21 de dezembro de 2011

Atropelamentos

          Na semana passada, fui chamada para falar sobre a obra infantil de Clarice Lispector na Biblioteca Municipal de Botafogo. Uma das pessoas que convidei para me dar uma força na platéia foi uma aluna, agora uma amiga. Mas infelizmente ela não pôde comparecer. No dia seguinte, justificando-se, me enviou a seguinte mensagem: “não consegui ir. Fui atropelada na ciclovia por um menininho de skate. Caí da minha bicicleta e fiquei toda machucada. Uma pena... Espero que tenha sido ótimo.”
          Na mesma hora, respondi a ela. Precisava responder a ela:
          Puxa, que susto! Espero que tudo esteja bem agora. Lá na biblioteca deu tudo certo. Mas também fui "atropelada" por uma menininha na praça, enquanto esperava para falar. Cheguei cedo. Dava tempo de descansar sentada num banco do lado de fora, tranquilamente tomando um suco de laranja. Foi então que se aproximou uma menininha pretinha de cabelos cortados rentes como os de um menino, blusa cor de rosa com estampa prateada e calças azul celeste. Ela era um vulto sujinho, sorridente e aberto. Chegou, sentou ao meu lado e de imediato pediu o meu suco de laranja, praticamente o meu último gole. Olhei pra ela, já sentada do meu lado: "você quer meu último gole de suco de laranja?" "Quero. Eu tô com sede." Então começamos a conversar aquela conversa que nós, "seres civilizados", conversamos quando encontramos um serzinho encardido e belo como o de Andreia. 
          Perguntei-lhe onde ela morava. Ela disse que na rua. Olhei-a bem, sem acreditar totalmente e perguntei: “aqui?” “Não, em Copacabana. Estou com meu pai.” E apontou um homem dormindo num banco mais adiante. Quis saber seu nome e, como ela percebeu o meu bloquinho e os meus rabiscos,  disse que iria escrevê-lo para mim. Tirei meu estojo da bolsa. Dei-lhe um lápis e, junto, um pequeno chocolate. Abri o bloco numa página em branco. Eu queria dar  à menina o máximo que podia no pouco tempo que teríamos juntas. Com extremo cuidado, Andreia pegou no lápis. Antes de começar a escrever, afastou um pouco o bloquinho, analisando o espaço da folha em branco e o lugar onde depositaria o seu nome. Escolheu um canto muito à direita. Tentei lhe mostrar que deveria começar a escrever pela outra margem. Não adiantou. Ela voltou ao canto que havia escolhido e ali escreveu seu nome como Leonardo da Vinci o faria: espelhado. Depois me disse o seu nome todo, que eu não me lembro porque era muito grande. Sei que o segundo nome era "Joy". Andreia Joy. Depois, arranquei três folhinhas para ela desenhar. Em seguida, atendi outro pedido seu. Entreguei-lhe uma borracha,  escolhendo a melhor das duas que tinha.
          Esqueci de dizer. Também dei o suco a ela, que o bebericou, deixando-o logo de lado. Empolgada com outras coisas que saíam da minha bolsa, esbarrou no copo e o derramou. 
          Em nossa conversa, também falamos sobre o imprescindível assunto: escola. Ela não ia. Disse que estava esperando uma cirurgia no umbigo. Então levantou a blusinha e me mostrou a protuberância em sua barriga no lugar onde temos o umbigo. E me contou que a professora não queria que ela fosse à escola porque o seu umbigo podia estourar. Contestei: "mas você me disse que nasceu com ele desse jeito, não foi? Não vai estourar de um dia pro outro."
          Andreia olhou pra mim: "ela (a professora) disse que o que eu tenho aí dentro pode pegar nos outros. Pode ser uma doença que 'pega'."
          O que a gente faz com nossa indignação nesse caso? Fiquei ali detestando a tal professora. Mas logo em seguida, vieram me chamar. Estava na hora da palestra. Perguntei a Andreia se queria entrar na Biblioteca. Disse que lá havia um bocado de livros. Mas já era noite. Ela não podia entrar. 
          Enquanto isso, o pai de Andreia dormia. Eu havia dito a ela para lhe pedir permissão para me acompanhar. Não sei se perguntou porque foi até o pai e voltou muito rápido, com um sorrisão, dizendo que ele tinha deixado. Na verdade, não sabia bem o que fazer. Estava preparada para contar uma história infantil da Clarice Lispector para um público de adultos. Antes de iniciar a palestra, compartilhei com algumas pessoas da platéia a minha sensação de inutilidade. Uma delas se ofereceu para tomar conta de Andreia enquanto eu falava, mas mesmo assim acharam melhor ela ficar lá na praça junto ao pai que dormia. Foi muito estranho e inesquecível ver Andreia, do outro lado da porta de vidro do auditório, me encarando com o seu corpo todo, como se ela fosse uma lagartixa pregada fora da janela. Eu falava um monte de coisas e me consolava, dizendo a mim mesma que  talvez assistir uma palestra fosse uma coisa muito chata para a menina. Não sei. 
          Havíamos brincado com nossos dedos. Não me lembro se chegamos a nos dar as mãos. Mesmo sabendo que ela não podia entrar, levei-a para uma área descoberta, do lado de dentro dos muros da biblioteca. Ela quis dar a volta em torno do prédio mas não havia passagem e já não dava mais tempo. 
          Na verdade, a conversa com a platéia estava muito simpática e seguia divertida. Enquanto eu falava, a noite caía. Quando saí não encontrei mais Andreia. Eu tinha dito a ela que, no final, lhe daria um livro. Lembro-me agora de seu rosto, com as palminhas das mãos abertas acima dos olhos, buscando-me, cada vez mais distante. Ela estava se despedindo. Andreia Joy, que a vida não lhe machuque, que o mundo não lhe machuque. Obrigada, Andreia. Desculpe-me, Andreia.
          E a você também, querida amiga. Obrigada, por ler este meu relato até o fim. Este registro estava precisando ser feito. Beijo, e se cuide com a bicicleta, hein? Não se distraia, muito. Aproveito para desejar um feliz natal, com muitos sorrisos inocentes de Andreia Joy pela frente – um verdadeiro atropelamento de borboleta. Reze por Andreia Joy, mesmo que você não costume fazer isso. Ela é um bom motivo pra gente se lembrar de querer um mundo melhor.
          Com o carinho, da Bia

Momento vivido

Ruth Lifschits
          Hoje de manhã, atrasada e pensando no que teria de enfrentar nas próximas horas, uma voz suave me trouxe de volta para onde eu realmente estava e devia estar: em casa e com o neto em apuros.
          — Vó, meu dever de casa está confuso.   
          Pedi a ele que lesse o enunciado da questão. Ele leu em voz alta:  “acrescente uma letra às palavras abaixo e crie novas palavras”. 
          Ele tinha criado bamba ao inserir um ‘m’ entre as duas sílabas de baba e queria saber se essa palavra existia. 
          — Existe sim. 
          — Mas o que é bamba?, ele perguntou. 
          — Já vamos descobrir, disse, enquanto alcançava meu ‘Aurélio’ na estante. 
          Mostrei a ele o dicionário, dizendo:
          — Aqui estão quase todas as palavras da nossa língua. 
          Ele arregalou os olhos: 
          — Que livro grandão! 
          Pediu para segurá-lo, queria ver se era pesado. 
          Juntos, folheamos o dicionário. Mostrei a ele a ordem alfabética na listagem dos verbetes e sugeri que procurássemos a palavra bamba. Deixei que ele virasse as páginas, procurando o grupo das palavras  começadas com b. Ele foi para o começo do livro, passando as páginas com delicadeza e parando os olhos aqui e ali para se orientar. Me mostrou que ban vinha depois de bam, e finalmente achou a palavra. Mostrei a ele que havia explicações sobre o sentido e o uso de bamba — as definições. Lemos todo o verbete e pensamos em exemplos diferentes dos que tínhamos acabado de encontrar. 
          Ele fechou o livro e voltou para a mesa de estudos, já sabendo a frase que escreveria com a palavra que acabara de aprender.                  
          Acariciei  o bom amigo Aurélio e o devolvi à prateleira.
Capa da primeira edição, do designer e ilustrador ítalo-brasileiro Gian Calvi.
Para acessar o Dicionário do Aurélio online clique AQUI.

19 de dezembro de 2011

Em bons lençóis

A cama da vovó
Renata Figueiredo
          Dormir na casa da minha avó sempre foi muito prazeroso. Adorava quando meus pais saíam ou viajavam e me diziam que tinha que dormir ou passar o fim de semana na casa dela. Estar em sua companhia era sempre um novo ensinamento. Aprender a fazer uma cama foi uma das muitas coisas que aprendi com ela. A hora de dormir é um momento nobre, dizia. A hora em que vamos descansar de nosso dia. E a cama é o lugar onde vamos sonhar. Tínhamos então que prepara-la como uma cama de princesa, de rainha, para podermos enfrentar bem o dia seguinte. Primeiro lençóis limpos, cheirosos e bonitos. Segundo, esticá-los bem sobre o colchão. Para finalizar, com uma raquete de ping-pong, fazê-los entrar bem nas beiradas da cama, evitando assim que eles saiam com nossos movimentos quando dormimos. Ela sabia o quanto eu era agitada e me mexia durante a noite. Adorava ver todo esse ritual, e dormia realmente como uma princesa toda vez que dormia com a vovó. Ainda mais quando ao deitar ela vinha com todo amor e carinho me cobrir e me dar um beijo de boa noite, dizendo: temos que dormir cobertas. Dormir sem se cobrir não é a mesma coisa, não descansa. Como não ter uma boa noite assim?!
***
Hábito Antigo 
Arlette Santos
          Não sei por que, cedo adquiri o hábito de arrumar minha cama logo que me levanto. Quando criança, morei em Petrópolis, na região serrana do estado. Por ser uma cidade fria e úmida, deixavam-se as cobertas expostas ao sol para arejar, e só mais tarde faziam-se as arrumações.
          A meu ver, existem dois momentos na preparação de uma cama ao longo do dia: ao acordar – dispondo-a para o longo período em que não será utilizada, e antes de deitar – quando o ninho é feito para o período de repouso.
          Ao me levantar, ajeito o lençol de forrar e coloco o de cobrir à noite com a parte superior dobrada, pronta para dormir. A seguir, cubro com uma colcha ou acolchoado que dê ao quarto uma boa aparência. Por fim, coloco um travesseiro da largura da cama, com fronha que combine com a colcha.
          À noite, tudo fica mais simples: basta retirar a colcha e o travesseiro, substituindo-o pelo que uso para dormir – mais macio e feito de penas de ganso. Caso haja necessidade, acrescento uma colcha ou edredon. E antes de me deitar, já arrumo a colcha e o travesseiro que não serão usados à noite de forma a facilitar o trabalho da manhã. 
          Preocupo-me sobretudo com o conforto e a praticidade. Uma amiga fisioterapeuta me indicou o colchão de futton, que não enruga o lençol e facilita a arrumação. E – principalmente quando se vive só – uma colcha atenua a falta de outras coisas...

17 de novembro de 2011

Ouvir vozes

Ferreira Gullar - Folha de São Paulo, 13 de novembro de 2005.
          O poeta Décio Victorio, meu velho e querido amigo que você não conhece, que quase ninguém conhece e que não quer ser conhecido, trabalhou certa época como acompanhante de pacientes do Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro. Trabalhava no pátio da clínica, onde os internados passavam boa parte do dia entregues a suas fantasias, falando sozinhos ou andando à toa. Décio, responsável e solidário, fazia tudo para ajudá-los, e foi com esse propósito que pediu a Aniceto que lhe fizesse um terno. Aniceto fora alfaiate de profissão até o dia em que a mulher o abandonou e ele sofreu um surto que já durava 20 anos. Ele aceitou a proposta de Décio, que, no dia seguinte, já lhe entregava um corte de brim para que pusesse mãos à obra. Ocorreu que, naquele mesmo dia, um avião passou sobre o pátio e “disse” a Aniceto que o paciente sentado ali a seu lado é que tinha lhe roubado a mulher. Sem hesitar, o alfaiate traído saltou sobre o acusado, disposto a estrangulá-lo. Os enfermeiros acudiram e, depois de dominá-lo, aplicaram-lhe um sossega-leão.
          Como advertia minha avó Teca, não se deve dar crédito a tudo o que se ouve, especialmente se dito por um avião. Mas esse é um conselho a que as pessoas não costumam dar ouvidos. Já antes de Homero, os gregos atribuíam aos oráculos o dom de não só dizer a verdade como até de adivinhar o futuro. Às vezes eram as sibilas, que falavam coisas incompreensíveis, mas, antes delas, o povo dava ouvidos ao rumorejar das águas de um riacho que corria entre as raízes de um carvalho e até mesmo ao farfalhar das folhas desse carvalho tido como sagrado. Ali estava um sacerdote para decifrar a mensagem das águas ou dos ramos, como também decifrava o que diziam, em transe, as sibilas do Oráculo de Delfos.
          Mas de onde vem essa crença de que vozes incompreensíveis estão dizendo verdades? Talvez venha da necessidade que temos de conhecer a verdade última, de antever o futuro, de decifrar o mistério da existência. Essa é uma questão complicada que envolve a própria natureza da linguagem verbal, veículo do logos; essa linguagem, que torna inteligível o real, não satisfaz entretanto nossa necessidade de decifrá-lo e, por isso, quem sabe nos induza a admitir que a linguagem hermética contém a expressão do mistério – seja a expressão dele. De qualquer modo, por ser hermética, necessita de um tradutor, ou seja, do sacerdote que diz entendê-la e decifrá-la.
          Essa pode ser a razão por que, não apenas a gente simples acreditava no que diziam os oráculos, mas também um filósofo como Heráclito de Éfeso para quem, naquela voz, falava um deus: “E a Sibila que, de sues lábios delirantes, diz coisas sem alegria, sem ornamento e sem perfume, atinge com sua voz além de mil anos, graças ao Deus que nela está.”é certo também que, num aforismo seguinte, ele adverte que “os olhos são testemulhas mais exatas que os ouvidos”.
          Os ouvidos enganam, nos dão a possibilidade de crer no inexplicável, o que é um modo, senão de entendê-lo, ao menos de assimilá-lo. Assim, acreditamos que certos ruídos ou sons naturais também são manifestações de alguma entidade superior. Para nossos índios, por exemplo, o trovão era a voz de Tupã, uma manifestação de sua zanga, enquanto para outras gentes, os uivos do vento nas noites de tempestade soavam como os lamentos de almas penadas. O temor pode nos vir também da garganta de um pássaro, como por exemplo daquele que, na São Luís de minha infância, era conhecido por Rasga Mortalha e que passava gritando assustador, à noite, sobre o telhado de nossa casa.
          Dependendo de quem as ouve, muito podem as palavras, especialmente quando ditas por um corvo (Never more) que fale inglês ou por um papagaio que fale tupi-guarani, como no caso que nos conta Pedro de Magalhães Gandavo em sua “História da Província Santa Cruz” (1576). Os guerreiros de uma tribo invadiram uma aldeia inimiga, trucidando seus moradores, mas quando já estavam a um passo da vitória definitiva, ouviram algumas palavras ditas por um papagaio, tomaram-se de pavor e saíram correndo todos.
          É verdade que o avanço do conhecimento empírico, a descoberta das causas dos fenômenos naturais, veio pouco a pouco calando aquelas vozes, retirando-lhes o significado oracular ou meramente assustador. Os poetas – e os pirados - , não obstante, continuam a dar a elas outros significados que os dos oráculos ou, no dizer de Mallarmé, emprestam “um sentido novo às palavras da tribo”. Augusto dos Anjos, com freqüência, ouvia a voz do próprio incriado, a que chamou de “Último Número”, o qual, atro e subterrâneo, bradou a seus ouvidos: “Não te abandono mais, morro contigo”.
          Eu também, modéstia à parte, às vezes ouço vozes, muitas vozes, mas nada assustadoras: vozes inofensivas de perfumes e manhãs, de sabores, de olhares, de peles, de um roçar de cabelos – um alarido que me dorme abafado no corpo. Os poetas não são sacerdotes, mas podem à sua maneira entender o que fala o vento nas folhas, como Fernando Pessoa, para quem “a brisa / nos ramos diz / sem o saber / uma imprecisa / coisa feliz”.
***
MUITAS VOZES
Meu poema
é um tumulto:
    a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

(estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:

se dizes pêra,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
    ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
    o Egeu
em tuas glândulas)

    A água que ouviste
        num soneto de Rilke
    os ínfimos
    rumores no capim
        o sabor
        do hortelã
    (essa alegria)
    a boca fria
    da moça
        o maruim
    na poça
    a hemorragia
        da manhã

        tudo isso em ti
    se deposita
        e cala.
    Até que de repente
    um susto
        ou uma ventania
    (que o poema dispara)
                chama
    esses fósseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.

15 de novembro de 2011

Coadjuvantes

Deuses (disfarçados) que orientam a ação
Na Odisséia, a ação dos deuses como coadjuvantes da ação heróica do mortal Odisseu é fundamental. Atena, deusa que aprecia a astúcia ou o uso da inteligência na resolução dos problemas, acompanha o herói em toda a sua jornada. Mas também há momentos em que Hermes, deus mensageiro que inspira a comunicação ou a eloquência para um melhor encaminhamento das questões, se torna um coadjuvante (disfarçado) e um salvador de Odisseu.

Como arquiteta do retorno de Odisseu à Ítaca, Atena também aparece para Telêmaco, filho do herói, mas sempre na pele de algum outro personagem, aconselhando-o e ajudando-o, enfim fazendo com que a ação tome um curso. E o modo de agir do personagem com quem ela interage sempre será condizente com aquele que Ela aprova e domina. A passagem abaixo acontece logo no Canto II da Odisséia:

          [Atena] desceu de um salto dos cimos do Olimpo e pousou no país de Ítaca, no vestíbulo de Odisseu, na soleira do pátio; empalmava a lança de bronze, sob a figura de um estrangeiro, mentes, caudilho dos táfios. Deparou ali os arrogantes pretendentes, que se distraíam jogando gamão diante das portas, sentados sobre couros de bois por eles próprios abatidos. Dos arautos e ativos criados, uns misturavam água ao vinho em crateras, enquanto outros, com esburacadas esponjas, limpavam e achegavam as mesas e ainda outros picavam carne abundante. 
          O primeiro a avistá-la foi Telêmaco, de aspecto divino. Sentado entre os pretendentes, via, em imaginação, o nobre pai chegar um dia, desbaratar os pretendentes pelo solar, impor respeito e reinar em sua casa. Enquanto cismava nisso, sentando entre os pretendentes, avistou Atena; caminhou direito ao vestíbulo, indignado, no íntimo, de um forasteiro aguardasse longo tempo à porta. Aproximou-se, apertou-lhe a destra, recebeu sua lança de bronze e disse-lhe aladas palavras: 
          Salve, estrangeiro; sê bem-vindo a esta casa. Quando tiveres provado o nosso jantar, dirás o de que precisas. 
          Assim disse e indicou-lhe o caminho. Palas Atenas segui-o. Uma vez entrados na alta mansão, ele levou a lança e encostou-a numa alta coluna, num bem polido lanceiro, onde se alinhavam muitas outras lanças, do intrépido Odisseu, e levou Atena a sentar numa cadeira, que forrou com linho, bela obra de arte; debaixo havia um escabelo para os pés. Para si colocou ao lado um divã marchetado, a distância do grupo dos pretendentes, para que o forasteiro se deleitasse em vez de se aborrecer com um jantar turbulento na companhia de descomedidos; queria, também, interrogá-lo sobre o pai ausente. 
          [...] 
          Respondendo-lhe, disse Atena, deusa de olhos verde-mar:
          Pois bem, eu te direi isso falando a pura verdade. Prezo-me de ser Mentes, filho do judicioso Anquíalo, e reino sobre os táfios afeitos ao remo. Agora, como vês, aportei aqui com um barco e tripulação, navegando o mar cor de vinho em demanda de povos de línguas estranhas; destine-me a Têmese em busca de cobre e carrego ferro reluzente. Meu barco fundeou junto do campo, longe da cidade, na enseada de Ritro ao pé do selvoso Neio. Prezamo-nos de ser, por nossos pais, mútuos hóspedes de longa data; podes, se queres, ir perguntá-lo ao velho guerreiro Laertes; segundo dizem, já não vem à cidade mas, retirado no campo, sofre provações, acompanhado de velha escrava, que lhe serve comida e bebida, quando se apodera de suas pernas o cansaço de arrastar-se galgando o outeiro de sua quinta vinhateira. Agora aqui estou; deveras, haviam-me dito que teu pai estava no país. Os deuses, porém, negam-lhe o retorno, porquanto o divino Odisseu ainda não morreu em terra; provavelmente ainda vive retido no vasto mar, numa ilha em meio às ondas, guardado por crueis homens selvagens, que talvez o detenham mau grado seu. No entanto, agora te predirei u como inspiram a meu coração os imortais e creio que se realizará, conquanto não seja adivinho nem profundo conhecedor do vôo das aves. Ele não continuará por muito tempo longe da amada pátria, ainda que o prendam cadeias de ferro; descobrirá meios de regressar, visto que é engenhoso. 
          [...] 
          Indignada, volveu-lhe Palas Atena:
          Santos numes! Muita falta de faz o ausente Odisseu, para deitar mãos aos desfaçados pretendentes! [...] Vamos, dá-me ouvidos, atenta em em minhas palavras; convoca amanhã uma assembléia dos guerreiros aqueus e dirige a apalavra a todos, tomando os deuses por testemunhas. Intima os pretendentes a dispersar-se para suas casas e tua mãe, se seu coração pende para o casamento, a ir de volta para o solar de seu mui poderoso pai; lá prepararão as bodas e exporão copiosos presentes de núpcias, quantos devem acompanhar uma filha dileta. Quanto a ti, farei uma sugestão sábia, se me ouvires; arma um barco de vinte remos, o melhor que puderes, e parte a indagar de teu pai há muito ausente; talvez algum mortal te possa falar dele; talvez ouças a voz do oráculo de Zeus, a principal fonte de informação para a humanidade. Vai, primeiro, a Pilos e interroga o divino Nestor e daí a Esparta, a casa do louro Menelau, que foi o último dos aqueus de cotas de bronze a chegar. Se, por ventura, ouvires que teu pai está vivo e regressando, então, por mais que te consumam as mágoas, podes suportar mais um ano; se ouvires, porém, que morreu, que já não vive, então, de volta à querida terra pátria, erigi-lhe uma tumba e faze-lhe oferendas fúnebres copiosas, como ele merece, e dá tua mãe a um marido. Mas depois que levares a ermo esses pios deveres, cogita em tua mente e teu coração como matar os pretendentes em teu solar, quer pela astúcia, quer em luta aberta, Não deves proceder como criança, pois já não estás nessa idade.
***
Abaixo, dois exemplos de um exercício realizado a partir da seguinte proposta:
- folheando o jornal, encontre um personagem pressionado por um evento constrangedor, ou seja, que exija uma tomada de decisão daquele que virá a ser o protagonista de uma história;
- pensando num deus ou num mito, escolha aquele que poderá desempenhar o papel coadjuvante na história, encaminhando de um jeito ou de outro a trajetória do herói;
- derrame sobre ambos o espesso líquido da ficção, transformando-os de modo que a própria narrativa também desempenhe um papel revelador.
***
A Volta de Jonas para Casa
Ruth Lifschits
          A volta de Jonas para casa quando se preparava para comemorar sua aposentadoria com a família foi tumultuada pelos acontecimentos do final do  dia: a chamada urgente para prestar serviço, a constatação dos erros cometidos pelos policiais e o peso de saber que a ele, perito criminal, caberiam as últimas palavras sobre o ocorrido.  
          Ele e seu poder de esclarecer, de pôr o dedo nas feridas, de apontar culpas e culpados. 
          Jonas não queria mais nada disso em sua vida, aquele seria  o dia de sua despedida. Sua aposentadoria já estava para sair no Diário Oficial. Mas fora pinçado para esse  último ato por ser  o único técnico presente  na hora em que o telefone tocou. Naquele exato momento pensava nas comemorações que o aguardavam, enquanto empacotava seus objetos  pessoais e arquivos particulares. Rememorava  fatos e situações marcantes quando, sem refletir, atendeu a chamada.   Arrependimento  imediato. Tentou esquivar-se mas vociferaram argumentos de que precisavam do melhor, do mais experiente e finalmente “ordens superiores”. Azar, lugar errado na hora errada. Baixara a guarda e fora apanhado. Instalou-se a crise. Suas úlceras gritaram e se remoeram. O trabalho seria penoso, havia policiais envolvidos.    Tudo era possível.  
          Ligou para casa. Pediu para segurarem a festa, surgira um imprevisto. Não deu à esposa tempo para reações ou reclamações aviso dado, fone desligado.  Esclareceria tudo mais tarde.
          E encarou a tarefa de periciar um ônibus seqüestrado em plena Av. Presidente Vargas na hora do rush. Bandidos armados renderam o motorista e ameaçaram os  passageiros brandindo uma granada já sem o pino e pronta para explodir. Pânico, caos, confusão. A Polícia Militar cercara o veículo e os bandidos reagiram com mais ameaças. Tiroteio, passageiros feridos, um deles gravemente. Finalmente, a polícia retomou o controle do ônibus. Os bandidos foram presos, os passageiros liberados.
          Mas como começou o tiroteio? Houve ordem para atirar?
          Os passageiros deram declarações de que os assaltantes não atiraram nenhuma vez. Os tiros tinham vindo de fora para dentro.
Jonas sabia disso só de ver as perfurações na lataria do veículo. Os furos revelavam, pelo ângulo e inclinação das bordas no metal da carroceria, que os projéteis tinham sido disparados da rua, perfurando o ônibus de baixo para cima na altura dos assentos. O exame das cápsulas recolhidas no local  e das armas dos militares envolvidos confirmaria o que ele já tinha como certo: a polícia errara ao abrir fogo contra o ônibus.
          O laudo do perito Jonas não seria bem recebido pela corporação. Sempre tentavam encobrir os malfeitos dos policiais.  Estaria ele disposto a enfrentar tudo e todos em sua última performance? Nenhum dado novo iria para sua ficha. Nem elogios e nem deméritos. Mas seu nome e sua capacidade profissional estavam em jogo.
          Retirou-se do local sem declarar nada aos jornalistas de plantão.
          Apesar de já ser bem tarde, a família estava lá pronta para abraços, beijos, cerveja e comida boa. O ambiente era de alegria. Jonas entrou no clima como pôde. Se alguém estranhava seu semblante fechado, alegava cansaço.
          A noite terminou bem, filhos e netos se foram e a mulher o encarou – o que está acontecendo? Você está um caco. E ele contou tudo, como tinha sido chamado para o serviço, o que vira, o que detectara e que seria comprovado pela seqüência pericial. Falou sobre o que temia e o que o perturbava.
          Adriana afastou-se um pouco e ficou calada. Jonas não mais falou. Ele sabia que ela estava processando os dados e que perguntas e mais perguntas viriam logo.
          Mas ela não perguntou nada. Só levantou as sobrancelhas. E ele entendeu.   
            Não trabalho mais lá, mulher. Me aposentei.
          Silêncio. 
          Estou cansado disso tudo. Faço um relatório inconclusivo e passo tudo para o Pestana.  Ele  vai ficar no meu lugar.
          Jonas esperou que ela lhe dissesse alguma coisa mas, passados uns segundos de mais silêncio, concluiu:
          O Pestana é fraco, mas isso não é mais comigo.  
          A mulher, ainda calada e  imóvel, mantinha os olhos fixos no marido.
Jonas até tentou sustentar o olhar dela mas, num suspiro profundo,  baixou os olhos, passou a mão pelos cabelos e se jogou numa cadeira.
          Adriana aproximou-se dele, fez um ligeiro afago em suas costas e o deixou só na sala escura.
          No dia seguinte, Jonas redigiu um laudo minucioso com dados técnicos irrefutáveis. Conversou longamente com o chefe e continuou à frente  do caso, assessorado pelo Pestana.
          Seus projetos de viagens, descanso na casinha de Muriqui e pescarias no quebra-mar com o cunhado foram adiados sine die.

***
 A memória é curta
barto-li
          — Diraer, você se lembra de mim?
          O taxista repetiu a pergunta uma, duas, três vezes. O prefeito da cidade de Bom Porvir, Diraer Azevedo, não ouvia. Ele estava distraído demais, pensando num modo de se safar daquela acusação injusta. Ele havia fretado jatinhos sim, mas por extrema necessidade. Ele era um homem público, por Deus do Céu. 
          — Diraer, você se lembra de mim? 
          “Jatinhos”, a imprensa adora esse diminutivo, o prefeito alisava a lapela de seu terno bege enquanto divagava. O avião era um Phenom 100. Por dever, os jornalistas têm de dar o nome certo às coisas. Um Phenom 100, modelo básico. E agora vinham com essa história dele ter de devolver aos cofres públicos 900 mil reais. Mas o que esses idiotas querem? Que eu enfrente fila, me adapte ao horário de uma companhia? Ah, mas ele iria identificar o delator. Ah, se iria. 
          — Diraer... 
          O prefeito levantou rápido o olhar já irritado com a insistência do taxista. 
          — ... você se lembra? Sou eu, seu primo aquele mesmo que foi seu companheiro de turma no primário. Você colou de mim naquela prova de matemática, se lembra? E a professora pensou que eu é que tinha colado de você. 
          Diraer não se lembrava mas fez um ah e esticou os lábios com um quase-sorriso. Era um político experiente. E voltou aos seus pensamentos. Quando levantou de novo a cabeça, percebeu que haviam perdido a entrada da rua da sua casa. 
          — É trânsito, amigo? 
          O taxista não respondeu. Diraer passou a prestar atenção em seus movimentos. Tentou se lembrar afinal quem era aquele cara. Prova de matemática, essa era boa agora. Putz, primário! Eu só me lembro de quando aprendi que “filho da mãe” era palavrão. Sorriu por dentro ao rever a cena: durante o recreio, ele com seus amigos chamando os otários: ô filho da mãe vem cá. E o idiota ia! Será que este aí foi um deles? 
          — Como é mesmo que você disse que se chama? Você é meu primo mesmo? Ah sim agora estou me lembrando melhor. Você tinha muito jeito com mecânica. Um dia você foi lá em casa e minha mãe deu uma torradeira pra você consertar. Você era bom de conta também. Quando eu ganhei uma calculadora, eu apostava corrida com você pra ver quem fazia a conta mais rápido. Aí você passou a perder. Ah, ah, ah! 
          O taxista estava sério. E permaneceu calado.  
          — Escuta aqui, eu não estou reconhecendo este caminho. Que lugar é este afinal? 
          O taxista freou bruscamente. Voltou-se para trás e disse que era para ele sentar na frente porque queria mostrar um lugar que tinha sido muito importante pros dois. Diraer desculpou-se. 
          — Não sei se você viu nos jornais. Tem uns caras querendo me sacanear. Preciso encontrar meus advogados. 
          — Senta aqui na frente. 
          Diraer receou que o cara fosse ter um ataque. O homem estava suando, a voz tremia. 
          — Você está emocionado, eu vou. 
          Diraer sentou-se e o carro arrancou. 
          — Esse lugar importante fica onde? Parece que a gente tá saindo da cidade. 
          — É em Uruaí, o taxista falou baixo. 
          — O quê?! Cara, você me desculpe mas não vai dar. Vamos marcar um uísque na minha casa um dia desses. Aí a gente passa uma tarde lembrando dos bons tempos. O que você acha? 
          — Eu não tenho bons tempos pra lembrar. 
          — Putz, você é amargo hein? E olha que eu é que estou passando por todas essas dificuldades. Deus sabe o que faz. Me colocou aqui pra mostrar como tem gente que se deixa derrotar por pouca coisa. Meu amigo, a vida é dura mas sempre tem uma saída, e certamente ela não é em Uruaí. Agora, volta logo que eu te pago uma corrida pra Uruaí e uma estadia onde você quiser, o que você acha? 
          O prefeito tentou quase-sorrir mas o taxista abriu o porta-luvas, tirou uma arma lá de dentro e deu uma coronhada em sua testa. O sangue turvou a vista de Diraer. Ele sentiu vontade de chorar. Não tinha ânimo para lutas corporais há muito tempo, mas deu um empurrão no taxista e desviou a direção. O carro bambeou. Um outro passou buzinando forte. O taxista deu mais uma coronhada em Diraer que acordou num terreno baldio perto da mineradora que tinha sido de sua ex-mulher. Reconheceu logo o lugar. Ali, ele tinha tido uma briga e tanto com ela, que o acusou de ladrão. “Seu pai confiou em mim. Eu ergui essa porra de mineradora. Eu enfrentei a economia difícil, enfrentei cobradores, perdi o sono enquanto você ia pro parque com as crianças. Eu sei que não sou ladrão. Eu mereço receber esta grana. Quem encontrou os compradores para a massa quase falida?” No final da transação, Diraer embolsou a comissão e com o dinheiro da venda pagou as dívidas. Mas havia sobrado um pouco e ele deu uma parte para a ex-mulher. Qual o problema? Essa gente não tem visão de negócios. Perdido em pensamentos, só percebeu que o taxista tinha saída do carro e estava em pé ao seu lado quando o cara agarrou a lapela do seu paletó e o puxou pra fora. 
          — Vem cá, seu filho da mãe. 
          Diraer estremeceu. 
          — Tá vendo aquela gangorra ali?
          Diraer nunca tinha prestado atenção naquele arremedo de parque ao lado do terreno. Não, não era ali o parque que sua ex-mulher levava os filhos.
          — Se lembra de você me “deixando de castigo”? 
         — Hum?, — o prefeito olhou o cara e sentiu desprezo, pena daquele homem que vivia do passado e que passado pobre, meu Deus. 
          — É, seu safado, “de castigo”. Você chamou os seus amigos para fazerem peso do seu lado da gangorra que tocou o chão. Eu fiquei no ar e não conseguia descer.
          — Puxa, você é um cara muito rancoroso.
          — Vamos lá, o taxista era bem grande e com um empurrão fez Diraer avançar em direção à gangorra.
          — Cara, quanto você quer pra parar com isso? Agora estou falando sério.
          — Você não presta, seu filho da mãe.
          — Agora para de me chamar assim.
          — Por que? Você é bem filho daquela puta.
          Diraer não agüentou e pulou no pescoço do taxista. Os dois rolaram no chão. O taxista ainda estava armado e atirou na perna de Diraer que caiu, o sangue saindo do buraco da perna, passando pelo terno bege e caindo na areia cascalhenta do lugar.
          — Vou te deixar aqui pra ver se assim você pensa um pouco, seu escroto.
          O taxista se afastou. Teria sido o vento que lhe fez recordar da cena? Ou a bunda gorda do taxista que se afastava balançando dentro da calça frouxa?
          — No lugar onde eu te comi, né?, Diraer gritou.
          O taxista voltou-se, correu em direção ao prefeito e deu um chute em sua barriga.



          — Doutor Diraer, doutor Diraer. Graças a Deus que encontramos o senhor vivo. A imprensa já estava achando que o senhor tinha fugido. Foram vinte e quatro horas de muita tensão. Mas graças a Deus, graças a Deus.
          Diraer não conseguia falar e mal ouvia as palavras de seu secretário. Não sentia sua perna mas ainda pôde quase-sorrir pensando nas manchetes dos jornais do dia seguinte. Ele agora sabia, tinha certeza, aquela bala na perna, o sangue vermelho no terno bege, seriam a sua salvação.

8 de novembro de 2011

A volta do meu mundo rosa

Renata Figueiredo
Keith Haring. Ilustração do livro Love
          Vou lhes contar sobre o meu companheiro, o que me protege, me embeleza e torna o meu mundo cor-de-rosa. De cara, assim que o vi, me encantei. Primeiro, pela sua cor, depois, por ele representar justamente o que estava sentindo naquela cidade-luz, tudo era rosa. E por último, pela confiança em saber que ele não me deixaria na mão, afinal ele era de boa qualidade e de uma marca conhecida. Foi paixão à primeira vista. E me entreguei, com um pouquinho de receio, por este ser mais um, dentre tantos que já possuía. Seu preço era mediano. Na verdade, não deveria adquiri-lo mas o impulso foi mais forte que eu, não resisti, e acabei comprando-o. Feliz com a minha nova aquisição.
          Diretamente de Paris, ele veio juntinho de mim para a cidade maravilhosa. E todos os dias, passou a ser meu fiel parceiro. Houve uma vez, numa viagem à capital, no cerrado, em terras planaltinas, por um descuido, que o esqueci num quarto de hotel. Senti sua falta. Pensei em buscá-lo mas não ficamos muito tempo longe. Um anjo, lindo, teve o cuidado de reparar o meu esquecimento e trazê-lo para mim. Foi a primeira vez que o vi numa outra pessoa e confesso que gostei.
          Seguimos em frente em minha cidade, e sempre juntos. Até que por mais um descuido me desencontrei dele. Fui para minha aula de literatura e, no final do encontro, procurei por ele e não achei. Procurei daqui, procurei dali, e nada. Puxei da minha cabeça: quando foi a última vez que o vi? Tinha quase certeza que havia colocado meu companheiro sobre a mesa. Sabia que, num intervalo, tinha ido até o bar tomar um café e, no final, tinha passado no banheiro. Fui à busca. Olhei no bar, no banheiro, pelo chão, minhas amigas do curso examinaram suas bolsas, todos me ajudaram e nada. Fui para casa de  bicicleta  com um incômodo enorme. Quem me protegeria, camuflaria a minha tristeza e me daria a esperança de ter um mundo cor-de-rosa?
          Chegando em casa, desolada, me agarrei na última esperança: mandar um e-mail para todas as minhas amigas do curso para saber se alguém o havia levado por engano. Enviei a mensagem e cruzei os dedos bem fortes. Até rezei para que ele voltasse. Ficaria arrasada de tê-lo perdido por um descuido. Definitivamente ele não merecia isso.
          Até que, para minha felicidade, recebi uma resposta da minha amiga Gilda Niemeyer dizendo que ele estava com ela. Agradeci, e muito! E fiquei mais feliz ainda pela coincidência, pois ela foi a pessoa que me proporcionou a enorme alegria de poder desfrutar da melhor festa de quinze anos que vi na minha vida. A minha! Realizada em sua casa, pasmem,  projetada pelo meu ídolo, Niemeyer. Pois então. Mais uma vez ela me proporcionava uma enorme felicidade.
          Na aula seguinte, assim que cheguei, ela o colocou de volta em minhas mãos. E o que mais me chamou a atenção foi o detalhe como entregou o meu querido. Justamente da maneira como ele merecia ser cuidado, dentro de uma capinha própria. O que me fez pensar que tenho de cuidá-lo melhor porque não é sempre que terei uma sorte dessas. Bom, o que tenho a dizer é: obrigada por ter voltado, desculpa pela minha falta. Podem dizer por aí que você é plural, é mais de um. Mas para mim você é único. Te amo, meu óculos Ray ban cor-de-rosa.

1 de novembro de 2011

Meu Rio de Janeiro

J.Carlos
Arlette Santos
          Maricotinha – como carinhosamente a chamam em família – não nasceu no Rio de Janeiro, mas considera-se carioca. Não há argumentos que a façam duvidar desta afirmação. Pouco importa o que pensem os intelectuais, o que está escrito no Aurélio ou no Houaiss, o que vale para ela é o que sente, resultado de quase sete décadas aqui vividas.
          Está com oitenta anos e se orgulha da coincidência de ter nascido no mesmo ano em que foi inaugurado o Cristo Redentor, que além de ter sido construído em local privilegiado parece representar um Deus verdadeiro – forte, altaneiro, como a dizer: Aqui estou, agora e sempre, abençoando e protegendo aqueles que aqui moram e os que vêm de terras próximas e longínquas para me reverenciar.
          O número de pessoas importantes nas áreas política, cultural, jornalística e televisiva que neste ano completam oitenta anos é bem significativo, mas para Maricotinha o que importa e traz orgulho é anonimamente manter este vínculo com o Cristo Redentor.
          Em junho de 1943, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial. Sua família, na expectativa de encontrar novos rumos, mudou-se de uma das cidades serranas do estado do Rio de Janeiro para a capital, indo morar em Quintino Bocaiúva, subúrbio da Central do Brasil. Apesar das circunstâncias desfavoráveis – pai sem emprego fixo, família numerosa (eram nove irmãos), produtos racionados (açúcar, por exemplo, era limitado à quantidade prevista em uma cartela, de acordo com o tamanho da família) – sentiu-se abençoada: a chegada ao Rio viajando de trem numa manhã fria do dia de São João a excitava. Conhecer novos bairros, ver o mar pela primeira vez, cruzar a Baía de Guanabara e chegar a Niterói – quanta emoção! Em sua cabeça de menina pobre só passavam pensamentos positivos: iria crescer nesta cidade, estudar, ter um emprego. Tudo iria mudar, e para melhor.
          A adaptação foi tranqüila. No bairro em que moravam a criançada brincava nas ruas despreocupadamente. Os portões estavam sempre abertos. Não havia grandes desníveis sociais entre seus moradores. A convivência era alegre e pacífica. Maricotinha e seus irmãos frequentaram uma das escolas públicas do bairro. As professoras eram formadas pelo Instituto de Educação – tradicional colégio situado na Rua Mariz e Barros. Usei a profissão no feminino porque naquela época só meninas frequentavam a Escola Normal. Bem mais tarde é que foi permitido o ingresso de rapazes, e demorou ainda muito tempo para que, em contrapartida, as moças viessem a ingressar no Colégio Militar.
          Descendia de imigrantes portugueses, tanto pelo lado paterno como materno. Devido à idade, seu mundo era bem pequeno, porém feliz. Só depois de estarem no Rio de Janeiro tiveram seu primeiro rádio. As notícias passaram a encher suas vidas, e o mundo ganhou novas proporções. Ainda hoje, parece ouvir o comentarista do Repórter Esso dando a notícia do término da Segunda Guerra, e reviver a emoção que tomou conta da cidade enquanto desconhecidos se abraçavam e comemoravam a chegada daquele momento tão ansiado.
          Conseguiu se formar, fez concurso e se tornou funcionária pública. O tempo passou. Hoje ela acompanha com interesse o que se passa no Brasil e no Mundo, mas sente no mais íntimo do seu ser o que se passa neste seu Rio de Janeiro: vibra com suas vitórias, sofre com suas derrotas. Ao tomar conhecimento de fatos como o ocorrido no bairro de Santa Teresa – com o descarrilhamento do bondinho e a morte de cinco pessoas, seu coração se acelera.
          Neste ano em que as autoridades agem no sentido de nos preparar para os dois eventos internacionais que aqui serão realizados, a cidade fervilha, parecendo um grande canteiro de obras. Crescem expectativas e inquietações: será que haverá tempo? Teremos pessoal numerica e tecnicamente capacitado para realizar tantas obras importantes? Sua cabeça está a mil: pela manhã lê o jornal, durante o dia assiste aos telejornais. Quer se inteirar do que está acontecendo.
          As lembranças de fatos ocorridos nesta longa jornada a fazem ficar ligada ao que acontece hoje. Recorda-se de um dito popular muito usado em nossa cidade – bola pra frente! – e aí antigas e novas imagens aparecem: o Maracanã e o Engenhão. Em 1950, a Copa do Mundo realizou-se no Brasil: a inauguração do Estádio do Maracanã, a derrota da seleção brasileira para o Uruguai no último jogo, e lá estava ela! Difícil descrever o sentimento que os dominou. E agora aqui está, acompanhando a grande obra de reconstrução do velho Maracanã para servir como sede aos dois próximos eventos mundiais: Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016.
         Infelizmente, vivemos num país cheio de conflitos: extrema miséria, ostentação desenfreada e preconceitos que, embora sejam considerados crimes previstos em lei, confundem sua cabeça e às vezes abatem seu ânimo. E é aqui, mais uma vez, que a experiência de vida vem trazer perspectiva diante das dificuldades: lembrando-se dos colegas do grupo escolar que frequentou, do humor das pessoas que, apesar dos fatos angustiantes que as atingiam frequentemente, mantinham o alto astral, acredita que o carioca ainda conserva sua característica de enfrentamento e superação de limites com bom-humor e perseverança. E espera conservar-se saudável mental e fisicamente, para poder assistir e participar destes eventos que marcarão a história de nossa cidade.

Duas súplicas, duas Helenas

Helena
Ruth Lifschits
          —  Chegou cedo, hein? Deu formiga na cama?
          Helena nem respondeu, um olhar bastava. O porteiro que pensasse o que quisesse. Passara a noite em claro na companhia de preocupações e medos. Qual o problema de começar o trabalho mais cedo? Na verdade, muito mais cedo — ainda não eram cinco da manhã.
          Tinha-se adiantado e muito.
          Pegou o elevador para o décimo quinto andar. Entrou no apartamento e encontrou silêncio e penumbra.   Acendeu a luz da cozinha e foi trocar de roupa. Ficou um bom tempo no banheiro: escovou os dentes, lavou o rosto e tentou encontrar um pouco de ânimo e confiança, mas estava péssima. “Vou preparar o café.” Queria oferecer para sua patroa um café da manhã de   novela de TV, algo muito especial. Tirou pão de queijo do freezer e arrumou as bolinhas na assadeira. Ligaria o forno às sete. Descascou frutas e cortou em cubinhos  para uma salada que serviria com iogurte fresco e coado, espesso como os patrões gostavam. Arrumou os frios numa travessa: mortadela defumada, pastrami e peito de peru. No cestinho de palha colocou fatias de pão integral com sementes de girassol. “O queijo de Minas só na hora. Aí faço o suco de laranja.”  Caprichou na arrumação da mesa: louça florida combinando com  a toalha de linho rosa.
          E Helena tratou de se manter  ocupada pois não queria ficar de olho no relógio esperando que a patroa aparecesse.
          Regou as plantas da varanda e as de dentro da sala.  Deu um jeito nos sofás afofando as  almofadas. Tirou pó dos móveis e limpou as mesas de vidro. Voltou para a cozinha - ainda eram seis horas. Varreu, passou pano no chão da cozinha e da área, lavou louça, guardou copos e pratos, arrumou gavetas. Trabalhar, trabalhar para não pensar nos problemas.  
          E foi passar roupas.  Começou pelas camisas, umedecendo bem as de algodão. Pendurava todas em cabides para que esfriassem antes de serem dobradas, evitando assim novas rugas ou partes amassadas. 
          Mais uma consulta ao relógio: sete e meia e a patroa dormindo. Rita costumava acordar as oito ou oito e meia. Gostava de se demorar tomando café, lendo o jornal, fazendo as palavras cruzadas e o logodesafio.
          Oito horas, a mesa do café intocada. O patrão tinha viajado na véspera e só voltaria no final da semana. Sem Maurício em casa seria mais fácil conversar com a patroa e conseguir o que queria.    Sabia o que esperar dela:  Rita se aborrecia, a voz ficava exaltada e vinham os  sermões. Relembrava todos os pedidos de ajuda feitos anteriormente e cobrava as promessas não cumpridas de que tais cenas não se repetiriam. Geralmente ela terminava com “isso me causa muito desconforto, me faz mal. Não sou responsável por seus problemas pessoais e nem por sua família. Quero uma profissional competente dentro de minha casa. Deixe seus problemas lá fora.”
          Mas Rita acabava cedendo. Ficava uns dois dias fria e distante e depois tudo se normalizava.
          Hoje, mais do que nunca, Helena precisava que ela cedesse . Acabou de dobrar a última camisa e foi tratar dos verdes que tinham vindo do sítio. Lavou as alfaces, a rúcula e o agrião.  Secou todas as folhas e guardou nos saquinhos de abrir e fechar – como Rita ensinara.
          Fechado o último saquinho, viu que ainda eram nove e meia. “Cadê D. Rita? Será que não está em casa?” Pé ante pé foi até a porta do quarto da patroa e ouviu o  som do ar condicionado ligado. Certa de não estar sozinha no apartamento, voltou para a cozinha.
          Nove e trinta e cinco e Helena sem nada para fazer. Tomou um copo de café com muito açúcar. Estava agitada, precisava se acalmar. Mas sentiu-se tonta, seu coração estava disparando. Enfiou-se no banheiro decidida a tomar um banho frio para espantar o mal estar.
          Rita se levantou às dez e meia. Tomou banho, cuidou do rosto e dos cabelos, vestiu-se e foi tomar café.
          Viu a mesa posta com capricho, o rádio ligado tocando música suave, o jornal dobrado. Chamou Helena mas não teve resposta.  Procurou-a na sala, mas não a encontrou. “Deve ter ido à padaria”. Sentou-se para tomar café e desligou-se de tudo lendo o jornal e fazendo os jogos com letras e palavras.
          Quando o telefone tocou, se assustou de tão absorta que estava. Era o marido. Conversaram um pouco, se desejaram bom dia, beijinhos e até mais. Deu-se conta do adiantado da hora – quase meio-dia e nada de Helena. Desligou o rádio e só então ouviu um barulho de chuveiro aberto. Vinha do banheiro de empregada. Bateu na porta, chamou por Helena, mas só se ouvia a água correndo. Assustada, interfonou para o porteiro pedindo ajuda. E foi um auê. Arrombaram a porta do banheiro e encontraram Helena caída no chão, desfalecida. Chamaram uma ambulância, mas foi tarde. Um enfarte fulminante acabara com a vida da empregada que servira essa família por mais de vinte e cinco anos.
Polícia, perícia, enterro, choro dos filhos de Helena, promessas de ajuda, todos os capítulos que fazem parte dessas mortes súbitas foram sofridos por Rita e seu marido.
          Passados uns dias, era hora de abrir espaço para uma nova funcionária. “Vou mandar as coisas da Helena para os filhos.”  E foi um joga fora isso e  guarda aquilo que durou horas. Exausta, Rita chegou à última peça: o uniforme que Helena estava usando no dia em que passou mal.  A faxineira o tinha encontrado num canto do banheiro e o pusera, dobrado, sobre a máquina de lavar roupas. Rita ficou olhando para o vestido desbotado mas inteiro, sem partes descosturadas e com todos os botões. Pegou o uniforme, imaginando Helena dentro dele e sentindo falta daquela cara redonda, muito preta e de olhos de jabuticaba.    E achou um bilhete dentro de um dos bolsos.   Imediatamente reconheceu a letra irregular e os erros de português,

Dona Rita descupe mais essa é mais uma tentativa minha desesperadora e utima da minha vida já que não consigo falar, eu estou me espressando escrevendo. Eu hoje tenho que voltar para minha casa. A senhora nem sabe estou sem dormir em casa a uma semana com medo dos cobradores. Só a senhora pode me ajudar, pelo amor de Deus. Se não pagar hoje eles vão me matar ou fazer mal a um dos meus filhos. Dona Rita, em nome de Deus eu farei tudo que a Senhora ordenar, serei sua eterna Helena e não peço mais nada nessa vida. Pelos nossos filhos que Deus já levou, eu te suplico e eu pagarei da melhor forma e nunca mais comprarei uma agulha sem te pedir autorização, me perdoe minhas fraquezas, meus erros e me ajuda hoje e  eu farei tudo que me pedir. Leia e me da a resposta hoje eu trouse o documento eu prometo nunca mais falar de problema ou qualquer coisa só se a Senhora me perguntar.
          Rita abraçou o vestido da empregada. Um entendimento doído, misturado a tristeza, saudade, impotência e arrependimento, a invadia por inteiro.

***
Súplica
Maria Tereza Albernaz
          No fim de suas forças, depois de gritar e reclamar, já sem vontade de olhar para sua mãe, Helena sentou-se na cama e começou a chorar. Daquela vez, ela sentiu que sua desobediência havia causado muita preocupação. Mas ela havia mentido porque seus pais não entendiam sua maneira de ser. Queria que fosse diferente. E agora outra batalha a enfrentar. Tinha planos para passar o fim de semana com os amigos em uma casa de praia. Precisava decidir sobre esse assunto, principalmente depois da conversa que havia acabado de ter. Queria muito não fazer essa viagem escondida. Assim, respirou fundo, limpou com a mão seu rosto coberto de lágrimas, aproximou-se e falou manso:
          Por favor, mamãe, me escute, eu te imploro. Pense, antes de tudo, que eu adoro minha família, não quero fazer ninguém sofrer, mas tenho 14 anos e não sou mais criança. Tente ouvir até o fim tudo o que tenho a falar. 
          A minha turma organizou um fim de semana na praia. Vamos dormir na casa do pai do Bento. Você sabe como a família dele é complicada, mas deixaram que nosso grupo ficasse lá, mesmo sem adultos. Somos sete amigos. Imagine só, mamãe, a Norma, mãe dele, vai sair de casa para viver com outro homem e não quer levar os filhos. Não saiu ainda não, só avisou. São quatro filhos e ela vai morar em outro país. O pai, pelos cantos, chora sem parar. O Bento nos disse que ouviu o pai gritar que, de jeito nenhum, vai ficar sozinho com tantas crianças. Pode imaginar a confusão? Todos na casa estão atordoados, surpresos. Nunca podiam imaginar ver o pai desesperado, chorando como se fosse o fim do mundo. Foi pior que a notícia da mãe. Claro que eles se arranjariam, mas o pai só falava bobagens. 
          Nós, os amigos, precisamos ajudar. O Bento quer fugir, ir para longe da casa de doidos onde está vivendo. Não suporta mais a discussão, a gritaria, o pai chorão, antes tão senhor de si, tão intransigente. Então, bastou o filho comunicar que iria viajar para a praia e ninguém perguntou nada.
          Assim, mamãe, eu te suplico, eu te imploro, me deixa ir para a praia com meus amigos, por favor. Eu já sei cuidar de mim. Não me trate igual a uma criança. Eu percebo que a situação é séria. Está enganada se pensa que essa viagem será fácil para mim. Vamos tentar animar o Bento, mas sabe-se lá se ele vai querer se divertir. É um drama.

          A mãe de Helena suspirou.  “Eu vou.”, Helena decidiu-se.
          A mãe de Helena apertou os lábios. “Eu vou, tá?”

27 de outubro de 2011

Odisseu em Hades

Extraído do Canto XI da Odisséia de Homero, trad. Jaime Bruna
William Turner
           Depois de invocar com votos e preces as nações dos mortos, peguei as reses, degolei-as sobre a cova, e o sangue de negros vapores correu.
          Aglomeraram-se, então, subidas do Érebo, as almas das pessoas mortas. Era, donzelas, moços solteiros, velhos sofridos, virgens puras com o primeiro luto no coração; muitos eram os feridos pelas espadas de bronze, mortos em combate, com suas armaduras tintas de sangue. Chegavam incontáveis, de toda parte, e apinhavam-se em redor da cova, ululando prodigiosamente, e um pálido terror se apossou de mim. 

           [...] Veio em seguida a alma de minha falecida mãe, Anticléia, filha do altivo Autólico; eu a deixara viva quando parti para a Ílio sagrada. Ao vê-la chorei e senti pesar em meu coração; contudo, a despeito de minha dor profunda, não permiti que se aproximasse do sangue antes de eu consultar a Tirésias.
           Veio depois dela a alma do tebano Tirésias; trazia um cetro de ouro; reconheceu-me e disse:
          Filho de Laertes, progênie de Zeus, engenhoso Odisseu, por que vieste, ó desditoso? Por que deixaste a luz do sol, para veres defuntos e um lugar desprazível? Eia, arreda-te da cova e recolhe a adaga acerada, para que eu possa beber do sangue e revelar-te a verdade.
          Assim falou; eu me arredei, embainhando a adaga tauxiada de prata. O impecável adivinho, depois de sorver o escuro sangue, dirigiu-me estas palavras:
          Procuras, glorioso Odisseu, um regresso doce como mel; um deus, porém, to fará penoso; não creio que te esqueça o deus que a terra estremece; ele te guarda rancor no coração, encolerizado por lhe teres cegado o filho dileto. Não obstante, embora sofrendo desgraças, poderás lá chegar, se te dispuseres a conter tua sofreguidão e a dos companheiros, quando aproximares teu bem construído barco da ilha Trinácia, escapando do mar violáceo, ao encontrares no pasto as vacas e nédias ovelhas de Hélio, que tudo do alto vê e tudo escuta. Se as deixares intactas e cuidares de teu regresso, ainda chegareis a Ítaca, a despeito de sofrerdes reveses; caso, porém, as saqueies, então te predigo o fim do barco e da tripulação; se tu mesmo escapares, chegarás, tardio e humilhado, perdidos todos os companheiros, a bordo de barco estrangeiro; encontrarás tribulação em casa homens estróinas, que devoram teu sustento, pretendendo a mão de tua divina esposa, a quem oferecem presentes. [...] 


          Assim falou ele e eu lhe disse em resposta:
          Tirésias, foram os próprios deuses, creio, que teceram assim meu futuro. Eia, porém, dize-me uma coisa, falando sem rebuços; estou vendo presente a alma da minha falecida mãe; ela está sentada em silêncio perto do sangue; não teve, porém, ânimo de encarar o seu filho e conversar com ele. Dize, príncipe, qual o meio de ele poder reconhecer em mim quem sou?
          Assim falei e ele prontamente me disse em resposta:
          ― Não me custará dizê-lo de modo que compreendas. Toda aquela, dentre as almas dos mortos, que deixares chegar perto do sangue te fará vaticínios verazes, mas, se a alguma o recusares, essa tornará atrás.

***
PARÓDIA OU RECONTO?

Filho, aproxima de mim este cálice
barto-li
O sangue do sacrifício escorreu dos lábios da mãe de Ulisses. Ela precisava desse alimento para falar com o filho. Ah! que delícia. Saciada ela contou todas as fofocas de Ítaca. Você nem imagina o que aconteceu na sua ausência. Depois de muito ouvir, Ulisses ouviu mais porque sua mãe chamou as amigas para compartilharem do chá de sangue. Ulisses não pôde negar. Uma a uma elas passaram. Mas nosso herói não ficou cansado de ouvir espíritos. Ei, vocês poderiam me chamar o Tirésias? Eu quero ouvir o velhote vidente. Ele é cego, Ulisses. E daí? O homem vê coisas que ninguém vê. Lá isso é verdade. Aqui em Hades, ele é o cara. Tirésias chegou e bebeu um copão de sangue. Hum. Quero mais. O cara aproveitava da sua condição de fofoqueiro-mor. Depois de uns dez copos, Tirésias soltou o verbo. Ulisses, meu caro, você vai se dar mal. E toca a dar má notícias. Chega, chega, Tirésias. Xô, mau agouro.

***
Tirésias, o guia cego, é um personagem fascinante. Transitando pelos gêneros, pelos territórios, ele dá margens a várias recriações. No cinema, o Stalker, de Tarkovsky, é considerado uma dentre as diversas variantes de personagem tiresiano. De fato, o personagem-título oferece aos interessados uma passagem segura pela Zona para que eles possam entrar no Quarto - lugar onde os mais recônditos desejos dos visitantes serão atendidos. No filme, o Stalker leva um cientista e um escritor até o limiar do Quarto. A discussão que acontece ali (neste filme, é o diálogo que acontece) faz a gente pensar  no quanto a ciência e a arte às vezes podem ser tão estúpidas diante da simplicidade na vida.

14 de outubro de 2011

Joeverson

Maria Tereza Albernaz
          Não fazem parte da vida do Joeverson hábitos e comportamentos simples. Hábitos esperados de qualquer criança. Na escola, onde qualquer aluno atende a solicitações da professora, seja por respeito, timidez ou comodismo, Joeverson só costuma obedecer se houver recompensa ou ameaça de punição. E precisa ser explícita.
          Provocativo, ri ele mesmo de suas brincadeiras maldosas com seus colegas. Debocha das gordas, das magras, dos fracos, dos que não sabem ler ou fazer os deveres. Usa palavrões repetidos nas conversas com as professoras, fala o que vem à cabeça para desconcertar ou atordoar. Contrariado, Joeverson age com agressão e adota uma atitude de desprezo pelo exercício, pela brincadeira ou pela turma, inclusive as professoras.
         Com inteligência acima da média, curiosidade e memória extraordinárias, surpreende a familiaridade de Joeverson com assuntos diversos. Lê e compreende com certa facilidade e, se porventura, a questão não é do âmbito escolar, ele já ouviu falar e tem algo a dizer. Se não conhece e tem interesse, pergunta e escuta atentamente a resposta.
          Como gosta de mostrar que sabe mais do que os outros, quando disposto, ajuda os colegas nos deveres, mas impacienta-se com os que não acompanham suas explicações. Participa com entusiasmo de atividades coletivas, principalmente se houver competição. Mais ainda, pede e gosta de jogos com desafios, e na maioria das vezes, claro, é o vencedor.
          Joeverson é um menino negro, lábios grossos, roupas velhas, muito pobre, mora com uma avó porque sua mãe é presidiária.
          Uma ou duas vezes, por ter sido repreendido fortemente, sentou-se num canto da sala e seus olhos encheram-se de lágrimas. Nesses momentos, somos lembrados da fragilidade do menino rebelde.
Bansky

Presságio

SWP
— ...
— Ô Seu João...!?... Não vai falar nada, não? ‘Tô esperando sua resposta faz muitos dias... Tive aqui foi na semana atrasada. Vim te avisar, e avisei, e, ‘tô falando em nome da Justiça. O senhor sabe que eu sou o comandante do 8º Batalhão de Polícia da Justiça Estadual. Não é no meu nome, não... Expliquei pro senhor que as terras foram compradas por uns capitalistas... Parece que são estrangeiros, porque é tudo louro de olho azul. Acabou o tempo de posseiro nessas terras... Agora, o senhor vai ter de ir pra outro lugar; decerto mais pra longe... Nesses confins de Minas não são todas as terras que tem dono e o senhor há de encontrar uma que lhe sirva.
— ...
— Seu João, assim não dá. Em vez de dar um jeito de sair, você botou foi uma cerca, ficou doido? ‘Cê sabe que vai ter de sair. ‘Tá só atrasando os procedimentos da Justiça. E, não é por causa do minério que descobriram, não. As terras já tinham sido compradas antes do minério. E você sabe, né? Justiça é Justiça, Juiz decidiu, ‘tá decidido. Vim lá da Capital e até agora não pude cumprir a lei; os outros já saíram só falta o senhor.
— ...
— Seu João, tem paciência! Não me faz usar a força. Tenho outros três homens comigo... Sei que tem tempo que ‘cê mora aqui, que sua família ‘tá aqui e que é aqui que ganha o seu sustento. Por isso mesmo é que lhe digo que vai ser fácil de achar outro lugar. Todo mundo sabe que você é um homem trabalhador.
— ...
— Seu João, fala alguma coisa senão vou lhe tirar à força...
— ...
— Ôôô ... Romualdo!.... Tira ele da frente e vamo’ arrebentar a cerca.  Chama os nossos homem.
— Chama não, seu moço. O senhor me mostra os papel da Justiça que eu não sei ler, mas minha filha, ali dentro, sabe.

João largou a mão do facão que trazia no cinto e amassou o chapéu encardido com as duas mãos. Transferia pro chapéu um ódio surdo, e desmesurado.

— Dá os papel.
— Que negócio é esse de papel? Já disse que ‘tô representando a Justiça. e Falo em nome dela. Não tem nada de papel. É só sair, que é pros novos donos ocupar as terra. É gente graúda que não tem tempo pra perder.
— Sem papel não saio não, fulminou João. Os olhos odientos desafiavam o polícia, ajudados pelo corpo aprumado e a voz forte, quase gritada.
— ‘Cê não entende mesmo. É cabeça dura pra diabo. Eu não ‘tô pedindo, eu ‘tô é mandando.

Uma galinha saltou, cacarejando, do poleiro, alvoroçando todo o galinheiro.  João entendeu. Era um presságio.

Naquele justo instante lhe veio na cabeça a briga travada com os outros, medrosos, na defesa do que era direito. Vieram também todas as dificuldades que tinha passado pra chegar naquele ponto. A miséria maior abandonada lá atrás. A construção da casa, os choros da mulher quando não tinha o que comer. As dificuldades da filha pra chegar à escola na cidade. A briga incessante com os pés de milho, dos primeiros dedos vermelhos da aurora até o fim da tarde. Sem descanso. As chuvas, a seca, as pestes castigando a plantação. E as dificuldades de levar a produção pra vender? Tudo isso ele foi resolvendo, conquistando seu lugar. E agora, essa? O povo da cidade afirmando que era o polícia mesmo que ia ficar com as terras. Pra negociar com os estrangeiros, depois da descoberta do infeliz do minério... Ah, não!

— Seu moço, ouvi dizer é que é o sinhô que vai ganhar com as terra. O povo ‘tá falando isso. Com minério ou sem minério, não vou sair das minhas terra, não. Por isso, zarpa daqui!
— Seu João, já lhe avisei mui...

Não chegou a terminar a ameaça. Alguém do alto da serra, lá de longe, soprou nos ouvidos do João que ele tinha era de cumprir o seu destino.

A tarde já ia caindo. Os outros polícias se juntaram em redor do tal comandante tombado ali no chão. João largou o facão no chão. Entrou em casa e fechou a porta.
Portinari

9 de outubro de 2011

Genialidade

Patricia Fucci
          Martim Martinez era um menino pobre, nascido e criado numa estância no sul do Uruguai. Filho de um lavrador e de uma cerzideira passou a infância a correr a relva ribeirinha e a acompanhar o gado, montado a pelo nos cavalos do patrão.
          Sua inteligência era tão plena que se fazia independente. Avançava e muito a idade e o corpinho franzino de guri. Quando lhe vinha a clarividência, não sabia como dar conta, então contava tudo, as pedras, os passarinhos, as folhas do caminho.
          Martim não poderia sabê-lo, mas via o mundo com outros olhos e o escutava com outros ouvidos.
          Os barulhos da natureza tornavam-se musicais para ele. O gotejar de uma folha, o coaxar dos sapos, o ruído da força da correnteza dos rios arranjavam-se em sua cabeça como uma sinfonia.
          Também a escrita não lhe era indiferente. Não havia trecho de livro ou leitura de qualquer espécie que não reorganizasse, substituindo palavras, invertendo parágrafos, às vezes até suprimindo algum elemento, de modo a lhe parecer mais harmônico.
          Não tardou para que um fazendeiro abastado do lugar, ao corrente da existência do menino superdotado, tratasse de levá-lo para o mundo, a fim de propiciar-lhe educação adequada às suas capacidades.
          Entretanto, a extensão de seus conhecimentos, ao invés de lhe acalmar o gênio, tornaram suas peculiares interferências no mundo cada vez mais complexas.
          Não raro era visto caminhando pelos corredores da universidade a reger, com movimentos frenéticos, uma orquestra imaginária. Nas páginas dos livros encontrados no seu dormitório, as palavras eram riscadas e reescritas de forma ilegível, muitas vezes com as ilustrações alteradas.
          Martim habitava a solidão que transpunha o coração e penetrava a alma, vivendo cativo em sua alienação, acorrentado ao pleno absurdo. Porém foi chegado o dia em que a angústia do gênio transcendeu a condição humana e libertou Martim, que voltou a ser menino, pastor de seus próprios rebanhos, descalço na natureza, de alma lavada.
Theodor Galle (1571–1633) [?] - Cultivo de horta (detalhe)