3 de junho de 2011

Jennifer

Maria Tereza Albernaz  
Anjo de tênis, Djanira
          Jennifer é uma menina de sete anos que mora na Rocinha. Pequenina, como as meninas desta idade, tem bochechas grandes, olhos escuros e cabelos compridos. No meio de crianças vestidas com roupas coloridas, roupas de adulto em corpo de meninas e cabelos enfeitados ou despenteados, Jennifer aparece com roupas discretas, rabo de cavalo e uma fita larga no cabelo, usada também por muitas garotas no Leblon.
          Quieta e sem amigos, não participa das brincadeiras dos colegas, não grita, não corre e atende com prontidão as solicitações das professoras. Se não se integra nos jogos espontâneos da turma e, nos jogos dos programas de aula, participa com animação comedida, defendendo-se quando querem passar na sua frente. De forma contida, não cede. Prefere ignorar a discutir pelo que acha ser seu direito. Se uma das professoras faz uma pergunta ou pede a colaboração para qualquer atividade, na algazarra que acontece com freqüência, ela levanta insistentemente seu dedinho até ser chamada. Outro dia, depois de um exercício de recorte de revistas e colagens, quando foi solicitada ajuda para a arrumação, Jennifer se ofereceu mais uma vez com o dedinho levantado e, com graça e rapidez, apanhou uma vassoura para juntar os papeis do chão. 
          A garotinha faz seus deveres cuidadosamente, desenha e gosta de colorir. Seu material escolar é bastante simples, mas não faltam em sua mochila o básico lápis e borracha. Parece tímida, mas não se envergonha em pedir explicações, aguardando com paciência sua vez em ser atendida. Se termina as tarefas antes dos outros, espera calada até a próxima atividade. 
          Como todos os alunos, sem exceção, seu nível de escolaridade é muito baixo. Lê com muita dificuldade e comumente não entende nem mesmo os enunciados dos exercícios. O descompasso é imenso entre os deveres de casa que trazem da escola pública e o conhecimento que os alunos na realidade têm. Não importa a matéria – matemática, português ou qualquer outra. Em geografia, por exemplo, muitas das crianças não sabem distinguir cidade de bairro, e algumas desconhecem que moram no Brasil.
          O sorriso de Jennifer é doce. E está sempre em seu rosto. Se não é atropelada pelos colegas, se despede das professoras com um abraço. Não sei sua história, mas enternece ver esta menininha na Rocinha.

Um comentário:

  1. Gostei muito da maneira terna com que foi descrita a protagonista.

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