensava, planejava era para ele. Tentativa de suicídio, pecado forte, não? Conversei muito com aquele pequeno ser, cheguei até a dizer que se o nome dele não fosse Danilo, como o do pai, seria Salvador. Ele sorria e emitia sons me ouvindo e tentando me imitar. Ficamos muito unidos. Tinha tempo para me dedicar a ele com atenção e mimos pois costurava em casa. Ganhava dinheiro vestindo senhoras chiques. Assim pude ajudar nas despesas e nos cuidados com Danilo e com minha mãe.

            A costura me trouxe o segundo marido, Jaime. Um dia ele me seguiu na Rua do Ouvidor até me ver entrar numa loja de tecidos e aviamentos finos onde todos me conheciam por ser freguesa. Lá conseguiu meu endereço com um vendedor e eu passei a notar um rapaz magrelo na minha rua, nos finais de tarde, me encarando sempre que eu chegava à janela. Nos aproximamos e começamos a nos encontrar na calçada. Eu sem saber muito sobre ele e ele sem saber que eu tinha um filho de 12 anos. Danilinho era semi-interno no Colégio São José, ali mesmo na Tijuca onde morávamos. Sim, concordo, os irmãos Maristas são excelentes educadores. O fato é que Jaime já tinha visto meu menino e pensava que fosse filho da minha irmã. Ela, dez anos mais nova do que eu, parecia ser a mais velha de nós duas. Minha genética me favoreceu, sempre aparentei menos idade. Até hoje é assim, é o que dizem. Quantos anos o senhor acha que tenho? Pode dizer, seja sincero. Oitenta? Não, completo noventa no final do mês. 

            Bem, continuando. Parece conversa mas é confissão, creia-me. Pensei muito antes de querer a sua visita. Digamos que ensaiei bem o que lhe falaria. Com Jaime, à medida que fui ficando íntima, e que o namoro ganhou ares de sério, resolvi contar tudo: minha idade, a viuvez, o filho. Ele não esperava por nada disso. Minha aparência jovem o enganara. Passou dias distante mas voltou e me disse que era judeu, não religioso, nunca praticante, mas que a sua família não veria com bons olhos nosso namoro e muito menos uma união. E concluiu dizendo que tinha 10 anos menos do que eu, mas não via problema nisso. Foi a minha vez de ficar mal. Terminei o namoro. Pedi a ele que não me procurasse mais. 

            Ficamos meses afastados até que ele voltou, decidido a enfrentar tudo. Eu tinha sentido falta dele, muita mesmo. Cheia de coragem, aceitei a reaproximação. Ele passou a frequentar a casa, jantando conosco algumas vezes por semana. Danilinho me tranquilizou. Me disse que eu já tinha sofrido muito, queria minha felicidade. Jaime garantiu que meu menino seria um filho para ele. Mas os dois nunca conseguiram se aceitar de fato. O senhor falou bem, padre – dois estranhos. 

            Nos casamos, vida simples com poucos recursos. Jaime era funcionário da Light, ganhava pouco. Após batalhar muito, conseguiu um emprego melhor em São Paulo. Danilinho preferiu continuar no Rio, com a tia e a avó. Jaime fez carreira nessa empresa. Seu crescimento na firma começou quando ele assumiu a gerência de uma filial no Sul. Chegamos a Porto Alegre com um filho de cinco anos e lá moramos por dez anos.            

            Vejo agora que aceitar Danilinho vivendo no Rio, longe de mim, me foi benéfico: a diferença de  idade entre Jaime e eu pôde não existir. Um filho adolescente seria a mesma coisa que ter a verdade escrita na testa. Também foi conveniente para ele que não precisou explicar um enteado, a mulher viúva e mais velha.  Funcionou bem para nós dois – casal jovem com filho pequeno, início de vida, era assim que nos viam. Nenhum preconceito nos ameaçando. Só o dele ser judeu. Não era possível esconder seu sobrenome. Mas, seu carisma dava conta disso com facilidade. Vendedor nato, soube divulgar uma imagem social positiva, vencedora. Em casa já era diferente: exigente com o filho e controlador em relação a tudo. 

            De minha parte, ao deixar de dar carinho e proteção ao meu primeiro filho, não me permiti dar carinho e mostras de amor ao segundo. Vejo isso agora. Um pouco tarde, não é? Atuava como uma governanta incansável, impecável: casa limpa, roupas limpas e bem passadas, comida boa na mesa, doces e bolos sempre ao alcance das vontades fora dos horários rígidos. 

            Como a família dele me tratou? Mal. Em reuniões, ainda bem que raras, muitos não me cumprimentavam, nem falavam comigo. Minha sogra me hostilizava e era muito crítica. Eu não acertava o ponto de nenhuma comida judaica, não fazia nada certo e nem do seu agrado. Riva, irmã de Jaime, me tratava bem, mas sempre desconfiei de suas intenções. Ela queria ficar próxima para me vigiar, ver se eu era boa para o irmão e o sobrinho. 

Quarto em Nova Iorque. Edward Hopper, 1932.

            E assim foi minha vida. Viajamos, fui companheira em eventos sociais, mantendo a pose de porto seguro de meu marido. Meu filho Raul, não foi batizado e nem comemorou Bar Mitzvá. Caberia a ele escolher uma religião, quando quisesse e se quisesse. Mas foi circuncisado. Jaime disse que seria por razões higiênicas, mas convidou os pais e irmãos, fingindo uma celebração judaica. Nunca o perdoei por isso. 

            Aí estão os meus pecados, padre.  Ah, tem mais dois, desculpe.  Dois abortos que fiz antes de Raul nascer. Por quê?! Ora, mal tínhamos como nos sustentar! Claro que me senti culpada, tenho sentimentos!  Era isso ou ver o casamento desabar.  Outro casamento interrompido?! Para mim, não! Me dispus a fazer de tudo para que meu segundo casamento fosse duradouro. E foi. Vivemos juntos 50 anos. Bodas de Ouro que não foram comemoradas porque ele estava bem doente, terminal. Danilinho já tinha falecido, seus filhos pouco me visitavam. Raul, esposa e filhos há anos morando no exterior. Ele veio para o enterro do pai, cuidou dos nossos bens, me instalou nesse lar de idosos e administra minha vida lá de Portugal. Nos falamos por telefone. 

            Sim, distantes. Conveniente, não é?

            Algo de curioso, não serve para nada mas acho interessante: Danilinho faleceu no dia do aniversário do padrasto e Jaime se foi no dia do nascimento de Danilinho. 

            Mereço perdão?

Brejal, 12/06/20

1 de agosto de 2020

A arte da ficção – Entrevista com Raymond Carver

por Mona Simpson e Lewis Buzbee

Trechos extraídos de “The Art of fiction nº76”.

In: The Paris Review No. 88. Summer 1983*

Traducão de Daniel Willmer
Raymond Carver, 1984. Foto: Bob Adelman Archive

Raymond Carver, 1984. Foto: Bob Adelman Archive


ENTREVISTADORES – Então, de onde vêm suas histórias? Estou perguntando especialmente sobre as histórias que tem algo que ver com beber.

CARVER - A ficção que mais me interessa tem referência no mundo real. Nenhuma das minhas histórias aconteceu realmente, claro. Mas sempre há alguma coisa, algum elemento, algo que me dizem ou que testemunhei, que pode ser o início. Um exemplo: – Esse é o último Natal que você irá arruinar! Eu estava bêbado quando ouvi isso, mas lembrei. E mais tarde, muito depois, quando estava sóbrio, usando apenas aquela única linha e outras coisas que imaginei, imaginei tão precisamente que elas poderiam ter acontecido, fiz uma história – A Serious Talk [“Um papo sério”]. Mas a ficção que mais me interessa, a ficção de Tolstoy, Chekhov, Barry Hannah, Richard Ford, Hemingway, Isaac Babel, Ann Beattie e Anne Tyler, me parece autobiográfica até certo ponto. No mínimo, são referenciais. Histórias longas ou curtas não aparecem do nada. Isso me lembra uma conversa envolvendo John Cheever. Estávamos sentados em volta de uma mesa em Iowa City com algumas pessoas e ele ressaltou que, depois de uma briga familiar em sua casa uma noite, na manhã seguinte ele levantou e foi ao banheiro e encontrou algo que sua filha havia escrito com batom no espelho do banheiro: – Q-u-e-r-i-d-o papai, não nos deixe. Alguém à mesa então tomou a palavra e disse, – Reconheço isso de uma de suas histórias. Cheever disse, – provavelmente. Tudo que escrevo é autobiográfico. Agora, claro que não é verdade, literalmente. Mas tudo que escrevemos é, de algum modo, autobiográfico. Eu não me incomodo nem um pouco com ficção autobiográfica. Ao contrário. On The Road. Céline. Roth. Lawrence Durrell no Quarteto de Alexandria. Hemingway nas histórias de Nick Adams. Updike também pode apostar. Jim McConkey. Clark Blaise, um escritor contemporâneo cuja ficção é de fora-a-fora autobiográfica. Claro, você tem que saber o que está fazendo quando transforma suas histórias de vida em ficção. Você tem que ser imensamente ousado, muito habilidoso e imaginativo, e disposto a contar tudo sobre você.  Uma e outra vez é dito a você quando jovem que você deve escrever sobre o que conhece, e o que você conhece melhor do que seus próprios segredos? Mas, a não ser que você seja um tipo especial de escritor, e muito talentoso, é perigoso tentar escrever, tomo sobre tomo, a “História da minha vida”. Um grande perigo, ou ao menos uma grande tentação, para muitos escritores é se tornarem autobiográficos demais na abordagem de sua ficção.  Um pouco de autobiografia e muita imaginação são o melhor.

ENTREVISTADORES - Os seus personagens estão tentando fazer algo importante?

CARVER - Acho que estão tentando. Mas tentar e ter sucesso são duas coisas diferentes. Em algumas vidas, as pessoas sempre têm sucesso. E acho ótimo quando acontece. Em outras, as pessoas não têm sucesso no que tentam fazer, nas coisas que mais querem fazer, as grandes e pequenas coisas que dão suporte à vida. Essas vidas são, é claro, válidas para se escrever, as vidas das pessoas mal sucedidas. A maior parte da minha experiência, direta ou indireta, tem a ver com a última situação. Penso que a maior parte de meus personagens gostaria que suas ações valessem para alguma coisa.  Mas, ao mesmo tempo, chegaram ao ponto – como muita gente chega – de compreenderem que não é assim. Não dá mais certo. As coisas que alguma vez acharam importantes ou mesmo que valessem a pena não valem mais um centavo. É com suas vidas que estão desconfortáveis, vidas que veem se quebrando. Gostariam de acertar as coisas, mas não conseguem. E de modo geral sabem disso, eu acho, e depois disso, fazem o melhor que podem.

ENTREVISTADORES - Poderia dizer algo sobre um dos meus contos favoritos da sua última coleção? De onde veio a ideia original de “Por que não dançam?” [Why Don’t You Dance?]?1

CARVER - Estava visitando uns amigos escritores em Missoula no meio dos anos 1970. Estávamos todos sentados bebendo e alguém contou uma história sobre uma barmaid chamada Linda que uma noite se embebedou com seu namorado e decidiu colocar toda sua mobília de quarto no quintal. E o fizeram, até o tapete e o abajur, a cama, a mesinha de cabeceira, tudo. Havia quatro ou cinco escritores na sala, e depois que o sujeito terminou de contar a história, alguém disse, – Bem, quem vai escrevê-la?  Não sei quem mais possa tê-la escrito, mas eu escrevi. Não então, mas depois. Quatro ou cinco anos depois, acho. Mudei e acrescentei coisas, claro. Na verdade, foi a primeira história que escrevi depois de parar de beber.

ENTREVISTADORES - Como são seus hábitos de escrita? Você está sempre trabalhando numa história?

CARVER - Quando escrevo, é todo dia. É lindo quando isso acontece. Um dia se mesclando com o próximo. Às vezes nem sei o dia da semana. “A cantareira dos dias” [paddle-wheel of days}, como chamou John Ashbery. Quando não estou escrevendo, como agora, quando estou amarrado com tarefas de ensino como tenho estado, é como se nunca tivesse escrito ou tivesse desejo de escrever. Passo a ter maus hábitos. Fico acordado até tarde e durmo demais. Mas tá bem. Aprendi a ser paciente e tomar meu tempo. Tive que aprender isso há muito tempo. Paciência. Se acreditasse em signos, suponho que meu signo seria a tartaruga. Escrevo aos trancos e barrancos.  Mas quando estou escrevendo, fico muitas horas na escrivaninha, dez ou doze horas de cada vez, todos os dias. Adoro quando isso acontece. Muitas dessas horas de trabalho, compreendam, é para revisar e reescrever. Existe pouca coisa de eu goste mais que pegar uma história que estava pela casa por um tempo e retrabalhá-la. É o mesmo com os poemas que escrevo. Nunca tenho pressa em enviar algo logo depois de escrever, e às vezes guardo pela casa por meses fazendo isso ou aquilo, tirando isso e pondo aquilo.  Não leva muito tempo para fazer o primeiro rascunho da história, isso normalmente acontece em uma sentada, mas leva um tempo para as várias versões dela. Já fiz vinte ou trinta rascunhos de uma história. Nunca menos que dez ou doze esboços. É instrutivo e encorajador ver os primeiros rascunhos de grandes escritores.  Estou pensando nas fotos de provas pertencentes a Tolstoi, para nomear um escritor que amava revisar. Quero dizer, não sei se ele amava ou não, mas fazia um bocado disso. Estava sempre revisando, até no momento das provas. Ele revisou e reescreveu Guerra e Paz oito vezes e ainda estava fazendo correções nas provas. Coisas assim devem ser um incentivo a todos os escritores cujas primeiras versões são horríveis, como as minhas.

ENTREVISTADORES - Descreva o que acontece quando você escreve uma história.

CARVER - Escrevo a primeira versão rapidamente, como falei. Isso é frequentemente feito à mão. Simplesmente completo as páginas tão rápido quanto posso. Em alguns casos, existe uma espécie de taquigrafia pessoal, notas para mim mesmo para o que vou fazer depois quando voltar a ele. Algumas cenas deixo inacabadas; não escritas em alguns casos; e que depois carecerão de atenção meticulosa. Quer dizer, tudo requer atenção meticulosa – mas algumas cenas deixo até a segunda ou terceira versão porque, para escrevê-las corretamente levaria muito tempo na primeira versão. Com a primeira versão, alinhavo o esqueleto da história.  Então nas revisões subsequentes faço o resto. Quando termino a versão à mão, datilografo a versão da história e continuo dali. Sempre parece diferente para mim, melhor, claro, depois de datilografar.  Quando estou datilografando a primeira versão, começo a reescrever, somar e eliminar. O trabalho real vem depois, após três ou quatro versões da história.  É o mesmo com os poemas, apenas que os poemas passam por quarenta ou cinquenta versões. Donald Hall me contou uma vez que às vezes escreve cento e poucas versões de seus poemas. Pode imaginar?

ENTREVISTADORES - Como sua forma de trabalhar mudou?

CARVER - As histórias de “Do que falamos quando...” [What We Talk About When We Talk About Lovesão, até certo ponto, diferentes. É um livro muito mais autoconsciente no sentido de quão intencional era cada movimento era, quão calculado. Puxei e empurrei e trabalhei com essas histórias antes que chegasse ao livro de um jeito que nunca tinha feito com qualquer outra história. Quando o livro foi composto e estava nas mãos do meu editor, não escrevi nada por mais de seis meses. E então a primeira história que escrevi foi “Catedral” [Cathedral], que eu sinto ser totalmente diferente na concepção e execução de qualquer história que veio antes. Suponho que reflita uma mudança na minha vida tanto quanto na minha forma de escrever. Quando escrevia “Catedral”, experimentei essa pressa e senti, – É sobre tudo isso, essa é a razão pela qual fazemos isso. Foi diferente das histórias que vieram antes. Havia uma abertura quando escrevi a história. Sabia que tinha ido para o outro lado o mais longe que pude ou queria, cortando tudo até a medula, não apenas até os ossos. Mais longe naquela direção e estaria num beco sem saída – escrevendo coisas e publicando coisas que não gostaria de ler, eu mesmo. Essa é a verdade. Na revisão do último livro, alguém me chamou de escritor minimalista. Para o crítico significava um elogio. Mas não gostei. Existe algo sobre minimalista que denota estreiteza de visão e execução de que não gosto. Mas todas as histórias no novo livro, chamado “Catedral”, foram escritas num período de dezoito meses; e em cada um deles noto essa diferença.

ENTREVISTADORES - Você tem alguma noção de um público? Updike descreveu seu leitor ideal como um rapazinho numa cidade do meio-oeste encontrando um de seus livros na estante de uma biblioteca.

CARVER - É simpático pensar num leitor idealizado por Updike. Excetuando-se as primeiras histórias, não acho que seja um rapazinho numa pequena cidade do meio-oeste que esteja lendo Updike. O que esse rapazinho faria de O Centauro [The Centaur], ou Casais Trocados [Couples], ou Coelho redux [Rabbit Redux] ou O Golpe [The Coup]? Penso que Updike escreve para a mesma audiência que John Cleever disse que escrevia, – homens e mulheres inteligentes, onde quer que vivam. Qualquer escritor que se preze escreve tão bem e tão verdadeiramente quanto pode, e espera um público tão amplo e perspicaz quanto possível. Então você escreve o melhor que pode, e espera ter bons leitores. Mas acho que você está escrevendo para outros escritores até certo ponto – os escritores mortos cujo trabalho você admira, assim como os escritores vivos que você lê. Se eles gostarem, os outros escritores, há uma boa chance que outros – mulheres e homens inteligentes também gostem. Mas não tenho aquele menino que você mencionou em minha mente, ou qualquer outra pessoa, quando estou escrevendo de fato.

ENTREVISTADORES - Quanto do que escreve você finalmente descarta?

CARVER - Muito. Se o primeiro esboço da história tem quarenta páginas, geralmente terá a metade quando eu terminar com ele. E não é só uma questão de cortar, ou diminuir. Tiro muito, mas também somo coisas e depois somo mais e tiro mais. É algo que adoro fazer, por e tirar palavras.

ENTREVISTADORES - O processo de revisão mudou agora que as histórias parecem ser mais longas e mais generosas?

CARVER – “Generosas” é uma boa palavra para elas. Sim, e te digo o porquê. Na escola, há uma datilógrafa que tem umas daquelas máquinas de escrever da era espacial, um processador de texto, e posso dar a ela uma história para digitar, e uma vez que ela o digitou recebo a cópia fiel. Posso marcar até o coração ficar contente e devolver para ela; e no dia seguinte recebo minha história de volta, uma nova cópia fiel. Então posso marcá-lo de novo o quanto quiser, e no dia seguinte terei de volta uma cópia fiel de novo. Adoro isso. Pode parecer uma coisa pequena, realmente, mas aquela mulher e seu processador de texto mudaram a minha vida.