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5 de março de 2012

Prêmio Off Flip 2012

Prêmio OFF FLIP de Literatura abre inscrições

Estão abertas até 30 de abril as inscrições para a sétima edição do Prêmio OFF FLIP de Literatura. Criado em 2006 como parte da programação literária da OFF FLIP, o Prêmio oferecerá aos poetas e contistas vencedores R$ 11 mil no total, além de estadia em Paraty, ingressos para mesas de debate da FLIP e cota de livros da editora Record.
Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro e os 30 finalistas serão publicados em coletânea pelo Selo Off Flip. A premiação acontecerá entre 4 e 8 de julho paralelamente à Festa Literária Internacional de Paraty. 
O regulamento pode ser lido no site do Prêmio: www.premio-offflip.net

1 de fevereiro de 2012

Dogs do Dan

Ruth Lifschits
          Daniel precisava de grana. Tinha namorada, queria fazer programas e se divertir. Mas, sem dinheiro? Tentara entrar para a Marinha, sonho de criança. Se via na  Banda dos Fuzileiros Navais, tocando seu sax-tenor dourado que a patroa da mãe lhe dera há cerca de quatro anos. Mas, não conseguira ser convocado e já passara da idade para tentar exames ou concursos para qualquer carreira militar. Tinha ouvido falar de músicos que tocavam no metro ou em esquinas do Centro ganhando  algum trocado dos passantes. Só que ele não tinha para as passagens. Sua mãe gastava oito reais por dia de condução indo e vindo do trabalho. Muito dinheiro! Onde morava não havia público para esse tipo de ganha-pão.  Continuaria tocando na banda da Igreja, de graça e  acompanhando o grupo nas viagens que o Pastor organizava. Era um bom jeito de praticar. O grupo já tinha até gravado um CD que o Pastor vendia por onde fosse. Por mais CDs que vendesse, continuava dizendo  que não havia lucro, só o suficiente para cobrir as despesas e gastos com a gravação.  
          “Estou com 20 anos, a banda militar já era. Tenho que trabalhar”.
E assim o jovem se atormentava nas horas vagas de seus dias, que eram muitas. Com segundo grau completo e cursinhos de computação no SENAC, tinha espalhado currículo por diversos lugares e nada. Já fizera bicos na padaria do bairro e aprendera a fazer pão. Sabia muito sobre encanamentos, conhecia um pouco de marcenaria e não se  considerava um mau pedreiro pois desde garoto se metia a ajudar   nas construções e reparos das casas do bairro. Bem que tentara fazer parte de uma equipe disposto a  enfrentar um canteiro de obras mas não conseguira. Sua mãe era diarista numa casa de família na Zona Sul do Rio, há mais de trinta anos. A irmã, um ano mais velha que ele, ficava em casa tomando conta do irmão de onze anos. Ele não queria essa vida, preso a uma casa, sob o controle da mãe. Ela era fogo, de olho neles, com medo de tudo e de todos. Para ela, na vizinhança só havia  bandidos e toda sorte de más tentações. Nada de bom poderia surgir em Jardim Primavera, na Baixada Fluminense.
          Seu Alípio, que Daniel via sempre na esquina da Igreja, era  um senhor simpático e falante que vendia cachorro-quente aos gritos de “cachorro bom é quente, não deixe esfriar”. O velho fazia ponto naquele local há anos. Daniel gostava de conversar com ele, falar de futebol. Os dois eram Vascaínos doentes. Seu Alípio gostava do rapaz, às vezes até lhe dava sanduíches quando havia alguma sobra em dias de vendas baixas. E, num  desses encontros, ele disse que queria vender a carrocinha e parar de trabalhar. Por  mil e quinhentos reais, o comprador levava a carrocinha com tudo dentro e o ponto estratégico: perto da Igreja e único caminho para a estação de trem.  
          “Pô, isso não é muito. Minha velha pode conseguir com a patroa dela. Eu pago depois”, logo pensou Daniel.
          Foi para casa  planejando e armando o bote. “Tenho que descobrir quanto ele faz por dia, quanto gasta. Tem muita coisa pra eu aprender.”
          E voltou lá no dia seguinte, e em vários que se seguiram,  só assuntando, como dizia a sua falecida avó. E conversou com Nando, amigo seu da banda de música da Igreja. Nando era flautista e desenhista. Era um grafiteiro de  mão cheia.
          Passados vários dias, era hora de levar o assunto até sua mãe. Postou-se na  entrada da subida do barranco,  atado ao portãozinho esperando a mãe voltar. Não conseguia despregar os olhos do caminho e nem sair daquele lugar. Quando a mãe apontou no final da rua, ele correu até ela. E  botou pra fora todos os planos, as contas que tinha feito, tudo. Em dois meses poderia pagar o empréstimo – desde que não tirasse nada, nem um centavo. Na verdade, ele precisaria de mais do que mil e quinhentos pois tinha que comprar todo o material para os sanduíches e mais o gás que não poderia faltar, pelo menos para a primeira semana. O que apurasse  supriria as necessidades da semana seguinte e assim por diante. A carrocinha precisava ser pintada, não só para apagar os traços do seu passado,  mas para que ela ficasse tinindo de nova e com a marca do novo dono. A logomarca. Nando faria o desenho para ele – já tinham bolado tudo juntos. Ele sabia tudo de letras e cores fortes que atrairiam o público.
          “E onde tu vai arrumar essa dinheirama toda?”
          Ao ouvir a resposta do rapaz, a mãe foi logo dizendo que não, que não tinha cara para pedir mais nada à dona Fábia. Não disse a ele que já devia  quase dez mil  - como iria pedir mais?
          Daniel não desistiu, aumentou a pressão. E durante o fim de semana os planos cresceram. Ele, muito entusiasmado e confiante viu a mãe menos resistente até que ela  começou a entrar na dele, a sonhar e imaginar tudo dando certo: ela saldando suas dívidas, ajudando o filho na empreitada, participando de tudo.
          “Posso fazer o molho e te ajudar nos dias em que não for trabalhar, aí a gente vende mais”, e tudo virou certeza.
          Daniel contou que seu Alípio gastava um bujão de gás por mês, trabalhando seis dias por semana. Em dias bons, geralmente os primeiros de cada mês, quando as pessoas tinham recebido seus salários, vendia até cem sanduíches. Em dias comuns, vendia de vinte e cinco  a quarenta sanduíches a dois reais e cinqüenta centavos  cada. O melhor horário era depois das cinco da tarde, quando as pessoas voltavam do trabalho, com as diárias no bolso e sem jantar esperando em casa. Nada de vender fiado, foi o primeiro conselho dado, e muito cuidado com vazamento de gás e panela no fogo por muitas horas, gastando gás a toa.  Primeiro se aquece a panela grande com o molho e depois ela vai para uma caixa de isopor e se mantém morna. Daí, é só ir tirando quantidades menores para usar na hora das vendas. Economiza-se muito gás com esse procedimento. Teria que começar com uns cinquenta  pães careca, três quilos de molho feito com bastante tomate picado, cebola, alho, pimentão e óleo, uns cem  saquinhos de papel, o mesmo tanto de guardanapos de papel e um pacote de luvas descartáveis. E o uniforme: jaleco branco e gorro.
          Foi dureza convencer a patroa. Ela não queria saber de empréstimos e pagamentos a perder de vista, ainda mais com dívidas pendentes. Mas, acabou cedendo pois queria ver o rapaz independente, ajudando a mãe e livrando-a desse peso. Fez mil perguntas, se era seguro, se o rapaz teria coragem de ficar na rua exposto a todos, com dinheiro das vendas e correndo riscos. Disse  que queria ver uma foto da carrocinha.
          “Muito cuidado, isso pode atrair assaltantes, é  perigoso”, finalizou a patroa.
          A mãe de Daniel garantiu que era seguro, que o dono do ponto e nunca tinha tido problemas. Voltou para casa com a tarefa de combinar com o velho o pagamento em duas vezes pois a patroa não queria soltar a grana toda de uma vez.
          De noite foram falar com seu Alípio, que insistiu em receber o pagamento à vista. Acabou aceitando fechar o negócio por mil reais, incluindo, além do bujão de gás e as  panelas, o restante de material que ele ainda tinha estocado – guardanapos, pratinhos e algumas latas de pasta de tomate que usava para fazer o molho.
          “Ih seu Alípio, vamos fazer molho de tomate de verdade, minha mãe é craque nisso.”
          Enfim, conseguiram o dinheiro, compraram a carrocinha com tudo dentro e partiram para as reformas. Em uma semana, ela foi lavada, lixada e pintada de amarelo mostarda. Em cada lateral, o grafiteiro pintou um grande cachorro-quente, com patinhas, rabinho e uma cara de olhos vivos e um sorriso alegre e convidativo. Em letras  garrafais pintou “Dogs do Dan”.
          A foto foi feita, com a câmera do celular da namorada de Daniel e a patroa viu o rapaz de jaleco e gorro, um enorme sorriso branco na cara negra, e a carrocinha pintada, encimada por toldo de lona listada de vermelho e amarelo, e a marca “Dogs do Dan” em vermelho, saltando do fundo amarelo mostarda. Tudo muito bem feito e bastante chamativo.
          Passados alguns dias, a patroa perguntou como iam os negócios. Tudo caminhando, mas as vendas ainda estavam lentas, a coisa não tinha pegado.
          “É assim mesmo, demora para engrenar”.
          E passaram-se mais dias. A empregada não tocou mais no assunto, nem a patroa perguntou mais. Até que um dia,  Fábia se deu conta de que já deveria ter recebido pelo menos parte do empréstimo e resolveu conversar com sua empregada.
          “Ah, desistimos do negócio. O Daniel está tentando vender a carrocinha, mas tá difícil.”
          “E desistiram por quê? Mal deu tempo de investirem. Essas coisas exigem muito trabalho, não são um sucesso logo de cara, tem que ralar.”
          A mãe de Daniel estava sem jeito, mas terminou abrindo o jogo. Depois de duas semanas de atividade na esquina, apareceu um fortão mal encarado dizendo que o rapaz tinha que pagar pelo ponto. E enquanto ele falava, deixava aparecer a coronha de uma arma, meio escondida na cintura, por baixo da camisa. O cara queria que quase tudo que fosse apurado passasse para as mãos dele, semanalmente e foi-se embora calmamente deixando o rapaz atônito. 
          Daniel foi direto pro seu Alípio. Queria saber se ele tinha tido que pagar para trabalhar naquele ponto. Ele afirmou que não, de jeito nenhum e disse que o rapaz    se virasse que ele não tinha nada com isso. Daniel  insistiu, pedindo ajuda e o velho acabou confessando que o mal encarado era genro dele, um tipo perigoso, mas que ele iria dar um jeito na situação.
          Daniel trabalhou mais uma semana e  o cara apareceu para receber.   O rapaz conseguiu se safar, disse que estava começando, que investira tudo em  salsichas, pão, os ingredientes para o molho e que as vendas estavam melhorando.
          Mas o homem passou a ficar à espreita na esquina em frente e voltou à carga, ameaçando o rapaz, dizendo que a irmã dele era bem jeitosinha e a mãe dele não era de se jogar fora. Ele sabia o nome de todos, os horários de ir e vir, tudo.
          Daniel  viu que ia acabar trabalhando para dar tudo a ele. Ficou desesperado. Enfiou-se uma semana em casa para ver se o cara desistia, sumia. 
          Resolveu voltar ao ponto com sua carrocinha e o cara apareceu na hora do almoço. Quando ele se aproximou, Daniel perdeu a calma e começou a gesticular e gritar, atraindo com isso muita gente. O homem ficou quieto, como se não fosse com ele a gritaria e confusão. Daniel finalmente tirou o jaleco e o gorro, jogou no chão e afastou-se dizendo,
          “Fique com a carrocinha. Faça o que quiser com ela”, e deixou todos os seus sonhos para trás.
          De noite, o Pastor apareceu na casa do rapaz e disse que a carrocinha estava  no pátio da Igreja. O genro do Sr. Alípio tinha levado tudo para lá  e  pedido a ele para dar um recado:  se Daniel aparecesse na esquina com a carrocinha levaria chumbo no meio da cara.
          “Eu perguntei se era seguro, te falei dos riscos. E agora?”
          “Pois é, dona Fábia, nós vamos lhe pagar. O Dan tá se virando. Ele vai vender tudo e dar o dinheiro pra senhora.”
          Só que ele não conseguiu vender a carrocinha, que ficou pra Igreja. O Pastor mudou a marca para “Dogs do Senhor” e passou a usá-la nos fins de semana e nos dias de festas, apurando uma boa grana depois dos cultos dos domingos ou a cada vez que havia um evento musical.  
          E o Daniel? Um dia foi cercado na virada de uma esquina e levou uma surra daquelas que deixam a pessoa sem poder fazer nada por vários dias.
Bansky

6 de janeiro de 2012

Autores e títulos de 2011 / eventos de 2012

Prêmio Machado de Assis (2011) da Fundação Biblioteca Nacional
Alberto Mussa - O senhor do lado esquerdo (romance)
Sérgio Sant’Anna, também premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) - O livro de Praga (conto)
Daniel Lima, teólogo e professor de 95 anos, em sua obra de estréia, publicada pela Companhia Editora de Pernambuco - Poemas

Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)
Rubens Figueiredo - tradução de Guerra e paz, de Tolstói
Francisco Alvim  - O metro nenhum (poesia)
Wilson Bueno - Mano, a noite está velha (romance)

Prêmio Portugal Telecom
Rubem Figueiredo - Passageiro do fim do dia (romance)

2012
Temporada de inéditos na editora Grua
Tailor Diniz (RS)
Tércia Montenegro (CE)
Luiz Andrioli (PR)
Luís Roberto Amabile (SP)

Dez anos de Flip
 (4 a 8 de julho)
O britânico Ian McEwan, que esteve na Festa Literária de Paraty em 2004, participa novamente do evento neste ano. Ainda em comemoração a seu aniversário, a organização prepara um livro e uma caixa de DVDs reunindo os principais destaques de seus dez anos.
Informações obtidas no Jornal Rascunho
 ***
Trechos de entrevistas do Jornal Rascunho
Adriana Lunardi
Tendo a achar que o leitor aprecia a confusão entre o ficcional e o biográfico; se sente mais participativo ao ter margem de suspeição de que a história que está lendo foi vivida pelo autor. Parte disso vem de nossa relação problemática com a verdade, especialmente em nossa cultura ibérica, católica, onde simular é pecado. É como se o autobiográfico acrescentasse uma função exemplar à literatura, por isso o apreço maior pela coisa vivida do que à coisa simplesmente imaginada. Nesse caso, temos que usar o disfarce, o drible, o despiste para parecer que é verdade o que estamos escrevendo. Mesmo quando se afirma tratar-se de um texto de ficção, o leitor procura fantasmas nas entrelinhas, lê entrevistas do autor e toma emprestado delas as razões e motivos de ele escrever o que escreve. De minha parte, eu jogo o jogo. O importante é conseguir o efeito de verdade que o texto produz. Assim, ao ter certas garantias “documentais”, o leitor relaxa, deixa-se levar por aquilo que ele atribui como sendo a parte ficcionalizada da escrita. No que, claro, pode estar bem enganado. Em Vésperas, lidei diretamente com essas falsas garantias: em geral, o que se lê como ficção é pura biografia, e vice-versa.
Para ler na íntegra, CLIQUE AQUI

Ana Paula Maia
Comecei a ler livros sobre filosofia, filosofia oriental. Peguei esse caminho. Acho que foi porque era o que tinha lá em casa. Platão foi um autor que me tocou profundamente nesse início de leitura. Primeiro, li a biografia dele. Passado um tempo, consegui comprar as obras, livros, edição de bolso, os Diálogos. Diálogo é uma coisa de que gosto muito. Foi fundamental ler esses diálogos de Platão. Gosto muito do diálogo na literatura. Acho que há uma dificuldade em se criar diálogos na literatura. Tem autores que acham que o diálogo não é um bom sinal. Eu gosto muito, justamente porque ele traz à tona coisas do personagem que o autor não conhece. É naquele diálogo que brotam muitas vozes, muitas coisas novas. Coisas até para o rumo da história. Um diálogo, uma reação de um personagem, leva a história para um lugar que, às vezes, você não tinha pensado. Para mim, o diálogo tem esse poder — não só de me permitir conhecer mais do personagem, mas de ter novos rumos possíveis para a sua história. O apanhador no campo de centeio foi um dos livros mais importantes na minha vida. O Salinger foi um revolucionário para mim, foi fundamental. O habitante das falhas subterrâneas (2003) faz um paralelo direto com O apanhador. Foi a maneira como comecei a escrever. Comecei a escrever muito inspirada e fazendo um paralelo na obra de alguém. Da minha forma, com as minhas experiências, algumas lembranças, fui construindo o livro. Mas foi o que saiu primeiro. O primeiro jorro, você não sabe se será bom ou ruim, não sabe o que está fazendo.
Para ler na íntegra, CLIQUE AQUI

Rubem Figueiredo
Pensei que seria possível questionar, investigar e conhecer aspectos importantes do quadro histórico atual por meio dos recursos oferecidos por um romance. Tomei o cuidado de não mencionar datas nem nomes de lugares reais. Não porque eu pretendesse conferir um cunho universal ao livro. Ao contrário: eu queria que os aspectos concretos e particulares pudessem ser percebidos como partes de uma experiência familiar, vivida e bastante generalizada (mas não universal, nem fora de um tempo). A saber: a experiência de estarmos submetidos a um processo social que precisa a todo custo manter-se oculto. Um processo que reforça cotidianamente a idéia de que os diversos aspectos da vida mais corriqueira são fatos avulsos e descoordenados, vazios de qualquer sentido que não seu fim mais imediato. Também por isso me veio em algum momento a idéia de incluir o Darwin no romance. Eu procurava um meio de o livro incorporar uma dimensão histórica com um alcance mais remoto, mais abrangente. O livro velho e meio vagabundo sobre o Darwin que o protagonista lê no ônibus podia permitir que eu evocasse o colonialismo, a escravidão — pois o Darwin fez relatos sobre isso quando contou sua visita ao Brasil. É bem verdade que ele foi muito, muito menos severo quando se tratava de injustiças flagrantes que presenciou em colônias britânicas. De todo modo, a própria teoria de Darwin foi bastante oportuna para o colonialismo inglês: a longo prazo, um substituto da religião para legitimar a desigualdade social. Com isso meu romance poderia também, em alguma medida, discutir o papel da ciência num contexto de relações desiguais de poder. Por esse caminho, a ciência vinha se unir à justiça, à medicina, à educação, à economia, à arte, à publicidade, aos meios de comunicação, ao trabalho, enfim, a um vasto arsenal de fatores que valem por instrumentos de uma opressão cotidiana e repetida, até um aparente embotamento de suas vítimas. Desse modo, os personagens do romance muitas vezes se sentem perseguidos, acossados, para onde quer que se voltem.
Para ler na íntegra, CLIQUE AQUI

3 de janeiro de 2012

A grande Inteligência é sobreviver

Gonçalo M. Tavares, in: Investigações. Novalis
A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

2 de janeiro de 2012

Lembrete

Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não.
José Saramago (1922-2011)

Frase do dia da Cátedra da Leitura da PUC-Rio

Dicionário de Poética e Pensamento

Manuel Antônio de Castro 
Princípio e fim se reúnem na circunferência do círculo.
Heráclito, frag.103
          É um dicionário digital. Distingue-se por ser feito de verbetes-questões e não por definições conceituais ou levantamento de significados semânticos. O leitor terá para cada verbete diferentes acessos através de considerações e passagens essenciais de diversos pensadores e poetas. Tais acessos querem provocar o leitor e levá-lo a questionar, a pensar, mostrando como cada verbete se constitui numa questão que não pode ser definida através de um conceito ou de conceitos. Cabe ao leitor, pelo confronto das diferentes afirmações ou interrogações, construir o seu pensamento. A questão como questão será a identidade das diferentes posições.
          Consultando o dicionário, o leitor tem acesso a diferentes ideias e indicações bibliográficas. Em muitos casos, o dicionário limita-se a transcrever uma passagem julgada essencial. Cabe a cada leitor procurar a fonte integral indicada.
          Outra ideia central no dicionário é o pensamento circular, onde uma palavra remete para outra (indicada como link em cor azul), que remete para outra e assim circularmente. Com isto, evita-se a linearidade e qualquer hierarquia de significados. O poético é o sentido presentificando-se. No lugar do sistema lógico-causal e conceitual, propomos uma sintaxe do acontecer poético como presente sempre inaugural, originário, onde no lugar dos conceitos vigoram as questões. Nestas, cada verbete-resposta solicita outras perguntas numa inter-relação questionante, circular e poética, para que o pensamento aconteça em cada leitor. Os verbetes têm três origens: 1ª. Feitos pelo autor do dicionário; 2ª. Pelos editores; 3ª. Por citações de autores, devidamente assinaladas nas indicações bibliográficas. Como a ideia de questionamento orienta todo o dicionário, em alguns verbetes há uma citação do autor, seguida de comentários. São feitos com o intuito de levar o leitor também a questionar, a concordar ou discordar, num desafio constante do pôr-se a caminho do pensar.
Que tal começar a travessia?
Clique aqui para ver uma página aleatória, ou veja a lista completa de verbetes!

Três anotações em torno da técnica

I
A partir de textos de Manuel Antonio de Castro
(http://travessiapoetica.blogspot.com/ 
http://acd.ufrj.br/~travessiapoetic/index.htm)
O que é techné
Estudar e aprofundar a questão da arte, isto é techné.
Palavra que, em grego, diz conhecimento.
*
Quando técnica se torna tecnologia?
Ao se tornar instrumento de autoafirmação, massificação, destruição e mediocrização.
Quando não mais sabe lidar com as coisas.
Quando não é mais movido e orientado pelas coisas,
de um modo nem idealista, nem realista,
mas compreensivo.
*
Na cultura contemporânea, aconteceu a reunião impensável:
techné + logos =  tecnologia.
Tecnologia não é o conjunto do aparato técnico produzido pela ciência;
tecnologia implica em uma visão técnica do mundo, onde vigora a eficácia e a utilidade.
***
II
Que fazer quando a criação do mundo, segundo a nossa vontade,
furtivamente toma conta da terra?
O que um homem faz então?
          Essa pergunta também se fez Martim, em A maçã no escuro, de Clarice Lispector, quando lhe chegou o duro tempo da explicação. Também para ele, a arte se manifestou. Entenda-se aqui, arte no sentido de busca de um saber que supera as limitações da época, aberto pela techné, , na tradição japonesa, caminho de auto-perfeiçoamento pela aprendizagem de uma arte.
          Martim, à custa de um controle de arte [...] se apegou a uma verdade apenas. O caminho de auto-aperfeiçoamento o levou à compreensão da verdade singular das coisas.  E à estranheza, pois rompeu com a busca na direção da universalização, da verdade abstrata e polivalente.
          A arte de Martim aproxima-se daquela desenvolvida por Lucrécia, a arte de ver. Com olhos de contra-Medusa, ela permitia a livre movimentação e ao mesmo tempo o emolduramento de cada coisa como uma obra.


***
III
Normalmente, vemos as coisas como matéria e forma,
interpretando-as como instrumentos,
em função da sua utilidade ou do seu conteúdo. 
          Quando deu o exemplo dos sapatos da camponesa no quadro de Van Gogh, em A origem da obra de arte, Heidegger observou bem que a utilidade dos sapatos dependia de um outro item por ele chamado solidez. Se quisermos chegar ao que é essencial nos sapatos, não basta descrevê-los, nem relatar o processo de sua fabricação, nem mesmo mostrar o modo como são utilizados. 
          Coloquemo-nos diante do quadro de Van Gogh. Aproximando-nos da obra, nos colocaremos num lugar que habitualmente não é aquele que costumamos estar. Não se trata de importar subjetividade aos sapatos. Trata-se de deixar que a obra nos desvele os sapatos em sua existência. Na obra está em obra um acontecer da verdade, aquela solidez, para além da utilidade dos sapatos.
          Nesse pensamento acerca da obra de arte, não é possível separar Verdade e Beleza. A imagem de uma pequena igreja cuja arquitetura modesta se erguera no antigo silêncio, encontrada na S. Geraldo de Lucrécia, em “A cidade sitiada”, de Clarice Lispector, é bela. Além de bela (ou porque é bela), a imagem nos abre para um antigo silêncio, para uma terra onde se ergue uma pequena igreja. Sem ele, a igreja é apenas um monumento. Esse silêncio é concreto. É ele que sustenta o habitar dessa igreja.
          No poético, se sustenta o habitar dos lugares. O poético confere às coisas o seu caráter de obra a ser criada. Para ver as coisas em sua poesia, é preciso ser também uma coisa a se obrar, na busca pela aproximação da verdade de um outro. O poeta é um ente-que-vê-com-arte.
          Lucrécia atentava para os movimentos dos cavalos em S. Geraldo. Eles eram seus guias. A moça via a cidade como eles. Com a cabeça a dominar o subúrbio, lançando o longo relincho,  cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina, mesmo com medo. Nas trevas do quarto, o terror de um rei, a mocinha queria responder com as gengivas à mostra. Mal saía do quarto, sua forma se avolumava e apurava-se, e quando chegava à rua já galopava com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus. Da calçada deserta, ela olhava e via as coisas como um cavalo. Porque não havia tempo a perder: mesmo de noite a cidade trabalhava fortificando-se e de manhã novas trincheiras estariam de pé. 
          No momento em que os cavalos foram banidos da cidade, Lucrécia abandonou a cidade.
         A tarefa de ver requer grandeza de alma. Requer entrega para fazer da cidade, no movimento para além da sua época, uma obra de arte. Arte é não explodir a cidade, nem é levá-la a se dissipar em redundância. Não é preciso perfumar as flores, nem poetizar a poesia. É preciso ter domínio das forças, ver as coisas como um cavalo. É preciso conhecer a contenção, saber domar a explosão e ignorar a tentação da dissipação. Ser o lugar desse olhar exige trabalho.

A partir de "Claricidade – a cidade segundo Clarice", de Bia Albernaz