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31 de agosto de 2010

Fellini e a inspiração

          Não se pode esquecer a contribuição de Fellini, com seu filme 8 e ½. Nele, um cineasta inicia a produção de um filme sem saber absolutamente nada do que pretende. Aliás, o filme é o banimento da palavra absoluta. E é uma obra-prima sobre o que é inspiração. A secura dessa crise (real) instaurou um momento de virada na filmografia de Fellini. A partir daí, ele encontrou uma química em que entram realidade (a equipe, o roteirista, os atores, a esposa, a amante etc.); magia ou imaginação (o enforcamento do roteirista, a experiência do harém, o vôo de um advogado com o pé preso em uma corda); e memória (os padres, a família). Acompanhar esse processo de criação é descobrir que a inspiração se reencontra com trabalho, esforço. E que há sofrimento no enfrentamento de chatices e cobranças. Ainda bem que Fellini não carrega peso desnecessário e sabe esvaziar a seriedade excessiva. Realidade, magia e memória. E pé no caminho.
          No final de “8 e ½ “, o cineasta ama a vida como um bom circo. Olha-a com amor, como quem colhe tudo e se diverte com o que vê.
          Pode-se então começar a escrever o que não se sabe, a confusão. Mas será preciso atravessar o deserto como o camelo de Nietzsche, afugentar os domadores como um bravo leão, para assim poder chegar a jogar de novo como criança. Caminhar tem seus momentos de sabiá e também de trevas. Olha com atenção a realidade, vê algo que não se encaixa e relembra como é maravilhoso esse algo, coisa ou lugar. Caminhar como o artista de Fellini é aceitar a sua guerra de braços abertos, e abraçar o discordante. Arte não é repetição da realidade; ela desmecaniza a realidade; realiza um trabalho sobre o que se deteriorou. É desse modo que causa estranhamento no aparentemente familiar e abre possibilidades de redescoberta do mundo. Assim, é importante que o artista se apegue tanto à negatividade – valorização das contradições – quanto à positividade – capacidade de adesão à realidade.
No filme "Fellini 8 e meio", as lembranças desfilam para o diretor em crise.

27 de agosto de 2010

O tempo de comer um pavezinho de limão

Daniele Alves
          Elas entraram no café meio desencontradas. Uma muito afoita para comer algo que não dava para saber ainda o que era, e a outra sem muita disposição e boa vontade para estar ali. A morena fincou-se no balcão que para sua sorte estava descongestionado naquele momento, embora fosse hora de grande movimento no café. A negra que não ia comer nada, começou a andar pelo espaço entre as mesas e a parede dos fundos do café. Não queria contato com ninguém. E não porque fosse anti-social. Esperava a morena, que não se decidia quanto ao que ia pedir. A negra até que tentou ajudá-la com sugestões, que não foram consideradas.
           Finalmente sentadas, a morena comia alucinadamente uma sobremesa guarnecida em  um pequeno copo plástico transparente e duro, sobremesa que ia sendo desmanchada na boca daquela senhora de uns sessenta anos. A negra devia ter mas ou menos essa idade também, só que aparentava menos. Estava muito mal acomodada, com as pernas dispostas para um lado, e o tronco voltado para um outro. Suas costas nem tocavam o encosto da cadeira. Tinha uma mão na quina da mesa, a outra no queixo e uma expressão de tédio interminável. À sua frente, a outra a dilacerar o doce, esfomeada, se lambuzando toda feito criança pequena.
          Meio fatigada, ela assistia à morena em ação e lhe respondia com gestos de descaso acompanhados de muxoxos.  Às vezes olhava em volta como a pensar que aquele não era seu lugar. Olhava e logo baixava os olhos com receio de encontrar algum outro olhar perdido. Olhava tudo com diligência, como quem sabe nos mínimos detalhes o que vai dar certo e errado mas tem de ficar em silêncio. Quando a outra acabou de lanchar e resolveu ir embora, a negra foi na frente, os peitos, bem postos para a idade que tinha, sob uma blusa laranja, a cabeça levantada de quem sabe entrar, permanecer e sair dos lugares que não são seus, aliviada por  finalmente não ter mais de estar ali, onde não fazia nada a não ser acompanhar a morena que parecia ter mais posses do que ela,  mas que em matéria de bons modos a envergonhava.
          Enquanto saía, a negra ia percorrendo o café, agora com certa folga no olhar, como quem tivesse cumprido seu dever ou seu pequeno sacrifício com a máxima dignidade possível. Despedia-se do momentâneo tédio e impaciência. Mesmo assim, essa mulher  tinha com certeza desfrutado melhor daquela passagem ali do que a morena. Mesmo não tendo degustado a sobremesa menos arriscada de se saborear naquele café. Sobremesa que sempre estava do mesmo jeito, nem mais nem menos gostosa: um pavezinho de limão. 
***
Cena do filme "la grande bouffe" (A comilança), Marco Ferreri, 1973.

22 de agosto de 2010

Reflexões sobre uma velha máquina de escrever

Arlette Santos
          Semana passada recebi um e-mail discorrendo sobre o nascimento, vida e morte da máquina de escrever. Além dos textos, havia fotos de vários modelos, com os anos de fabricação e país de origem. Lembrei-me da primeira máquina que tive: comprei-a usada, de um vizinho. Era um modelo antigo já naquela época, pesadão, quadradão. Ao adquiri-la, minha intenção era treinar um pouco para um concurso de Escriturário do IAPI, o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários. Fazia parte a prova de datilografia que, embora não fosse eliminatória, tinha algum peso. A passagem desta primeira máquina por minha vida foi tão transitória que não me recordo de sua marca, nem qual foi o seu destino.
           Há porém uma outra máquina de escrever em minha história.
          No final da década de cinquenta do século passado, eu, já formada em Serviço Social, e trabalhando em um Posto de Saúde em Madureira, fui convidada por um colega, dono de um ginásio em Nilópolis para dar aula de Matemática. Aceitei. Trabalhava no horário da manhã no serviço público e, duas vezes por semana, pegava o trem da Central do Brasil. E ia para dar minhas aulas.
            Em 1960, Hugo reapareceu em minha vida. Então, começa a história de uma máquina de escrever...
             A Remington, fabricante de vários equipamentos para escritório, lançou um novo modelo e um programa de financiamento para professores, com preço especial e parcelamento em 24 meses. Resolvi comprá-la e dar de presente ao Hugo. Em 1962, casei-me e esta máquina nos acompanhou durante quase 46 anos. Inclusive tornou-se nossa companheira de quarto. Explico: o apartamento em que morávamos era pequeno para nossa família e nosso quarto relativamente grande. Mandamos fazer um móvel composto de uma mesa, onde ficava a tal máquina, e uma estante que se estendia até o teto. Isso, até  nos aposentamos, quando a máquina passou a morar dentro de um armário.
           Depois do falecimento de Hugo, nossos filhos escolheram suas lembranças. O que sobrou ofereci a uma instituição filantrópica. Guardei livros e fotos, mas o objeto mais significativo, do qual nem pensei em me desfazer, foi a máquina de escrever, hoje uma velha cinquentona bem conservada!

           Penso em encontrar alguém a quem oferecê-la, mas só a darei a quem for cuidá-la com muito carinho. Será que este alguém existe?
Hammond, 1885

Remmington, 1897
Minha máquina

21 de agosto de 2010

Noel, o menino da Vila (convite)

Sobre o ritmo da prosa

Marjorie Boulton           
          Discussões sobre realces e tonicidades fazem parte do rol de temas de um estudante ou de um critico que esteja tentando ser objetivo. Que isso não nos faça crer que tradutores cuidadosos ou prosadores possuidores de grande sentido de ritmo coloquem-se diante de um parágrafo inacabado e pensem, “eu acho que é hora de um tipo “x” de recurso para tornar esta frase mais leve, ainda que deva terminar com um monossílabo tônico, ou então não conseguirei dar o tom definitivo que pretendo...” É difícil dizer como os bons escritores adquirem o hábito do bom ritmo. Certamente ele se está atento ao ritmo da prosa que escreve.
           É provável, no entanto, que grandes criadores de prosas memoráveis e individuais tenham sido dirigidos por um tipo de pressão interior, dificilmente sentido explicitamente no momento mesmo da escrita, assim como os ritmos da poesia parecem vir à cabeça de modo quase espontâneo. Possivelmente tenham alguma relação com as sensações físicas associadas com emoções fortes – a freqüência respiratória, o batimento cardíaco, movimentos corporais frenéticos, ansiosos ou apáticos. Certamente não são trabalhados passo a passo com consciência e artifício; apenas o polimento final, a remoção de lapsos, é um processo consciente. Quando tentamos penetrar nestas questões maiores da natureza da criação artística, deparamo-nos com o problema de que a mente do artista, durante o processo, está muito ocupada com a compulsão imediata para se colocar no lugar do observador dos acontecimentos. Assim, todo nosso conhecimento de tal processo é fragmentário, uma coleção de reluzentes migalhas.

Frase

Trechos retirados do livro Comunicação em prosa moderna de Othon Garcia

A colocação das palavras na frase constitui um dos processos mais comuns e mais eficazes para dar relevo às idéias. O que determina a ordem dos elementos na frase é o rumo do raciocínio, a seqüência lógica, a clareza e a ênfase.

Ordem direta: 1) sujeito, 2) verbo e 3) complementos essenciais.

Mas a inversão pode dar à frase mais vigor e mais energia, i. é, mais ênfase, realce ou relevo:
- Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. [direta]
- O homem, criou-o Deus à sua imagem e semelhança.
- À sua imagem e semelhança, criou Deus o homem.
- Criou Deus o homem à sua imagem e semelhança.

Na conhecida narrativa de Alexandre Herculano,“O rei e o arquiteto”, a resposta de Afonso Domingues, se construída em ordem direta, não chegaria a revelar toda a indignação de que se sentiu possuído o velho arquiteto cego por ter o rei dado a outro o cargo de mestre-de-obras do mosteiro de Santa Maria. A sobrecarga afetiva decorre em grande parte da ênfase resultante da anteposição dos predicativos “arquiteto” e “sabedor”.

"Arquiteto do mosteiro de Santa Maria, já não o sou; Vossa Mercê me tirou esse encargo; sabedor nunca o fui, pelo menos assim o crêem e alguns o dizem."

Na inversão dos termos, é comum o torneio pleonástico (arquiteto... já não o sou).
***
Frases típicas do estilo jornalístico
- Ênfase no quem referente ao protagonista:
Pedro da Silva, pedreiro, de trinta anos, residente na Rua Xavier, 25, Penha, matou ontem, em Vigário Geral, seu colega Joaquim de Oliveira, com uma facada no coração, porque não lhe quis pagar uma garrafa de cerveja.

- Ênfase no quem referente ao antagonista:
Joaquim de Oliveira foi assassinado ontem, em Vigário Geral, com uma facada no coração, dada por seu colega Pedro da Silva, por ter se negado a pagar-lhe uma garrafa de cerveja.

- Ênfase no como:
Com uma facada no coração, Pedro da Silva matou ontem seu colega... etc.

- Ênfase no quando:
Ontem, em Vigário Geral, Pedro da Silva, matou... etc.

***
Adjetivos ou locuções também podem ser invertidos para dar realce e, em certos casos, exprimem caracterização concreta quando pospostos, e abstratas quando antepostos: homem grande e grande homem, homem pobre e pobre homem, período simples e simples período.
***
Os adjuntos adverbais, em geral, vêm juntos do verbo, pospostos ou antepostos, conforme a seqüência lógica, a clareza, a ênfase e a harmonia da frase. Não há regras para sua colocação mas recomenda-se: 1) iniciar com ele ou eles a oração, se se pretende dar-lhes maior realce; 2) evitar deslocações que possam tornar a frase ambígua ou obscura.

Observe-se a gradação enfática do adjunto “antes do jantar” nas diferentes posições que ocupa nas seguintes versões do mesmo período:
a)    Eu, antes de jantar, costumo ler o jornal.
b)    Antes de jantar,  eu costumo ler o jornal.
c)    Costumo ler o jornal antes de jantar.
d)    Costumo ler, antes de jantar, o jornal.
e)    Costumo antes de jantar, ler o jornal.

Parece que a melhor versão é aquela em que o adjunto ganha maior relevo, colocado no princípio da frase. As intercalações nas versões a), d) e e) aparentemente interrompem a cadência da frase, sobretudo em d), onde os dois grupos de força – costumo ler e antes do jantar – tem uma extensão e uma cadência diversas do terceiro – o jornal. O período se tornaria mais harmonioso se se fizessem similicadentes os três grupos de força, isto é, os três estágios rítmicos da frase, alongando-se o terceiro com um adjunto adequado: Costumo ler, antes do jantar, o jornal da tarde.

A versão b) é mais enfática por ser mais comum na corrente da fala ou é mais comum por ser mais enfática? Antes do jantar deixa em suspenso o sentido do resto da frase, sentido que só vai se completar com o termo jornal.
***
Questões quanto ao realce pela posição no final
- O meu melhor amigo, Joaquim Carapuça, pai da Estela, é um político de grande futuro. 
- É um político de grande futuro, Joaquim Carapuça, pai da Estela e meu grande amigo.

Na segunda frase, o sentido mais importante está completo na oração enunciada logo de saída, os termos secundários (pai da Estela e meu grande amigo), ao invés de se destacarem, tornam-se quase supérfluos, já que o entendimento do essencial da comunicação deixa de depender deles.
***
Matizes semânticos e enfáticos como decorrência da posição da partícula só
a)    ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
b)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
c)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
d)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
e)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
f)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
g)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
h)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.
i)    Ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas .
***
Por vezes, a simples deslocação de uma adjunto adverbial torna as idéias obscuras ou incoerentes:
- O protagonista da história diz que não quer casar no primeiro capítulo, mas já concorda em fazê-lo no quarto.
- Estou pronto a discutir com você, quando quiser, esse assunto.

Casos como esses levam-nos a contrapor a regrinha da ênfase (“coloque em posição de destaque as palavras de maior relevância”) às da clareza e da coerência: aproxime tanto quanto possível termos ou orações que se relacionem pelo sentido. Eis as três qualidades primordiais da frase: clareza, coerência e ênfase.
***
A gradação é um recurso tanto de ênfase quanto de coerência, consiste em colocar em dispor as idéias em ordem crescente ou decrescente de importância: “Anda, corre, voa, se não perdes o trem” (crescente); “Uma palavra, um gesto, um olhar bastava" (decrescente).  
- Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. (Vieira)
- [O regato] corria murmuroso e descuidado; encontrou o obstáculo: cresceu, afrontou-o, envolveu-o, cobriu-o e, afinal, o transpõe...

Se a repetição resultante da pobreza de vocabulário ou de falta de imaginação para variar a estrutura da frase pode ser censurável, a repetição intencional representa um dos recursos mais férteis de que dispõe a linguagem para realçar as idéias.

20 de agosto de 2010

Caminhar, escrever

Toda pessoa deveria falar de suas estradas, de suas encruzilhadas, de seus bancos.
Toda pessoa deveria fazer o cadastro de seus campos perdidos.
Bachelard
Caminhar é desenvolver consciência muscular. Faz bem para a saúde do escritor transportar-se por uma vereda, particular, familiar, incomum ou imaginária. A cadência, a dificuldade de subir ficam marcados nos músculos, um bom armazenador de memórias. Lembrar do caminho é um bom exercício. A saúde vem com o texto, na página preenchida, em que cada esquina é descrita, e mais a sensação de calor, a chegada que não chega, a chegada que pode ser só uma parada para almoçar. Caminhar é pensar, ativar e variar a vida.

Foto: JMGLA
 Manoel de Barros lembra a ação caminhosa que converte treva em sabiá. Caminhar é partir do último domicílio conhecido para estudar formigas, de modo que na língua do caminhante se depositem  sombras, e heras e sarjetas se abram como asas em repouso.

Caminha-se, escreve-se, caminha-se, escreve-se. Pode ser em ruas antigas, pobres e solitárias. Pode ser com o som de sinos, sinal de que sua antiga pessoa está e ao mesmo tempo se desfaz, se faz menos notada. E, ao se fazer menos notada, destacam-se as coisas e os lugares por onde você caminha, coisas e lugares que inspiram climas e modos de dizer. O poeta é fruto do caminho. Disponível a mão para a caneta, para a tecla do computador. Se há disposição, há texto.

19 de agosto de 2010

Salve Jorge

Alex Cerqueira
        Eu andarei vestido e armado
com as roupas e as armas de São Jorge
para que meus inimigos,
tendo pés não me alcancem,
tendo mãos não me peguem,
         tendo olhos não me vejam,
         e nem em pensamentos eles
possam me fazer mal.
Armas de fogo
o meu corpo não alcançarão,
facas e lanças se quebrem
sem o meu corpo tocar,
cordas e correntes se arrebentem
sem o meu corpo amarrar. (...)
(fragmento oração São Jorge - fonte: www.clipinfo.com.br/clubimp/sjorge.htm)        

            Na frente da camiseta vinha São Jorge, muito bem impresso. O cavalo, de uma brancura irretocável e finas rédeas prateadas; a capa esvoaçante; lança dourada, como o elmo do cavaleiro, que se fundia a auréola de santidade; o dragão verde-escuro, com a lança enfiada até a goela, se retorcia, angustiado pelo golpe fatal. Na parte de trás da camiseta, mais que vermelha, nova, de malha boa, em letras brancas e bem legíveis, bastava ser alfabetizado para rezar. Joãozinho Guerreiro não disfarçava a vaidade ao envergar o traje, como um soldado orgulhoso da sua farda.
           João Otávio Rodrigues Guerreiro Estevão levantou-se às quatro da manhã, fiel, como sempre, ao valoroso mártir. Neste dia de adoração, prestação de homenagens, pagamentos de promessas e outros assuntos relacionados à devoção, não parou um minuto sequer: prendeu bandeirinhas vermelhas e brancas em frente à igreja, confessou, assistiu missa, comungou, acendeu vela, auxiliou na cavalgada, soltou foguetes, bebeu cerveja, carregou criança doente no colo, soltou foguetes, bebeu cerveja, ajudou idoso a subir escada, soltou foguetes, bebeu cerveja, comprou medalhinhas e fitinhas do santo, soltou foguetes, bebeu cerveja...
          “Tanta coisa, meu santo, e ainda são nove horas da manhã!”
            Exausto, só conseguiu chegar ao seu bar predileto às dez e meia. Sentou-se, confortado com a possibilidade de, finalmente, descansar um pouco a cabeça e o corpo. Tentava declamar a oração ao santo, estampada no verso da camiseta. Não estava obtendo sucesso, culpa da mistura ingrata de álcool, calor e sono, pois ninguém discutia a camaradagem existente entre o santo e o bebum, já provada num sem número de vezes, em histórias variadas e contadas não só naquele bar, mas em toda a redondeza.
           As repetidas tentativas de relembrança eram interrompidas, frequentemente, por Paulo Estudioso, sempre afirmando que em cinco minutos de acesso ao Google, encontrara quase uma dezena de diferentes versões de orações a São Jorge, mas, esta que Joãozinho propagandeava, era a mais fajuta de todas. Inclusive glorioso mártir e valoroso padroeiro, expressões obrigatórias nas melhores fontes, não apareciam na estampa da camiseta, o que considerava, inclusive, desrespeito à santidade. 
            Joãozinho Guerreiro, que não era lá-nem-cá muito amigo de Paulo Estudioso, que, diga-se de passagem, há três meses não emplacava cinco minutos de conversa sem citar o Google, fato que já incomodava os freqüentadores do boteco, sugeriu que ele procurasse uma esposa nova no Google, já que a sua mulher havia se pirulitado com um vizinho, porque ele não fazia nada mais que viver navegando na internet.
            Paulo Estudioso tentou agredir Joãozinho, mas foi contido por Zé Maria e Mineiro Coruja, que se adiantaram energicamente, pondo-se entre os dois e evitando a pancadaria. Joãozinho bradou:
           – Tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamento possam me fazer o mal!
          Surtiu efeito. A audiência achou porreta a intimidade de Joãozinho com o santo. Quase aplaudiram. Paulo entendeu o vento contra e arranjou desculpa pra se retirar, alguma coisa como pesquisar desde que época jogavam lixo no morro que desabou em Niterói.
          Zé Maria, outro que não era fã de carteirinha de Paulinho Estudioso, desde que o internauta descobriu no Orkut que a filha de Zé Maria pertencia a umas comunidades pouco recomendáveis para moças de família, segundo palavras do próprio descobridor, propôs uma disputa:
          – Vamos ver quem é que consegue decorar primeiro a oração, completinha, de São Jorge? Mas é a oração que está aí na camiseta de Joãozinho, sem essas internetices de computador que o fofoqueiro do Paulo vive dizendo. Cada um lê um pouco a camiseta, depois vira de costas e recita a oração. Fica valendo, pra quem acertar tudo, duas cervejas de cada perdedor. Topam?
          – Mas, e eu? Como eu vou ler a oração, se ela está na minha camiseta? Ainda por cima atrás? Nessa eu fico no prejuízo. Só se eu ficar de juiz, em pé, com a camiseta esticada e conferindo os erros... Mas, como? Tirar a camiseta, eu não tiro, nem amarrado, que é promessa pra meu São Jorge, que no dia dele eu não tiro esse manto sagrado de jeito nenhum! Sendo assim, não vou conseguir ler! 
          Mineiro Coruja, que ficava geralmente caladinho, mas muito atento – inclusive não se sabia mais se o rapaz era chamado de mineiro pelo seu estado natal ou pelo seu jeito – trouxe a solução:
          – Vou tomar emprestado um espelho na barbearia de Seu Zé Tesourinha. A gente põe o espelho de jeito que Joãozinho confira o escrito na própria camiseta, sendo ele amigo do santo, proprietário da camiseta, modelo e juiz de uma só vez.
         – E, se eu for o juiz, tenho direito a uma parte do prêmio? Claro, com parte no prêmio!  Joãozinho mesmo perguntou e respondeu.
         Enquanto Mineiro foi buscar o espelho, chegaram à conclusão que ninguém é de ferro para esperar de bico seco e desceram mais oito cervejas. Não que o Coruja fosse vagaroso, mas o calor insistia em permanecer na cidade, mesmo já caminhando para o final de abril.
         Chegado o espelho, posto em local apropriado, organizadas as apostas e apostadores, Joãozinho encontrou dificuldades de capacitar-se para a arbitragem: somaram-se ao seu estado etílico, o cansaço da manhã de tarefas hercúleas, a emoção pelo dia de seu santo protetor e, principalmente, a falta de costume de ler as letrinhas espelhadamente. Além disso, havia o desconforto de precisar torcer o pescoço, revezadamente, para a esquerda e para a direita, em inúmeras tentativas de razoável leitura.
        O calor aumentara, o corpo não ajudava, a cabeça pesava, o pescoço doía, pensava em desistir. Desistir não poderia, não só porque o juiz teria direito a parte do prêmio, mas, principalmente, não podia fazer uma falseta dessas com o seu santo protetor e atirar fora a sua fama de apadrinhado por São Jorge, expondo-se à vergonha, desonra e, quem sabe, até algum castigo do além..
        Neste momento veio a prova: quem tem padrinho não morre pagão. O santo, num rápido galope, de jeito que mal dava pra ver a capa esvoaçante, partiu da estampa frontal, fincou a parte de trás da camisa com a ponta da lança dourada, içando-a e exibindo-a, tal e qual a um outdoor frente os olhos de Joãozinho, que não precisou mais virar-se ou olhar para o espelho, sem a necessidade de qualquer artifício. Lendo clara e confortavelmente a oração, apenas corrigia os erros dos apostadores e sorvia seus copos de cervejas, merecidos pela arbitragem, com tamanha segurança que parecia que ele, Joãozinho Guerreiro, devoto de São Jorge, havia sido o autor da oração estampada na camiseta vermelha.

15 de agosto de 2010

A casa, as casas

          I.
          A casa lutava bravamente. A princípio ela se queixava; as piores rajadas a atacaram de todos dos lados ao mesmo tempo, com um ódio nítido e tais urros de raiva que, durante alguns momentos, eu tremi de medo. Mas ela resistiu. Quando começou a tempestade, ventos mal-humorados decidiram-se a atacar o telhado. Tentaram arrancá-lo, partir-lhe os rins, fazê-los em pedaços, aspirá-lo. Mas ele curvou o dorso e agarrou-se ao velho vigamento. Então outros ventos vieram e, arremessando-se rente ao solo, arremeteram contra as muralhas. Tudo se vergou sob o choque impetuoso; mas a casa, flexível, tendo-se curvado, resistiu à fera. Sem dúvida ela se prendia ao solo da ilha por raízes inquebrantáveis, e por isso suas finas paredes de pau-a-pique e madeira tinham uma força sobrenatural. Por mais que atacassem as janelas e as portas, pronunciassem ameaças colossais ou trombeteassem na chaminé, o ser agora humano em que eu abrigava meu corpo nada cedeu à tempestade. Senti seu cheiro descer maternalmente até o meu coração. Naquela noite ela foi realmente minha mãe.
Henri Bosco, Malicroix (In: "A poética do espaço", trad. de Antonio de Pádua Donesi)

          II.
          Minha casa é diáfana, mas não é de vidro. Teria antes a constituição do vapor. Suas paredes condensam-se e se expandem segundo o meu desejo. Por vezes, aperto-as em torno de mim, como uma armadura de isolamento... Mas, às vezes, deixo as paredes de minha casa se expandirem no espaço que lhes é próprio, que é a extensibilidade infinita.
Georges Spyridaki, Mort lucide (In: "A poética do espaço", trad. de Antonio de Pádua Donesi)
           III.
          Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão.
          Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado em que eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer.
           A mocidade pode viver nessas alegres barracas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada: Joana, JOANA! – certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e alma, e sítio para falar sozinho.
           ... Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo.
Rubem Braga, Ai de ti, Copacabana

          IV.
          A casa estava perto; à medida que ia vendo as outras casas e chácaras próximas, Mariana sentia-se restituída de si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquele o seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocara de lugar.
           -    João, bota esse vaso onde estava antes, disse ela.
           Tudo estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de jantar, os seus quartos, tudo. Mariana sentou-se primeiro, em diferentes lugares, olhando bem para todas as coisas, tão quietas e ordenadas. Depois de de uma manhã inteira de perturbação e variedade, a monotonia trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu tão deliciosa.
Machado de Assis, Capítulo dos chapéus

            V.
            Ia-me sentando eu na cadeira-de-balanço, escura – já se sabe, mas insista-se nisto, todos os móveis ali sendo confortavelmente escuros – de palhinha no assento e no encosto, era talvez de madeira avermelhada; e não me sentei. Súbito lembrara-me o que mais de uma vez ouvido, de que, lá, no mesmo lugar, quase num extremo da sala, outrora tinham sido duas, iguais, dialogavelmente emparelhadas, as cadeiras-de-balanço: a do Vovô Barão e a de Vovó Olegária, nhor e nhora. Desde tantos anos, porém, depois de que houve o que houve, uma delas desaparecera. Estaria na outra metade da casa?
           Aqui, esta sala-de-fora, mesma, por longa que se fingisse ainda de ser – e guardava, de modo estranho, uma sugestão do tamanho primitivo, de seus quinze ou dezesseis metros – fora um dia cortada ao meio. A gente corria com os olhos a parede, forrada de papel com riscas verticais alternadas, em grade sutil, estriaturas de azul e branco, vez em vez um dourado friso mais fino: mas, no lado oposto ao da cadeira-de-balanço, fechava-se, em pé, só a superfície crua, de cal, irremediável. Ali, era uma separação imposta, adventícia, o vedamento ininterrupto, a todo longo, e que partia em duas a habitação – desde o jardim fronteiro e até ao remoto fundo dos quintais.
Guimarães Rosa, Os chapéus transeuntes

14 de agosto de 2010

A casa inacabada

a partir de notas sobre "A poética do espaço" de Bachelard
          O olhar fala e escuta. E passa a ser a casa onde se habita. E para onde a gente for, leva junto a casa. Linguagem: casa em que habita o homem, que faz homem lugar de homem. Assim, o homem se integra e se entrega ao chamado que ecoa pela casa, mesmo sem compreendê-lo totalmente. Assim, a casa-cidadela, refúgio e construção do eu, abre-se para a cidade e seu povo, e aceita seus despojos.
          Bachelard destaca a “casa que a imaginação converteu no próprio centro de um ciclone”, e alerta para a necessidade de superar as meras impressões de conforto que sentimos em qualquer abrigo. “É preciso participar do drama cósmico enfrentado pela casa que luta”, diz ele. Nenhuma casa está acabada, nenhuma casa é segura, nenhuma casa termina em seus muros. A casa é mais que “um canto pra morar”. Quando em repouso, a casa é um ângulo, que necessita ser quebrado logo em seguida para se fazer ver como figura.
          Encontrar a concha inicial em toda moradia: essa a tarefa básica de quem escreve. 
A Casa da Flor é obra de arquitetura e escultura de seu Gabriel dos Santos, nascido em 1893, filho de ex-escravo e trabalhador nas salinas de São Pedro d’Aldeia. Montada durante décadas, pelo acúmulo de restos, no dizer do autor “coisinhas de nada” – búzios, conchas e outros depósitos da lagoa, detritos industriais, pedaços de azulejos e faróis de automóveis – a construção, ainda nas palavras de Gabriel, é uma “casa feita de caco transformado em flor”. (www.inepac.rj.gov.br)

A Casa

MLuiza Martins
          Estou me encantando pelo apartamento novo, devagar... Ontem à noite, deitada olhando pro teto feio que vou deixar, de pintura grosseira e velha, pregos nas paredes, dois pontos de luz sem luminárias, a zoeira lá fora da Rua Taylor, pessoas mal educadas falando alto, gritando inculturalmente, cachorros mal tratados ladrando realmente, mal tratados, ladrando sem parar, senti um fundo indefinido perturbador. Pensei no apartamento novo recém pintado e... Não sei...
         Agora em que escrevo, e que meu filho resolveu tudo na Penha com a imobiliária, cheio de cláusulas, negócio fechado, a mudança vai ser feita no sábado, e hoje é quarta, sinto maior perturbação. Começo a me indagar... O quê? Como definir o que estou sentindo?
         Quê?
         Uma cortina de meio que dor começa a baixar, devagar, quase não percebido. Difícil detectar o sentimento, mas é perturbador. Vou mais fundo... Quero entender.
         O proprietário hostil, babaca, nunca me pesou. Ele é um idiota, mas não me atinge nem atingiu, não passa de uma mosca inútil. Ele não pesa nada, porque eu tenho um olhar subjetivo e vi as coisas belas e boas deste lugar.
         A feira...
         As roupas lavadas penduradas na janela, expondo o capricho das donas de casa, gente pobre, morando em conjugados micros. Plantas nas janelas, um anseio de vida boa em cada alma.
         O céu daqui é bonito. Um soluço... É dor o que estou sentindo. Foram dois anos felizes aqui neste apartamento conjugado só com o essencial. Cada dia muito bom. Privacidade. Segurança. Amigos. Alegria na rua. Bom atendimento.
        Sim, reconheço, estou triste sim, é saudade daqui. Foram dois anos de felicidade no meu Rio amigo. Neste cantinho do Rio. Conheço cada canto das casas da rua, os sons não me incomodam.
        Estou ficando apurada na sensibilidade. A sabedoria adquirida e cultivada transforma tudo. Quase nada mais é feio.
       A pobreza tem sua beleza, porque ela é simples. E simples é o mais alto grau de sabedoria. É bonito.
        É gente... Estou sentindo dor no fundo do peito. É saudade que vou sentir, é dor antecipada.
       Mesmo com o horror do ruído da prostituta, no prédio do outro lado, fingindo prazer a cada estocada do membro dos homens, mesmo com a “notificação” do bobo proprietário descortês me pegando de surpresa, tais desconfortos foram irrisórios.
       Eu é que aqui vali. Aqui eu fui feliz todos os dias. Um lugar abençoado. Foi uma solidão boa. Sairei com saudades.
       Como já sou muita desprendida dos bens materiais não me incomodou o lixo da rua, os ruídos incultos, a pobreza do lugar.
       Porque meus olhos vêem o bonito em cada um, ou olhar, ou o andar, em cada fala. Eu vejo o humano e a história de cada coisa. Não só vi, convivi com tudo isso. O sentimento tem cor. As sombras têm a sua beleza. A miséria do meu povo tem a sua beleza. A bondade das pessoas simples é de muita beleza e delicadeza. Eu me irmanei com tudo isso.
       O lado humano brasileiro me tocou mais do que a sujeira e desconforto do pobre, do modesto.
Estou sentindo saudade, parece que deixo amigos para trás.
       Mesmo sendo solitária com meus escritos e meu computador, e meus bordados.
       Eu vi a beleza deles e a sua feiúra.

12 de agosto de 2010

Escrever, Humildade, Técnica

Em Para não esquecer, de Clarice Lispector
Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Lançamentos (convite Ladrões do Fogo)

Recebi agora o email da Mluiza comentando a chegada do lançamento do livro dela e fiquei pensando no que é isto de lançar um livro. Tem algo de festa, algo de tanto trabalho que parece que já não é o de escrever, de medo do que vão achar, do livro, da livraria, do meu aspecto, e as pessoas que vão estar e esta que há tanto tempo não vejo, será que fica chato chamar? E servimos o quê? E quanto vai ser e e e... Por isso quando MLuiza fala do livro que se transforma em uma boneca sei que esta surpresa tem algo do choque de viver este estágio pinoquesco do livro quando ele ainda não se transformou em outra gente, com a vida que será dele, em lugares que não podemos mais controlar. E ainda tem as dedicatórias, escrever pra cada um e algo que seja só um alô, muito obrigada por estar aqui, carinho que tenho por você. Tudo ganha uma proporção diferente quando se torna palavra escrita, impressa, dedicada.
Aproveito para deixar aqui o convite do lançamento do meu livro "Vida vegetativa e outros cadernos" na Coleção Ladrões do Fogo. Procurem a "Carta do vidente", de Rimbaud.
Bia Albernaz

9 de agosto de 2010

A escrita da coisa e do lugar

Bia Albernaz
Bachelard oferece uma oportunidade a quem procura o quê e por onde escrever. A leitura dos textos citados em A poética do espaço indicam um caminho, onde se pode construir pequenas estações como aparições generosas. A escrita começa em qualquer caminho onde se pisa, e de passagem se encontra quando se passa a mão sobre os móveis, em lugares pequenos e grandes, em casas diversas, em ângulos, cantos e curvas em movimento, pela descoberta do que tem de sagrado nos lugares. Bachelard chama atenção ainda para os lugares-guia, as palavras-casa, os objetos amados, os ninhos, os esconderijos, as relações simbióticas com os lugares.
Foto: JMGLA

7 de agosto de 2010

Construção da história, construção da linguagem

Aquilo na noite do nosso teatrinho foi de Oh. O estilo espavorido. Ao que sei, que se saiba, ninguém soube sozinho direito o que houve. Ainda, hoje adiante, anos, a gente se lembra: [...].
Guimarães Rosa, em "Pirlimpsiquice"
   
***

    A construção de uma história é uma construção de linguagem. Não basta ter uma boa história para contar. O xis da questão é como ela era será contada. É o como que convence. [...] Uma boa história escrita promove o encontro entre a visão íntima elaborada no texto e a visão íntima do leitor, que imagina, vê e sente à medida que lê.
Ítalo Morriconi, no posfácio de "Ler como escritor" de Francine Prose

Escrita: duas estradas divergentes, dois tipos de conhecimento

          Na verdade, minha escrita sempre se defrontou com duas estradas divergentes que correspondem a dois tipos diversos de conhecimento:
          uma que se move no espaço mental de uma racionalidade desincorporada, em que se podem traçar linhas que conjugam pontos, projeções, formas abstratas, vetores de forças;
          outra que se move num espaço repleto de objetos e busca criar um equivalente verbal daquele espaço enchendo a página com palavras, num esforço de adequação minuciosa do escrito com o não-escrito, da totalidade do dizível com o não-dizível.
Ítalo Calvino, em "Seis propostas para o próximo milênio"

Meninos narradores, narração de meninos4

"Campo geral" de Guimarães Rosa
Miguilim
 Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim.

E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia.
 


“Mutum”, de Sandra Kogut, é uma adaptação da novela “Campo Geral”, primeira história que compõe o livro Manuelzão e Miguilim de Guimarães Rosa.

Veja também Meninos narradores 1 e 2; e Meninas narradoras 3.

Quarto 224

Ruth Lifschits
          Entramos. Minha mãe numa cadeira de rodas empurrada por mim. Uma primeira vez para nós duas.
          O hospital é nosso conhecido de internações anteriores.  
          Quarto amplo e claro com varanda, duas camas e uma poltrona reclinável entre as mesmas. Na parede oposta e de frente para a poltrona uma pequena TV pendurada do teto alardeia inutilidades. Uma senhora alourada mantém junto a si os controles da TV e do ar-condicionado, dois celulares e o telefone do quarto – todos alinhados sobre a cama mais próxima da entrada. Muito à vontade na poltrona, os pés disformes apoiados sobre uma banqueta baixa, nos recebe com uma saraivada de orientações: tem um armário ali para as roupas, eu usei a porta da esquerda, a outra está livre, tem geladeira com água e sempre trazem mais, o pessoal é ótimo e o posto de enfermeiras fica bem aqui ao lado. E segue disparando informações sobre o hospital, médicos, procedimentos, atendentes.
          A porta se abre e entra a médica de plantão. Ao vê-la, a senhora se torna sorrisos e cumprimentos. A doutora se detém, a senhora ainda por aqui?! Não fiz meu cat, estou com pneumonia, a cirurgia foi desmarcada. Há quantos dias está internada? Um mês, estou recebendo minha vigésima companheira de quarto. A alegria daquela senhora destoa de tudo.   
          A médica volta-lhe as costas e se ocupa de minha mãe colocando-a na cama para ser examinada.   Posso ouvir os pensamentos de mamãe: sou viúva de Brigadeiro, tenho direito a quarto só para mim, com essa desconhecida aqui não vai ter lugar para minha filha. Hospital cheio, ala em reformas, situação de exceção. Explicação dada, a médica sai.
          A companheira de quarto volta à carga: se não gostarem da comida é só falar que o pessoal troca. Fazem tudo que eu peço. O enfermeiro da noite é maravilhoso, um craque para pegar veia.  A impaciência fala alto e minha mãe esbraveja de sua cama: essa TV altíssima, estou me sentindo mal, quero silêncio e ponha o telefone de volta na mesa, também quero usar.  
         TV desligada, telefone na mesa entre as camas e os controles remotos também. O constrangimento toma conta de tudo. Minha mãe ameaça lançar mais queixumes. Entre dentes digo que está sendo grosseira, que se controle. 
          E vem a nutricionista, a encarregada dos lençóis e toalhas, a enfermeira de dia, as auxiliares de enfermagem com os primeiros cuidados e coletas de material para exames laboratoriais.
          A senhora permanece enfiada na poltrona, muda. Puxo conversa, generalidades.  A deixa é logo aproveitada. Ela já havia passado três meses no outro hospital militar, mas esse é muito melhor. Diabética, hipertensa, com problemas respiratórios por ter fumado muito na juventude, precisa melhorar para ser operada. Só terá alta quando estiver estável. Mas não tem medo de infecção hospitalar, não é melhor ir para casa e voltar no dia do cateterismo?, minha mãe pergunta. Ela ri, isso é bobagem. Mas a senhora não sente falta de sua casa, tanto tempo longe da família?, arrisco. Ela me encara: sou viúva de sargento, duas filhas e seis netos moram comigo numa casa de quarto e sala. Pago duzentos e cinqüenta reais de aluguel, a luz é  gato, a água de poço. É na comunidade. Sem tirar os olhos de mim, faz uma pausa e repete: comunidade - entende? Favela.  Minha mãe tosse e se mexe na cama. Penso em me virar e lhe dar atenção  mas a senhora continua:  na favela de Manguinhos aqui perto. E fica me olhando, saboreando a sensação de causar choque e espanto. Seus olhos azuis se apertam e descontraem no mesmo ritmo da pulsação de suas narinas sugando ar. Aqui tenho comida boa o dia inteiro, quarto com TV a cabo e ar-condicionado, telefone e geladeira só para mim. Lá em casa só problemas, barulho, uma TV pra todo mundo e um calorão o tempo todo.
          Bandejas com almoço entram quarto adentro. Deixo as duas se alimentando e vou almoçar na Cantina dos Oficiais. A  alta patente de meu pai me reserva esse direito.
          Sem a menor vontade de enfrentar o quarto 224, volto umas duas horas depois.
          Minha mãe, sentada na cama, conversa com a senhora da comunidade ainda na poltrona. Conta fatos e feitos de sua vida, enchendo a boca com os dezesseis netos - nove de um dos seus quatro filhos - cinco bisnetos,  as aulas de canto e seu repertório em inglês, francês, espanhol e italiano, e louva  o fato de morar sozinha aos 87 anos e de não ter filho nenhum governando sua vida.
          O duelo verbal evolui rapidamente, notas de vida se espalhando pelo quarto, até minha mãe sugerir que se ligue a TV para o bom programa que começará em minutos.
          Aproveito para me despedir prometendo voltar no dia seguinte.
          Ao fechar a porta, a voz de mamãe me chega bem firme: nada de senhora, me chame de Lúcia.
          Ah, eu sou Luísa.